quinta-feira, 28 de Agosto de 2014

Angola - SAMAKUVA ACUSA: BESA ESTÁ AO SERVIÇO DE ACTOS ILÍCITOS



Folha 8, 23 agosto 2014

O “caso” BESA cons­titui “um exemplo de como pessoas nas vestes de agentes do Estado uti­lizam os fundos públicos e a autoridade pública para actos ilícitos”, afirma Isaías Samakuva.

O presidente da UNITA classificou o “caso” Ban­co Espírito Santo Angola (BESA) como exemplo da utilização de fundos pú­blicos para “actos ilícitos”, questionando-se sobre o interesse de “tantos ban­cos” no país.

“O caso do BESA também levanta sérias questões sobre a integridade do sis­tema bancário angolano. Como perguntam os mais ingénuos: porque é que um país de desemprega­dos, sub-empregados e de trabalhadores mal pagos que não fazem poupan­ças tem tantos bancos? O que atrai os bancos para Angola?”, questiona Isaías Samakuva.

As dúvidas do líder do Galo Negro aludem aos 25 bancos que operam no país. “São as oportunida­des de ganhar dinheiro fácil através da delapida­ção do Tesouro Nacional? Será que os que governam o país precisam dos ban­cos internacionais, que são respeitados interna­cionalmente, para virem cá e receber o produto do roubo na forma de depó­sitos?”, interrogou-se ain­da Samakuva, acusando o sistema bancário de não perguntar pela origem do dinheiro.

“Pegam numa parte desse dinheiro e distribuem a certas pessoas do regime. E outra parte entra em aviões para destinos des­conhecidos. À distribuição que fazem chamam em­préstimos, só que depois nunca mais pagam tais empréstimos”, enfatizou.

Sobre o BESA, detido maioritariamente pelo Banco Espírito Santo por­tuguês (55 por cento) e agora sob intervenção do Banco Nacional de Angola, o líder da UNITA afirma que o “caso” constitui “um exemplo de como pessoas nas vestes de agentes do Estado em Angola utili­zam os fundos públicos e a autoridade pública para actos ilícitos”.

Aludindo ao crédito mal­parado naquele banco, que segundo a UNITA po­derá atingir os cinco mil milhões de dólares, Isaías Samakuva recordou que esses empréstimos, alegadamente sem garantias suficientes, serviram o in­teresse privado.

“Estes privados ficaram com o dinheiro, ficaram com as casas, ficaram com as empresas e não querem pagar”, acusa, reclamando a constituição de uma co­missão de parlamentar de inquérito, nomeadamente sobre a emissão de uma garantia soberana do Es­tado – cuja revogação foi entretanto anunciada pelo BNA – sobre estas dívidas. “Quem fala do BESA, fala também dos buracos que existirão nos outros ban­cos e das lavagens de di­nheiro aí praticadas. Todo o sistema bancário está minado”, afirma o líder da UNITA.

Retomando as críticas à liderança de José Eduar­do dos Santos, Samakuva afirma que “um grupo de predadores que se con­funde com o Estado” e uti­liza o sistema financeiro nacional “para executar operações ilícitas de bran­queamento de capitais, enriquecimento ilícito e corrupção, dentro e fora de Angola”. “E a Justiça angolana mostra-se inca­paz de investigar e julgar tais crimes”, remata.

APARTHEID RECONHECE DERROTA EM ANGOLA



Artur Queiroz – Jornal de Angola

O Presidente da África do Sul, PW Botha, convocou para o dia 28 de Agosto de 1988 uma reunião classificada como ultra secreta para tomar decisões de Estado sobre a derrota das forças armadas de defesa e segurança no Triângulo do Tumpo.

Estavam presentes os mais altos dirigentes sul-africanos e tomaram uma decisão dolorosa: acabar com o regime de apartheid e acatar a Resolução 435 da ONU sobre a Independência da Namíbia.

O documento secreto ao qual o Jornal de Angola teve acesso tem poucas palavras mas são significativas. A acta final é hoje, dia do aniversário do Presidente da República, revelada ao mundo com todos os detalhes.

Na reunião de alto nível estiveram presentes além do Presidente PW Botha, o ministro da Defesa, general Magnus Malan, o ministro das Relações Exteriores, Pik Rudolf Botha, o general Jannie Geldenhuys, o major general Neil Van Tonder e Kat Liebenberg. A agenda da reunião tinha quatro pontos: Fracasso na tomada do Cuito Cuanavale (número um), fracasso na tomada da aldeia do Tumpo (número dois), material de guerra capturado pelo inimigo (número três) e as baixas em combate (número quatro).

O Presidente da República, usando os seus poderes constitucionais decidiu “desmobilizar a 82ª Brigada e o 61º Batalhão Mecanizado, que foram formados para a Batalha do Tumpo”. Mas o momento mais importante estava para vir. A acta refere taxativamente: “O ministro da Defesa e o general Geldenhuys assumem aqui a total responsabilidade da derrota”. Está escrito!

A acta da reunião ultra secreta revela outro aspecto dramático para o regime de apartheid mas bom para a África Austral e o mundo civilizado: “Dadas as consequências da derrota no Cuito Cuanavale, o Governo da África do Sul foi obrigado a aceitar a Resolução 435 da ONU sobre a Independência da Namíbia”. PW Botha e os seus pares reconheceram naquele momento que a Batalha do Cuito Cuanavale os deixou de tal forma vulneráveis, que foram obrigados a abrir mão da sua colónia.

Contacto com Mandela

A acta da reunião datada de 28 de Agosto de 1988 revela um detalhe fundamental para compreender o alcance político da vitória das FAPLA na Batalha do Cuito Cuanavale. O Presidente PW Botha, mais uma vez invocando os seus poderes constitucionais “delegou no Dr. Neil Barnard, Chefe da Inteligência Nacional, para preparar negociações com Nelson Mandela e providenciar a sua libertação”.

Os grandes chefes do regime de apartheid perceberam que a derrota no Triângulo do Tumpo era o fim do regime e tinham que agir rapidamente para não perderem tudo. Por isso correram a abrir as portas da cadeia onde se encontrava Nelson Mandela. Em Angola estavam combatentes do ANC, prontos para “explorar o sucesso” da derrota das forças de defesa e segurança da África do Sul na Batalha do Cuito Cuanavale.

A acta secreta entra, a seguir a este ponto, nas justificações para a derrota no Triângulo do Tumpo. Primeira justificação descrita no documento: “todos os ataques para desalojar as FAPLA do seu último reduto, fracassaram”.

Reconhecimento da derrota

Mais uma justificação: “todos os ataques a Este do rio Cuito (Tumpo) também falharam. A partir daí, o Alto Comando das SADF convenceu-se de que só era possível destruir o inimigo introduzindo forças massivas o que ia implicar pesadas perdas de vidas sul-africanas. Politicamente isso era inaceitável”.

PW Botha e os seus generais foram forçados a reconhecer a derrota. Abílio Numa, Paulo Lukamba e Demóstenes Chilingutila dizem que a Batalha do Cuito Cuanavale “está mal contada”. Que apresentem uma versão diferente desta que está escrita na acta secreta da reunião de 28 de Agosto de 1988, no gabinete do Presidente PW Botha.

