quarta-feira, 29 de junho de 2022

JOÃO LOURENÇO À RTP: Só Vamos Ter Coisas Boas no Meu Segundo Mandato

Artur Queiroz*, Luanda

Silva Costa foi um grande jornalista português. Sei disso porque ele era chefe de Redacção do Diário de Notícias quando o mais antigo diário português batia recordes de tiragens, circulação e expansão. Nessa época eu era o correspondente em Angola e na África Austral. Um grande profissional do jornalismo também se vê nas mesas de lerpa e nós sentámo-nos muitas vezes praticando esse jogo só para intelectuais. 

Isabel Silva Costa, filha do grande mestre da notícia e da lerpa, entrevistou hoje o Presidente João Lourenço. Ouvi tudo, anotei tudo e no fim perguntei-me: Escrevo um texto sobre isto? A decisão que tomei já vai no segundo parágrafo. Faço-o por dever profissional. As minhas e os meus leitores precisam de saber o que aconteceu em Lisboa, ante as câmaras e os microfones da RTP, o canal público português.

O Presidente João Lourenço entrou em campo ao ataque. E fez dois remates que deram golo: “No próximo mandato vamos concluir a rede viária n acional e continuar a luta contra a sede nas províncias do Sul, Parte da Huila, Cunene, Namibe e Cuando Cubango. Vamos concluir a electrificação do país. Já iniciámos a produção de energia fotovoltaica, primeiro em Benguela. Vamos investir mais dois mil milhões de dólares s noutros projectos no sul de Angola, nomeadamente nas províncias do Namibe, Huila, Cunene e Cuando Cubango. Depois as províncias de Leste, Lunda Norte, Lunda Sul e Moxico”.

A entrevistadora diz que há muita contestação juvenil em Angola. Mas João Lourenço contestou dizendo: “No início do próximo mandato vamos concluir a construção do Aeroporto Internacional Dr. António Agostinho Neto. E mais uma grande barragem, a hidroeléctrica de Caculo Cabassa.  

O dia a dia das pessoas é muito difícil, inflação a subir, preços a subir…

O Presidente João Lourenço segurou o meio campo e partiu para o contra-ataque:

“Mais inflação não. Preços mais altos não. Os produtos básicos têm os preços mais baixos. Graças à criação da Reserva Estratégica Alimentar conseguimos o equilíbrio dos preços”. 

Perguntadora: Os bispos dizem que a situação social é grave. Sobretudo o bispo de Cabinda… 

Bola atirada em balão para o campo do adversário:

Essa é a interpretação deles. O bispo de Cabinda não fala em nome da Igreja. Angola tem muitos bispos. A conferência episcopal pode ter a sua opinião. Nós temos a nossa. Angola não é o paraíso nem um mar de rosas. Nem pode ser. A COVID19 e a crise financeira internacional tiveram influência muito negativa durante este mandato, Agora temos a guerra da Ucrânia. É natural que as dificuldades se tenham agravado no mundo e não apenas em Angola. Nós temos a nossa análise A CEAST tema deles. Nós não queremos interferir na opinião deles.

A situação social não piorou?

Resposta: A situação nacional é aquela que temos, apesar da COVID19 e da crise financeira internacional. Mas nós trabalhamos para atenuar as dificuldades. Aumentámos o salário mínimo nacional e aumentámos os salários dos trabalhadores da função pública. Estamos a trabalhar.

E a desilusão juvenil?

Resposta directa, substantiva e afirmativa: 

Depende dos olhos que vêm essa desilusão. Nós estamos a olhar para isso com olhos diferentes. Contestação juvenil em Angola, não conheço. Não vi os coletes amarelos em Angola. O que vi foi a mobilização de um pequeno grupo de jovens, feita pela UNITA, um partido da oposição. Esses jovens cometeram e ainda cometem actos de vandalismo. Mas não representam a juventude angolana.

A perguntadora já nervosa e com os dois queixos a tremer: Não há desilusão?

O Presidente João Lourenço disse pausadamente:

Isso é um jogo de palavras. Não vejo desilusão em Angola. Investimos muito duramente este primeira mandato. Fomos para além das promessas eleitorais. Na Saúde, o panorama mudou completamente. As juntas médicas Já quase não mandam ninguém para o estrangeiro. Doentes que necessitam de Hemodiálise são tratados em Angola. O mesmo com os doentes com problemas cardíacos e pulmonares. Não precisam de sair de Angola. A Oposição faz oposição é esse o seu papel.

