sábado, 15 de fevereiro de 2020

18 ANOS DE EXCREMENTO DO DIABO



A meteórica visita do Secretário de Estado Mike Pompeo a Angola, vem confirmar que o petróleo continuará a ser, não uma catapulta para o desenvolvimento, mas um garante no sentido de que África permanecerá como uma ultraperiferia económica, onde o petróleo tem o papel manipulador próprio dum “excremento do diabo”.
18 anos depois da visita do Presidente José Eduardo dos Santos a Washington, a 26 de Fevereiro de 2002, onde se encontrou com o Presidente George W. Bush e com os membros da “Corporate Council on Africa”, apenas 4 dias depois da morte de Savimbi, Mike Pompeo nada tem para oferecer senão mais do mesmo, ainda que com outras pródigas cores do grande camaleão, agora sob a égide de outro republicano, o inveterado “protecionista” Presidente Donald Trump…
O “Project of a New American Century” (PNAC), que teve curso entre 1996 e 2006, ainda inspira (e refina) o “proteccionismo” de hoje!
Para o império da hegemonia unipolar, 18 anos depois, continua a ser, como nos tempos do PNAC: “The americans frist”!...

1- Longe vai o tempo em que com pezinhos de lã, de que o tio Sam é pródigo quando se apresta à fase de exibir perante os olhos extasiados dos incautos uma apetecível cenoura, a administração republicana do texano George W. Bush, inspirada nos “bons ofícios” do Institute for Advanced Strategy and Political Studies (IASPS), aproximou-se em Fevereiro de 2002 de África, com o engodo do “petróleo para o desenvolvimento”, precisamente na altura em que os Estados Unidos estavam já a preparar o assalto pelas hordas neoliberais do império ao Iraque (que viria a ter início a 20 de Março de 2003). (https://en.wikipedia.org/wiki/Institute_for_Advanced_Strategic_and_Political_Studieshttps://www.sourcewatch.org/index.php/Institute_for_Advanced_Strategic_%26_Political_Studies)

O Iraque, na mesma altura da cenoura para África, provava o poder do seu impiedoso cacete, numa estreia para o Médio Oriente Alargado dum caótico contencioso que se prolonga até hoje. (https://www.csmonitor.com/2002/0523/p07s01-woaf.htmlhttp://www.historycommons.org/entity.jsp?entity=institute_for_advanced_strategic_and_political_studies).

Naquela altura, logo no início do século XXI, era um “think tank” com uma perna em Jerusalém e outra em Washington que na direcção de África propunha lançar o artificioso equívoco manipulado pelo Presidente George W. Bush, sob o aliciante rótulo do “Africa Oil Initiative Group” (AOPIG) e seus multifacetados atractivos para o Golfo da Guiné (Angola e São Tomé e Príncipe “automaticamente” incluídos)!… (https://allafrica.com/stories/200206120501.htmlhttps://www.sourcewatch.org/index.php/African_Oil_Policy_Initiative_Grouphttps://www.globalpolicy.org/component/content/article/198/40173.html).

Como corolário dos esforços do IASPS e da projecção do conceito AOPIG, a visita do Presidente José Eduardo dos Santos foi para o PNAC e por tabela para o Presidente de turno nos Estados Unidos e a Corporate Council on Africa, um “perdurável êxito” que cabe como herança aos angolanos, celebrado na altura com um inesquecível jantar (http://www.africacncl.org/(epuhzkyyw2bdbpbjiplidq55)/Whats_New/CCA_Dinner(dosSantos).asp, link desactivado):

“CCA & U.S.-Angola Chamber of Commerce Dinner for Angolan President José Eduardo dos Santos, Washington, D.C., February 26, 2002.

Sponsored by ExxonMobilChevronTexacoBPOcean Energy.

with support from: Halliburton; INTELS Group; Phillips Petroleum Company; C/R International; Lazare Kaplan International Inc.; Catermar; LIMJE Industrial Ltd.; American Worldwide Inc.; Samuels International Associates, Inc.; OrdSafe; CTD/Manchester Trade; Citigroup; Citizens Resources; Miranda, Correia, Amendoeira & Associates; SISTEC Equipment & Controls; HSBC Equator Bank; Cohen & Woods International”.