Os assuntos tratados na reunião eram de tal forma melindrosos que PW Botha obrigou todos os presentes a assinar a acta. O documento foi de facto assinado em primeiro lugar pelo Presidente PW Botha, a seguir assinaram Magnus Malan, Pik Rudolf Botha, Jannie Geldenhuys, Neil Van Tonder e Kat Liebenberg. 

Nada nem ninguém pode contar a Batalha do Cuito Cuanavale, melhor do que uma acta oficial, secreta, à qual o Jornal de Angola teve acesso, com o respectivo anexo. Para se sentirem moralizados, os grandes chefes do apartheid dão a eles próprios um motivo de ânimo: “As três derrotas no Tumpo foram as únicas que a África do Sul sofreu na guerra em Angola”. Esqueceram o fracasso da “Operação Protéa”, lançada há 33 anos, e que “bateu contra a parede” na Cahama.

O final da acta tem uma dimensão grotesca e mostra a situação do Presidente PW Botha: “Eu fui mal informado sobre a situação no Tumpo e por isso obrigo todos os presentes a assinarem a acta desta reunião”. Data:28/8/88. Dia do aniversário do Presidente José Eduardo dos Santos. Uma boa prenda para o Comandante em Chefe das forças vitoriosas.

Directiva Política

Além da acta, a reunião de 28 de Agosto de 1988 produziu uma directiva política que só por si confirma a estrondosa derrota das forças do “apartheid” no Triângulo do Tumpo. A reportagem do Jornal de Angola teve acesso ao documento que significa a liquidação do apartheid. 

“Directiva Política Urgente para o Gabinete do Presidente. Directiva Política das SADF” É assim que se intitula o documento ao qual tivemos acesso e serve de base a esta reportagem. Contém várias decisões. Primeiro ponto. “O Tribunal Militar deliberou em relação às responsabilidades assumidas antes, durante e depois das operações militares ‘Hooper’ e ‘Packer’ na Região do Tumpo, expulsar a partir da data efectiva de 28 de Agosto de 1988, os oficiais Mike Muller, Gerhard Louw e Cassie Schoeman”. Recordo que Mike Muller foi o comandante sul-africano que afirmou: “se tomo o Tumpo vou direito ao Cuito Cuanavale”. Foi derrotado.

Segundo ponto. “Os seguintes oficiais foram despromovidos na Parada Militar e transferidos para o Quartel-General de Pretória: Jan Malan e Koos Lienbenberg.

Terceiro ponto. “Origem e data. Tribunal Militar MC/302/5B. Data 28/8/88”. Desta directiva política foram enviadas cópias para a Autoridade Controladora do Tribunal Militar Principal, Chefe do Exército, Chefe do Estado-Maior das Operações, Chefe da Força Aérea, General Cirurgião, Chefe do Estado Maior da Inteligência, General Capelão e Chefe do Estado Maior das Divisões. O documento é assinado por Magnus Malan. No dia 28/8/88, após a reunião ultra secreta onde foi reconhecida a derrota em Angola, os chefes do apartheid arranjaram logo bodes expiatórios para o fracasso no Triângulo do Tumpo.

Os mísseis de Reagan

Os sul-africanos tomavam grandes decisões sobre Angola no dia do aniversário do Presidente José Eduardo dos Santos. Um ano antes da reunião ultra secreta a cuja acta tivemos acesso, no dia 28 de Agosto de 1987, o poderoso general Jannie Geldenhuys chamou Savimbi à sua presença e disse-lhe que precisava dos mísseis Stinger que o Presidente Reagan lhe tinha dado.

Este episódio vem descrito com muitos pormenores no livro “Guerra em Angola” de autoria do analista militar sul-africano Helmoed Roemer Heitman. Ele revela que o general Geldenhuys chamou Savimbi “para actualizá-lo” e de seguida disse-lhe que precisava dos seus mísseis Stinger para proteger os canhões G5 na guerra de Angola.

O Presidente Reagan sabia que ao dar os mísseis a Savimbi estava a colocá-los nas mãos dos sul-africanos, mas assim não podia ser acusado de violar as sanções impostas pela comunidade internacional ao regime de apartheid. Claro que Savimbi obedeceu de imediato às ordens do seu general. Na página 43 do livro, está descrito o encontro entre ambos.

Foto Paulino Damião

Moçambique: FIM DE COLUNAS ENTRE MUXÚNGUÈ E SAVE




Foi desactivada a partir da manhã de ontem a escolta das Forças de Defesa e Segurança que acompanhava diariamente a coluna de viaturas ao longo da Estrada Nacional Número Um (N1) num perímetro de 110km no troço compreendido entre o posto administrativo de Muxúnguè, no distrito de Chibabava, em Sofala, e a Vila Franca do Save, em Govuro, na província de Inhambane.

Tal deve-se à assinatura na noite de domingo do acordo de cessação das hostilidades entre o Governo e a Renamo, sendo que a vida voltou já à normalidade com o pleno funcionamento de todas as instituições públicas e privadas com o registo de intenso movimento de pessoas e bens naquela única rodovia que liga o país do Rovuma ao Maputo.

A Reportagem da nossa Delegação da Beira, que propositadamente se posicionou logo pela manhã de ontem na vila de Muxúnguè, testemunhou que o primeiro dia foi caracterizado pelo regresso massivo das pessoas que no então período de tensão político-militar se haviam deslocado para locais mais seguros, como maior destaque para as cidades da Beira, Chimoio e Inhambane. 

Funcionários de vários estabelecimentos, com realce para as unidades sanitárias e escolares, estavam envolvidos até ao princípio da tarde de ontem em jornadas de limpeza e ornamentação dos seus tradicionais locais de actividade.

O facto, que também coincide esta semana com o calendário escolar nacional do início das aulas neste terceiro trimestre, excitou sobremaneira a actividade de ensino/aprendizagem.

Cenário semelhante estendeu-se na reabilitação das bancas e barracas fixas, incluindo residências que se encontravam completamente abandonadas. O ananás e a amêndoa da castanha de caju, que constituem o cartaz do produto de rendimento em Muxúnguè, voltaram à ribalta, enquanto, paradoxalmente, estabelecimentos de indústria hoteleira e similares estavam ainda a dar os primeiros passos para o reinício da actividade normal.

No geral, o custo de vida contínua alto, mas autoridades administrativas, operadores económicos e residentes de Muxúnguè esperam que gradualmente os preços de produtos da primeira necessidade venham a estabilizar-se até baixar nos próximos dias.

Desde o dia 4 de Abril do ano passado até esta quarta-feira a circulação de pessoas e bens estava condicionada entre Muxúnguè e rio Save a duas colunas por dia, sendo uma de manhã e outra no período da tarde, expondo os viajantes a riscos de vida com ataques de homens armados da Renamo, culminando com o luto, mutilações e avultados danos materiais.

Consequentemente, isto criava pânico no seio dos utentes da rodovia e quase que todos os moradores de Muxúnguè e ao longo do traçado da Estrada Nacional Número Um, anteriormente crítico, incluindo Machanga, pernoitavam nas matas, conforme relataram ontem ao nosso repórter no terreno. Porém, desejaram a manutenção da paz para impulsionar cada vez mais a economia e o bem-estar de todos.

