quinta-feira, 13 de fevereiro de 2020

Angola | O fim de um sonho


Os portugueses já começaram a fugir de Angola e nenhum angolano voltará a investir em Portugal, dado o clima de suspeição que se criou

José António Saraiva | Sol | opinião

No tempo em que era diretor do Expresso, comecei a defender a ideia de que o futuro de Portugal passava em boa parte pelo aproveitamento da relação com o Atlântico e pelo intercâmbio com as nossas ex-colónias de África.

Na Europa, Portugal é um país irrelevante. A sua importância decorre de ter uma extensíssima área marítima e poder ser uma porta de entrada na Europa dos países africanos de língua portuguesa, designadamente Angola e Moçambique.

Depois de escrever vários artigos sobre o assunto, fiz dele o tema central do  discurso que pronunciei em Madrid, perante o Rei Juan Carlos, na cerimónia de receção do prémio Luca de Tena. Aí, disse que Portugal e Espanha não podiam deixar de aproveitar o património histórico riquíssimo que resultava das relações de séculos com povos situados noutros continentes – em África ou na América. O fio da história não se corta com uma tesoura. Saradas as feridas da descolonização, era tempo de aproveitar o facto de termos com outras nações uma língua comum, num caso o castelhano, noutro caso o português.


Ao mesmo tempo, tentei convencer Francisco Pinto Balsemão a fazer uma edição lusófona do Expresso, começando por Angola, à semelhança, aliás, do que o El País já fazia com as ex-colónias espanholas. Curiosamente, na última conversa que tivemos, quando ele ainda admitia que eu pudesse ficar no grupo, propôs-me exatamente a tarefa de lançar as bases da internacionalização do Expresso, avançando para os países onde se falava o português.

Depois de fundar o SOL, eu e as pessoas que me acompanharam mantivemos a chama acesa. E quando acionistas angolanos entraram no capital do jornal – após a ‘deserção’ do BCP – essa oportunidade surgiu. Na proposta que a Newshold fez para a aquisição de ações do SOL constava uma alínea que previa a venda em Cabo Verde, Angola e Moçambique, com edições próprias nos dois últimos países. 

E assim aconteceu. Dentro de pouco tempo o SOL abria delegações em Angola e Moçambique e vendia-se em Cabo Verde.

E enquanto isto acontecia, dezenas de milhares de portugueses emigravam para Angola, a um ritmo como nunca se tinha visto. Era uma nova terra de oportunidades. E, simultaneamente, os angolanos com posses começaram a fazer de Portugal a sua segunda pátria, vindo cá passear, tratar-se em caso de doença, fazer compras, investir. 

Os portugueses levavam para Angola o know-how que lá faltava, os angolanos traziam para cá o capital que nos faltava. Em vez de irem para outros lugares ou investirem em negócios escuros, investiam em Portugal às claras, em negócios que criavam riqueza e emprego, e ajudavam ao crescimento da economia.

A proveniência dos dinheiros era muitas vezes duvidosa? Era. Como é na maior parte (senão na totalidade) dos países de África. Com uma diferença: esses dinheiros davam aqui origem a investimentos ‘normais’. E a experiência que os empresários angolanos adquiriam nesses negócios, e mesmo algum capital que acumulavam, acabava por ser um benefício para o seu país.

Por outro lado, a presença de portugueses em várias cidades ajudava Angola a ser um país mais aberto e transparente, contribuindo a olhos vistos para a sua democratização. Assisti a esse processo. 

Ora, com esta guerra lançada por João Lourenço contra a família de José Eduardo dos Santos, tudo isto vai acabar. Os portugueses já começaram a fugir de Angola e nenhum angolano voltará a investir em Portugal, dado o clima de suspeição que se criou.

O meu sonho de Portugal como um país atlântico, tendo com Angola relações abertas, criando um espaço de língua portuguesa onde todos poderiam sair a ganhar, acabou. Angola vai fechar-se ao exterior, porque é assim que acabam todas as lutas de poder. E a abertura iniciada por Eduardo dos Santos vai andar para trás: dentro de pouco tempo haverá ali provavelmente uma ditadura igual ou parecida com as que existem na maioria dos estados africanos.

O idealismo acaba frequentemente em tragédia. Quando se destrói um sistema, é preciso ver as alternativas. E a alternativa em Angola é o quê? Uma democracia perfeita, com a economia e a justiça a funcionarem às mil maravilhas, com políticos impolutos apenas votados à causa pública? Ou um regime de força, decorrente do esmagamento de uma elite poderosa centrada num Presidente que, bem ou mal, tinha alcançado a paz e garantido a ordem? 

- Publicado em 6 de Fevereiro 2020 no SOL

- Cortesia de Alberto Monteiro de Castro para PG

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