terça-feira, 11 de maio de 2021

O NOSSO LADO HUMANO

Um Curto para laudas de Raquel Moleiro, jornalista do Expresso. Uma profissão muito perigosa, muitas vezes aviltante, ao contrário daquilo que muitos julgam. Senão, pesquisem, e vejam lá quantos jornalistas foram assassinados este ano, nestes cinco meses que tem o ano de 2021.

Há poucos dias ocorreu de uma ‘vezada’ dispararem com sucesso contra dois jornalistas, um morreu logo e o outro estava há uns dias nos cuidados intensivos. A notícia anda por aí e aconteceu há poucos dias. Mas está na TSF esta: Dois jornalistas espanhóis e um irlandês assassinados no Burquina Fasso.

Como esta existem imensas notícias anualmente. Rebuscámos para aqui um exemplo. Demasiados exemplos são o que existem anualmente. A desumanidade sempre recaiu sobre os jornalistas. Por isto e aquilo… Sempre sem razão para agredir e muito menos assassinar os que exercem a profissão de jornalista.

No Curto de hoje Raquel Moleiro refere o regresso de tantos de nós ao lado humano. Desta feita a desumanidade foi um malvado vírus (que dizem, sem o provarem, proveniente de Wham, na China), a desumanidade associada ao vírus também está no Brasil de Bolsonaro, por exemplo. Triste exemplo. Tantos tristes exemplos existem… Modi, o criminoso da Índia, o Pedra de Gelo que aparenta colecionar tantos milhares de potes com cinzas de cadáveres. Cadáveres de indianos, seus compatriotas. Mas isso para tais pestes da humanidade/desumanidade muito pouco ou nada significa….

Adiante, deixemos a crueldade que invade gentes desumanas. Avancemos para o Curto. Não sem antes registar com alegria que há também jornalistas felizes por regressar à humanidade depois terem ficado muito quietinhos em desumano confinamento. Ou de trabalhar no “arame” correndo o sério risco de serem contagiados ao andarem por aí a recolher matéria de informação. Eles merecem que saibamos reconhecer e agradecer, ao contrário do que muitos de nós, plebeus do giro coartado consideramos. Assim como eles também milhões de outros profissionais merecem o reconhecimento e agradecimento. Os da saúde em primeiro plano, claro. E outros, muitos outros. Obrigado. Sejamos mais humanos depois desta pandemia. É o que se deseja.

Oficialmente declaramos aqui o final das divagações acima. “Mas o que é que consta no Curto?” Perguntarão. Pois. Simples. Vá ler. E pense, porque até nem dói nada retirarmos as teias de aranha aos cérebros.

Bom dia e siga. Não esquecendo que em Portugal a pandemia está a oferecer tréguas graças aos cuidados que ultimamente existiram. Não abandalhem nem se convençam que já passou. O covid-19 veio para ficar. Milhares de portugueses faleceram porque não foram tomadas as medidas adequadas, assim como os portugueses agiram de modo errado. Indiretamente, os descuidados, contribuíram para a morte de milhares de compatriotas. Haja consciência disso e não regressemos ao passado tenebroso das imensas mortes, agora a caminho das 20 mil. Voltemos ao nosso lado humano.

O Curto, para si, para todos nós, se o lermos.

MM | PG


Bom dia este é o seu Expresso Curto

De volta ao lado humano

Raquel Moleiro | Expresso

Bom dia,

Em largos meses, este é o primeiro curto que escrevo em que a covid-19 não se impõe como o tema do dia, premente pelas mortes, os internamentos, o confinamento, apagando a importância de tudo o resto. Em dias de acalmia pandémica, o foco de um país em luta contra o vírus minguou, fechou-se em Odemira, na cerca sanitária em redor de duas freguesias alentejanas. Mas até aí perdeu relevo perante a situação que ajudou a destapar: os milhares de imigrantes que alimentam a agricultura intensiva e com quem angariadores e senhorios alimentam o lucro e a ilicitude sem olhar a direitos humanos. Com o país no quadradinho verde do gráfico de António Costa, há tempo para discutir culpas de uma situação que existe há anos e se movimenta por várias geografias ao ritmo do calendário de colheitas. E não só na agricultura, mas também na pesca, seja no Alentejo ou no meio do Tejo. É mão-de-obra barata, estrangeira, a que acenam com a residência europeia de fácil obtenção. Por isso aguentam tudo - e há sempre quem aproveite.