Horácio João  - jornal Notícias (mz)            

MOÇAMBIQUE PRECISA DE ESTABILIDADE POLÍTICA




Moçambique precisa de estabilidade política e de estar em paz para continuar a manter os elevados índices de crescimento económico e social que tem vindo a registar nos últimos anos, bem como para consolidar a sua democracia.

Este posicionamento foi apresentado ontem em Maputo pelo Vice-Ministro italiano para o Desenvolvimento Económico, Carlo Calenda, à saída do Gabinete do Presidente da República, Armando Guebuza, onde foi recebido em audiência pelo Chefe do Estado.

Carlo Calenda afirmou que o país precisa igualmente de estabilidade para realizar as próximas eleições gerais, marcadas para 15 de Outubro próximo, com tranquilidade e num clima pacífico.

“Estamos muitos satisfeitos com os últimos desenvolvimentos do quadro político e do entendimento alcançado entre o Governo e a Renamo. Isso é muito importante para a estabilidade num período em que deverão ser realizadas as eleições gerais”, disse Carlos Calenda.

O governante italiano referiu ainda que a estabilidade é factor motivador para os investidores nacionais e internacionais continuarem a financiar projectos de desenvolvimento do país.

Segundo Calenda, o alcance do acordo de entendimento entre o Governo e a Renamo é também demonstração da capacidade de liderança do Chefe do Estado, Armando Guebuza.

Sobre o encontro com o Presidente da República, o governante italiano afirmou que é mais um sinal de confirmação da existência de uma forte ligação entre Itália e Moçambique.

“A relação entre os dois países não é apenas política e de amizade mas também de interesses económicos mútuos, tudo com vista a garantir o bem-estar dos seus povos”, afirmou Carlo Calenda.

Exemplo disso, segundo o governante transalpino, é que a Itália tem muitas empresas que vão começar a trabalhar directamente em Moçambique nalguns sectores de produção, como de cimento e mármore.

Pela quarta vez em Moçambique num período inferior a 12 meses, Carlo Calenda disse sentir-se satisfeito com o actual nível de relacionamento entre os dois países e garantiu que a cooperação será cada vez mais fortificada.

“A Itália está a pensar em abrir um centro de negócios que será um espaço para a exposição de produtos italianos em Moçambique e alargar parcerias, como por exemplo no âmbito da FACIM, a decorrer desde segunda-feira em Maputo”, acrescentou.

Ainda ontem o Chefe do Estado, Armando Guebuza, recebeu no seu gabinete de trabalho o representante do Vaticano no país, António Arcadi.

O Núncio Apostólico vinha apresentar a sua despedida depois de cumprir um mandato de cinco anos naquele cargo.

Jornal Notícias (mz)

Primeiro-Ministro timorense em Bali e Samoa para participar em conferência da ONU




Díli, 28 ago (Lusa) - O primeiro-ministro de Timor-Leste, Xanana Gusmão, viajou hoje para Bali, Indonésia, para participar no 6º Fórum Mundial da Aliança das Civilizações da ONU, seguindo depois para a Samoa para a conferência sobre Pequenos Estados Insulares em Desenvolvimento.

Segundo uma nota informativa divulgada pelo governo timorense, em Bali, Xanana Gusmão vai fazer um "discurso na sessão de abertura do Fórum, juntamente com o secretário-geral da ONU, Ban Ki-Moon, e com o Presidente da Indonésia, Susilo Bambang Yudhoyono".

"Aproveitando o facto de vários líderes mundiais estarem também presentes no Fórum, o primeiro-ministro vai ter reuniões bilaterais com altos funcionários da ONU e líderes estrangeiros", refere a nota.

Na segunda-feira, o primeiro-ministro timorense segue para a Samoa, onde permanece até quarta-feira, para participar na Conferência da ONU sobre Pequenos Estados Insulares em Desenvolvimento, que vai contar também com a presença do secretário-geral da ONU e vários chefes de Estado e de Governo.

Na Conferência da ONU sobre Pequenos Estados Insulares em Desenvolvimento, Xanana Gusmão vai falar sobre a "necessidade de paz e estabilidade para alcançar as metas de desenvolvimento" das Nações Unidas e reunir-se com vários chefes de Estado e de governo.

MSE // JCS - Lusa

Especialistas brasileiros defendem Acordo Ortográfico e rejeitam simplificação da língua




São Paulo, 27 ago (Lusa) - A implantação do Acordo Ortográfico de Língua Portuguesa (AO) foi defendida hoje por um académico, um historiador e um linguista brasileiros, que rejeitaram o projeto de simplificação do idioma, analisado pelo Senado brasileiro, durante um debate em São Paulo.

O debate ocorreu na 23.ª Bienal Internacional do Livro e contou com a participação do gramaticista e membro da Academia Brasileira de Letras Evanildo Bechara, do linguista e coordenador da comissão brasileira no Instituto Internacional da Língua Portuguesa (IILP) Carlos Alberto Faraco, e do historiador Jaime Pinsky.

Faraco criticou o adiamento do prazo para a obrigatoriedade de alicação do AO no Brasil, de janeiro de 2013 para janeiro de 2016, e defendeu a integridade do documento, ou seja, que o acordo não sofra alterações.

O projeto de simplificação do idioma tem sido defendido por linguistas brasileiros, liderados por Ernani Pimentel, e está em análise na Comissão de Educação do Senado brasileiro.

A proposta, que já foi apresentada em Portugal e em África, prevê a adoção de uma nova ortografia que suprima, por exemplo, a letra "H" não pronunciada e mude as atuais regras de uso do "g" e do "j".

"O que se propõe é vandalismo ortográfico", afirmou Faraco. "Não há fundamentação técnica ou razão social, cultural e económica para mexer numa ortografia estabilizada", afirmou Faraco, para quem a escrita fonética (aquela que segue o som das palavras) seria um "descalabro" e o "fim da ortografia".

O historiador Jaime Pinsky citou um artigo que escreveu para o jornal Correio Brasiliense, em maio. No texto, problematiza a questão dos sotaques regionais que, no caso de uma escrita fonética, causaria confusão na grafia das palavras - o mês de abril, por exemplo, é pronunciado "abriu" ou até "abrir" em diferentes localidades brasileiras.

"É ridícula a ideia de escrever como se fala. A língua tem fatores de caráter históricos, que não podem ser desconsiderados", disse.

O académico Evanildo Bechara lembrou que a opção por uma escrita fonética em português já foi rejeitada no século XIX, quando foi proposta, e realçou que a língua tem princípios culturais e sociais. "Há de se trabalhar para que a coletividade escreva [o português] de uma maneira única, mas quem deve propor [as regras] são os técnicos, as academias e as universidades", afirmou.

Bechara disse também que não concorda com todas as regras do AO, e que ele necessita de algumas adaptações, mas que serão feitas com o tempo.

Faraco usou como exemplo a falta de padronização para as palavras provenientes do idioma banto, em África, mas que essas questões poderão ser resolvidas localmente, como fez Moçambique ao incluir vocabulário dessa língua, nas normas ortográficas.

