terça-feira, 19 de novembro de 2019

Seis projectos contraditórios de ordem mundial


Thierry Meyssan*

As seis principais potências mundiais abordam a reorganização das relações internacionais em função das suas experiências e dos seus sonhos. Prudentemente, pensam primeiro defender os seus interesses antes de promover a sua visão do mundo. Thierry Meyssan descreve as respectivas posições antes que a luta comece.

A retirada dos EUA da Síria, mesmo que tenha sido imediatamente corrigida, indica, com certeza, que Washington não pretende ser mais o gendarme do mundo, o «Império necessário». Sem esperar, desestabilizou todas as regras das relações internacionais. Entramos, assim, num período de transição no decurso do qual cada grande potência persegue uma nova agenda. Eis aqui as principais.

Os três «grandes»

Os Estados Unidos da América

O colapso da União Soviética poderia ter provocado o colapso dos EUA na medida em que os dois Impérios estavam encostados um ao outro. Nada disso se passou. O Presidente George Bush Sr. garantiu com a Operação «Tempestade no Deserto» que Washington se tornasse o líder incontestado de todas as nações, depois desmobilizou 1 milhão de soldados e anunciou a busca da prosperidade.

As empresas transnacionais selaram então um pacto com Deng Xiaoping para que os seus produtos fossem fabricados por trabalhadores chineses, vinte vezes mais mal pagos do que os seus homólogos norte-americanos. Seguiu-se, por isso, um desenvolvimento considerável dos transportes internacionais de mercadorias, depois o desaparecimento progressivo de empregos e das classes médias nos EUA. O capitalismo industrial foi suplantado por um capitalismo financeiro.

No final dos anos 90, Igor Panarine, professor da Academia Diplomática Russa, analisa o colapso económico e psicológico da sociedade norte-americana. Ele emite a hipótese de desagregação desse país, baseado no modelo do que acontecera com a União Soviética, com o aparecimento de novos Estados. Para repelir o colapso, Bill Clinton saca o seu país do Direito Internacional com a agressão à Jugoslávia pela OTAN. Mostrando-se este esforço insuficiente, personalidades dos EUA imaginam adaptar o seu país ao capitalismo financeiro e organizar, pela força, o comércio internacional, a fim de que o período a seguir seja um «novo século americano». Com George Bush Jr., os Estados Unidos abandonaram a sua posição de nação líder e tentaram transformar-se num Poder unipolar absoluto. Assim, lançaram a «guerra sem fim» ou «guerra ao terrorismo» para destruir, uma a uma, todas as estruturas estatais do «Médio-Oriente Alargado». Barack Obama prosseguiu esta meta para isso associando uma infinidade de aliados.

Esta política trouxe os seus frutos, mas apenas um pequeníssimo número beneficiou dela, os «super-ricos». Os Norte-Americanos reagiram elegendo Donald Trump para a presidência do Estado Federal. Este rompe com a herança dos seus predecessores e, tal como Mikhaïl Gorbatchev na URSS, tenta salvar os EUA afastando-o dos seus compromissos mais onerosos. Ele relançou a sua economia encorajando as indústrias nacionais contra as que haviam deslocalizado os seus postos de trabalho. Subvencionou a extracção de petróleo de xisto e conseguiu tomar o controle do mercado mundial de hidrocarbonetos apesar do cartel formado pela OPEP e pela Rússia. Consciente de que o seu exército é, antes de mais, uma enorme burocracia, esbanjando um orçamento colossal para resultados insignificantes, cessou o apoio ao Daesh (E.I.) e ao PKK, negociando com a Rússia uma via para terminar com a «guerra sem fim» perdendo no processo o mínimo possível.

No período que se segue, os Estados Unidos serão prioritariamente guiados pela necessidade de economizar em todas as suas acções no exterior, indo até ao seu abandono, se necessário. O fim do imperialismo não é uma escolha, mas uma questão existencial, um reflexo de sobrevivência.


A República popular da China

Após a tentativa de golpe de Estado de Zhao Ziyang e o levantamento de Tienanmen, Deng Xioping empreendeu a sua «viagem para o Sul». Ele anunciou que a China continuaria a sua liberalização económica estabelecendo contratos com as multinacionais dos EUA.

Jiang Zemin prosseguiu nesta via. A costa transformou-se na «fábrica do mundo», provocando um gigantesco desenvolvimento económico. Progressivamente, limpou o Partido Comunista dos seus caciques e velou para que empregos bem remunerados se estendessem para o interior do país. Hu Jintao, preocupado com uma «sociedade harmoniosa», revogou os impostos que os camponeses pagavam nas regiões do interior ainda não abrangidas pelo desenvolvimento económico. Mas não conseguiu dominar os poderes regionais e afundou-se num caso de corrupção.

