terça-feira, 18 de fevereiro de 2020

Cronofagia: o roubo do tempo, sono e ideias


Nova fronteira do capitalismo: capturar as horas humanas – não mais no chão da fábrica, mas convertendo todo tempo livre em trabalho extra, consumo idealizado e burocracia. Acima de tudo bloquear o ócio, a reflexão e a possível dissidência

Giuseppe Luca Scaffidi, em Dinamopress | Outras Palavras | Tradução: Antonio Martins

Quando Paul Lafargue escreveu seu manifesto Le Droit à la Paresse (O Direito à Preguiça), entre 1880 e 1883, primeiro como exilado em Londres e depois em vestes de prisioneiro político, no interior de uma cela úmida do cárcere de Sainte-Pélagie, em Paris, a classe operária europeia vivia em uma situação que, hoje, chamaríamos de aprisionada. O preço a pagar pela reivindicação de um ilusório e venenoso “direito ao salário” era a aceitação de condições de trabalho massacrantes, que, de fato, afogavam na mais completa escravidão. Estava entre os regimes de servidão voluntária plenamente normalizados e institucionalizados por aquela que o pensador francês definia profeticamente como a “religião do capital” – ou seja, a pretensa necessidade de um capitalismo que, já naquele tempo, tentava de todas as maneiras impor-se como lei natural e universal.

Um dos fundadores do Partido Operário Francês, esposo de Laura Marx e genro de Karl, Lafargue logo compreendeu que os avisos de tempestade descritos por seu sogro em O Capital, e ainda antes por Engels (seu padrinho de casamento) em A Situação da Classe Operária na Inglaterra (1845) haviam se transmutado numa realidade dramática. Para percebê-lo, bastava observar o que ocorria do lado de dentro dos portões de entrada das fábricas. O proletariado industrial parisiense – mulheres, homens e crianças – trabalhava, em média, doze horas por dia. Longe da “zona de conforto” da capital, nas províncias e no campo, a predação de tempo podia chegar a picos de 14 horas. Na Itália, o quadro era ainda mais dramático, principalmente em razão de uma cultura sindical mais escassa. O dado mais preocupantes relacionava-se à situação das mulheres empregadas nas fábricas: nas fiações piemontesas, centenas de operárias passavam até 16 horas ao dia com as mãos imersas na água fervente, obrigadas a permanecer em espaços restritíssimos, a inalar vapores nauseabundos, a suportar condições higiênico-sanitárias péssimas e a conviver com um abafamento insustentável (para favorecer a fiação da seda, as janelas deviam permanecer fechadas, do contrário o ar poderia danificar a trama), sacrificando a própria saúde por 45 centavos ao dia.

O proletariado europeu aceitava passivamente os abusos dos patrões, que impunham suas próprias condições graças a uma posição contratual de preeminência absoluta e a um movimento operário ainda pouco maduro. Privado de uma consciência de classe ele, de um lado, fez do “direito ao trabalho” o núcleo essencial do próprio manifesto reivindicativo; de outro, raramente parecia interrogar-se a fundo o real significado daquele direito.

É a partir da observação deste exército de assalariados nos porões, da escuta dos gemidos de desespero dos novos subjugados das fábricas e escritórios, que Lafargue escreveu O Direito à Preguiça, colocando ao centro de sua reflexão a necessidade de recuperar algo muito similar ao conceito latino de otium: para romper as grades da prisão, os subproletários deveriam reapossar-se daquele tempo que os antigos dedicavam ao estudo, ao cuidado com o espírito e à estruturação do pensamento. Uma dimensão do viver de valor inestimável, que a fé cega no produtivismo havia rapidamente restringido à damnatio memoriae [condenação da memória]. Apenas recuperando o próprio tempo, a classe operária poderia identificar um antídoto eficaz à alienação, cuidando do desenvolvimento das potencialidades humanas que a dominação capitalista reprimia ao som do trabalho por peças e dos prémios de produção.