O Acordo Ortográfico começou a ser negociado em 1975, foi assinado em 1990 pelos oito países de língua oficial portuguesa (Angola, Brasil, Cabo Verde, Guiné-Bissau, Moçambique, Portugal, São Tomé e Príncipe e Timor-Leste) e ratificado por seis deles, com exceção de Angola e Moçambique.

FYB // MAG - Lusa

Brasil: O Fundo, a autofagia e o risco de mais um elefante branco



Afropress, editorial

A proposta da criação de um Fundo Nacional de Combate ao Racismo (FNCR), que será lançada esta semana em Brasília, é uma boa iniciativa – a única, depois de anos de paralisia de um movimento social que se congelou no tempo, sem lideranças autênticas, e com porta-vozes chapa-branca, que se acomodaram aos puxadinhos dos partidos ou dedicaram-se a engordar currículos na Academia. Nada contra currículos, nem partidos, desde que não pretendam ser porta-vozes de quem não lhes passou procuração.

Com as exceções de praxe, que existem exatamente para confirmar a regra, não temos um movimento social negro, capaz de aglutinar as grandes massas vítimas, de um lado, da exploração econômica e dos piores níveis de desigualdade mantidos por todos os Governos, independente do partido e da orientação política-ideológica dos mesmos; e de outro, da pior modalidade de racismo praticada no planeta, o racismo brasileiro, que tem como peculiaridade a dissimulação, a hipocrisia de jamais se assumir sem, no entanto, deixar de ser tão letal quanto qualquer outro.

As lideranças que apareceram nos últimos 40 anos, ou estão presas à lógica partidária, ou fazem carreira nas Academias. Tornaram o estar nos partidos ou na Academia um meio de vida, dando as costas a imensa maioria pobre e negra que vegeta nos territórios da exclusão, matando 10 leões por dia para sobreviver com alguma dignidade.

O mais interessante é que essa gente pretende falar por todos, como se tivessem alguma procuração ou mandato divino. Vítimas das sequelas de que foram alvos nossos antepassados pelos quase 400 anos de escravidão, e da cultura racista que nos divide à custa de migalhas para manter a supremacia da elite branca nos postos de comando, boa parte dessas lideranças perdeu a noção de que somos a maioria da sociedade e, portanto, não devemos continuar falando para os guetos onde querem nos aprisionar e manter.

Por outro lado, o grau de agressividade, de violência e de truculência com que tratam seus pares – muitas vezes, apenas pelo crime de discordarem de suas estratégias e discursos vazios – é assustadora.

Ainda na semana passada, um conhecido jornalista e historiador, cujo nome nos reservamos ao direito de não mencionar em respeito à ausência, assacou com paus e pedras, seguidos de insultos e de uma retórica furibunda na sua rede social, apenas por que ousamos dizer que a polêmica em torno das cotas criada por conta da posição editorial assumida pela Folha, "era fora de hora e de propósito” e, parea nós, chamar de racista quem é contrário às cotas soava a "fundamentalismo evangélico de algumas seitas neopentescostais para quem toda aquele que não comunga com suas crenças e ritos está condenado ao fogo do inferno".

Há cerca de vinte dias, em outro episódio, uma militante catarinense com tese de mestrado na UFSC, cujo nome também omitimos para não alimentar intrigas nem ódios tolos, reagiu como se tivesse sido gravemente ofendida quando confrontada com uma opinião de que determinada situação relatada não se configurava como crime de racismo.

Fica decretado que qualquer divergência de opinião deve ser respondida com insultos. Essa parece ser, para alguns, a regra de ouro, em especial, para esse autoproclamado grupo de iluminados, que se pretende porta-voz das nossas demandas.

Não poucas vezes, temos sido obrigados a interromper mensagens pela rede social, porque certas pessoas estão (mal) acostumadas ao exercício da agressividade gratuita e as brigas, as inimizades, as quizilas. Os maus tratos e insultos surgem do nada. Entre pares negros rugem como leões ferozes; entre brancos com poder, miam como gatinhos, já disse alguém com toda propriedade.

Só há uma explicação para tanta agressividade e para tais práticas: são as sequelas, mantidas vivas e que fundamentam a autofagia que é, em regra, a base da relação interpessoal entre negros militantes.

A conhecida síndrome do caranguejo, que é perceptível por quem já viu a briga de foice entre esses crustáceos colocados numa panela, uns tentando subir a todo custo passando por cima dos outros, e outros tentando no desespero segurar os que sobem: quando alguém se destaca uma tropa inteira está pronta para segurá-lo, barrá-lo, impedí-lo de ascender.

Voltando ao Fundo, a boa idéia – em especial, partindo de um técnico e ativista respeitado como o é Mário Theodoro Lisboa – não significa que não haja problemas que precisam ser enfrentados. Coletar 1,4 milhão de assinaturas não é tarefa fácil e requer, inclusive, uma logística e uma organização razoáveis.

Por outro lado, a notícia de que o Fundo deverá ficar sob a rubrica da SEPPIR é um balde de água gelada sobre milhares de ativistas para quem o papel daquela Secretaria está mais do que óbvio: foi criada para simular uma inclusão que deve permanecer no plano do simbólico e para servir de cabide de empregos para lideranças negras comprometidos com os seus próprios esquemas partidários.

O Fundo, uma vez criado – tarefa que exige uma gigantesca mobilização, não apenas para coleta das assinaturas mas para forçar sua aprovação pelo Congresso e posterior sanção pela Presidência da República – deve ser gerido por um Comitê Intergovernamental com autonomia de decisão e capaz de fazer com que os recursos não se percam nos caminhos e escaninhos da burocracia.

Colocá-lo sob a influência da SEPPIR e da Palmares – transformadas uma e outra em meros guetos dos grupos que obedecem as ordens e os comandos dos seus gestores e dos seus partidos, e que perseguem quem ousa não fazer parte dos seus esquemas, especialmente na atual gestão – é o mesmo que dá um tiro no pé. Cabe a SEPPIR e a Palmares disputar os recursos no interior dos Governos dos quais participam e geri-los bem, independente do Partido a que pertençam, o que não acontece hoje, se é que aconteceu algum dia.

Por fim, o lançamento, em plena campanha eleitoral, do movimento para a coleta assinaturas em apoio a um Projeto de Iniciativa Popular que terá de ser aprovado pelo Congresso Nacional a ser eleito em outubro, deveria ser seguida de uma ampla mobilização para pressionar parlamentares e candidatos nestas eleições a tomarem uma posição em relação ao tema.

Qual é a posição dos candidatos ao Senado e a Câmara Federal sobre o Fundo? Qual é a posição dos presidenciáveis, especialmente, dos três melhor situados nas pesquisas – Dilma Rousseff, Aécio Neves e Eduardo Campos?

Por que não comprometê-los ou, ao menos, saber que posição defendem e, em função disso, orientar o voto de todo(a)s o(a)s negro(a)s brasileiro(a)s?

Sem isso, a proposta do Fundo, ainda que correta, fica deslocada no tempo e no espaço e, principalmente, do contexto político, e corre o sério risco de virar um elefante branco – sem viabilidade nem serventia. A conferir.

