terça-feira, 21 de julho de 2020

Fundos UE | Líderes fecham acordo, Portugal vai buscar 45,1 mil milhões de euros


Os líderes do 27 aprovam o Fundo de Recuperação de 750 mil milhões de euros e o próximo Quadro Financeiro Plurianual para 2021. Portugal vai buscar 15,3 mil milhões ao primeiro e 29,8 mil milhões ao segundo. Costa fala num “enorme desafio” de execução e numa oportunidade que “não se pode desperdiçar”. Mas falta ainda o carimbo do Parlamento Europeu.

O acordo chegou às 5h31 da manhã desta terça-feira, em Bruxelas. O presidente do Conselho Europeu anunciava o "deal" na rede social Twitter. Após quatro dias de intensas negociações e braços-de-ferro, no arranque do quinto dia os líderes dos 27 selavam finalmente o próximo Quadro Financeiro Plurianual (QFP) e o novo Fundo de Recuperação.

O QFP vale 1 bilião e 74 mil milhões de euros e é para investir entre 2021 e 2027. Já o Fundo tem 750 mil milhões de euros para executar até 2026, mas a aprovação de projetos (compromissos) tem de ficar toda definida nos próximos três anos.

O presidente do Conselho Europeu não tem dúvidas de que "este é um bom acordo" e "um acordo forte". Na conferência de imprensa final, deixou a promessa de que esta não seria uma "decisão virtual", mas que teria um "impacto positivo" e "à altura do desafio" face a um enorme recessão e a uma pandemia que já tirou a vida a 600 mil pessoas.


PORTUGAL COM 45 MIL MILHÕES EM SUBSÍDIOS

"O passo mais importante é, pela primeira vez, termos assumido em conjunto esta emissão de dívida para financiar um programa de recuperação (...) de dimensão suficientemente robusta", afirmou António Costa aos jornalistas, no final do encontro.

Dos 750 mil milhões de euros, 390 mil milhões são para transferir a fundo perdido para os países e 360 mil milhões são empréstimos. No desenho inicial eram 500 mil milhões em subvenções, mas na negociação, e por pressão dos países nórdicos, cerca de 20% desse valor passou a ser a crédito.

O corte fez desaparecer alguns programas de gestão centralizada pela Comissão Europeia - ligados à saúde e apoio às empresas -, mas os envelopes nacionais foram praticamente poupados. Portugal entrou para a negociação com 15,5 mil milhões e saiu com 15,266 mil milhões em subvenções, a que se juntam 10,8 mil milhões em empréstimos. Este último valor ainda poderá aumentar, uma vez que a fatia global de empréstimos também aumenta.

Ao QFP, Portugal vai buscar mais 29,8 mil milhões de euros, entre verbas da coesão, agricultura e outros programas como o novo Fundo de Transição Justa ou as pescas.

AGRICULTURA COM CORTES, COESÃO AGUENTA-SE

António Costa sublinha uma negociação do Orçamento Comunitário "difícil", com enormes pressões para se encolher o bolo global, devido à saída do Reino Unido, um dos principais contribuintes líquidos. Ao mesmo tempo, o orçamento comunitário passou a ter também novas prioridades a financiar - como a segurança e defesa, o ambiente ou digital - que concorriam com as verbas da agricultura e coesão (que continuam a ficar com as maiores fatias do orçamento).

De acordo com o primeiro-ministro, os principais objetivos eram dois: "a manutenção do nível de financiamento da política de coesão e no segundo pilar da Política Agrícola Comum (PAC)". O primeiro foi conseguido. O segundo quase.
O envelope da coesão chega mesmo a aumentar 1% quando se somam as verbas do Quadro Financeiro Plurianual para os próximo sete anos (22,88 mil milhões de euros) e os 1,85 mil milhões de reforço do programa ReactEU, que vêm do Fundo de Recuperação. Se só se tiver em conta o QFP há um corte em relação ao atual período, mas que acaba compensado com a outra verba destinada à coesão (ainda que esta tenha um prazo mais curto de afetação, até 2023).

É dentro deste pacote conjunto da coesão que surgem 300 milhões de euros para o Algarve. A verba foi negociada durante o fim-de-semana e é dirigida a uma região "onde o desemprego tem subido de uma forma mais dramática", explica o primeiro-ministro. O objetivo é ajudar a compensar o forte impacto negativo que a pandemia causou no turismo.

O montante será destinado "integralmente" a um programa específico "para apoiar a economia, melhorar as suas infraestruturas e fazer também os investimentos necessários no setor da saúde" da região algarvia.

Quanto ao primeiro pilar da Política Agrícola Comum, nos pagamentos aos agricultores há um corte de 9%. As verbas passam de 5,38 mil milhões para 4,8 mil milhões.

Já no segundo pilar, do desenvolvimento rural, a redução é menor (5%), passando o montante de 4,12 mil milhões para 3,8 mil milhões, dos quais 329 milhões vêm do Fundo de Recuperação. "Ficamos praticamente ao mesmo nível de financiamento do quadro comunitário, quando ao segundo pilar", argumenta o primeiro-ministro

António Costa fala ainda de um aumento de 35 milhões de euros "para o financiamento dos programas das regiões autónomas dos Açores e da Madeira". Já o Fundo Europeu dos Assuntos Marítimos e das Pescas (FEAMP) sofre um corte e passa de 400 milhões para 336 milhões para sete anos.

Durante as negociações, outra rubrica sacrificada é a do Novo Fundo para a Transição Justa (FTJ), para apoiar à transição energética das regiões. A Comissão tinha proposto para Portugal 465 milhões de euros, mas no final da negociação ficam 320 milhões. O FTJ foi um dos envelopes em que se cortou para transformar subvenções em empréstimos.

A SEGUNDA CIMEIRA MAIS LONGA DE SEMPRE

Se o encontro tivesse demorado mais 40 minutos teria batido o recorde da cimeira europeia mais longa de que há registo. Foi em Nice, em 2000, para negociar o tratado com o mesmo nome. Os líderes evitaram o recorde, mas falam num momento histórico.

"Durante os próximos 10 anos, até ao final de 2029, Portugal vai ter a enorme responsabilidade de concluir a execução de mais de 12 mil milhões de euros do atual quadro Portugal 2020 - que ainda está em execução -, de executar os 15 mil milhões de euros do programa de recuperação e ainda os quase 30 mil milhões de euros do próximo quadro financeiro plurianual", somou António Costa.

A quantia chega a 57,9 mil milhões de euros que Portugal deverá receber da Europa ao longo da próxima década. Costa diz que é uma responsabilidade para todos - agentes económicos, instituições públicas, administração pública - "gerir bem estes recursos e não desperdiçar esta oportunidade".

Susana Frexes, correspondente em Bruxelas | Expresso

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