quinta-feira, 8 de abril de 2021

ERA BOMBÁSTICO MAS NÃO FAZIA MAL A UMA MOSCA

Curto do Expresso com o assinalar da morte de Jorge Coelho, um conquistador de amizades que por vezes era mais que um afável bruto no dizer. Até mesmo na Assembleia da República, nas suas intervenções, demos por isso. Mas conviver com ele, conhecê-lo, representava uma agradável surpresa, um prazer, uma honra. Um homem com H maiúsculo, dos que são cada vez mais raros na vida e na política.

O Curto abre com aquela perda da família, de Portugal e da humanidade. Ricardo Costa traz o infortúnio ocorrido a Jorge Coelho à prosa. Deixemos as suas palavras explanarem-se na ténue recordação do homem que inesperadamente baqueou num acidente de viação. Abalou cedo. Ficamos tristes.

MM | PG

Bom dia este é o seu Expresso Curto

Hoje, o título só podia ser este: Como vai o meu caro amigo?

Ricardo Costa | Expresso

Jorge Coelho ficará conhecido como o grande bulldozer do PS, o melhor organizador político, o ministro que se demitiu para dar o exemplo, o comentador televisivo, o empresário que investiu na sua terra, entre muitas outras coisas de uma vida intensa na política e na gestão. Tudo isso é bastante evidente. Menos óbvio é que alguém que nunca foi um grande orador ou um grande mestre das ideias políticas seja recordado pelas suas frases. Mas poucas horas depois da sua inesperada morte, as frases de Jorge Coelho andam de boca em boca.

É claro que a pouco subtil “quem se mete com o PS, leva!” não deixará de ficar na história. Ou a do dia em que, frente a uma multidão viseense, decretou ali mesmo e sem a ajuda do médico-legista “a morte do Cavaquistão!”. A lista é grande e será desfiada nos próximos dias, quase sempre com frases encerradas por uma exclamação. Mas seja por que ponta se pegue desse novelo, lá estará, à frente de todas, aquela com que arrancava todos os telefonemas:

“Como vai o meu caro amigo?”

Parece pouco para falar de alguém que acabou de desaparecer, ao fim de tantos anos na vida pública. Mas não é, porque como bem lembrou ontem António Lobo Xavier, a principal característica de Jorge Coelho é a de ter sido sempre um beirão. Enquanto militante, dirigente, ministro, ex-ministro, comentador, gestor, empresário, nunca procurou apagar essas raízes, que eram o seu cartão de visita, melhor e mais genuíno que qualquer página do Linkedin.

Talvez por isso, uma das suas últimas batalhas tenha sido a de um movimento de defesa do Interior e o seu grande desafio profissional fosse a queijaria industrial que fundou em Mangualde, seu concelho natal. Fosse em São Bento, num gabinete empresarial, num qualquer corredor ou no local mais recôndito do distrito de Viseu, lá vinha sempre o “Como vai o meu caro amigo?”, muitas vezes seguido do “que manda?” ou na variação "Então o que manda o meu caro amigo?”

Parece pouco? Leia estes dois textos que assinalo de seguida e logo tirará as dúvidas

Jorge Coelho, o ‘bulldozer’ socialista que foi radical e moderado e amigo do seu amigo (e até dos adversários), um excelente retrato de Vítor Matos.

“Ora Viva!, Jorge Coelho”, um texto em que Ângela Silva explica porque era um político raro

OUTRAS NOTÍCIAS

A novela da vacina da AstraZeneca teve ontem um dia em cheio. Primeiro, a Agência Europeia de Medicamentos confirmou a ocorrência de episódios raros de formação de coágulos sanguíneos, mas explicando que os "benefícios continuam a superar os riscos", que, aliás, são mesmo muito reduzidos.

De seguida, Marta Temido convocou uma reunião de emergência para coordenar posições sobre a administração da vacina, mas a videoconferência de ministros da Saúde da União Europeia voltou a deixar claro que isso é impossível. Cada um segue por si.

Como era inevitável, vários países anunciaram entretanto novas restrições por idades. A Bélgica, por exemplo, decidiu que só a vai administrar maiores de 56 anos e a Itália a maiores de 60, tal como tem estado a fazer a Alemanha. Já França tem a administração limitada a maiores de 55 anos. Espanha seguiu a bitola dos mais de 60.

Marta Temido lembrou que a decisão deve ser técnica e não política. Mas já se percebeu que são palavras levadas pelos vários ventos europeus, que correm em muitas direções, enquanto os diferentes governos tentam readaptar a logística da vacinação a estas novas regras.

A União Europeia está agora a braços com um sofagate (isso mesmo, de sofá). A Presidente da Comissão Europeia foi apanhada de surpresa quando não lhe foi atribuída uma cadeira durante a reunião com os presidentes da Turquia e do Conselho Europeu, em Ancara. Von der Leyen teve de se sentar no sofá, pois só Erdogan e Charles Michel tiveram direito a cadeiras. O incidente já percorre as chancelarias europeias, com o seu nome de guerra, e promete aquecer as relações entre Bruxelas e a Turquia.

O Presidente do Conselho, Charles Michel, foi fortemente criticado por ter “colaborado” com a encenação turca, mas já se veio defender, dizendo que a situação embaraçosa decorreu de uma interpretação do protocolo turco e que naquele momento não havia nada a fazer. Mais um embaraço para Michel, a quem não se antevê a renovação do mandato à frente do Conselho Europeu.