Em Odemira, ontem já tinham sido identificados mais de 100 alojamentos para trabalhadores agrícolas, onde vivem mais de 300 pessoas, em situação de sobrelotação ou insalubridade. Recusando-se a comentar os pedidos da oposição para que o ministro Eduardo Cabrita se demita, Marcelo Rebelo de Sousa defende que a discussão se centre no problema da imigração. “Não pode ser viver à custa de, fingindo que eles, que realmente contribuem para aquilo que é o interesse de todos, estão a viver em condições piores do que vivem os nacionais dos próprios Estados, não é possível. É importante ter ficado patente isso, porque de vez em quando há quem diga que não precisamos dos imigrantes, fora com os imigrantes. É mentira”, considerou.

“Quem é que está a lucrar com aquilo? Aquelas pessoas são exploradas em nome do lucro de alguém”, questiona Catarina Martins, em entrevista à TVI, que vai apresentar uma alteração à lei para que, quando são detetadas situações de trabalho forçado, seja logo toda a cadeia chamada a responder em tribunal.

A líder do Bloco Catarina Martins recorda que em 2016 foi aprovada uma lei para responsabilizar os proprietários agrícolas que recorrem a trabalho forçado, mas o documento não chegou para estancar a exploração. E não é exceção. Em matéria de direitos humanos, a realidade consegue tantas vezes ultrapassar as malhas da legislação.

Hoje completam-se 20 anos exatos que foi assinada a convenção de Istambul, o tratado pan-europeu de prevenção e combate à violência sobre mulheres. Portugal foi o primeiro país a ratificá-la, mas isso não impediu que na última década 293 mulheres tenham sido mortas no país em contexto de intimidade, revela a soma dos relatórios anuais do Observatório de Mulheres Assassinadas da UMAR, onde ainda não se inclui 2021. Se se juntasse ao resultado as mortes conexas, os suicídios, as tentativas, os órfãos, os números atingiam valores ainda mais dantescos.

Só na última semana, um homem de 58 anos tentou atropelar a ex-companheira em Santiago do Cacém depois de oito anos de perseguições por não aceitar o fim da relação; em Resende, Rosa, de 41 anos, foi baleada pelo ex-marido e está internada em estado grave; um homem atropelou a ex-mulher numa rua de Elvas quando esta estava com os dois filhos; na Trofa, a GNR apreendeu 12 armas com que um empresário ameaçava de morte a ex-mulher de 33 anos... Há casos de violência doméstica todos os dias e em todas as regiões. Não olha a idades ou estratos sociais e deixa marcas para a vida quando não acaba em morte. Tal como um vírus. Já merecia um boletim diário para se acordar para a dimensão e evolução.

OUTRAS NOTÍCIAS

Morte sem homicídio. Que significado terá a palavra ‘intenção’ para a mulher de Ihor Homenyuk? Que valor ganhará lá longe, na aldeia ucraniana de Pidluby, aonde se fez viúva aos 37 anos, com dois filhos a cargo? Um dia, ia março de 2020 quase a meio, ligaram-lhe a dizer que o marido morrera no aeroporto de Lisboa, onde estava retido há dois dias por lhe ter sido negada a entrada no país. Depois a história mudou: falaram-lhe em agressões violentas, ele amarrado, abandonado no chão de uma sala fechada, sem câmaras, quando estava à guarda do Estado português. Recebeu uma indemnização antes mesmo do julgamento, e esta segunda-feira, quando o advogado lhe telefonou, após a leitura da sentença, Oksana ficou a saber que é possível haver morte sem homicidas. "Não ficou demonstrada a intenção de matar. Os arguidos abandonaram a vítima ao seu sofrimento, os arguidos mataram Ihor Homeniuk, mas não podem ser condenados por homicídio. Tiraram uma vida, arruinaram a vossa", afirmou o juiz Rui Coelho.
Os três inspetores do SEF foram, por isso, sentenciados por ofensa à integridade física grave qualificada agravada pelo resultado – os dois primeiros a uma pena de nove anos de prisão, e o terceiro a sete. Mas para que a culpa não se fique por aqui, o Juiz mandou extrair certidões para investigar o comportamento de todos os vigilantes, inspetores e dirigentes do SEF que intervieram no caso.

