O VULCÃO SUL AFRICANO


Martinho Júnior, Luanda
 
MEMÓRIA DE PABLO NERUDA
 
1 – Tenho um imenso respeito e admiração por Pablo Neruda: como muito poucos, ele foi capaz de nos transmitir com um elevado poder de síntese, os quadros mais compulsivos da América, expondo a nu e a cru as injustiças históricas que se vão arrastando de século em século, de década em década… o que acontece quando o império se impõe sobre as bandeiras dos povos…
 
Se as suas substantivas referências são uma sensível comoção do que acontece na América Latina, nem por isso ele deixa de ser universal: sinto-o isso a partir de África, por que cá como lá há o mel das imensas riquezas, apenas com oportunidade para “moscas” que não deixam de ser da mesma estirpe, que fazem parte do mesmo agregado, utilizam os mesmos métodos, os mesmos processos, os mesmos vícios, o mesmo padrão de “culturas”, os mesmos rituais, quantas vezes rituais de sangue…
 
Explico: se por lá é a United Fruit Company, aqui são as Anglo American Corporations, as Lonrhos, as De Beers, agora uma Lonmin… o arsenal de mineiras que exploram não a superfície, mas as entranhas mais profundas da terra, sobretudo desde a explosão da Revolução Industrial e seguindo a pista e o génio geo estratégico de Cecil John Rhodes, servidor e inspirador das mais poderosas elites do império!...
 
Por isso recordo Pablo Neruda: a mesma essência, com o colorido de outras latitudes, outras paragens, outras “United Fruit Companies”, outras mãos de obras baratas e sem defesa:
 
“Cuando sonó la trompeta, estuvo
todo preparado en la tierra,
y Jehová repartió el mundo
a Coca-Cola Inc., Anaconda,
Ford Motors, y otras entidades:
la Compañía Frutera Inc.
se reservó lo más jugoso,
la costa central de mi tierra,
la dulce cintura de América.
Bautizó de nuevo sus tierras
como Repúblicas Bananas,
y sobre los muertos dormidos,
sobre los héroes inquietos
que conquistaron la grandeza,
la libertad y las banderas,
estableció la ópera bufa:
enajenó los albedríos
regaló coronas de César,
desenvainó la envidia, atrajo
la dictadura de las moscas,
moscas Trujillos, moscas Tachos,
moscas Carías, moscas Martínez,
moscas Ubico, moscas húmedas
de sangre humilde y mermelada,
moscas borrachas que zumban
sobre las tumbas populares,
moscas de circo, sabias moscas
entendidas en tiranía.
 
Entre las moscas sanguinarias
la Frutera desembarca,
arrasando el café y las frutas,
en sus barcos que deslizaron
como bandejas el tesoro
de nuestras tierras sumergidas.
 
Mientras tanto, por los abismos
azucarados de los puertos,
caían indios sepultados
en el vapor de la mañana:
un cuerpo rueda, una cosa
sin nombre, un número caído,
un racimo de fruta muerta
derramada en el pudridero.
 
PARA ALÉM DO “APARTHEID”
 
2 – Poucos estranharam, interrogaram e se interrogaram por que o fim dum regime tão ignóbil como o do “apartheid” ocorria precisamente no mesmo momento em que desaparecia o socialismo real na Europa e se implodia a União Soviética…
 
Poucos entenderam sem equívocos e em tempo oportuno, o que os arautos anunciavam como “sinal dos tempos”, ou ainda “o fim da história”…
 
Por isso foram poucos os cáusticos em relação às figuras emergentes na África do Sul: De Klerk, Nelson Mandela, Thabo M’Beki…
 
Na oportunidade, acerca deles foram pronunciados louvores ao superlativo, que até hoje perduram: a história, tinha de ser contada à sua maneira por que o que interessava sobretudo era fazer perdurar a lógica capitalista e garantir mão-de-obra barata e submissa, os indispensáveis lucros em benefício das elites sobre a miséria dos povos…
 
Quando me tenho referido às sequelas do colonialismo e do “apartheid”, não o faço de ânimo leve e coloco tão históricas quanto legítimas interrogações:
 
Até que ponto conseguiu ir a ânsia de liberdade, de soberania, de socialismo e de democracia, que fez parte da essência do movimento de libertação, para além do tempo útil em que perdurou o “apartheid”?
 