PROTESTO NEGRO CONTRA VIOLÊNCIA POLICIAL UNE BRASIL, NY E FERGUSON



Edson Cadette - Afropress

Nova York/EUA – Um dia depois de pelo menos 50 mil pessoas terem saído às ruas em várias cidades brasileiras, a população do bairro de Staten Island, em Nova York, liderada pelo reverendo e ativista Al Sharpton, fez o mesmo no último sábado (23/08) em protesto pela morte de Eric Garner, um negro vendedor de cigarros, morto pela polícia novaiorquina em julho passado.

Os protestos no Brasil e em Nova York acontecem em meio a Revolta de Ferguson, a pequena cidade do Estado do Missouri, onde a população tem saído às ruas quase diariamente para protestar contra a morte do jovem Michael Brown, de 18 anos, alvejado com seis tiros por um policial branco no dia 09 de agosto passado.

Garner, pai de seis filhos, suspeito da venda ilegal de cigarros, foi morto por um policial com um golpe de gravata no dia 17 de julho, depois de já estar dominado. Um vídeo amador mostra um policial apertando o pescoço de Garner, que desmaiou e já chegou morto ao hospital. A prática da gravata havia sido abolida pelo Departamento de Polícia em Nova York (NYPD) em 1993, depois que um outro cidadão negro foi morto no bairro do Bronx.

O correspondente de Afropress, Edson Cadette, esteve na manifestação e conversou com o presidente do Sindicato dos Porteiros de Nova York, Hector Figueroa (na foto da capa), um dos organizadores do protesto.

Confira o relato do nosso correspondente.

Staten Island, Nova York – “Não estamos aqui para destruir. Estamos aqui para construir. Não somos contra a Polícia, mas aqueles que são infratores devem responder criminalmente como qualquer outro cidadão”. Como estas palavras, o pastor e ativista Al Sharpton,  presidente da National Action Network  (Rede de Ação Nacional) liderou, no último sábado, (23/08) cerca de 2.500 pessoas pelas ruas do bairro de Staten Island/NY para protestar contra a morte, no mês passado, de Eric Garner.

Cartazes com os dizeres – “Parem de nos Matar”, “Respeitem os direitos humanos”, “Justiça e Direito Civis para Todos”, “Polícia de Nova York (NYPD)=KKK” foram carregados pelos manifestantes pelas ruas do bairro. A Polícia acompanhou o protesto sem intervir.

Entre os manifestantes estava Saul Nieves, um líder comunitário que há mais de 10 anos trabalha para o Sindicato dos Porteiros de Nova York. Segundo ele, “a militarização da Polícia no país é um problema sério que deve ser debatido pela sociedade, assim como todas as formas de racismo”. Michelle Crentsil, outra líder comunitária  participou do protesto e condenou “a brutalidade da Polícia no trato com cidadãos negros”.

Organizações Não-Governamentais (ONGs) e representantes políticos, entre entre os quais, o ex-governador de Nova York, David Patterson, o presidente do Sindicato dos Professores, Michael Mulgrew e o presidente do Sindicato dos Porteiros de Nova York, Hector Figueroa, marcaram presença na manifestação. O atual prefeito de Nova York, Bill de Blasio, cuja presença era esperada, porém, decidiu não comparecer.

Com o slogan “Direitos trabalhistas se equivalem aos direitos civis”, o presidente Hector Figueroa concedeu entrevista ao correspondente de Afropress, Edson Cadette, enquanto participava do protesto.

Afropress: A corporação policial mudou muito nestes últimos 30 anos. Há muitas minorias nos seus quadros, mesmo assim, você acredita que a policia continua visando as minorias?

Hector Figueroa: Houve muito progresso, com certeza, porém o assédio policial (racial profiling), ainda é uma prática disseminada dentro da Polícia, e ela precisa ser discutida por todos na sociedade. Ela tem de acabar. Devemos ter regras dentro da Polícia, e quando elas não forem cumpridas deve haver consequências. Como, porexemplo, a prática da gravata que foi abolida há quase 20 anos e que resultou na morte de Eric Garner. A Polícia tem que abrir-se mais para a comunidade.

Afropress: Qual é a mensagem que o Sindicato dos Porteiros de Nova York envia para o Comissário de Polícia e também para o prefeito Blasio?

HF: Uma mensagem de união que nós queremos segurança para toda nossa comunidade, para todos nossos cidadãos, independentemente de como eles se parecem, sua raça, sua orientação sexual, ou sua religião. Temos que ver isto como uma luta contínua para erradicar os preconceitos que, infelizmente, ainda afetam nossa sociedade e nossas Instituições como o Governo, a Polícia, e nossos sindicatos. Todos temos que nos esforçar para nos comportarmos de uma maneira que inclua todas as  pessoas. O Departamento de Polícia precisa entender que somos uma comunidade e com isso proteger a todos.

Afropress: Não sei se é do seu conhecimento, mas ontem no Brasil houve uma grande manifestação contra a violência policial que atinge desproporcionalmente os jovens negros. Você acredita que os países da América Latina devem olhar para o que está acontecendo aqui em Nova York e usar esta manifestação como exemplo?

HF: Acredito que este tema é algo que sempre está acontecendo ao redor do mundo. Nós devemos observar o que aconteceu com o Eric Garner e nos perguntar: “estamos fazendo o suficiente para prevenir o que aconteceu?” “Estamos fazendo o suficiente  para que uma pequena infração não resulte na morte de um cidadão pai de 5 filhos que certamente deveria esta aqui?” Temos que ter certeza que isso não aconteça novamente.

Afropress: Quantos associados o Sindicato 32BJ tem no momento?

HF: Um total de 145 mil em 11 estados da Federação.

Afropress: Muito obrigado.

HF: De nada.



Portugal: JUROS DA DÍVIDA À MARGEM DO GOVERNO



Pedro d’Anunciação – Sol, opinião

Já se tinha percebido que os juros da dívida pública portuguesa oscilam mais segundo as posições do BCE e de Bruxelas, acompanhando de resto a de outros países (como a Grécia e Espanha), do que com a acção de figuras nacionais.

Mas como o Governo gostava de chamar a si o sucesso, e como Moreira Rato se tornou uma espécie de mito nacional por causa disso (conquistando mesmo a administração de um Banco nacionalizado, o Novo Banco do BES), convém notar que a última venda de dívida portuguesa no mercado primário, já com a sucessora de Moreira Rato, Cristina Casalinho, no IGCP, teve os juros mais baixos de sempre.

Os mercados não ligaram a nada do que cá se passa: nem à crise do BES, nem ao aumento astronómico da dívida pública, nem mesmo à subida estratosférica do défice comercial no primeiro semestre do ano (mais 1,8% de exportações e 4,3% de importações).

Cá vamos andando e rindo – apesar deste Governo.

Portugal: Governo apresenta hoje segundo orçamento rectificativo do ano




O Governo apresenta hoje à Assembleia da República e à comunicação social o segundo orçamento rectificativo deste ano, que não contempla mais impostos para compensar os 'chumbos' recentes do Tribunal Constitucional.