O convite a lutar pela recuperação do sacrossanto direito ao ócio e a lançar forte desconfiança nos diálogos de um capitalismo predatório, que na maior parte das vezes apresenta-se diante de nossos olhos de forma mutável e amistosa, com “faces que asseguram o progresso, a liberdade de expressão e de entretenimento” aparecem com força também nas linhas de Cronofagia. Come il capitalismo depreda il nostro tempo [Cronofagia: como o Capitalismo devora nosso Tempo], último ensaio de Davide Mazzocco, publicado pela D Editore em 2019. No transcurso de suas páginas, a força disruptiva da mensagem de Paul Lafargue se renova com toda a sua brutal atualidade, lembrando-nos como, agora ou há um século e meio, as tramas do capitalismo permaneceram, em essência, inalteradas.




O Zeitgeist dominante é o mesmo: temos pouquíssimo temo a dedicar a nós mesmos. O que mudou foram os mecanismos voltados a fazer estoque dos tempos mortos. Tornaram-se mais sutis e imperceptíveis. Diferente do que ocorria no tempo de Lafargue, Marx e Engels, o apetite “cronófago” do capital não investe tanto sobre o horário de trabalho, mas também (e sobretudo) sobre a esfera do tempo livre, objeto de uma campanha de colonização cada vez mais agressiva. Em consequência, um pensador como Lafargue podia conceder-se o “luco” de focalizar apenas o que ocorria no interior das fábricas, uma análise crítica das dinâmicas atuais do capitalismo tardio exige projetar o olhar também ao que sucede além dos locais de trabalho.

A reflexão de Mazzocco retoma a obra do ensaísta francês Jean-Paul Galibert. Este, em seu manifesto Cronòfagi (2015), cunhou pela primeira vez o termo “cronofagia”, configurando-o como uma das bases de sustentação do hipercapitalismo contemporâneo. Segundo Galibert, o indivíduo é “simultaneamente uma quantidade de tempo disponível para a cronofagia e uma quantidade de dinheiro disponível para o hipercapitalismo. Esta regra ergue-se em condição para nossa existência, ao ponto de se tornar uma nova condição humana. No ideal de disponibilidade, o ser humano reduz-se a um jazida dupla de dinheiro e de tempo a explorar sem limites. Porém, é necessário estabelecer uma relação de equivalência entre o tempo, do qual ele é privado, e o dinheiro, que lhe é tirado”. Retomando e atualizando o trabalho de Galibert, Mazzocco volta a aprofundar o tema da cronofagia, o braço armado de que o hipercapitalismo serve-se para autoperpetuar-se, fagocitando o tempo das massas e procedendo a uma progressiva erosão do tempo da inatividade e, em consequência, da não rentabilidade.

Faz já vinte anos que Naomi Klein evidenciou, em seu No Logo, como os produtos a desenvolver no futuro serão aqueles não apresentados como “mercadorias”, mas como “conceitos”, explorando do trabalho imaginário dos consumidores por meio da criação de uma mitologia empresarial que possa “infundir significado aos objetos colocando-lhes simplesmente o nome de uma grife”. O paradoxo do intercâmbio cronófago reside mesmo neste curto-circuito lógico: “trabalhar e depois pagar, àqueles para os quais trabalhamos, o preço justo do nosso trabalho”. Uma vez exaurido o “verdadeiro” uso, o indivíduo passa a quase totalidade do próprio “tempo livre” vestindo as fantasias de consumidor e, por meio da própria imaginação, realiza inconscientemente uma segunda tarefa profissional em favor do capital, in primis desejando fortemente um certo tipo de bem (um carro, um notebook, um smartphone) e contribuindo, de tal modo, a aumentar o valor económico: em segundo lugar, pagando o sobrepreço da sua própria mente contribuiu a estruturar:

Se a quantidade de tempo que os indivíduos deveriam consagrar à “preguiça” de memória lafarguiana – e que, ao invés disso, é sacrificado no altar do consumo – representa o primeiro âmbito de colonização do hipercapitalismo, outro objetivo estratégico de valor absoluto é constituído da ocupação do único espaço em que ainda é permitido permanecer pessoa, e não consumidor: o sono.

Não por acaso, uma outra influência literária muito presente em Cronofagia é um ensaio de 2015, Capitalism 24/7 – Il capitalismo all’attacco del sonno [Capitalismo 24/7 – o sono sob ataque do sistema]. O autor, Jonahthan Crary, evidencia como uma necessidade biológica fundamental entrou em claro contraste com as exigências voltadas a alcançar a distopia de um capitalismo 24 horas por dia, 7 dias por semana, uma ucronia que só poderia ser animada por zumbis sonâmbulos e em dependência perene do consumo.