Ainda na esfera da Justiça, arranca hoje a fase de instrução do processo 'O Negativo'. Em causa está o negócio do plasma sanguíneo feito entre Lalanda e Castro e o ex-presidente do INEM Luís Cunha Ribeiro, que terá beneficiado a Octopharma em concursos públicos milionários. Há sete arguidos acusados de corrupção, recebimento indevido de vantagem, falsificação de documentos, abuso de poder e branqueamento de capitais, incluindo Paulo Lalanda e Castro, o ex-patrão de José Sócrates na Octopharma.

O que diz Vieira. Luís Filipe Vieira passou esta segunda-feira cinco horas na comissão parlamentar de Inquérito do Novo Banco, naquela que era uma das audiências mais aguardadas do processo. O empresário - não o presidente do Benfica -, dono da Promovalor e um dos principais devedores do Novo Banco, rejeitou que tenha beneficiado de quaisquer perdões de dívida na negociação dos créditos que o seu universo empresarial ali tem ou teve, e que estava perto de 400 milhões de euros. Por várias vezes disse que enviaria mais tarde, por escrito, o que lhe pediam os deputados. Mas perante a insistência lá se ficou a saber que rejeita que o seu único património seja apenas uma “casa para palheiro”, que não tem offshores, que até tem uma boa reforma, que o 'Rei dos frangos' comprou dívida sua após o Novo Banco vender com desconto de 90%, e que não sabe o "o que é que é isso de imparidades" – ele que fez questão de frisar que a sua vida “não foi criada com o BES ou com a ida para o Sport Lisboa e Benfica”, que começou na labuta aos 14 anos como paquete. Para se saber mais sobre a personagem, é ler a sua história, em cinco capítulos, contada pelo Miguel Prado.

Verde esperança. Quem esperou 19 anos para ver o Sporting campeão não desanima facilmente, e não foi a vitória do Porto, ontem contra o Farense por 5-1, e mais um adiamento da conquista do título, que derrubou o estoicismo duramente construído pela massa associativa leonina (onde eu me incluo). É como uma carapaça à prova de desilusão. E hoje é outro dia em que, usando da linguagem futebolística, só dependemos de nós. O Sporting de Rúben Amorim recebe o Boavista em Alvalade às 20h30 e caso não vença - sportinguista está habituado a sofrer - tem nova possibilidade de chegar ao título na jornada seguinte, no dérbi Benfica-Sporting. Saiba aqui como está a ser preparada a festa verde e branca em Lisboa, com as necessárias limitações impostas pela pandemia. É a minha derradeira hipótese de trazer o meu filho para o lado verde da força. Até agora faltavam-me argumentos - leiam-se vitórias - para o convencer.

A guerra, outra vez. Desde sexta-feira, os confrontos entre a polícia israelita e os muçulmanos que visitam a mesquita de al-Aqsa, na parte ocupada de Jerusalém, já fizeram mais de 320 feridos, dos quais 300 são civis palestinianos. Esta segunda-feira, em retaliação, a milícia palestiniana Hamas lançou morteiros contra Israel. De madrugada veio a resposta: o exército israelita conduziu 130 ataques na Faixa de Gaza matando 15 membros de grupos armados palestinianos. São os piores episódios de violência no conflito israelo-palestiniano desde a Marcha do Retorno (2018-2019), explica a Ana França.