O nome de Suzana Garcia para a Amadora foi anunciado ontem pelo PSD. José Silvano, secretário-geral do partido, defende que as declarações polémicas da candidata foram analisadas e que "não põem em causa os valores essenciais do PSD", sublinhando que o partido é contra a castração química e que esta candidatura em nada alterará essa posição.

A advogada e ex-comentadora televisiva do day-time, que tem estado no centro da polémica por alegadas aproximações ao Chega, vai ser cabeça de cartaz na Amadora, uma das câmaras mais importantes do distrito de Lisboa. O PSD não vê entraves: o nome da candidata foi aprovado na comissão política nacional por "unanimidade" e coordenador autárquico garante que declarações da candidata "não põem em causa valores essenciais do PSD".

Os dias dramáticos continuam a correr em Cabo Delgado. Os enviados da SIC e do Expresso a Moçambique – Luís Garriapa, Rafael Homem e Ricardo Marques - entraram esta quarta-feira num terreno de trauma e medo. Chegaram a Palma, a localidade martirizada há duas semanas pelos ataques de grupos armados, enquanto uma parte da população continua a fugir e outros regressam para tentar recuperar haveres. A reportagem sobre o rasto de destruição e morte merece ser vista.

Amanhã é conhecida a decisão instrutória da Operação Marquês. Às 14h, o juiz Ivo Rosa começará a leitura do resumo das mais de 6 mil páginas que escreveu. Em suma, dirá o que segue para julgamento e o que cai ou se, por alguma razão formal, cai tudo. Em abstrato, também poderia assinar de cruz a acusação, mas este juiz nunca o fez, tendo uma longa tradição de escrutinar ao milímetro o que o Ministério Público lhe apresenta.

As estratégias apresentadas pelas defesas são muito diversas, sendo talvez a da advogada Paula Lourenço (que representa Carlos Santos Silva) a mais importante, pela argumentação que pretende implodir o caso. A advogada remonta à sua origem – num processo administrativo de 2005 – e aos longos anos (o inquérito oficial só nasce em 2013) em que a investigação se fez fora do radar do processo crime, o que pode ser ilegal.

Se quer perceber as diferentes estratégias das defesas e as razões que podem levar à queda, parcial ou total, da Operação Marquês veja este trabalho do Diogo Torres na SIC. Depois, não esqueça que a decisão e Ivo Rosa será sempre alvo de recurso do Ministério Público para o Tribunal da Relação, onde costuma ter bastante sucesso.

O F.C. Porto tropeçou ontem na Champions, comprometendo a magnífica carreira que tem feito na prova. Perdeu por 0-2 contra o Chelsea, num jogo que decorreu em Sevilha. A recuperação parece difícil, face ao nível do adversário, mas o facto de o Porto ter feito um jogo de igual para igual permite a Sérgio Conceição acreditar que pode virar o jogo.

Pode ler aqui a crónica do Diogo Pombo, na tribuna, que explica muito bem porque é que a eficácia do Chelsea foi a grande marca do jogo de ontem.

Noutra frente, o Bayern de Munique perdeu em casa 2-3 com o PSG , com Mbapée a fazer mais um jogo estupendo. Hoje é dia de Liga Europa, com transmissão na SIC às 20h do Granada- Manchester United, onde Bruno Fernandes promete uma vez mais ser um dos jogadores decisivos.

FRASES

“Jorge Coelho era a personificação da vida e saber que ele morreu é algo que nem consigo aceitar”. António Guterres, secretário-geral da ONU e grande amigo de Jorge Coelho, em declarações à SIC Notícias

“Os Estados-membros da UE partilharam diferentes interpretações sobre as conclusões do [mais recente] relatório, tendo procurado, no entanto, clarificar com a EMA aspetos relacionados com a sua segurança”. Comunicado conjunto da EU sobre a Astra Zeneca

"A posição da candidata (Susana Garcia) que se conhece e que é pública em nada afeta os valores essenciais do PSD". José Silvano, secretário geral do PSD

“Sabemos que podemos reabrir a eliminatória”. Sérgio Conceição, treinador do F.C. Porto

O QUE EU ANDO A LER

Estou a terminar de ler Uma Longa Viagem com Vasco Pulido Valente, um livro de João Céu e Silva. A obra encerra um ano de conversas semanais entre os dois, numa fase em que VPV já estava bastante doente. Não tendo o fulgor das suas cónicas, resume bem o seu pensamento, profundamente marcado pelo conhecimento minucioso do nosso século XIX, a sua lente preferida para olhar o século XX e mesmo tempos mais próximos.

O trabalho de João Céu e Silva é sistemático, arrumando bem as conversas e deixando bem assentes o pensamento, a visão histórica e o pessimismo militante de Vasco Pulido Valente, num livro que vale muito a pena ler, porque revisita os nossos dois últimos séculos de história.

Aproveito para dizer que A Máquina do Ódio, da jornalista brasileira Patrícia Campos Mello – que recomendei há alguns meses -, já está editado por cá, na Quetzal. Sou suspeito – porque aceitei o convite de Francisco José Viegas para fazer o prefácio -, mas o testemunho da jornalista da Folha de São Paulo é avassalador, inteligente e imperdível para quem quer perceber o mundo da política e do jornalismo no tempo das redes sociais.

O Expresso publica esta semana uma entrevista da minha colega Christiana Martins a Patrícia Campos Mello. Recomendo a leitura da entrevista e depois do livro.

O jornal está amanhã nas bancas e pode começar por aí. Tem muita coisa para ler ao longo do primeiro fim-de-semana de desconfinamento e pode acompanhar online toda a atualização do Caso Sócrates e a análise sobre tudo o que se segue na Operação Marquês.

Sugira o Expresso Curto a um/a amigo/a

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