quinta-feira, 2 de setembro de 2021

Como aceitar algo tão contranatura sob a ilusão de estrelas?

No Expresso de hoje bati com olhos e o coração num título que intrinsecamente, dolorosamente, me diz respeito. A mim e aos pais de filhos e filhas, às vezes ainda bebés, que depois de muita luta e sofrimento são derrotados pelo cancro. È nessas circunstâncias contra natura que não só os filhos são derrotados mas também os pais, porque “os filhos nunca devem morrer antes dos pais”.

É esse o título do Expresso em que muitos olhos e corações de certeza bateram quando o viram em manchete. O que dizer? O que sentir? O que fazer? Só acrescentar que também nós, os pais e as mães, os irmãos e irmãs, quando tal acontece também morremos para muito do que consideramos vida. Ainda mais, talvez, quando uma adorável filha já adulta, mas muito jovem, acaba por ser derrotada após anos de luta e sofrimento. Sim, este é um exemplo pessoal-familiar. Mas quantos destes casos estão agora a ocorrer? Imensos, por todo o país, por todo o mundo… Tanta dor. Tanta saudade.

Cancro. O que fazer? Como aceitar algo tão contranatura sob a ilusão de estrelas?

Nunca será demais elogiar, enaltecer, os profissionais do IPO. Ficarmos sempre gratos por tudo de bom que deram (dão) deles a doentes e a familiares. São gente única, são gente excecional. Tudo que possível no máximo do seu desempenho médico e tecnicamente nos dão. No cargo mais ínfimo ou máximo por ali é assim que acontece, ainda bem. Obrigado, sempre muito obrigado, independentemente do resultado de sucesso ou insucesso da luta titânica que pais e filhos têm de travar junto com os profissionais do IPO (no referido caso é o IPO de Lisboa), o IPO de Portugal, afinal.

Do Expresso, aproveitando o Curto de hoje eis o “desabafo”. Também, mais uma vez, agradecer, enaltecer a gente do IPO que acabou a morar no meu coração agradecido, mesmo ao lado do desgosto de ter perdido uma grande filha para um cancro que só a morte o venceu, privando a minha querida companhia na flor da vida, da juventude. Morte que deixa a sobreviver um velho e leva uma jovem. Nem lágrimas, nem apertos do peito, nem memórias… Nada é remédio, a dor é constante e só vai acabar quando acabarmos, quando formos pelo caminho dos entes queridos que perdemos e ver-lhes ser negado o futuro, a juventude, a vida.

Desculpem a fulanização destas linhas de hoje (algo muito intimo e pessoal), mas achei que devia fazê-lo. Foi isso que senti dever partilhar e rechear da consolação e grande estima que nutro por todos os pais que perderam os filhos numa ação contranatura do destino… Aconteceu. Acontece. Infelizmente continuará a acontecer. Para os pais que cá ficam passa a existir um sofrimento permanente de uma vida recheada por uma injustiça atroz. Permanente.

Do referido artigo, em exclusivo Expresso, eis o link: “Os filhos nunca devem morrer antes dos pais.” O luto parental é apenas de cinco dias e há uma petição que quer mudar isso. Se puderem leiam.

É evidente que em pais em idade profissionalmente ativa o período de luto parental deve ser mais lato. Está fora de questão. Nem é compreensível que assim não aconteça.

Bom dia. O Curto a seguir. Respiremos fundo depois de recalcarmos as vicissitudes que a nossa existência nos reserva. Saibamos guardar em memória os momentos felizes que tivemos ou ainda conseguimos vivenciar. Afinal, andamo-nos a “ralar” porquê? E para quê? Pois, mas assim acontece porque de tudo um pouco é constituído aquilo que conhecemos e consideramos VIDA. Depois os que nos são muito queridos e que tanto amamos tomam a forma e o lugar de estrelas. Olhando o céu em noites límpidas lá os vemos, se assim quisermos. Mas nem isso nos abranda as saudades, nem a tristeza, nem os apertos no peito inconsolado, nem a dor… Nada.

Cancro. O que fazer? Como aceitar algo tão contranatura sob a ilusão de estrelas?

Lembremo-nos sempre que o cancro rouba a vida a muitas crianças, a bebés, a gente muito jovem, a outros(as) de mais ou menos idade e com outras doenças. Pais e mães que sofrem e que connosco se cruzam em silêncio, transportando a dor incurável... Até um dia.

O Curto a seguir. Vale.

MM | PG


Bom dia este é o seu Expresso Curto

Escrito nas estrelas

Miguel Prado | Expresso

Bom dia.