Xi Jinping propôs-se abrir novos mercados montando, para tal, um projecto titânico de rotas comerciais internacionais, as «Rota da Seda». No entanto, este projecto chegou demasiado tarde porque, ao contrário da antiguidade, a China já não propõe produtos originais, mas, antes o que as empresas transnacionais vendem mais barato. Este projecto foi acolhido como uma bênção pelos países pobres, mas temido pelos ricos que se preparam para o sabotar. Xi Jinping retoma posições em todas as ilhotas que o seu país havia abandonado no mar da China, aquando do colapso do Império Qing e da ocupação pelos oito Exércitos estrangeiros. Consciente do poder de destruição dos Ocidentais, ele fez uma aliança com a Rússia e absteve-se de qualquer iniciativa política internacional.

No período que se segue, a China deverá afirmar as suas posições nas instâncias internacionais conservando em mente aquilo que os Impérios coloniais lhe infligiram no século XIX. Mas ela deverá abster-se de intervir militarmente e permanecerá uma potência estritamente económica.

A Federação da Rússia

Aquando de colapso da URSS, os Russos acreditaram que se iam salvar aderindo ao modelo ocidental. Com efeito, a equipa de Boris Ieltsine, formada pela CIA, organizou a pilhagem dos bens colectivos por alguns indivíduos. Em dois anos, uma centena de entre eles, 97 % originários da minoria judaica, apoderaram-se de tudo aquilo que estava disponível e tornaram-se bilionários. Estes novos oligarcas dedicaram-se a uma batalha sem tréguas a rajadas de metralhadora e atentados em plena Moscovo, enquanto o Presidente Ieltsine fazia bombardear o Parlamento. Sem verdadeiro governo, a Rússia não passava de um destroço. Senhores da guerra e jiadistas armados pela CIA montaram a secessão da Tchechénia. O nível e a esperança de vida afundaram-se.

Em 1999, o director du FSB, Vladimir Putin salvou o Presidente Ieltsine de uma investigação por corrupção. Em troca, foi nomeado presidente do Conselho de Ministros; posto que ele utilizou para forçar o Presidente à demissão e se fazer eleger para o seu lugar. Colocou em prática uma vasta política de restauro do Estado : pôs fim à guerra civil na Tchechénia e destruiu metodicamente todos os oligarcas que recusaram vergar-se perante o Estado. O retorno da ordem foi também o fim da fantasia ocidental dos Russos. O nível e a esperança de vida melhoraram.

Tendo restabelecido o Estado de Direito, Vladimir Putin não se apresentou para os dois mandatos seguintes. Ele apoiou um pálido professor de direito, adulado pelos Estados Unidos, Dmitry Medvedev, para lhe suceder. Mas não tendo a intenção de deixar o Poder em mãos fracas, fez-se nomear Primeiro-ministro até à sua reeleição como Presidente em 2012. Crendo erradamente que a Rússia se iria afundar de novo, a Geórgia atacou a Ossétia do Sul, mas encontrou, instantaneamente, o Primeiro-Ministro Putin no seu caminho. Este verificou, então, o estado deplorável do Exército vermelho, mas conseguiu vencer graças ao efeito de surpresa. Reeleito para a presidência, ele empenhou-se em reformar a defesa. Mandou para a aposentação centenas de milhar de oficiais, muitas vezes desmoralizados e por vezes ébrios, e colocou o General tuvan (turcófono da Sibéria) Serguei Shoigu no Ministério da Defesa.

Retomando um modo de gestão russa tradicional, Vladimir Putin separou o orçamento civil de uma parte do orçamento militar. O primeiro é votado pela Duma, o segundo é secreto. Ele restaurou a pesquisa militar, enquanto os Estados Unidos pensavam já não ter mais que investir neste domínio. Ele testou uma quantidade de armas novas, antes de movimentar o novo Exército vermelho em socorro da Síria. Experimentou as suas novas armas em situação de combate real e decidiu aquelas que seriam produzidas e as que seriam abandonadas. Organizou uma rotação trimestral das suas tropas a fim de que todos, uns após os outros, se endurecessem com a guerra. A Federação da Rússia, que em 1991 não valia nada, tornou-se, em dezoito anos, a primeira potência militar do mundo.