O Executivo liderado por Pedro Passos Coelho reúne-se em Conselho de Ministros hoje de manhã e apresentará o orçamento rectificativo à comunicação social no habitual 'briefing' após a reunião, disse à agência Lusa fonte da Presidência do Conselho de Ministros.

O Governo também entrega hoje o orçamento rectificativo à Assembleia da República, que tem um plenário extraordinário marcado para dia 4 de Setembro para apreciação e votação do documento. Para a semana seguinte está prevista uma eventual discussão e votação de normas do rectificativo na especialidade e votação final global do documento.
O segundo orçamento rectificativo deste ano foi aprovado em Conselho de Ministros extraordinário na terça-feira, sem contemplar alterações a nível fiscal para fazer face aos 'buracos' criados pelas inconstitucionalidades decididas pelos juízes do Palácio Ratton. 

Sem especificar as medidas propostas no documento, o Governo explica que "a revisão dos tetos orçamentais é acomodada pela evolução positiva do emprego e consequente redução da despesa com prestações e melhoria da receita fiscal e de contribuições para a segurança social, e pelo controlo das rubricas de despesa fora da despesa com pessoal".

O Governo assegura que o rectificativo garante "o cumprimento do objectivo de 4% para o défice público no corrente ano, corrigindo os efeitos decorrentes da decisão de inconstitucionalidade proferida pelo Tribunal Constitucional (TC) sobre algumas normas" do Orçamento de Estado para este ano. 

A necessidade de um segundo orçamento rectificativo (o primeiro foi apresentado logo em Janeiro) foi anunciada pelo Governo depois de, em Maio, o TC ter chumbado os cortes salariais acima dos 675 euros, a alteração ao cálculo das pensões de sobrevivência e a aplicação de taxas de 5% sobre o subsídio de doença e de 6% sobre o subsídio de desemprego.

Estes chumbos abriram um 'buraco' de cerca de 860 milhões de euros no documento, segundo disse em Junho a ministra das Finanças, Maria Luís Albuquerque.

No entanto, o Governo não avançou então com um rectificativo porque quis "estabilizar em definitivo" os mecanismos de substituição "com que poderia contar" para substituir as medidas declaradas inconstitucionais, recordou na semana passada o ministro da Presidência, Marques Guedes.

Há pouco mais de uma semana, os juízes do Palácio Ratton consideraram constitucional a reintrodução dos cortes salariais entre os 3,5% e os 10% nos salários do sector público acima dos 1.500 euros em 2014 e 2015, mas declararam inconstitucionais os referentes aos anos de 2016 a 2018. 

O TC considerou ainda inconstitucionais duas normas do diploma que cria a contribuição de sustentabilidade da Segurança Social por "violação do princípio da protecção de confiança". Este chumbo abre um 'buraco' de 372 milhões de euros no Orçamento do Estado para 2015, segundo contas do Governo.

Lusa, em Sol

Portugal – PIRES VELOSO: NEM VICE-REI NEM HOMEM, APENAS CANALHA




Uma leitura obrigatória, por quem viveu e sofreu aqueles dias

*Mário Tomé - Inflexão

A democracia novembrista, como foi gerada num golpe contra a democracia que rasgava os horizontes para um futuro decente graças ao 25 de Abril, fez de praticamente todos os implicados, mesmo que bombistas, assassinos e canalhas, gente respeitável, grandes patriotas pelo papel fundamental que tiveram no combate à revolução e à sua expressão genuína, o PREC.

Este é o caso do finado António Pires Veloso, cognominado vice-rei do norte pelo papel violento que desempenhou contra o movimento popular e a democracia nos quartéis, os dois pilares da revolução de Abril.

Tinha 88 anos e foi, durante o PREC, como comandante da Região Militar do Norte , testa de ferro dos militares ao serviço da coligação PS+PSD+CDS+spinolistas+bombistas que planearam e executaram o golpe do 25 de Novembro de 1975.

O obituário de António Pires Veloso no DN e, entre outras que decerto houve, a referência que Marcello Rebelo de Sousa lhe fez na sua missa dominical na TVI, “um homem essencial na fase crucial final da revolução”, levam-me a fazer também a minha nota necrológica.

No seguimento do golpe do 25 de Novembro de 1975, os militares comprometidos com o movimento popular e com a democratização das Forças Armadas, foram presos e colocados em Caxias e Custóias. Os presos em Custóias, sob custódia militar de Pires Veloso, foram colocados em isolamento absoluto, em celas de 3X2 m mais o balde da merda por companhia.

Um dia foram surpreendidos pela algazarra de um grupo de presos de delito comum que investiram pelas 3 alas ocupadas pelos presos militares e, de posse dos respectivos molhes de chaves, lhes abriram as portas das celas gritando, “fujam que já abrimos tudo”. Valeu o sangue frio dos presos militares travados, aliás, no natural impulso de ganhar a liberdade – convém lembrar que o isolamento incluía a inexistência de qualquer informação sobre as causas da prisão, sobre o enquadramento da sua situação e sobre o destino que os esperava e que tudo era possível - pela intervenção dos majores Cruz Oliveira, Queiroz Azevedo e Campos Andrada que gritaram “o pessoal não sai daqui”. Porque aquela cena só podia tratar-se de uma provocação para serem abatidos quando tentavam fugir. Os três majores dirigiram-se através de corredores desertos e portas escancaradas até ao posto da chefia dos guardas prisionais onde lhes foi dito nada saberem! Para lá do portão, lá fora, um pelotão da GNR aguardava…

A doce moleza pantanosa que nos tem transportado até à insolvência financeira, económica, política e ética, fazendo do povo e dos trabalhadores não só bode expiatório mas, mais ainda, vítimas escolhidas do esbulho brutal com que governos e finança, em bacanais de corrupção instituída, têm comemorado o 25 de novembro, ano após ano, dificulta-nos a percepção daquilo que gente engravatada e com currículo e pedigree está pronta para fazer, ou mandar fazer.

Este o caso de Pires Veloso que se comportou como um canalha durante o PREC e, em especial, em relação aos militares presos em Custóias sob sua jurisdição político/jurídico/militar.

Ainda sob o seu comando na Região Militar Norte foi preparada a Operação Montanha que se destinava a, oficialmente, transferir durante a noite alguns dos presos militares para a Guarda mas que tinha de novo a intenção provocatória da emboscada para os abater; foi a acção determinada do Dr. Ramon de La Féria e do então governador civil do Porto, Cal Brandão, junto de Pires Veloso que impediu mais uma tentativa canalha e cobarde de assassinato de prisioneiros.

Para ilustrar esta afirmação, sirvo-me de excertos de uma carta que o Major Médico Cruz Oliveira me facultou e autorizou a divulgar.

