quinta-feira, 13 de fevereiro de 2020

DUMA “VITÓRIA” COLONIAL-FASCISTA QUE NUNCA HOUVE... - II


 Martinho Júnior, Luanda 

OPORTUNA REINTERPRETAÇÃO SUSCITADA POR ESTE 4 DE FEVEREIRO DE 2020

Há um abismo entre os conceitos de guerra e de luta, em particular quando essa luta é de libertação nacional, com toda a carga de dignidade e legitimidade que ela envolve, implicando-se com a vida e com a própria história!

Decerto que as abordagens sobre a guerra, sendo limitadas, estão muito longe de ter a percepção que no outro lado do “front”, é o homem total, com uma outra visão da vida, valorizando-a num colectivo, que se eleva aos limites das suas mais sagradas esperanças e aspirações.

O colonialismo português e o “apartheid”, por muito baixa intensidade que fosse a guerrilha, estavam condenados à derrota, pelo que a percepção da derrota apenas tardou aos que fizeram a guerra do lado errado da história!

São ainda hoje os conceitos da NATO que toldam essa percepção em benefício de equivocados expedientes de assimilação e por isso esse diálogo de surdos entre o norte e o sul situa-se no desnorte duma “civilização” que afinal não passa de máscara da própria barbárie!…




CONTINUAÇÃO

4- Com o Exercício Alcora já em pleno funcionamento, a tese da internacional-fascista na África Austral determinou o regime de Marcelo Caetano a “esmerar” além do mais a estratégia militar e de inteligência em Angola e Moçambique, ao mesmo tempo que introduzia apropriados “pacotes” integrados na economia, nas finanças e no conjunto das alianças internacionais (“redes stay behind” da NATO, utilizando o manancial consubstanciado pelo “Le Cercle”, sua ideologia e suas integradas transnacionais mineiras, incluindo o cartel de diamantes, assim como pressupostos do Pacto Ibérico, entre Salazar e Franco).

A continuação do esforço militar e de inteligência colonial-fascista, era de antemão inglório, pois o isolamento internacional (inclusive no quadro da ONU), era já um facto politicamente consumado e praticamente irreversível.

A introdução duma nova filosofia, doutrina, ideologia e prática pelo colonial-fascismo em função dos enlaces propiciados pelo Exercício Alcora (e Pacto Ibérico), determinou um novo quadro de contraguerrilha visando a sua contenção, a sua circunscrição e, em casos de resistência, o seu aniquilamento (Despacho conjunto dos Ministro da Defesa e do Ultramar, de 7 de Outubro de 1970 para as 3 frentes – Guiné, Leste de Angola – Moçambique), mas não impediu “os ventos da história”:

. A “Directiva Angola em Armas” foi aplicada a Angola, sob a égide do general Costa Gomes, que havia chegado a Angola (proveniente de Moçambique), em nova comissão de serviço, a 3 de Maio de 1970;

. Nela dava-se prioridade máxima para “a conquista das populações”, procurando atraí-las à causa colonial na disputa contra a guerrilha do MPLA;

. Priorizava-se ainda nesse quadro, a integração de procedimentos civis e militares nas acções de ordem estratégica e tática-operativa, a desenvolver de forma a garantir uma muito maior intensidade e coordenação interna à manobra das contramedidas da tese colonial-fascista;

. Criou-se para o efeito, o Conselho Provincial de Contra Subversão (CPCS) tendo como coordenador o Governador Provincial Rebocho Vaz (que esteve no cargo de 1966 a 1972), coadjuvado pelo Comandante Geral das Forças Armadas em Angola (general Costa Gomes);

. Criou-se a (sub) Directiva Geral Angola em Armas, lançada a 30 de Março de 1968 (definindo zonas militares com seus sectores e áreas militares com suas zonas, ali onde era impossível a actividade politica-administrativa);

. Fez-se surgir a Área Militar 1, (na Zona Militar Norte), incidindo particularmente sobre a 1ª Região Política Militar, visando passar do cerco, circunscrição e infiltração, para a sua asfixia e diluição de sua ameaça;

. Reforçou-se as competências do Comandante da Zona Militar Leste (ZML) de 1971 a 1973 (tarefa do general Bettencourt Rodrigues), a fim de lhe permitir planear, coordenar, dirigir e impulsionar a actividade tática operacional, em paralelo com o processamento de dados, acções de informação, contrainformação, análise, assim como pesquisa de informação, acções de contrassubversão, acções psicológicas e acções de segurança, numa apurada base de contrapropaganda;

. Criou-se na ZML um Conselho Especial de Contrassubversão a fim de gerir as manobras do novo quadro de contramedidas, desde a perspectiva do foco de sua incidência no sentido de atracção e controlo de populações e comunidades;

. Reorganizou-se interna e externamente, procurando voltar a ganhar a iniciativa perdida principalmente a Leste (ZML para os dispositivos colonial-fascistas em Angola);

. Utilizou-se movimentos rápidos em intervenções utilizando a Força Aérea, as Forças Especiais (comandos, paraquedistas e fuzileiros) articuladas com apoios terrestres, os apoios aéreos, os apoios fluviais, as novas comunicações e as Forças Auxiliares aferidas ao terreno e à tipologia dos desafios e riscos;

