sábado, 28 de novembro de 2020

Brasil | Segundo turno testa novas forças da esquerda

#Publicado em português do Brasil

Boulos aparece atrás de Covas em São Paulo, mas conquista protagonismo inédito para o Psol. Em Porto Alegre, Manuela D'Ávila tenta capitalizar vitrine de 2018. Disputa no Recife divide esquerda.

Após o avanço de velhos partidos de centro e direita e o fracasso das candidaturas bolsonaristas no primeiro turno, os olhos se voltam no segundo turno para o desempenho de candidatos que podem representar uma nova cara para a esquerda: mais jovem e não ligada necessariamente ao PT.

O principal nome em evidência é o de Guilherme Boulos (Psol), de 38 anos, que disputa o segundo turno com Bruno Covas (PSDB) em São Paulo. A última pesquisa Datafolha aponta que Boulos permanece atrás de Covas, com 46% dos votos válidos, contra 54% do tucano. No entanto, o psolista conseguiu diminuir a desvantagem pela metade nas últimas duas semanas, acendendo alertas na campanha do PSDB.

Em Porto Alegre, Manuela D'Ávila (PCdoB), de 39 anos, disputa o segundo turno com Sebastião Melo (MDB). Ele aparece à frente, com 54% dos votos válidos, segundo pesquisa Ibope. Manuela tem 46%.

No Recife, há um caso chamativo de disputa dentro do próprio campo da esquerda e de um mesmo clã político, com Marília Arraes (PT) e o deputado federal João Campos (PSB), que são primos. Marília, de 36 anos e neta do ex-governador Miguel Arraes, aparece com 52% dos votos válidos, segundo o Datafolha. Já Campos, de 27 anos e filho do ex-governador Eduardo Campos e bisneto de Arraes, aparece com 48%. A disputa tem sido acirrada, com Campos apostando no antipetismo para derrotar Marília.

Em Fortaleza, a disputa envolve um candidato do clã Gomes, Sarto (PDT), que tem 60% das intenções de votos válidos segundo o Ibope, e Capitão Wagner (PROS), que tem 40% e é um dos poucos candidatos alinhados com o bolsonarismo na disputa do segundo turno nas capitais.

Em Belém, o Psol tenta conquistar a prefeitura com Edmilson Rodrigues, que soma 52% das intenções de votos válidos, segundo o Ibope, contra o Delegado Federal Eguchi (Patriota), outro candidato bolsonarista.

Boulos tenta virada e solidificar ascensão do Psol

São Paulo volta a ser palco neste ano de mais uma disputa acirrada entre forças de direita ou centro e a esquerda. Mas pela primeira vez tal disputa não contou com um candidato competitivo do PT desde a volta das eleições diretas para prefeito em 1985. O petista Jilmar Tatto terminou o primeiro turno com 8,65% dos votos sem nunca ter decolado nas pesquisas. O papel de um candidato forte de esquerda acabou sendo assumido pelo psolista Guilherme Boulos, líder do Movimento de Trabalhadores Sem Teto (MTST).

A tomada do protagonismo pelo Psol em São Paulo também é vista como um teste para determinar o potencial de forças de esquerda não petistas em 2022 e contrapor o desgaste sofrido pelo PT nos últimos anos.

Em números, o Psol ainda é nanico em comparação com o PT, mas registrou uma trajetória ascendente no primeiro turno, ao contrário do "irmão mais velho". Enquanto a presença de petistas nos legislativos municipais caiu de 2.815 vereadores para 2.665, o Psol aumentou a presença de 56 para 89. O PT ainda ganhou 179 prefeituras no primeiro turno, contra 254 em 2016. O Psol passou de duas para quatro.

O resultado do segundo turno neste domingo deve demonstrar qual é o potencial de Boulos. Nos últimos dez dias, sua desvantagem contra Bruno Covas, atual prefeito da cidade, caiu pela metade, passando de 16 para oito pontos percentuais. Ele ainda conseguiu formar uma frente de apoio com o PT, PDT, PCdoB, Rede Sustentabilidade, PCB e Unidade Popular (UP), no que foi classificado por um deputado petista como uma "semente" para a disputa presidencial de 2022.

Apesar dos números em ascensão, o histórico das eleições paulistas não é favorável. Desde 1988, quando as eleições municipais passaram a contar com dois turnos, só um candidato conseguiu uma virada em relação aos resultados do primeiro turno: Fernando Haddad (PT) em 2012, que havia ficado pouco atrás de José Serra (PSDB).