Que garantias havia para, reforçando-se sem mais constrangimentos a lógica capitalista, conseguir-se vencer o peso histórico do elitismo, quando o processo de sequência da Revolução Industrial continuava a ver garantida na África do Sul a sua “natural” sequência?
 
O elitismo dominou na formação da União Sul Africana, dominou no “apartheid” e continua a dominar na “democracia representativa” da África do Sul!!!
 
Por isso lembro o que publiquei no número 371 do “Actual”, a 8 de Novembro de 2003, quando tive a ousadia de interrogar “Que eternidade para Nelson Mandela?”, com uma fotografia em que face a face o velho Mandela ex-prisioneiro do “apartheid”, admirava a face duma foto do novo, daquele que já era conhecido como líder do ANC antes da longa prisão!
 
Entre o velho e o novo Mandela, preferia sem qualquer dúvida o novo, aquele que tendo ainda tanta vida por viver entregue à causa da libertação em África, estava ainda muito longe de ser “eterno”, reduzindo-se à posição de mais uma “mosca” entre as inúmeras “moscas” que a aristocracia financeira mundial, por via do carácter do seu domínio, foi disseminando por toda a imensidão dos países do Sul!...
 
A associação das “moscas” à tirania e da tirania às explosões sociais, ao sangue dos “condenados da terra”, em 2003 era tão legítima quanto a “guerra dos diamantes de sangue” tinha finalmente acabado em Angola com a morte de Savimbi, um fiel servidor do signo de Rhodes!
 
O velho Nelson Mandela trazia sintomas com os quais eu não me podia identificar, pelo que coloquei-me “contra corrente”: eram previsíveis futuras erupções sociais na África do Sul e noutros países africanos para além dos “diamantes de sangue”, era tudo uma questão de tempo, de maturação e eu era pela paz e pelo socialismo, como hoje!
 
Escrevi eu sintomaticamente então, quando Nelson Mandela veio em “viagem privada” a Luanda em nome, ou refém, de entidades mineiras operadoras em África:
 
“Não sabemos com propriedade que cores, das muitas que compõem o Arco Íris Sul Africano, veio Nelson Mandela trazer a Angola desta feita e na curta viagem que realizou em dias recentes, numa inusitada viagem relâmpago em jacto privado, acompanhado por não identificadas criaturas, que como marcianos pareciam ter chegado pela primeira vez, meio circunspectos, meio acabrunhados, meio curiosos, meio ansiosos, às minas de Salomão… cá na Terra!
 
Nada melhor que um bom diamante para, estabelecendo a refracção da luz, obter-se a sua decomposição, tal como acontece aliás com o arco íris, transmitir com pureza e evidência, uma determinada cor, ou duma forma mais difusa, transmitir um tom dessa cor.
 
A subtileza das subtilezas porém reside no facto da veneranda figura de Nelson Mandela, um líder que para muitos se terá tornado eterno (são assim as campanhas de marketing Global para quem tutela os interesses da aristocracia financeira Mundial), se aprestar a bons serviços pela causa de quem tem vindo a considerar há várias décadas a esta parte que só os diamantes são eternos.
 
A visita dum Nelson Mandela-enquanto-símbolo, parece ter feito uso marcadamente duma determinada filosofia e psicologia, como se per si estivesse a emitir um há muito identificado sinal de quem, impulsionado para a crista duma onda Histórica, não só mas também em relação ao negócio dos diamantes, apesar dos enredos da globalização (é preciso não esquecer as Leis anti-trust que ainda estão em vigor nos Estados Unidos), parece vir querer afirmar com convicção que se está pronto para os novos desafios que se aprontam com o novo século que ora se iniciou e pretende dar provas de boa vontade e diplomacia, para além do publicitado exemplo que constitui o Botswana (que alberga aliás a própria sede da SADC e tem merecido prémios de muito bom comportamento).
 
É evidente que os lobbies globais, cujos executivos estão simultaneamente à frente dos negócios dos diamantes, do ouro e da platina, vivendo desde o berço com a simbologia e as correntes ascendentes que se haviam identificado com um patrono ao nível dum Cecil John Rhodes, visionário e operador da expansão do Império Britânico, procurem agora, em período da segunda Revolução Capitalista, aproveitar as mudanças (entre elas a queda do apartheid) para relançar o modelo, adaptando-o a um interesse em expansão, conforme as actuais características do mercado.
 