Presidência portuguesa UE. Joe Biden, o Papa Francisco e Pedro Sánchez, todos a favor da libertação das patentes das vacinas contra a covid-19, mas o mesmo não acontece com a UE. E existem teses que apontam a Alemanha como o país responsável pela posição menos aberta da União. António Costa considerou, na segunda-feira, que são teses "injustas", salientando que a maioria dos Estados-membros segue idêntica linha. Costa, tal como Von der Leyen, tem insistido no argumento de Bruxelas. “É necessário aumentar a capacidade de produção - e esse é o verdadeiro grande bloqueio que existe”, como também deve haver “um mecanismo efetivo de partilha solidária das vacinas”, resumiu o primeiro-ministro. O tema estará na agenda num Conselho Europeu alargado para dois dias (24 e 25 de maio), em Bruxelas, onde os chefes de Estado e de Governo dos 27 voltam a reunir-se presencialmente, tal como aconteceu na Cimeira do Porto.

Nos EUA, a vacina da Pfizer foi aprovada para crianças entre os 12 e os 15 anos; em França, as esplanadas dos bares e restaurantes vão reabrir, mas a 50%; a OMS classifica variante com origem na Índia como preocupante mas os casos no país começam a baixar; o Reino Unido reabre segunda-feira o setor da restauração e turismo; Itália já tem 7,4 milhões de habitantes imunizados e Espanha está a cem dias de alcançar a imunidade de grupo.

FRASES

"O melhor património imobiliário em Lisboa era meu. Meu, com o dinheiro do banco"
Luís Filipe Vieira, empresário e presidente do SLB, durante a comissão de inquérito parlamentar ao Novo Banco

“Vai lá para dentro, macaquinho do c…”
Frase alegadamente proferida pelo árbitro Nélson Cunha, no jogo entre a Sanjoanense e o S. João Ver, ao jogador sul-africano George Matlou. O clube de São João da Madeira emitiu este domingo um comunicado acusando o árbitro de racismo.

“Nos parâmetros da democracia, cabe aceitar esses votos [da extrema direita] e, por interposta pessoa, aceitar os votos desses deputados, desde que tudo aquilo que possam querer fazer não fira o que são as linhas vermelhas que cada partido tem”.
Rui Rio, presidente do PSD, a explicar qual é a melhor estratégia para lidar com a extrema-direita, numa iniciativa online da JSD de Lamego

“Esta é uma lista 'douradíssima' para Portugal. Tivemos informação de operadores britânicos que, de um dia para o outro, viram as reservas aumentar na ordem dos 600% para a Madeira e para o Algarve”.
Nuno Vale, diretor da Associação de Promoção da Madeira, a propósito da inclusão de Portugal na lista verde do Reino Unido.

O QUE ESTOU A LER

O Retorno,
Dulce Maria Cardoso

Já tinha nove anos de publicação e dez edições quando lhe peguei, na semana passada, numa livraria. Não pensei que tinha passado tanto tempo, apesar de ter noção que há muito o queria ler. Tinha de ser bom como os outros. E agora que estou quase a chegar ao fim adotei um ritmo slowmotion para que não acabe, para que possa continuar a saborear cada frase, que de tão visuais nos coloca lá, na casa de Luanda prestes a ser deixada com a mala do enxoval intacta, no pátio com uma arma apontada às nossas costas (o sangue a esvair-se num desmaio) e a Pirata a ladrar, no aeroporto pejado a ver se o pai chega e não chega, na fila do IARN a pedir ajuda, no quarto de hotel de luxo no Estoril, na cabeça confusa da mãe, no medo do Rui, na vida de ser retornado em 1975, num Portugal em PREC.

Parte do relato é feito de experiência. A escritora tinha onze anos quando regressou de Angola com os pais. Lembra-se do frio da metrópole, de ter perdido a tez morena, de ter parado de crescer, de ser posta de parte na escola, de não ser convidada para as festas. Este livro conta a dor de mais meio milhão de pessoas, a amargura de deixar tudo para trás, a nostalgia por um modo de vida colonial onde não viam erro nenhum, a raiva. E as saudades das festas e do por-do-sol, que perduram até hoje.

Leia aqui a última entrevista de Dulce Maria Cardoso ao Expresso.

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