. Vulnerabilizou-se a produção alimentar indispensável à logística da guerrilha e comunidades afectas, obrigando à penúria, ao abandono dos lugares escolhidos para sua implantação, à fuga, ou à sua captação em novos aldeamentos que em termos de contrapropaganda passaram a ser as “sanzalas da paz”;

. Desenvolveu-se a rede de estradas nas áreas afectadas pela pressão da guerrilha (auxílio dos Fieis catangueses e ds Leais, zambianos barotses, no Leste), assim como construíram-se novas pistas para a aviação (na ZMN os terreiros do café permitiam pistas para a aviação tática com a utilização de aviões ligeiros e helicópteros).


5- Na 1ª Região Política e Militar do MPLA (Dembos e vale do Zenza) constatei a asfixia por via de minha actuação no destacamento de Santa Clara ao nível de um pelotão da CCAÇ 1204, entre 1971 e 1974 (provas recolhidas em função dos Destacamentos Deolinda e Tala Hady, da Zona C da 1ª RPM, segundo mobilizações das aldeias do Combe, do Esso e do Cage-Mazumbo):

. Exaustão da capacidade tática operativa acompanhada de exaustão dos combatentes e comunidades civis nas matas, até ao ponto de ficarem entregues à sua sorte, à miséria, à fome e à compulsiva desnutrição e morte das crianças;

. Impossibilidade de ligação ou conexão da 1ª RPM aos vínculos do MPLA no interior (Luanda) e no exterior;

. Infiltrações de agentes dos SCCIA, da PIDE/DGS e dos Serviços de Informações Militares na direcção da CCAÇ 1204, sobre alvos civis da área do café (agentes entre fazendeiros e comerciantes) e sobre os Destacamentos da Zona C da 1ª RPM localizados junto à margem direita do rio Zenza, a fim de diluir os restos da guerrilha;

. Pressões de quadrícula, contrapropaganda e acção psicológica sobre as unidades de mobilização angolana (no caso da 1204 proveniente do Regimento de Infantaria nº 21 sedeado no Huambo), com emprego de forças muito superiores de mobilização portuguesa e Serviços de Inteligência Militar, a fim de as controlar de perto;

. Destruição das lavras que garantiam a logística dos Destacamentos da 1ª RPM;

. Caça aos guerrilheiros nas áreas das fazendas a fim de tentar capturá-los, assim como aos civis afectos que procurassem comida para sustento nas matas (diluição da ameaça, tirando proveito da asfixia);

. Malha muito apertada da quadrícula militar de ocupação, impedindo ao máximo a circulação dos diversos tipos de ameaça;

. Malha muito apertada dos SCCIA, por via das autoridades político-administrativas e seus enquadramentos, desenvolvendo os planos “aliciantes” de “sanzalas da paz”;

. Malha muito apertada de fortins (kibutz) nas fazendas de café e nas aldeias sob controlo colonial-fascista, fortins adstritos à OPVDCA, à Guarda Rural, assim como às unidades paramilitares de Tropas Especiais de recrutamento local, algo que passou a constituir uma arma psicológica fluente, em termos de contrapropaganda;

. Malha muito apertada da PIDE/DGS (Caxito, Quibaxe, N’Dalatando e Catete), com múltiplas redes de agentes nas fazendas, nos comércios a retalho, nas populações e dentro das matas (infiltrando a guerrilha e provocando a sua neutralização até à asfixia, diluição e extinção);

. Malha muito apertada de estradas rurais (aproveitando as fazendas de café) e de pistas de aviação para aeronaves de pequeno porte (na extensão dos terreiros das fazendas de café);

. Construção de estradas militares (“Via Láctea”, “Centauros” e picada Conda, a norte e a sul das margens do rio Zenza), possibilitando o movimento militar discreto, a instalação de peças de artilharia, o movimento das pequenas aeronaves (entre elas as Dornier 27 e as Auster, para além dos helicópteros Alouette III), entre muitas outras acções operativas; as estradas militares assim construídas não vinham identificadas nos mapas e eram descritas como “picadas de caça”;

. Trabalho ideológico intenso em termos de acção psicológica, propaganda e contrapropaganda sobre todas as comunidades e por via de todo o tipo de enredos, influências, manipulações e conveniências.


6- A velocidade dos acontecimentos e a intensidade da luta armada, assim como o empenhamento político-diplomático do próprio MPLA, impediram em parte ao muito diminuto fulcro dos que seguiram o espírito e a letra do pensamento dialético e estratégico de Agostinho Neto, a prestar uma atenção maior aos contraditórios internos, desde a Revolta de Viriato da Cruz, à eclosão do “nitismo” que desencadeou a tentativa do sangrento golpe de estado a 27 de Maio de 1977, no sentido de tentar evitar cisões, ou chegar-se a uma melhor plataforma interna de entendimento, apaziguamento e de gestação de consensos.