Se há cem anos a operação resultou em ganhos importantes no âmbito da própria Revolução Industrial, para a aristocracia bancária que tutela a globalização, como mantém rédea curta sobre a Reserva Federal Americana, a lição foi bem digerida e pode ser aplicada com um enredo similar, adaptando, ao âmbito da actual Revolução Tecnológica e Científica.
 
(…)
O segredo de Nelson Mandela não será assim tão eterno como acontece com a matéria em carbono puro e apostamos forte em como a aristocrática tribo dos Oppenheimer, com cores historicamente identificadas no Arco Íris Sul Africano, vão precisamente fazer o que sempre fizeram (procurando vantagens, ainda que em épocas de crise), dando sequência ao génio pioneiro de Cecil John Rhodes assim como aos artificiosos ditames da Conferência de Berlim: negociar!
 
(…)
A estatura de estadista de Nelson Mandela é de facto um projecto que, bebendo no passado do exemplar conhecido por Cecil John Rhodes, é de tal maneira feito a essa imagem e semelhança que até não teve outra alternativa senão a osmose (a síntese) de sua própria Fundação com a Rhodes Scholarships, num projecto identificado com a Mandela Rhodes Foundation (Arco Íris, a quanto obrigas!).
 
Entre uma suposta tese vivida pela personagem como Cecil John Rhodes e uma suposta antítese na personagem de Nelson Mandela, haverá algo melhor com um século de permeio que uma síntese conforme a que constatamos, que cria a ilusão policromática duma terceira via, com um ponto de partida visível nas iniciativas que assumiu no início da década de sessenta do século passado a Administração de John F. Kennedy nos seus relacionamentos para com África?
 
Não foram sempre os grandes executivos que lideraram (e lideram) os sincronizados sectores dos diamantes, do ouro e da platina, aqueles que demonstraram capacidade de lidar com os dois lados dos muitos contendores típicos do século XX, os que estão mais aptos a essa terceira via, uma via com que se cose também a globalização?
 
Entendemos desse modo que para muitos dos nossos doutos professores e políticos a eternidade de Nelson Mandela-enquanto-Estadista de sinal Democrata é tão simpática como o seu estado de graça de venerando veterano de longas Lutas.
 
Para nós que nos esforçamos por entender a vida e a obra daqueles que ousaram pelos caminhos duma terceira via com plasma de social democracia, parecem-nos legítimas as nossas incertezas e inquietações que psicologicamente, ao menos psicologicamente, vão trabalhando pelas conjecturas de nosso espírito.
 
Parece-nos que as palavras do eminente crítico da política, dos políticos e das mass media Contemporâneos, eminente homem que se identifica com a nova esquerda que dá pelo nome de Ignatio Ramonet, podem ser extravasadas muito para além da social democracia Europeia que ele potencializa como uma autêntica direita moderna em Guerras do século XXI:
 
Para a social democracia que governa sozinha em grandes Países Europeus, a política é a economia; a economia são as finanças e as finanças são os mercados.
 
É por isso que ela se esforça por favorecer as privatizações, o desmantelamento do sector público, as concentrações e fusões de mega-Empresas.
 
Mesmo que adopte aqui e ali leis sociais importantes, no fundo aceitou converter-se ao neoliberalismo.
 
O objectivo já não é fixar objectivos prioritários como o pleno emprego, ou a erradicação da miséria, para responder ao desespero de dezoito milhões de desempregados e cinquenta milhões de pobres da União Europeia.
 
(...)
Aceitou, por vacuidade teórica e por oportunismo, a missão histórica de naturalizar o neoliberalismo. Em nome do realismo, já não quer pôr nada em causa. Principalmente a ordem social.
 
Afinal, por vacuidade teórica, que eternidade para Nelson Mandela?”
 
Em finais de 2003 não tinha ilusões algumas em relação ao “marketing” que já era Nelson Mandela e o vulcão que nas profundezas da sociedade sul africana estava escondido por debaixo do “1 homem, 1 voto”!
 
Confesso, quando também recordo esse texto de há quase nove anos, que me sinto em relação à África do Sul, assim como um vulcanólogo: não tinha ilusões que um dia, bem do fundo das minas, bem do fundo da multi-cultural sociedade sul africana, a explosão ocorreria, como agora ocorreu!...
 
MARIKANA COMO SHARPEVILLE!!!
 