Desde então o fragilizado estado angolano passou não só a estar “filtrado” pelos processos de inteligência ao serviço do poder dos Estados Unidos e de suas transnacionais do petróleo e dos diamantes, “ressurgindo das cinzas” em função dos rescaldos do após Bicesse (31 de Maio de 1991), como também passou a ser “amarrado curto” aos processos de “terapia neoliberal post traumática” abertos à devassidão, que desembocaram nis níveis de corrupção que se começa hoje a identificar!

O Presidente George W. Bush dava assim “oportuna resposta” aos trágicos acontecimentos do 11 de Setembro de 2001 que serviram à época de justificação de fundo para o “choque de civilizações” e, na direcção de África lançava paulatinamente as bases para mais um comando do Pentágono, o AFRICOM, um comando burilado à medida das articulações de ingerência e manipulação civil e militar, capaz de respostas assimétricas, de geometria variável e tirando partido de coligações e alianças extra continentais, que viria oficialmente a surgir a 6 de Fevereiro de 2007, apenas 5 anos depois!... (https://pt.scribd.com/document/70373464/African-Oil-Policy-Initiative-Group-White-Paper;  https://www.csmonitor.com/2002/0523/p07s01-woaf.html).

“This new command will strengthen our security cooperation with Africa and help to create new opportunities to bolster the capabilities of our partners in Africa. Africa Command will enhance our efforts to help bring peace and security to the people of Africa and promote our common goals of development, health, education, democracy, and economic growth in Africa. - President George Bush, February 6, 2007” (http://www.revistamilitar.pt/modules/articles/article.php?id=195).



2- Como o engodo do “petróleo para o desenvolvimento” era essencialmente dirigido para o subsariano Golfo da Guiné, o “fôlego” de George W. Bush avançou em toda a linha e sacudiu do seu torpor até o pequeno arquipélago de São Tomé e Príncipe, que foi colocado no epicentro do projecto de albergar a sede do futuro AFRICOM!...

Meio extasiado com a cenoura, o Presidente Fradique de Menezes foi nessa altura “atirado para a ribalta”, o que não me passou despercebido, até pelo inusitado da situação.

Entre o que escrevi então para o semanário Actual, a 11 de Setembro de 2002, merece ser recordado especialmente o texto sob o título irónico “USS São Tomé”, em que eu considerava a deriva do arquipélago em função da cenoura, como a aquisição de mais um porta-aviões para engrossar a frota da “Navy”, até por que houve também fausto repasto para o meio-arrelampado mas tão ditoso Presidente Fradique…

O “USS São Tomé” começava assim:

“Senhor Hayes,

Distintos membros do Corporate Council for Africa,

Senhoras e Senhores.

É com subida honra que hoje estou aqui convosco, o que tenho antes de mais a agradecer ao Senhor Hayes, ao seu staff, à Exxon – Mobil, à Phillips Petroleum e à Anadarko Petroleum, por ter organizado este almoço, que me dá a oportunidade de me pronunciar um pouco sobre o meu país, São Tomé.

Durante muitos anos, o meu país devotou-se quase exclusivamente ao plantio do cacau e eu posso garantir-vos que, nessa altura, não teria sido provavelmente possível organizar um encontro tão valioso, deste género.

 Como sabem, fui eleito Presidente de São Tomé e Príncipe em Setembro último, esta é a minha primeira visita aos Estados Unidos como Presidente e, uma das coisas que já aprendi, no curto tempo em que desempenho esse cargo, é que o petróleo abre muito mais portas que o chocolate”…

Como as cenouras têm curta longevidade após a apanha, pouco tempo depois do grande repasto, já o Presidente Fradique de Menezes, na comemoração do seu primeiro ano de mandato, comentava assim:

… “Já descobri a diferença que existe entre a gestão de uma empresa e um estado.

Numa empresa, como a que geria antes de ser Chefe de Estado, movimentava o dinheiro sem problemas, mas num estado as regras burocráticas são difíceis de ultrapassar”... 

Expliquei no Actual por conseguinte até ao final da minha intervenção os meandros radiográficos duma situação inusitada para África: o tão repentin quão fogoso interesse do império da hegemonia unipolar!

“O Presidente Fradique de Menezes tem assim o dinheiro que pediu ao seu homólogo Olusengun Obasanjo, entre as mãos, mas para sua frustração, neste ano, não poderá tocar sequer num tostão, o que o obriga a continuar ancorado a uma época em que,  gerir São Tomé, ainda só pode ser feito com base em orçamentos característicos do magro tempo do chocolate, quando são tão fantásticas as promessas em relação ao futuro.