Simultaneamente, ele utilizou o Golpe de Estado nazi na Ucrânia para recuperar a Crimeia, um território russo administrativamente colado à Ucrânia por Nikita Khrushchev. Então, enfrentou uma campanha de sanções agrícolas da União Europeia que utilizou para criar uma produção doméstica auto-suficiente.

Ele formou uma aliança com a China, e forçou-a a modificar o seu projecto de "rotas da seda" nele integrando as necessidades de comunicação do território russo, para fundar uma «Parceria da Euroásia Alargada».

Nos anos que se seguem, a Rússia vai tentar reorganizar as relações internacionais sobre duas bases:
» separar os poderes políticos e religiosos;
» restaurar o Direito Internacional nas bases formuladas pelo Czar Nicolau II.

Os Europeus Ocidentais

O Reino Unido da Grã-Bretanha e da Irlanda do Norte

Aquando da queda da URSS, o Reino Unido subscreveu com reservas o Tratado de Maastricht. O Primeiro-Ministro conservador John Major pretendia tirar proveito do Estado supranacional em construção enquanto mantinha a sua moeda de fora. Portanto, ficou satisfeito quando George Soros atacou a Libra e a forçou a sair do SME («serpente monetária»). O seu sucessor, o trabalhista Tony Blair, restaurou a plena independência do Banco da Inglaterra e encarou deixar a UE para se juntar ao ALENA (NAFTA). Ele transformou a defesa dos interesses do seu país, substituindo referências aos Direitos do Homem pelo respeito pelo Direito Internacional. Fez-se promotor das políticas dos EUA, de Bill Clinton e George Bush Jr., encorajando e justificando o alargamento da União Europeia, a «guerra humanitária» contra o Kosovo, depois o derrube do Presidente iraquiano Saddam Hussein. Em 2006, elaborou o plano das «Primaveras Árabes» e submeteu-o à aprovação dos EUA.

Gordon Brown hesitou em prosseguir esta política e tentou encontrar uma margem de manobra, mas a sua energia foi sugada pela crise financeira de 2008, que ele, no entanto, conseguiu ultrapassar. David Cameron pôs em prática, com Barack Obama, o plano Blair-Bush das «Primaveras Árabes», nomeadamente a guerra contra a Líbia, mas, a prazo, conseguiu apenas parcialmente colocar os Irmãos Muçulmanos no Poder no Médio-Oriente Alargado. Para resumir, demitiu-se após a voto do Brexit pelos eleitores quando o plano para se juntar ao ALENA (NAFTA) já não estava na ordem do dia.

Theresa May propôs-se aplicar o Brexit no que concerne à saída do Estado supranacional do Tratado de Maastricht, mas não em relação à saída do Mercado Comum anterior a Maastricht. Ela falhou e foi substituída pelo biógrafo de Winston Churchill, Boris Johnson. Este decidiu sair totalmente da União Europeia e reactivar a política externa tradicional do Reino: a luta contra qualquer Estado concorrente no continente europeu.

Se Boris Johnson ficar no Poder, o Reino Unido deverá nos próximos anos tentar levantar a União Europeia e a Federação da Rússia uma contra outra.

A República Francesa

François Mitterrand não entendeu a desarticulação da URSS, chegando até a apoiar o putsch dos generais contra o seu homólogo russo, Mikhail Gorbachev. Seja como for, ele viu nisso uma oportunidade para construir um Estado supranacional europeu suficientemente grande para rivalizar com os EUA e a China, na continuação da tentativa napoleónica. Assim, promoveu, junto com o Chanceler Helmut Kohl, a unificação alemã e o Tratado de Maastricht. Inquieto com este projecto de Estados Unidos da Europa, o Presidente Bush Sr, convencido pela «Doutrina Wolfowitz» em prevenir o aparecimento de um novo rival à liderança dos EUA, forçou-o a aceitar a proteção da U.E. pela OTAN, e o seu alargamento aos antigos membros do Pacto de Varsóvia. François Mitterrand utilizou a coabitação e o ministro gaullista do Interior, Charles Pasqua, para combater os Irmãos Muçulmanos que a CIA o havia forçado a aceitar em França e que o MI6 utilizava para afastar a França da Argélia.