Retomando Crary, Mazzoco evidencia como, ao longo de um século, o tempo que os indivíduos dedicam ao sono reduziu-se abruptamente: das dez horas por noite, do início dos anos 1900, às oito da metade daquele século e à média tual de cerca de seis horas. Não é à toa que o executivo-chefe da Netflix, Reed Hastings, definiu, durante uma conferência em Los Angeles, em 2017, o sono como o principal competidor de sua plataforma. Sua observação é muito verossímil. O tempo que passamos dormindo está protegido de todas as necessidades induzidas artificialmente, que aplacam os apetites cornófagos do hipercapitalismo. Uma zona de imunidade cuja fruição, cada vez mais frequentemente, tendemos a subestimar: o tempo que os indivíduos deveriam dedicar ao sono acaba, cada vez mais engrossando os lucros da indústria do entretenimento, através de sessões bulímicas noturnas de bingewatching [maratona insone para assistir a seriados]. Compras compulsivas na Amazon ou despesas improvisadas nos tantos hipermercados abertos 24 horas que proliferam, contribuindo à criação de espirais gigantes de precariado no Ocidente, símbolo de “progresso”. Abater a necessidade humana de fechar os olhos por um terço dos dias é, provavelmente, o objetivo estratégico mais importante que a economia de mercado pretende perseguir nos próximos anos.

Como evidenciado em Crary:

“o sono estabelece o problema de uma necessidade humana que pode ser satisfeita apenas em um certo intervalo de tempo e não pode, portanto, ser dominado ou subjugado a uma máquina para gerar lucros, oferecendo-se assim como uma exceção incôngura, uma verdadeira área de crises no âmbito da atual globalização”.

Um ponto posterior de reflexão oferecido pelo ensaio de Mazzocco é o que concerne o tempo que, dia a dia, é dispendido pela burocracia. Há meio século, os tecno-otimistas impuseram a própria narrativa sobre o poder redentor da informatização. Ela teria se convertido em libertadora da “escravidão do papel e dos atrasos dos processos de tratamento de dados”. Apesar das previsões entusiásticas, a simplificação burocrática está se tornando um mito: basta defrontar com qualquer guichê da administração pública para perceber que a tecnologia não resolveu o problema mas, em determinados casos, contribuiu para ampliar as barreiras.

Como David Graeber evidenciou, em Burocracia (citado explicitamente por Mazzocco no terceiro capítulo de seu livro), no estágio atual “cada um de nós sabe que deverá aprender a fazer o trabalho que, em outra época, faziam os agentes de viagem, os intermediários financeiros e os comerciantes”. Graeber sublinha como, paradoxalmente, a hiperburocratização de nossa sociedade ocoreu no período imediatamente posterior à queda dos aparatos da burocracia socialista.

Aqueles encargos que, até há algumas décadas, pesavam sobre as costas de profissionais formados adequadamente, atualmente pesam sobre todos os indivíduos. Para um professor universitário, tornou-se inevitável dedicar sempre mais tempo à correta gestão das bolsas de estudo, assim como para um pai é perfeitamente normal é agora perfeitamente normal dedicar horas e horas na compilação de módulos infinitos, para inscrever seus próprios filhos em uma escola digna. As horas que empregamos para nos alienar das exigências de uma burocracia que “nos transformaram em funcionários administrativos em tempo parcial e em secretários de nós mesmos” são horas roubadas do desenvolvimento de nossas potencialidades. Os labirintos burocráticos nos transformaram em uma massa indistintas de autómatos insatifeitos, ocupados, preocupadíssimos e esgotados.

O ensaio de Mazzocco, por meio de uma linguagem deliberadamente não acadêmica e de referências contínuas a histórias próprias do quotidiano do autor (como aquele em que é obrigado a enfrentar filas intermináveis nos correios, para obter a isenção de uma taxa ferroviária), realiza perfeitamente sua intenção. Ele quer conferir ao leitor a consciência de uma contemporaneidade dramática, que os poderes que governam nossa sociedade tendem a normalizar cada vez mais. Para tanto, empregam uma narrativa complacente, voltada a tornar desejável um mundo em que o conceito de otium é, agora, pouco mais que uma fotografia desbotada.

Sobre o tempo de leitura, o próprio Mazzocco nos tranquiliza, na quarta capa do livro: 594 minutos…

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