Habituado aos lucros, mas também aos revezes nos seus negócios, (o Presidente Fradique de Menezes é um conhecido comerciante de seu país), ele porém não desistiu de continuar na senda de urgentes e melhores soluções.

O AOPIG, para além da mudança de importantes investimentos no petróleo do Médio Oriente (particularmente do Golfo Pérsico) para o Golfo da Guiné prevê:

. A redução, ou mesmo o perdão da dívida externa, devido à implicação da atracção de importantes financiamentos privados, previstos na exploração do petróleo, na sequência de um clima propício que existe já nesse sentido.

. A implantação dum Comando Naval Americano em São Tomé, confirmando o interesse estratégico do Golfo da Guiné e a importância da segurança dos investimentos americanos, tendo em conta a importância que o petróleo tem para a economia dos Estados Unidos.

. A aplicação da redução das medidas tarifárias conformes ao AGOA (The African Growth and Oppourtinty Act) em relação a produtos produzidos no continente africano, estimulando as oportunidades para a sua colocação no mercado americano.

A miragem da nova era, no quadro da Nova Ordem Global, levou agora o Presidente Fradique de Menezes, numa segunda viagem aos Estados Unidos, onde assinou acordos para integrar o seu país na estratégia AOPIG para o Golfo da Guiné, ao abrigo dos reflexos da globalização e da viragem da situação global após o 11 de Setembro, aproveitando a hegemonia americana, num alinhamento sem precedentes.

São Tomé, para além da garantir a exploração do petróleo na plataforma continental onde possui uma posição central, dará guarida:

- A novas possibilidades de comércio, tirando proveito da equidistância que o seu território se encontra, em relação a todos os países da região, desde Angola, a sul, até ao Gana, a norte.

- À criação nesse sentido de um porto em águas profundas, capaz de servir para o desembarque e embarque de mercadorias que darão suporte às operações numa vasta região marítima e costeira (uma aspiração antiga, que nunca antes teve possibilidades de ser realizada).

- À implantação dum cada vez mais importante nó de comunicações no Golfo da Guiné, dando continuidade aos programas que já existem.

- À implantação duma base naval americana, de forma a garantir segurança no Golfo da Guiné, tornando o país num autêntico porta-aviões e retaguarda duma esquadra de superfície, que estará implicada na segurança dos investimentos em toda a região.

O Paraíso terrestre virgem, ignoto e impoluto, está à beira de entrar para a era da globalização, onde começa a conhecer as novas regras do jogo:

- Abrir as portas ao neoliberalismo e à hegemonia americana.

- Arriscar-se a sofrer os efeitos da poluição ambiental (e humana).

- Sujeitar-se às imposições típicas dum papel que é essencialmente criado por uma abissal e insolúvel dependência, com todas as tensões e desigualdades que isso


São Tomé deixará de ser um paraíso perdido, tornar-se-á num centro cada vez mais cosmopolita, sublimado na integração que lhe está destinada, mas ficará sem dúvida, indelevelmente marcada na alma do seu povo, uma era de dependência mais do que inter dependência, que se avizinha, por muitos e longos anos.”


3- No momento em que Mike Pompeo percorre África e chega a Luanda, é mais que oportuno recordar todo esse ambiente, cenários e actores de há 18 anos a esta parte, por que sobre as cabeças das novas elites africanas a cenoura foi-se degradando com o tempo e, no que a Angola diz respeito, passou a “excremento do diabo”, fundamentalmente na base de vários factores dessa degradação, entre eles:

. O preço do barril de petróleo caiu para metade do que era àquela época, afectando sobremodo todos os produtores africanos que integram a ultraperiferia económica global;

. Os expedientes de caos e terrorismo transvasaram do Médio Oriente Alargado para dentro de África, sendo deliberadamente incrementados pela coligação liderada pelos Estados Unidos, com implicações sionistas e das monarquias arábicas wahabitas-sunitas, particularmente desde quando a Líbia foi esmagada (afectando o Sahel, tem implicações em toda a África, inclusive na África Austral);

. O deslumbramento das novas elites deu oportunidade, sobretudo na Guiné Equatorial e em Angola (recorde-se dois membros da CPLP), à introdução de elevados padrões de corrupção que jamais deixaram de estar filtrados “deep inside” pelos processos de inteligência da hegemonia unipolar, em jeito de terapia neoliberal;

. Esse mesmo deslumbramento atraiu outras potências, como o caso de Portugal, até por que os portugueses passaram a ser consultados em benefício do AFRICOM, por serem além do mais um privilegiado vassalo na NATO e ao mesmo tempo inveteradas “correias de transmissão” dos interesses transnacionais para dentro do continente africano;

. A própria lógica do engodo levou as novas elites angolanas indexadas à terapia neoliberal, a desprezar a urgente necessidade de diversificação da economia produtiva, o que facilitou a sua assimilação, no caso angolano, aos interesses comerciais, bancários e do sector de construção civil dos portugueses sob os auspícios dos avassalados governos do “arco de governação”, a ponto de assentarem também seus interesses e conveniências tão malparadas, em Portugal!