Estava escrito nas estrelas que se a seleção portuguesa tivesse de ganhar um jogo que estava a perder a um minuto dos noventa, seria Ronaldo o fenómeno cósmico decisivo. Também estava escrito nas estrelas que quando as forças estrangeiras abandonassem o Afeganistão o dia seguinte não seria fácil. E estava ainda escrito nas estrelas que a excentricidade dos super-ricos os levaria a vender o espaço como a próxima fronteira do turismo para quem tem dinheiro, muito dinheiro.

Nenhum dos três acontecimentos tem (que se saiba) relação entre si, a não ser o facto de nos entrarem em casa pelo pequeno ecrã, enquanto vemos o noticiário na televisão, ou enquanto lê este Expresso Curto no seu smartphone. Ou talvez o esteja a ler confortavelmente no tablet ou já no seu portátil, no trabalho. Também estava escrito nas estrelas que o futuro seria cada vez mais digital, que as relações que temos passariam por essas redes virtuais e que quem tivesse a arte e o engenho para entrar mais cedo nesta corrida teria um futuro próspero. Mark Zuckerberg e os seus 135 mil milhões de dólares de fortuna que o digam.

Vamos por partes, então. Se não faz parte daquela maioria ruidosa que vive o futebol com fervor, tome nota. Esta quarta-feira à noite a seleção portuguesa disputou no Estádio do Algarve um dos jogos da fase de qualificação para o financeiramente astronómico Mundial de 2022 no Qatar. Portugal perdia por 1-0 contra a Irlanda ao minuto 89, e num abrir e fechar de olhos (vá, um pouco mais que isso, mas não muito mais) Cristiano Ronaldo marcou dois golos, virou o resultado e deu a vitória a Portugal. Completando 180 partidas pela seleção, foi decisivo e comemorou o seu golo 111 com as quinas ao peito, e tornou-se o futebolista com mais golos por uma seleção no planeta (ou no universo, admitindo que não há futebol mais além). Ou, como aqui a Tribuna lhe conta, “Cristiano escreveu o seu Teatro dos Sonhos”.

Mas há mais estrelas no firmamento e há milionários a ir ao espaço. Excentricidade? Um contributo para abrir uma nova fronteira no negócio do turismo para ricos? Ou até uma oportunidade para tornar economicamente mais acessível a investigação científica espacial? Vale a pena ler o trabalho que publicámos há umas horas no Expresso. Em dois capítulos, o primeiro centrado nos entusiastas e o segundo nos críticos, explora a discussão da ida dos milionários ao espaço. De Jeff Bezos a Richard Branson, passando, claro, por Elon Musk. Figuras que criaram impérios gigantescos e que atraíram, em seu redor, legiões de fãs. Do comércio eletrónico à indústria do lazer, passando pela mobilidade elétrica e pelas baterias. Bezos e Musk têm, cada um, fortunas avaliadas em 190 mil milhões de dólares. É 80% do Produto Interno Bruto de Portugal. Ou, posto de outra forma, a fortuna do fundador da Amazon ou do patrão da Tesla podia financiar o nosso Serviço Nacional de Saúde durante bem mais de uma década.

Mas nem Bezos, nem Musk, nem Branson estarão propriamente preocupados com o nosso SNS. Se em vez de breves minutos passassem uma temporada no espaço teriam provavelmente vagar para procurar, cá em baixo, os conturbados territórios afegãos, férteis, por estes dias, em histórias de desespero e incerteza. Como a do intérprete que em 2008 salvou Joe Biden de uma tempestade de neve no Afeganistão, que pede ao agora presidente dos Estados Unidos que não o esqueça. Enquanto isso, os talibãs lançam ataques no Norte do Afeganistão e desfilam em Kandahar com veículos militares norte-americanos.

É um conflito complexo, a Europa tenta mobilizar-se para ajudar e, como noutras crises, precisamos do debate. “Onde ficam os direitos das mulheres quando se diz a um afegão que só pode trazer uma das esposas?”. É o título de um artigo no Expresso, onde ouvimos várias vozes, entre as quais a do sheik David Munir, que não tem dúvidas de que “quem vai para um país que não é islâmico tem de respeitar essas normas”.

E se ainda não teve oportunidade, pode querer ler a opinião de Lourenço Pereira Coutinho. “A aliança das democracias ocidentais saiu enfraquecida desta reta final, o Afeganistão permanece ingovernável e, ainda pior, entregue a fundamentalistas talibãs e ameaçado pelos terroristas do autoproclamado estado islâmico”, afirma-nos o historiador.

Tão cedo o Afeganistão não sairá das nossas vidas. Mais ao fim do dia, lá fora, o primeiro-ministro italiano, Mario Draghi, reúne-se com o presidente francês, Emmanuel Macron, sobre a situação no Afeganistão, que continua a dominar a agenda internacional. Se atravessarmos o Atlântico encontraremos uma Nova Iorque a viver o caos com o impacto do furacão Ida, como aqui nos mostra o New York Times, nuns Estados Unidos também marcados pela decisão judicial, nas últimas horas, que recusou travar a nova legislação anti-aborto do Texas.