O “nitismo” subsistiu oportunisticamente, em função do contraditório com tensões próprias entre o Não Alinhamento Activo e o Pacto de Varsóvia (com a URSS à cabeça), abrindo-se a díspares correntes que integravam desde factores inerentes a revoltas anteriores no MPLA, a pequenas correntes urbanas indexadas ao trotsquismo, a Enver Hoxa e a outros…

Tirou discretamente partido de alinhamentos próximos ao “spinolismo” (lembre-se a tese neocolonial de “Portugal e o Futuro”) e a correntes “à sua direita” (lembre-se a expressão do ELP e dos que desencadearam entre 1975 e 1977 o “verão quente” em Portugal, como haviam integrado também a FNLA, sob a égide do oficial comando Santos e Casto, no âmbito da operação Iafeature, a Operação da CIA contra Angola, sob mando de Henry Kissnger, sincronizada com a Operação Savannah do “apartheid”, numa “border war” que afinal chegava a Luanda).

O “nitismo”, enquanto contraditório interno do MPLA que se abriu em osmose a contraditórios anteriores e se foi radicalizando logo a seguir ao 11 de Novembro de 1975 até desembocar na sangrenta tentativa do golpe de estado do 27 de Maio de 1977, é a prova mais provada de que o pensamento dialético e estratégico de Agostinho Neto havia sido todo ele elaborado fora do âmbito da Guerra Fria, fugindo também aos conceitos dilectos e até hoje em vigor da Organização do Tratado do Atlântico Norte (NATO)!


7- Face ao pensamento dialético e estratégico de Agostinho Neto no estrito âmbito do Não Alinhamento Activo, os componentes do Exercício Alcora tiraram partido das leituras típicas dos conceitos inerentes à NATO, no âmbito da Guerra Fria, tal como muitos dos seus “herdeiros” e “sucessores”.

É assim que, não se levando em conta o insuficiente fornecimento de armamento na época (sobretudo material de guerra antiaéreo), alguns proclamaram “a vitória militar no Leste”, quando já haviam perdido a nível internacional e a nível de suas próprias universidades, a batalha política na tentativa de romper o profundo isolamento internacional a que já estavam votados, ainda que o “Le Cercle” fosse utilizado pela NATO, no âmbito de suas próprias “redes stay behind”, como último “balão de oxigénio” e bastião de rectaguarda internacional (que seria por exemplo importante enquanto manancial e instrutivo para o desencadear da Operação Condor na América Latina ed golpe sangrento de Pinochet no Chile, a 11 de Setembro de 1973)!

O recuo da guerrilha n leste de Angola, não diminuiu a capacidade operativa do MPLA, conforme atesta aliás a Proclamação das FAPLA, a 1 de Agosto de 1974!

A pertinaz manutenção de fidelidade ao Movimento Não Alinhado, além desse recuo militar no leste (1970/1974) e a proliferação de revoltas internas (Revolta Activa, Revolta do Leste e Revolta de Chipenda), haveria de custar mais tarde o retardamento da vitória contra as South Africa Defence Forces (SADF) do regime do “apartheid”.

O “nitismo”, no espectro que comportou, foi também uma tentativa de que a luta contra o “apartheid” na África Austral tivesse levado outro rumo…

… “No terreno” e com efeito, só quando a superioridade aérea foi garantida em toda a Frente Sul durante a batalha de Cuito Cuanavale em 1987 e 1988 (que se desenrolou desde a margem esquerda do rio Cunene até à fronteira marcada pelos rios Cuando (afluente da bacia do Zambeze) e Cubango, foi possível, em função do golpe de mão da aviação de ataque em Calueque, levar finalmente o “apartheid” a uma mesa de negociações a partir da qual “foi ao tapete”, sem mais retorno!

A pírrica vitória militar no leste, uma “vitória” que politicamente não houve, continua a alimentar a visão “atlantista” da NATO (e sua imagética ainda à sombra dos conceitos de Guerra Fria), a visão “psicossocial” de saudosistas do passado colonial (alguns dos quais continuando a argumentar que “Angola é Nossa”, ainda que nos “novos” moldes de assimilação neocolonial e em função do capitalismo neoliberal) e a visão dos que têm sido dominantes nos governos que em Portugal se sucederam até hoje ao golpe do 25 de Novembro de 1975 (14 dias apos a data da independência de Angola)!...

Deliberadamente arrasta-se assim, “limpando a história” e levando até onde for possível, a visão camoniana da “dilatação da fé e do império”, (tão oportuna como “alimento” ideológico em pleno século XXI), uma “vitória” colonial-fascista que nunca houve, também para que hoje prevaleça a leitura de conveniência à assimilação no âmbito da globalização neoliberal e neocolonial, via NATO, via AFRICOM e via “transversalidades” da Organização das Nações Unidas, ao sabor do império da hegemonia unipolar e seus vassalos da “civilização judaico-cristã ocidental”!

FIM

Martinho Júnior -- Luanda, 9 de Fevereiro de 2020

Imagens da Frente Leste do MPLA (3ª e 4ª RPM) e a primeira bandeira de Angola independente, içada a 11 de Novembro de 1975.

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