4- Por via do sector energético (petróleo e gás), Angola foi atraída a ponto de ser uma dilecta vítima do “excremento do diabo”, a ponto de se deixar neocolonizar e a ponto do herdeiro do poder em Luanda, camarada Presidente João Lourenço, receber como herança a enorme decrepitude do “excremento do diabo”:

. Um estado saqueado e levado à banca rota por mercenários que se foram “liberalmente” fingindo de patriotas, cultores de exclusividades e mentores da depauperação ética e moral de toda a sociedade;

. Uma sociedade atordoada, alienada, iludida (e desiludida) e, em muitos substractos sociais, meio decrépita, meio adormecida, senão mesmo inerte, face à avalanche que lhe foi imposta por via das portas escancaradas pelo mais selvagem dos neoliberalismos;

. Uma propositada injecção de cultura de subdesenvolvimento, que espaço de três décadas propiciou abissais desequilíbrios e assimetrias;

. Um processo de assimilação indexado a Portugal, que cumpriu com o papel que lhe foi transversalmente imposto pela hegemonia unipolar desde o 25 de Novembro de 1975, no que diz respeito à tipologia dos seus relacionamentos tão indigestamente artificiosos, hipócritas, cínicos e abertos à corrupção, aproveitando as portas escancaradas sob a ilusão dos “tempos das vacas gordas”, antes de se chegar á época do “excremento do diabo”;

. A continuidade da inércia colonial no que diz respeito aos paradigmas de entender o país com os olhos de quem chegou e o projectou a partir do mar;

. A imensa dificuldade de levar a cabo, no âmbito da lógica com sentido de vida que advém do movimento de libertação em África, uma geoestratégia para um desenvolvimento sustentável e abrir caminho a uma cultura de inteligência patriótica solidária, digna e amplamente mobilizadora;

. A impossibilidade de a curto prazo sair da estreita esquadria a que foi remetido, ainda de acordo com a terapia neoliberal, ou seja, a obrigatória sujeição aos parâmetros da luta contra a corrupção, na tentativa de finalmente se começar a encontrar parâmetros de economia de mercado, diversificada e livre dos constrangimentos de tão mal paradas elites mercenárias e antipatrióticas!


Mike Pompeo sairá de Luanda bastante satisfeito com a obra propiciada pelo império da hegemonia unipolar de que é fiel servidor, no rescaldo destes 18 anos de exercício de terapia neoliberal e de manipulação entre “petróleo para o desenvolvimento” e o petróleo que de facto não passa de “excremento do diabo”:

Angola está em grande parte nas mãos do império, à sua mercê e a luta contra a corrupção está a ser tão filtrada como foi a génese das elites mercenárias de feição que agora estão em cheque, num processo que, de manipulação em manipulação, de ingerência em ingerência, está garantido perante nossos olhos e a esta latitude do sudoeste africano, que vai continuar a levar a cabo a protecção para quem interessa, ou é mais conveniente:

Em Luanda, Mike Pompeo sabe e reconhece “the americans first”!

Martinho Júnior -- Luanda, 14 de Fevereiro de 2020

Imagens:
01- Visita de Pompeo é sinal de apoio às reformas de João Lourenço – Governo –  https://angola24horas.com/index.php/politica/item/16060-visita-de-pompeo-e-sinal-de-apoio-as-reformas-de-joao-lourenco-governo;
02 e 03- Recolhidas de CCA & U.S.-Angola Chamber of Commerce Dinner for Angolan President José Eduardo dos Santos, Washington, D.C., February 26, 2002 – http://www.africacncl.org/(epuhzkyyw2bdbpbjiplidq55)/Whats_New/CCA_Dinner(dosSantos).asp, link desactivado;
04 e 05- Recolhidas da página, também já desactivada, do IASPS.

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