Jacques Chirac desenvolveu a dissuasão francesa concluindo os ensaios nucleares aéreos no Pacífico antes de passar às simulações e assinar o Tratado de Proibição Completa de Testes Nucleares (TICE). Simultaneamente, adaptou os exércitos às necessidades da OTAN encerrando o serviço militar obrigatório e ingressando no Comité Militar (planificação) da Aliança. Ele apoiou a iniciativa da OTAN contra a Jugoslávia (a guerra do Kosovo), mas ---depois de ter lido e estudado L’Effroyable imposture [1]--- colocou-se à cabeça da oposição mundial à agressão contra o Iraque. Este episódio permitiu-lhe sintonizar-se com o Chanceler Helmut Kohl e fazer avançar o Estado supranacional europeu que ele, desde sempre, concebia como uma ferramenta de independência em torno do par franco-alemão. Desestabilizado pelo assassinato do seu parceiro de negócios, Rafic Hariri, virou-se contra a Síria que os Estados Unidos designavam como a comanditária do assassinato.

Preconizando uma política radicalmente diferente, Nicolas Sarkozy colocou o Exército francês sob o comando dos EUA, através do Comando Integrado da OTAN. Ele tentou alargar a zona de influência francesa organizando a União para o Mediterrâneo, mas esse projecto não funcionou. Deu os primeiros passos derrubando Laurent Gagbo na Costa do Marfim e, muito embora tenha sido ultrapassado pelas Primaveras Árabes na Tunísia e no Egipto, tomou a cabeça da operação da OTAN contra a Líbia e contra a Síria. Por realismo, no entanto, constatou a resistência síria e retirou-se do teatro de operações. Ele prosseguiu a construção dos Estados Unidos da Europa fazendo adoptar o Tratado de Lisboa pelo Parlamento quando os eleitores haviam rejeitado o mesmo texto sob o nome de «Constituição Europeia».

Na realidade, a modificação de instituições, que supostamente se deviam tornar mais eficazes com 27 Estados, transformou em profundidade o Estado supranacional que pode agora impor a sua vontade aos Estados-Membros.

Chegado ao Poder, sem para isso estar preparado, François Hollande segue de uma forma um pouco rígida os passos de Nicolas Sarkozy, o que o obriga a adoptar a ideologia. Assina todos os tratados que o seu predecessor havia negociado ---incluindo o Pacto Fiscal Europeu que permite sancionar a Grécia--- acrescentando-lhe de cada vez, como se estivesse a desculpar-se pela sua reviravolta, uma declaração repetindo o seu próprio ponto de vista, mas sem valor vinculativo. Assim, autoriza a instalação de bases militares da OTAN em solo francês, pondo um fim definitivo à doutrina gaullista de independência nacional. Ou, ainda, prosseguindo a política de agressão contra a Síria, entregando-se a uma escalada verbal antes de nada fazer a ordens da Casa Branca. Ele ordena ao Exército terrestre francês uma missão no Sahel, fazendo de auxiliar do AfriCom no terreno. Por fim, justifica a Bolsa de troca de direitos de emissão de CO2 com Acordo de Paris sobre o clima.

Eleito graças ao Fundo de investimento norte-americano KKR, Emmanuel Macron é, antes de mais, um defensor da globalização ao estilo de Bill Clinton, George Bush Jr e Barack Obama. No entanto, adopta rapidamente a visão de François Mitterrand e de Jacques Chirac segundo a qual apenas um Estado supranacional europeu permitirá à França continuar a jogar um papel internacional relevante, mas na sua versão Sarkozy-Hollande: a União permite a imposição. Estas duas linhas conduzem-no por vezes a contradições, nomeadamente face à Rússia. No entanto, elas juntam-se numa condenação ao nacionalismo dos Estados-Membros da União Europeia, a um Brexit rápido, ou ainda a uma vontade de restabelecer o comércio com o Irão.

Nos anos que seguem, a França deverá pesar as suas decisões quanto ao impacto na edificação da União Europeia. Prioritariamente, ela procurará aliar-se a qualquer potência que trabalhe neste sentido.

A República Federal da Alemanha

O Chanceler Helmut Kohl entendeu a desagregação do Império Soviético como uma oportunidade para reunir as duas Alemanhas. Ele obtêm luz verde da França em troca do apoio alemão ao projecto de moeda única da União Europeia, o euro. Obtêm também o acordo dos Estados Unidos, que veem nisso um meio retorcido de fazer entrar o Exército da Alemanha de Leste na OTAN, apesar da promessa feita à Rússia de nela não fazer ingressar a República Democrática Alemã.

