Podíamos estar a celebrar oito
variantes ortográficas, mas em vez disso vamos somando erros.
Nuno Pacheco | Público | opinião
Mesmo confinados, não nos faltam
datas para comemorar. Primeiro foi a Páscoa, depois
o 25 de Abril, na sexta-feira será o 1.º de Maio, domingo o Dia da Mãe e na
próxima terça-feira, dia 5, o Dia Mundial da Língua Portuguesa, essa outra mãe que nos
calhou. Como de costume, vão tecer-se louvores ao Camões (não a Luís Vaz, mas
àquele que despudoradamente usa o seu nome), brandir-se mapas e números,
organizar-se saraus e discursos, agora forçosamente virtuais.
Mas nada disso pode ocultar algo
que não é propriamente penúria, até porque a língua vai resistindo a tudo
(fome, privações, maus tratos) e há por aí muita gente de todas as idades a
falá-la e a escrevê-la com conhecimento, criatividade e brio; mas é um estado
de ignorância e desleixo, muito pouco saudável, que a vai apoucando e corroendo
até roçar o analfabetismo.
Nos mais diferentes meios
(jornais, revistas, televisão, livros, Internet), a aplicação acéfala do
chamado Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa (AO90) continua a dar coisas
como (e todas elas estão documentadas, com origens e datas) “artefatos” por
artefactos, “estupefato” por estupefacto, “impato” por impacto, “impatante” por
impactante, “pato” por pacto, “ojetivo” por objectivo, “corruto” por corrupto,
“convição” por convicção, “execto”, “excepo” e “exeto” por excepto, “exeção” ou
“excessão” por excepção, “inteletual” por intelectual (a mais recente prova
desta imbecilidade foi estampada no oficialíssimo Diário da República n.º
72/2020, Série II de 13/4/2020, no Aviso n.º 6075/2020), para já não falar na
aplicação a Portugal, contra as indicações do próprio AO90, da norma escrita
brasileira, escrevendo-se e até dizendo-se “fato” por facto, “contato” por
contacto, “seção” por secção ou “conosco” por connosco, isto apesar de a
rubrica Bom Português da RTP garantir que é “connosco” que se escreve em Portugal.
Se bem se lembram, o AO90
gabava-se de conseguir “unificar ortograficamente cerca de 98% do vocabulário
geral da língua”, segundo a nota explicativa que o acompanhava. Só que tal
frase ignorava um pequeno pormenor: mesmo que fosse possível unificá-lo
graficamente, o vocabulário difere no uso e no sentido não só em Portugal e no
Brasil (onde as diferenças neste campo são enormes) mas também nos países que
começaram a moldar a língua ao seu jeito. Se a unificação ortográfica é, já de
si, uma quimera retrógrada – porque línguas como o inglês, o francês ou o espanhol
admitem tantas variantes ortográficas nacionais quantos os países que as usam
–, a unificação vocabular é uma tolice sem nexo. Nisto, o brasileiro Evanildo
Bechara, um dos bonzos do AO90, foi claro, numa entrevista que deu ao Expresso em
2012. Disse ele: “Não tem sentido uniformizarmos o vocabulário comum e os
portugueses chamarem à capital da Rússia Moscovo e o Brasil chamar Moscou.” Mas
chamam e escrevem, ainda hoje. Ao mesmo tempo, Bechara disse este disparate:
“Em qualquer área em que seja usada, tanto no Brasil, como em Portugal ou na
África, a língua portuguesa será grafada de uma só maneira. Isso significa que
um livro editado em português pode correr todos esses países, porque a
ortografia é a mesma.”
Não, não é a mesma, há o
facto-fato, bebé-bebê, contacto-contato, amnistia-anistia, secção-seção,
libertar-liberar, casino-cassino, registo-registro, planear-planejar, além das
mil e uma palavras que no Brasil e em Portugal querem dizer coisas diferentes.
Isso chama-se evolução. A língua foi crescendo e modificando-se consoante a
cultura dos seus utilizadores. Ora isto, em lugar de ser usado como trunfo e
sinal de riqueza, é aplainado por um capricho retrógrado e infame. Sim,
podíamos estar a celebrar o facto, historicamente merecido, de termos neste
Dia Mundial da Língua Portuguesa oito variantes vocabulares e
ortográficas, que juntas fariam ainda mais forte o idioma no seu todo. Porém,
na miséria que nos coube, vamos passar esse dia a ouvir discursos inflamados e
a ler novos erros fomentados por um acordo que se transformou numa descabelada
caça às consoantes. Seguindo a sugestão de “escrever como se fala”, ainda
iremos ler “runiões”, “tamos”, “competividade”, “óvio”, “curdenação”, “mnistro”
ou “custume”. É só esperar.
Na madrugada do 25 de Abril de
1974 houve um discurso decisivo para conquistar as tropas em Santarém. Foi
feito por Salgueiro Maia e ele resumiu-o assim no seu livro Capitão de
Abril (Editorial Notícias, 1997, pág. 87): “Declarei que havia várias
modalidades de Estados: os liberais, os sociais-democratas, os socialistas,
etc., mas nenhum pior do que o Estado a que chegáramos, pelo que urgia acabar
com ele.” Pois também na língua portuguesa, espalhada por vários Estados e
neles enraizada, há o estado indecoroso a que chegámos. Acabemos com ele.
Aliás, há um precedente vindo de
dentro. Quando se acede ao Instituto
Internacional da Língua Portuguesa (IILP) e se tenta entrar no dito
Vocabulário Ortográfico Comum (VOC), recebe-se esta mensagem de alarme: “Este site não
é seguro. Isto poderá significar que alguém está a tentar enganá-lo ou a roubar
qualquer informação que envie para o servidor. Deve fechar este site imediatamente.”
É isso, fechem-no. E festejemos a rica diversidade desta língua que nos é
comum.
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