segunda-feira, 25 de fevereiro de 2019

Portugal | Demagogia, de Creonte a Cristas


O demagogo afaga e bajula o “cérebro reptilário”, ou seja, a parte do cérebro humano que partilhamos com os répteis, os peixes e os vertebrados inferiores, e é o nicho dos nossos instintos

Alfredo Barroso* | jornal i | opinião

O termo demagogia dá pano para mangas porque a sua prática remonta à antiguidade clássica. Mas como não quero maçar quem me lê, terei de recorrer a um modo sintético. Na democracia ateniense, o termo demagogo queria dizer, literalmente, chefe do povo - era a junção de “demos”, o povo, com “agogos”, o que conduz - e demagogos eram os líderes dos partidos populares que se opunham aos partidos das “gentes belas e boas”, como os aristocratas se designavam - modestamente - a si próprios. 

Nesse tempo, porém, o demagogo começou por ser, no contexto da democracia praticada na cidade-Estado de Atenas, o chefe político que usava a sua inteligência e saber com o propósito de defender lealmente a multidão dos mais desfavorecidos, contra o pequeno número de privilegiados. Péricles (494- 429 a. C.) por exemplo, a quem se deve esse milagre grego que foi a invenção da democracia, era um extraordinário chefe político que poderíamos designar por “demagogo bom” e, claro, “bom demagogo”. 


Mas foi dois anos depois da morte de Péricles, com o aparecimento na praça pública do demagogo e implacável Creonte, com os seus excessos brutais e a sua arrogância vulgar, que o termo demagogo passou ser claramente desfavorável e politicamente depreciativo. E foi o grande historiador Tucídides (460- 400 a.C.) - na sua admirável “História da Guerra do Peloponeso” (entre Esparta e Atenas, ocorrida no século V a. C., entre os anos 431 e 404 a. C.) - que registou para sempre esse arquétipo do demagogo incendiário, indecente e brutal. Creonte, rico curtidor de peles, era partidário da guerra à “outrance” contra Esparta. Tucídides detestava-o, tendo escrito que “não havia Ateniense mais brutal do que ele”. Era impiedoso e achava que era preciso “governar pelo medo” não hesitando, perante uma multidão de seis mil atenienses em delírio, em incitá-los a punirem com um massacre os Mitilenos já derrotados, que eram uma parte - parafraseando a tão facciosa e sempre hostil Assunção Cristas - dos “inimigos encostados” de Atenas.

E vem muito a propósito falar de Assunção Cristas, porque ela é, sem qualquer dúvida, no contexto da democracia portuguesa actual, um exemplo flagrante da “demagoga má” - e “má demagoga” - no que só é superada pelo seu número dois, Nuno Melo, o bracarense que é “testa-de-ponte” da lista do CDS-PP ao Parlamento Europeu - “recandidato” que, a crer nas faltas que já deu, tanto vê Braga como o PE por um canudo. Mas ambos têm, à direita, outro “demagogo mau” - e “mau demagogo” - perfeitamente à altura: o inefável Paulo Rangel, um agitado refilão, “cabeça-de-atum” da lista do PPD-PSD ao Parlamento Europeu. Infelizmente, a demagogia política que os três praticam tem a espessura duma lâmina de barbear, a consistência do puré de batata e a subtileza dum tijolo.

Assim como Eusébio Macário não tinha, segundo Camilo, “tineta para boticário”, também eu acho que Assunção Cristas não tem tineta para a “política a sério”. A sua agressividade em relação a Rui Rio e a sua hostilidade brutal para com António Costa tocam as raias da indigência e da indecência. Cristas consegue ser infantil, malcriada e grotesca. Puxa-lhe o pé para a chinela. Usa permanentemente os mesmos argumentos, óbvios e mal aviados. É chocarreira, falta-lhe sainete. Faz o estilo da menina esperta e “marrona”, que se porta com ar de quem sabe tudo quando vai à prova oral. E falta-lhe, sobretudo, o incontestável talento que tinha Paulo Portas para o anexim, a frase curta e incisiva, o manto diáfano da fantasia a esconder a nudez forte da verdade. Cristas nem aos calcanhares lhe chegará. E crê que nós, lisboetas, não percebemos que a sua proeza eleitoral na autarquia de Lisboa se deveu, sobretudo, à ruína do “passismo”. Foi mesmo “bater em mortos”!

Primo Levi avisou: “Uma grande lição da vida é que os imbecis têm por vezes razão. Mas é preciso que não abusem. Chama-se demagogia à arte de abusar”. Todos nós teremos, se calhar, recorrido alguma vez à demagogia. Mas o que constitui a essência do demagogo é, precisamente, o abuso da própria demagogia. E das palavras. O demagogo crê que só ele é que diz e detém a verdade. E vai incutindo essa falsa ideia na multidão que o ouve e que ele não se cansa de lisonjear, para a conquistar e explorar a favor dos seus intentos. O demagogo simplifica tudo, recorre a um número limitado de regras, de figuras de estilo, de receitas, que têm atravessado todas as épocas com mais ou menos eficácia, segundo as circunstâncias históricas e políticas. Para o demagogo, regra geral de direita, que está na oposição e não se cansa de insultar e tentar rebaixar o Governo democrático que está no poder, são sempre os mesmos os argumentos a que recorre, não só contra o Executivo mas também contra o Parlamento, a saber: incompetência, inércia, palração, trapalhada, fuga às responsabilidades, favoritismo, volubilidade, corrupção. Nada há de positivo: nem um louvor, nem uma crítica construtiva, nem uma oposição séria e sem impropérios. Todo o demagogo é do contra, envenena o ambiente, quer provocar a crise e o caos. 

E vou terminar, que eu não quero inquietá-los ainda mais. O demagogo afaga e bajula o “cérebro reptilário”, que é a parte do cérebro humano que partilhamos com os répteis, os peixes e os vertebrados inferiores, e é o nicho dos nossos instintos, como a agressividade, a sensualidade, o instinto de sobrevivência ou a fome. Ora, o “cérebro reptilário”, a par do “cérebro límbico” - sede do gosto, do olfacto, do instinto lúdico e toda uma outra série de emoções, como a cólera, o entusiasmo, o ódio e por aí fora - constituem, por assim dizer, o “cérebro antigo”, que envolve a esmagadora quantidade de massa cinzenta com os dez mil milhões de neurónios do neocórtex, que nos proporcionam, por seu turno, tudo aquilo nos distingue dos animais: linguagem, lógica, razão. Encurtando caminhos: é o “cérebro antigo”, designadamente o “cérebro reptilário”, que o demagogo quer atingir quando se dirige às multidões, ao povo ignaro, à populaça, que delira com os insultos e baixezas de todo o tipo a que um demagogo recorre na sua lamentável “argumentação” política. Daí que, à pergunta: “Mas porque é que as multidões podem descer tão baixo?”, seja costume responder: “Por causa do crocodilo”… Lembram-se do fascismo e do nazismo?

*Escreve sem adopção das regras do acordo ortográfico de 1990

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