Uma vez a reunificação alemã consumada, o Chanceler Gerhard Schröder coloca a questão do papel internacional do seu país, sempre sob o estigma da sua derrota durante a Segunda Guerra Mundial. Se a Alemanha já não está militarmente ocupada pelas quatro grandes potências, ela não deixa, por isso, de abrigar nada menos que enormes guarnições dos EUA, as instalações do EuCom, e em breve do AfriCom. Gerhard Schöder utiliza a guerra «humanitária» contra o Kosovo para deslocar legalmente, pela primeira vez desde 1945, as tropas alemãs fora do país. Mas recusa a reconhecer este território conquistado pela OTAN como um Estado. Da mesma forma, empenha-se fortemente ao lado do Presidente Chirac contra a guerra americano-britânica no Iraque, sublinhando que nada prova a implicação do Presidente Saddam Hussein nos atentados do 11-de-Setembro. Ele tenta influenciar a construção europeia de forma pacífica. Assim, reforça os laços energéticos com a Rússia e propõe uma Europa federal (incluindo a prazo a Rússia ) dentro do modelo alemão, mas enfrenta a oposição da França muito ligada ao projecto de Estado supra-nacional.

A Chancelerina Angela Merkel regressa à política do seu mentor Helmut Kohl, o qual a fez passar, numa noite, dos seus cargos nas Juventudes Comunistas da Alemanha Democrática (RDA) para o Governo da Alemanha Federal. Estreitamente vigiada pela CIA, que não sabe muito bem como a definir, ela reforça os laços da Alemanha com Israel e o Brasil. Em 2013, sob proposta de Hillary Clinton, pede a Volker Pethes para estudar a possibilidade de desenvolver o Exército alemão a fim de jogar um papel central no CentCom se os Estados Unidos transferirem as suas tropas para o Extremo Oriente. Então, encomendou estudos sobre como os oficiais alemães poderiam supervisionar os Exércitos da Europa Central e Oriental, e pediu a Volker Perthes que esboçasse um plano para a capitulação da Síria. Muito apegada às estruturas atlantistas e europeias, distancia-se da Rússia e apoia o golpe de Estado nazista na Ucrânia. Por questão de eficácia, exige que a União Europeia possa impor a sua vontade aos pequenos Estados-Membros (Tratado de Lisboa). Ela mostra-se muito dura aquando da crise financeira grega e coloca pacientemente os seus peões na burocracia europeia até à eleição de Ursula von der Leyen para a presidência da Comissão Europeia. Assim que os Estados Unidos se retiram do Norte da Síria, reage imediatamente propondo à OTAN enviar o Exército alemão para os substituir, conforme o plano de 2013.

Nos anos que se seguem, a Alemanha deverá privilegiar as possibilidades de intervenção militar dentro do quadro da OTAN, particularmente no Médio-Oriente, e agir com cautela no projecto de Estado supra-nacional europeu centralizado.

Viabilidade

É muito estranho ouvir falar hoje em dia de «multilateralismo» e «isolacionismo» ou de «universalismo» e de «nacionalismo». Estas questões não se põem na medida em que todos sabem, desde a Conferência de Haia (1899), que o progresso da tecnologia torna todas as nações solidárias. Essa logorreia disfarça mal a nossa incapacidade em admitir as novas relações de força e em encarar uma ordem do mundo menos injusta possível.

Somente as três Grandes potências se podem dar ao luxo de ter os meios próprios para a sua política. No entanto, elas só podem alcançar os seus fins sem guerra seguindo a linha russa fundada no Direito Internacional. Todavia, o perigo de uma instabilidade política doméstica nos EUA faz pairar, mais do que nunca, um risco de confronto generalizado.

Ao deixar a União, os Britânicos colocaram-se no imperativo de se juntar aos Estados Unidos (o que Donald Trump recusa) ou de desaparecer politicamente. Enquanto a Alemanha e a França, em perda de ritmo, não têm outra escolha senão construir a União Europeia. Ora, de momento, elas avaliam de forma muito diferente o tempo disponível e encaram-no de duas maneiras incompatíveis, o que poderá levá-las, a elas próprias, a desmantelar a União Europeia.


*Intelectual francês, presidente-fundador da Rede Voltaire e da conferência Axis for Peace. As suas análises sobre política externa publicam-se na imprensa árabe, latino-americana e russa. Última obra em francês: Sous nos yeux. Du 11-Septembre à Donald Trump. Outra obras : L’Effroyable imposture: Tome 2, Manipulations et désinformations (ed. JP Bertrand, 2007). Última obra publicada em Castelhano (espanhol): La gran impostura II. Manipulación y desinformación en los medios de comunicación (Monte Ávila Editores, 2008).

Nota:
[1] Portugal : 11 de Setembro, 2001 A terrível impostura. Nenhum Avião Caíu Sobre o Pentágono!, Thierry Meyssan, Frenesi, 2002. Brasil : 11 de setembro de 2001: uma terrível farsa. Nenhum Avião Caíu Sobre o Pentágono!, Usina do livre, 2002.

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