Ataque directo: E os 500 mil empregos que prometeu?

Resposta pronta: 

Estamos próximos desse número. Claro que a COVID19 levou ao encerramento de empresas e isso causou desemprego.  Mas já estamos a reverter a perda de postos de trabalho. Pusemos a indústria têxtil a funcionar em Luanda Benguela e Dondo. Todos os dias há novos postos de trabalho nas actividades do sector privado. O sector público está a criar emprego. Só este ano Entraram 8.000 novos funcionários na Saúde. O mesmo número na Educação. O emprego cresce consideravelmente.

Onde está o exonerador implacável?

Resposta: O ritmo não pode ser uniforme. Não tenho feito exonerações e isso quer dizer que acertei. já não preciso de exonerar.

A corrupção na alta hierarquia como está?

A alta hierarquia em Angola é diferente. Mudaram as pessoas e mudou a mentalidade. 

Os empresários estão descapitalizados! Como responde a este problema?

Presidente João Lourenço:

A Banca Comercial está aí para capitalizar. Mas crédito não é oferta. Os empresários têm que ir à luta. 

Pergunta fatal: Adalberto da Costa Júnior escreveu que de 1578 concursos e contratos públicos, 1329 violam a lei não se conhecem os números. A maioria sem concurso público.

Resposta pronta: 

Nós somos transparentes. Esses concursos e contratos são publicados no Diário da República. Não me lembro de colocarmos no Diário da República contratos ou concursos sem números. Isso não existe. Há números, há prazos de execução das empreitadas. O líder da Oposição pode não estar de acordo. Mas não é verdade que não existam números.

O repórter dá um salto mortal e um flic flac em frente e chega à pergunta sobre as eleições.   

O líder do MPLA responde:

Não há vitórias eleitorais fáceis. Estou todos os fins-de-semana a trabalhar para a vitória do MPLA. Se ficasse acomodado em Luanda à espera de milagres, podíamos perder. Temos um calendário muito bem definido e estamos a cumprir. Estamos descansados. Temos de aumentar o ritmo e acelerar ar um pouco mais na campanha para não haver surpresas.

Afirmação da entrevistadora: O sistema judicial entrou em falência!

Resposta imediata: Mentira imensa! O sistrema judiciário angolano em quase cinco anos fez mais do que nos anos todos que temos de Independência Nacional. Nunca o sistema judicial teve tanta liberdade para fazer Justiça, sejam quem forem os arguidos.

E a utilização dos meios públicos na sua campanha eleitoral?

Eu sou o Presidente da República. Uso os carros e um avião que estão ao meu serviço. Quando saio em actividade partidária, devia deixar de utilizar esses meios? Acho que não. Em muitos países que têm democracias maduras é assim que os líderes procedem. Como é nos EUA, no tempo de campanha eleitoral? O candidato que está a lutar pela sua sucessão vai no avião Air Force One para todo o lado. 

Apanhei-te! Os Media públicos! Altamente controlados…

Já desafiei e volto a desafiar. Que venha o líder da Oposição provar que contactou um Media público para prestar declarações e isso lhe foi negado. Quem lhe recusou uma entrevista! Que digam, quem foi o líder que queria ser entrevistado e isso lhe foi negado. Todos os dias figuras da oposição falam na comunicação social pública. Secretários provinciais da UNITA falam nos Media públicos. O líder parlamentar da UNITA fala quando quer nos Media públicos. O líder da UNITA não fala porque não quer. 

Tem esperança no futuro? 

Olho para o futuro com optimismo. Mas que não o venha o COVID19 estragar tudo. Que a guerra na Ucrânia seja resolvida e bem resolvida. No meu segundo mandato vamos ter bons dias para Angola. Muitos investimentos públicos na Saúde, na Educação, na Energia e Águas. Só vamos ter coisas boas no meu segundo mandato.  

E as frustrações senhor presidente?

Não tenho frustrações. Deixe-me concluir esta entrevista com uma saudação especial à comunidade angolana residente em Portugal e a todas as comunidades angolanas espalhadas pelo mundo.

*Jornalista

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