3 – O reactivar do vulcão está aí em Marikana: agora o elitismo está a nu e cru, sem subterfúgios, sem embaixadores, sem “moscas”, sem a cobertura duma geo estratégica como o foi a formação da União Sul Africana, ou a miragem “do Cabo ao Cairo”, ou a ignomínia dum regime como o do “apartheid”… está-se perante uma mui anglo-saxónica multinacional mineira de platiba e um governo que é obrigado a identificar-se e a retratar-se por inteiro perante o seu próprio eleitorado, perante o seu povo!!!
 
Um pouco como um dia Pablo Neruda despiu por via do verbo a bananeira United Fruit Cº, está despida por via do sangue mais uma “majestática” mineira, a Lonmin, face a face aos sindicatos, às greves e ao sangue dos explorados às mãos duma Polícia embaraçada nos equívocos próprios das “terceiras vias” agora em voga entre tantas elites dos países do Sul, inclusive num feito dúbio “emergente” como a África do Sul!!!
 
Haverá ainda alguns que vão evocar a legítima defesa…
 
Haverá outros que evocarão a impraticabilidade das reivindicações dos mineiros e dos sindicatos…
 
Haverá muitas evocações para justificar o que é óbvio: exploração e miséria com mais dum século de impunidades!
 
As elites, a classe dominante substancialmente representada no poder e nos seus mecanismos, mantiveram afinal o mesmo carácter, o mesmo comportamento, quer na formação da União Sul Africana, quer no exercício do “apartheud”, quer agora na “democracia representativa”, apesar das tradições de luta do ANC!...
 
Meio atarantado, meio estarrecido, meio hipotecado, o governo sul africano reage debilmente, sem saber bem o que fazer e como fazer em relação aos seus próprios instrumentos de poder de estado, à sua Polícia e em relação à conjuntura em que historicamente se tem vindo a enredar o ANC!
 
 
"As minas devem redobrar os esforços para promover bons programas sociais.
 
Se podermos realmente trabalhar juntos, num espírito de colaboração (...), podemos também tirar proveito desta tragédia para eliminar muitas das más práticas que persistem no sector de mineiro".
 
Para os ricos, apelos, para os mineiros a longa espera de mais de um século de exploração, em plena miséria, doença, obscurantismo… e as balas com direito televisivo com sinal disseminado por todo o mundo!...
 
O luxo e a arrogância de uns poucos, face à precariedade duma imensa maioria, depois de duas décadas de expectativas perante uma “terceira via” que mais que impotente e indiferente tem demonstrado ser, em função da lógica capitalista, a conveniente representação das elites “de todas as cores”!
 
Foi preciso chegar ao sangue para se entender essas e outras evidências: deslumbrados vinte anos com o “1 homem, 1 voto”, explodiram os subterrâneos profundos do povo, o vulcão das minas e da própria sociedade!
 
Afinal Marikana é hoje, o que foi ontem Sharpeville!
 
O 15 de Agosto de 2012 é como o foi o 21 de Março de 1960!
 
O que mudou entre 1960 e 2012, quando ao “apartheid” político-institucional se deu sequência, em função da lógica capitalista e de suas práticas elitistas, a uma “democracia representativa” de “1 homem, 1 voto”, fórmula mágica com a qual se pretende esconder o “apartheid social” que como um pântano impede alcançar-se a harmonia, o equilíbrio, a justiça e a solidariedade, impede a sublimação do passado de forma a atingir-se um patamar minimamente aceitável que tornaria mais saudável a sociedade e o povo sul africano?!
 
O monstro sobreviveu há mais de um século a esta parte e agora tem a cobri-lo um mal avisado governo de maioria, deformado pelo elitismo de tão pouco escrupulosa trajectória na África do Sul, um governo que, esquecendo-se como me pareceu ter-se esquecido o velho Nelson Mandela em 2003 das lições da história, é agora obrigado, de forma pungente, a tirar a máscara perante o seu próprio eleitorado “de maioria”, perante o seu próprio povo!
 
Que rapidamente aprendam todos os “aprendizes de feiticeiro”: há demasiados cenários sangrentos que se repetem, por que o homem é refractário às lições da história, por que o homem, aquele com poder, interpreta os fenómenos em função das conveniências e dos interesses das elites e não em função dos interesses e conveniências dos povos, por que a lógica capitalista é incapaz de fazer mais, melhor e com o respeito e o amor que a humanidade e o planeta merecem!!!
 
Foto: Capa do Mail & Guardian da África do Sul, semana de 17 a 23 de Agosto de 2012