sexta-feira, 16 de agosto de 2019

Portugal | Os dias do fim da greve


Vítor Santos | Jornal de Notícias | opinião

A greve dos motoristas de matérias perigosas transformou-se numa espécie de jogo de xadrez, mas com regras novas. São vários contra um e o tabuleiro tem fundo totalmente corado a negro, a cor da vergonha, neste caso. Se calhar porque estamos em pré-campanha eleitoral, a paralisação acabou transformada em bandeira política, erguida por um Estado musculado como há muito não assistíamos.

Depois de ter sido acusado de andar a dormir na primeira investida, António Costa acordou desta vez a tempo e, provavelmente, fez aquilo que se impunha, criando condições para um país tantas vezes movido a carvão não ficar parado por causa da falta de combustíveis.

A crise energética quase não o foi, pelo menos até agora, e isso acontece, sobretudo, porque as medidas para contrariar a paralisação resultaram. É fácil perceber porquê, sobretudo se pensarmos num contra-ataque gizado em três momentos: serviços mínimos de entrada, requisição civil como prato principal e ameaça de detenção. Este menu, cuja sobremesa nenhum motorista no seu perfeito juízo vai querer engolir, deixa escassa margem de manobra à luta deste sindicato bebé, que, note-se, é tudo menos criança ingénua, até no tipo de pressão pouco saudável que utiliza como arma. Certo é que o Governo resolveu o problema, mais ou menos como lhe competia, não cedendo à chantagem. Esperemos que António Costa requisite também os patrões, obrigando-os a dialogar com os grevistas, que agora se resumem aos afetos ao Sindicato Nacional dos Motoristas de Matérias Perigosas. Isto porque a Antram - entretanto em modo perrice -, recusa voltar à mesa das negociações se a greve continuar. Se António Costa não conseguir dobrar os donos dos camiões, ficaremos sempre a pensar que este é um Governo forte com os mais fracos e fraco com os mais fortes.

*Editor-executivo

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