"Meu caro Ramon de La Féria

Em
tempos escrevi-te uma carta curta, mas bastante sentida, em que te agradecia o quanto te devia pessoalmente, e também quanto te deviam muitos dos que devotadamente se envolveram em defender os ideais de Abril. E sinto agora novamente necessidade de te escrever, para que, quem desconhece o por ti feito, possa avaliar a tua coragem, nobreza anónima e determinação que obstou a que tivéssemos sido exterminados como esteve para acontecer depois do 25 de Novembro. Mas passo a contar:

Em meados de 1978, estava eu sentado na mesa de uma esplanada com o meu advogado e nosso comum amigo, Teófilo Carvalho dos Santos, que era na altura o meu advogado para me defender das perseguições de que estava a ser alvo por parte da Força Aérea, quando passou um homem que ele cumprimentou dizendo – Adeus, Ó Mário! – e perguntou-me – Você não conhece o Cal Brandão? E com a singeleza e simplicidade que o caracterizava contou-me: Você lembra-se de que quando esteve preso em Custóias, correu o boato de que havia um grupo de doze presos que deviam ser liquidados?

Se me lembrava! Apesar de estarmos incomunicáveis e com dificuldade em sabermos o que se passava cá fora, chegou ao meu conhecimento pelos truques em que os presos e as famílias são férteis, de que no Estado Maior da Região Militar do Norte, se estava a estudar a execução de um golpe, que visava a liquidação de doze detidos considerados como cabecilhas e perigosos. A operação a executar era simples, seríamos metidos em carros celulares e com uma escolta militar escolhida a dedo, seríamos transferidos para a Guarda. Em determinado sítio os carros detinham-se, deixavam-nos sair para urinar e seriamos eliminados a tiro sob pretexto de que tínhamos intentado fugir. Seria também inculpado nisso um grupo de ciganos, que erravam então na região. Os militares a liquidar eram os doze que posteriormente foram transferidos para o Presídio Militar de Santarém, o Campos de Andrada, o Tomé, o Queiroz Azevedo, o José Andrade, o Francisco Paulino, o José Afonso Dias*, o Álvaro Neves**, o Godinho, um “civil de apelido Luz”***, mais dois militares e eu. A operação não se realizou imediatamente porque havia dificuldade em reunir um grupo de soldados que se dispusessem a colaborar num assassinato desta ordem; isto foi o que nos contaram alguns militares já contactados para o efeito e que desvendaram o segredo às nossas famílias. A operação dependia directamente do Chefe de Estado Maior da Região Militar do Norte.

Foi num destes dias negros, que com a frontalidade com que sempre assumes as tuas atitudes, me escreveste. Uma carta sentida de encorajamento fraternal, de compreensão pelas atitudes tomadas, de esperança na persecução nos ideais de Abril. E respondi-te logo, numa pequena missiva, em que contava todas estas peripécias, ciente de que era bem possível vir a ser liquidado dentro de dias e bom seria que a história pudesse vir a contar, posteriormente, com o esclarecimento do ocorrido…Recorrendo a uma artimanha que na altura me ocorreu, mandei-te a carta dentro de um par de botas que “simuladamente” não me serviam, nem nunca chegaram a servir, que eu devolvi, através dos guardas, à minha família. Que guarda ia pensar que dentro das bolas de jornais amarrotados que enchiam as botas, ia uma carta para ti? E assim recebeste a minha carta.

A operação de transferência-liquidação, não soubemos porquê na altura, gorou-se e fomos transferidos sim, mas de helicóptero, para Santarém.

Começa aqui novamente a narração do Teófilo: - “Você lembra-se de ter escrito uma carta ao Ramon de La Féria a contar que o Pires Veloso se preparava para mandar matar alguns militares presos, entre os quais estava você? Vocês tiveram sorte, porque segundo me contou o Cal Brandão, o Ramon, nesse dia mesmo, meteu-se num avião, foi ao Porto, mostrou a sua carta ao Mário que era o Governador Civil e os dois foram falar com o Pires Veloso em termos tão firmes que ele deu o dito por não dito, que isso não era assim, que podiam estar descansados e até chamou o seu Chefe de Estado Maior, o Major Gabriel Teixeira, que era quem tudo estava tramando, que também negou a operação, que, segundo soubemos, até já tinha o nome de “Operação Montanha”.

Escapámos por pouco. E nunca se soube como nem porquê. Encontrei-te várias vezes e nada me contaste. É bem do teu carácter e da tua modéstia esse proceder. E incógnita ficaria esta façanha, um acto tão belo e de tanta determinação morreria solteiro.

Escrevo-te hoje esta carta, de que farás o uso que quiseres, certo de que, em mais um aniversário do nosso 25 de Abril, quero que as gerações vindouras te conheçam, saibam o teu nome e te considerem um Homem de Abril.

Eles agradecer-te-ão, eu não o faço. O teu acto é tal que deve se exaltado e não banalizado.

Fraternalmente teu amigo, abraça-te com dedicação e amizade o

Carlos Cruz Oliveira

Ericeira, 25 de Abril de 2001"

O facto de os doze militares terem sido, abortada a operação Montanha, transferidos para Santarém, demonstra cabalmente que um destino diferente lhes foi de antemão reservado. Aliás não tem sentido separar “os cabecilhas” quando os presos estavam, como já referi, totalmente isolados.

*Já falecido.

**Álvaro Neves, já falecido, e Godinho Rebocho, sargentos paraquedistas que encabeçaram a movimentação dos paraquedistas contestando a sua extinção como Corpo

***Militante do PRP

quarta-feira, 27 de Agosto de 2014

A FAIXA DO DESESPERO (2)



Rui Peralta, Luanda (continuação - ver anterior)

IV - A História dos movimentos palestinianos remonta á História da Palestina moderna, iniciada com a Declaração de Balfour (apresentada á Organização Sionista Mundial pelo ministro britânico dos negócios estrangeiros, Lord Balfour, em 2 de Novembro de 1917) que dividiu os povos semita7 da Palestina. Trinta anos depois, em Novembro de 1947, a Assembleia Geral da ONU aprova a resolução 181, que prevê a existência de três entidades políticas diferentes na Palestina: um Estado Judaico, uma Palestina Árabe e uma zona internacional (Jerusalém), ligadas economicamente. Em Março de 1948 Israel proclama a sua independência, pela voz de Ben Gurion o seu primeiro presidente.

Inicialmente os palestinianos combatiam militarmente Israel nas fileiras da Legião Árabe ou dos exércitos jordano e egípcio, enquanto o combate político (e político-militar, assim como o combate ideológico) era realizado nas fileiras da Irmandade Muçulmana (no Egipto), do movimento nasserista ou no Partido BAAS (na Síria). Em 1964 é fundada a Organização para a Libertação da Palestina (OLP), na cidade de Alexandria, Egipto. Um ano depois, a Al-Fatah (criada em 1954), inicia a luta armada, através do seu braço armado, o Al-Assita, comandado por Yasser Arafat (que iniciou a sua militância politica e guerrilheira na Irmandade Muçulmana) e que presidiu a OLP, quando em 1969 esta organização é restruturada e formado um comando unificado com a Al-Fatah, a Al-Satka (fundada na Síria e liderada por Zoher Mohsen, que militou no BAAS sírio. A influência Síria sempre se fez sentir na OLP e mesmo no interior da Fatah, como ficou demonstrado em 1983, quando uma dissidência da Fatah forma em Damasco a Frente de Salvação Nacional da Palestina, liderada por Abu Musa) e a anterior estrutura da OLP e do Exército de Libertação da Palestina. Esta restruturação foi consequência da Guerra dos  Seis Dias, em 1967, que foi uma pesada derrota árabe, tendo Israel ocupado o Sinai, Gaza, a Cisjordânia, Jerusalém e os Montes Golã (nesta guerra Israel ocupou um total de 65 mil quilómetros quadrados em 6 dias).