Mas neste ano atípico de pandemia, outros fatores podem desempenhar um papel decisivo. Com sua vantagem diminuindo, a campanha de Covas vem acendendo o alerta para o risco de alta abstenção. No primeiro turno, ela já havia sido alta na capital paulista, com 29,3% dos eleitores não comparecendo, seja por fatores como desinteresse ou a pandemia.

Covas tem uma vantagem ampla justamente sobre os eleitores mais velhos, que pertencem ao grupo de risco da covid-19. Segundo o Datafolha, o tucano conta com 61% das intenções de voto entre aqueles que têm mais de 60 anos. Já Boulos tem 61% nos eleitores entre 16 e 24 anos.

Nos últimos dias, a campanha paulistana também tem sido marcada por acusações, conforme o segundo turno se aproxima. A campanha de Covas foi acusada de compra de votos após aliados do prefeito terem sido filmados distribuindo cestas básicas em São Paulo, ao mesmo tempo em que um caminhão de som tocava um jingle da campanha tucana. Boulos também concentrou ataques no vice de Covas, Ricardo Nunes (MDB), que já foi acusado pela mulher de violência doméstica. 


Após vitrine de 2018, Manuela tenta conquistar capital gaúcha

Outra candidatura vista com atenção pela esquerda neste segundo turno é a de Manuela D'Ávila (PCdoB), que levou 29% dos votos em 15 de outubro. Ela disputa o segundo turno com Sebastião Melo (MDB), que teve 31%.

Manuela, assim como Boulos, é outra figura da esquerda não petista que ganhou projeção nas eleições presidenciais de 2018. Naquele pleito, ela retirou sua candidatura à Presidência e aceitou ser vice na chapa de Fernando Haddad (PT). A dupla perdeu para Jair Bolsonaro, mas ainda assim recebeu 47 milhões de votos no segundo turno.

No pleito da capital gaúcha, as posições se inverteram. O PT não lançou candidato e indicou o ex-ministro Miguel Rossetto como vice de Manuela. A exemplo de Boulos, que tem a ex-prefeita Luiza Erundina como vice, Manuela também conta com um vice que representa uma geração mais velha da esquerda.

Se ganhar, Manuela se tornará a primeira mulher eleita prefeita de Porto Alegre, e voltará a quebrar a velha alternância entre PDT, PT e MDB no comando da capital gaúcha, que já havia sido estremecida com a vitória de Nelson Marchezan Júnior (PSDB) em 2016.

Mas os últimos números apontam que Melo, um centrista veterano da máquina do MDB no Rio Grande do Sul, está à frente, com 54% dos votos válidos, segundo pesquisa Ibope. Manuela tem 46%.

Assim como Boulos, Manuela também nacionalizou a disputa na capital gaúcha, arregimentando apoio de artistas como Caetano Veloso, além de antigos presidenciáveis como Ciro Gomes (PDT) e Marina Silva (Rede). Melo, por sua vez, apesar de seguir a cartilha centrista, também tem apelado para o sentimento antipetista de segmentos do eleitorado. Seu vice, por sua vez, é Ricardo Gomes (DEM), um político ligado ao MBL, o movimento que foi um dos principais promotores do impeachment de Dilma Rousseff em 2016.

PT tenta se recuperar do fiasco no primeiro turno

O desempenho do PT no primeiro turno confirmou a tendência de perda de protagonismo que já havia sido observada em 2016. O partido não conquistou até agora nenhuma prefeitura entre as 100 maiores cidades do país. Os petistas ainda perderam 75 prefeituras nesta eleição em relação a 2016 e colecionaram vexames como a votação pífia de Jilmar Tatto em São Paulo.

No entanto, os petistas têm potencial para recuperação neste domingo. A sigla conta com 15 candidatos em disputas no segundo turno, o maior número entre os partidos do país. Entre essas cidades estão duas capitais: Vitória e Recife.

Pesquisas mostram que as duas disputas seguem acirradas. No Recife, Marília Arraes (PT) tem 52% das intenções de voto, contra 48% de João Campos (PSB). Em Vitória, João Coser (PT) está pouco atrás do Delegado Pazolini (Republicanos), com 43% contra 48%. O partido ainda está no segundo turno de cidades como Guarulhos (SP), Juiz de Fora (MG) e São Gonçalo (RJ).

Em 2016, o PT só conseguiu posicionar candidatos em sete disputas de segundo turno – e perdeu todas. Na eleição municipal anterior, o partido também só conquistou um munícipio entre os 100 maiores do país: a capital do Acre, Rio Branco.

Jean-Philip Struck | Deutsche Welle 

Sem comentários:

Mais lidas da semana