Por cá, e depois de o ministro das Finanças, em entrevista à RTP, ter estimado em 40 mil milhões de euros o impacto da pandemia na dívida pública, hoje há mais uma reunião do Conselho de Ministros. E outros assuntos vão marcando a atualidade. Eis alguns deles.

OUTRAS NOTÍCIAS

Aeroporto. Uma juíza do Tribunal Administrativo e Fiscal de Almada chumbou uma providência cautelar de um grupo de cidadãos que queria anular a declaração de impacto ambiental que permite a construção de um novo aeroporto na base aérea do Montijo. Mas na decisão a juíza arrasa o projeto do aeroporto.

Autárquicas. O PS e o PCP estão há já algum tempo em confronto em Almada, na disputa de um território que durante longos anos foi comunista. Resumimos aqui o que foi o debate televisivo da noite de quarta-feira com os candidatos à presidência da Câmara Municipal de Almada. Hoje à noite é a vez de os candidatos à Câmara Municipal de Lisboa se encontrarem na arena televisiva. O debate será transmitido na SIC a partir das 21h.

Covid-19. Quarta-feira foi o quarto dia consecutivo em que Portugal teve menos de 2.000 novos casos, a DGS recomendou uma dose adicional da vacina para imunosuprimidos com mais de 16 anos e, porque variantes há muitas, a OMS identificou mais uma: chama-se “mu”, vem da Colômbia e contamos-lhe mais aqui.

Energia. Entra hoje em consulta pública o projeto para o maior parque eólico no país. É promovido pela Iberdrola e visa aproveitar a ligação à rede elétrica que será usada pelo complexo hidroelétrico do Alto Tâmega. Nas imediações das três barragens que aí serão construídas, a empresa quer “plantar” 73 torres eólicas. Passará pelo crivo ambiental?

FRASES

“Os meus filhos vão crescer a ver o pai a fazer golos, dar espetáculo e ganhar títulos, que é o que eu mais gosto”

Cristiano Ronaldo, depois de marcar dois golos à Irlanda e tornar-se o maior goleador na história das seleções nacionais

“Foi provavelmente a decisão certa, mas não foi executada de forma adequada”

Yaïr Lapid, ministro dos Negócios Estrangeiros de Israel, sobre a retirada norte-americana do Afeganistão

“Não basta proclamar a verdade e a honestidade, é preciso prová-la todos os dias”

Inês de Medeiros, candidata do PS à Câmara de Almada, em resposta a acusações da candidata da CDU, Maria das Dores Meira

PODCASTS A NÃO PERDER

🎧 Os despojos do 11 de setembro Não perca o segundo episódio do podcast especial O DIA EM QUE O SÉCULO COMEÇOU. Após o maior atentado terrorista da história, a caça a Bin Laden e à Al-Qaeda eram obrigatórias e a invasão do Afeganistão praticamente inevitável. O mundo ia mudar radicalmente

🥁 A vida do PSD e PCP, depois das autárquicas São estes os dois partidos que mais arriscam, mas há igualmente uma expectativa criada quanto à capacidade do Chega de continuar a afirmar-se como partido charneira na direita portuguesa. A análise é do Daniel Oliveira, colunista do Expresso. Ouça o EXPRESSO DA MANHÃ, podcast assinado por Paulo Baldaia

🎥 Já ouviu falar do Festival Periferias? “É uma festa que mistura cinema, música ao vivo, debates, e as paisagens da raia” Este ano teve como ponto alto a antestreia de 'Mar Infinito', filme 'sci-fi low fi'. Carlos Amaral, o realizador, explica o que isso quer dizer. Ouça o CINETENDINHA

O QUE ANDO A VER

Vi há dias “The Breadwinner” (“A ganha-pão”), filme de animação de 2017 de Nora Tworney, que nos conta a história de uma menina de 11 anos que se vê subitamente como peça nuclear da sua família quando o pai é preso. Estamos no Afeganistão, em 2001, ainda sob domínio dos talibãs. História que nos transporta, de forma impressionante, para os dias de hoje e o clima de medo que mulheres e raparigas afegãs vão vivendo desde que os talibãs voltaram a tomar Cabul.

Aqui termino este Curto, aproveitando para lembrar que estamos, enquanto nos lê, a ultimar mais uma edição do semanário que esta sexta-feira estará nas bancas. Enquanto essa edição não está pronta, não deixe de nos visitar aqui no Expresso. Tenha uma ótima quinta-feira!

Gostou do Expresso Curto de hoje?

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