 A restruturação da OLP, com a criação do comando unificado, gerou uma dinâmica unitária na maioria dos sectores da sociedade palestiniana. No entanto algumas tendências do movimento palestiniano não se reviam neste modelo organizacional e nas estratégias traçadas pela OLP. Havia sectores que não reconheciam a OLP como líder do processo de libertação e outros que a reconheciam a sua legitimidade embora fossem críticos em relação às linhas políticas da organização. Dois anos antes da restruturação da OLP foi fundada a Frente Popular para a Libertação da Palestina (FPLP), com origem na Frente de Libertação da Palestina que inicialmente denominava-se Movimento Nacional Árabe. A FPLP definia-se como marxista-leninista e era liderada por George Habash, um médico oriundo de família cristã. A primeira acção da FPLP foi em 1968, desviando um avião da El-Al (linhas aéreas israelitas). Embora a organização aderisse ao comando unificado e Habash fosse do comité central da OLP, a acumulação de divergências e a detenção de um dos seus comandantes (Ahmed Saadat) por ordem de Yasser Arafat, levou á ruptura, em 1974. A FPLP forma, com Ahmad Jibul (um ex-dirigente da Fatah- e outros grupos de combatentes a Frente de Recusa.

Em 1969 surge (em consequência de uma cisão na FPLP) a Frente Popular Democrática da Palestina (FPDLP), de tendência maoista e liderada por Neif Hauatmé. A FPDLP reconhece a OLP como representante do povo Palestiniano e não rejeita a existência do Estado israelita. Da miríade de organizações e grupos palestinianos (alguns formados pelos serviços secretos dos países árabes - como a Frente Nacional de Libertação, criada na década de 80 pelos iraquianos - e pelos serviços israelitas) destaca-se ainda a Organização Setembro Negro, surgida em 1971. Foi responsável pelo assassinato do primeiro-ministro jordano Uaxti Tall, nesse mesmo ano e pelo assassinato de 11 atletas israelitas durante os Jogos Olímpicos em Munique. O Setembro Negro surge em consequência dos combates travados em solo jordano entre milícias palestinianas (na época abrigadas em Amã, na Legião Árabe) e o exército jordano. Destes combates resultaram mais de 4 centenas de mortos no lado palestiniano e a expulsão do solo jordano (os palestinianos refugiaram-se no Líbano). O Setembro Negro é uma dissidência da Al-Fatah, provocada por grupos de combatentes palestinos expulsos da Jordânia, próximos ao comandante Abu Ali Lyad, da Fatah, morto em combate contra o exército jordano e que pretendiam derrubar a monarquia jordana.

Chegamos então ao Hamas, o Movimento de Resistência Islâmica, fundado durante os anos 80 no campo de refugiados de Jabalaya, em Gaza (e nas pedras da 1ª Intifada) pelo xeique Ahmed Ismael Yassin, ex-militante da Irmandade Muçulmana. Aliás as origens do Hamas encontram-se profundamente ligadas á Irmandade Muçulmana egípcia (tal como outros movimentos palestinianos laicos). O Hamas insere-se nos movimentos políticos islâmicos de novo tipo, que atravessam transversalmente o mundo islâmico contemporâneo.

Na Palestina este espaço é partilhado por mais duas organizações: a Jihad Islâmica (El-Qassem) e o Hezbolah da Palestina. Ambos originados nos campos de refugiados palestinianos no Líbano. A Jihad Islâmica foi fundada em 1988, por Fathi Shakari, outro ex-militante da Irmandade Muçulmana egípcia, residente em Damasco. Já o Hezbolah da Palestina, xiita, surgido no mesmo ano, está baseado no Irão, embora as suas estruturas militares estejam localizadas no Líbano. Os principais apoios externos destes grupos provêm do Irão e da Síria e a sua base de apoio, em Gaza, nas mesquitas. Estes movimentos não são reconhecidos pela OLP, nem pela Autoridade Palestiniana, embora tenham relações com o Hamas e na Cisjordânia com a FPLP, a FPDLP e mesmo com sectores da Fatah. Não têm, no entanto, a mesma força do Hamas, que implementado nas acções de trabalho  social realizado nas mesquitas palestinas (durante décadas Israel permitiu, por considerá-lo inofensivo  e ser um travão á posição laica, democrática e de libertação  nacional da OLP) tornou-se  hegemónico em Gaza.

O objetivo do Hamas é construir um  Estado islâmico na Palestina e no  programa do movimento consta a destruição do Estado  de Israel e recusou reconhecer os acordos de Oslo e a Autoridade Nacional Palestiniana. Esta postura inicial alterou-se com o tempo (e com a maior amplitude da base eleitoral). A linha inicial, que incluía atentados suicidas (entre 1994 y 2004 o Hamas realizou diversos ataques suicidas, abandonando, aparentemente, esta prática). O crescimento da organização levou ao diálogo com a OLP, consolidando-se como alternativa eleitoral no panorama politico palestiniano.

Em 2004, Ahmed Yassin, dirigente máximo e fundador  da organização morreu durante um ataque israelita. Em 2006 o Hamas apresentou-se,  pela primeira vez nas eleições legislativas para a Autoridade Nacional Palestiniana e venceu em Gaza. Israel e USA procuraram dividir e deslegitimar o triunfo do grupo islâmico. Com alguma anuência da Al Fatah  (organização preponderante na OLP) o governo palestino dividiu-se  em dois: o Hamas em Gaza e a OLP na Cisjordânia. Esta divisão  favoreceu a política israelita de negar a um  Estado palestiniano  autónomo e democrático. No início deste  ano o Hamas e a OLP  reunificaram o governo palestiniano, de transição, até novas  eleições.

A decisão palestiniana gerou a ira do governo israelita que, poucos meses depois, iniciou a actual ofensiva contra Gaza, a mesma intervenção que na madrugada do passado dia 18 (Agosto) vitimou, através de um ataque aéreo, três comandantes do Hamas (Mohamed Abu Shamaleh, Raed al- Attar e Mohamed Harhum) em Rafat. No ataque morreram também 7 civis palestinianos, entre eles, 3 crianças.

Gaza morre todos os dias. Renascerá das cinzas?

V - Às tréguas sucedem-se os ataques aéreos israelitas a Gaza e os rockets palestinianos a caírem no sul de Israel. O Hamas, nas negociações que decorreram no Cairorecusou-se a assinar qualquer cessar-fogo enquanto não forem contempladas uma serie de condições que os palestinianos de Gaza consideram fundamentais a longo-prazo, como a questão do porto de Gaza e a reconstrução das infraestruturas escolares e hospitalares.

A ofensiva israelita já custou a vida a cerca de 2 mil palestinianos, mil e quinhentos dos quais eram civis e destes cerca de 500 eram crianças. Mais de 10,000 foram feridos, meio milhão de palestinianos foram desalojados e 187,000 vivem nos abrigos da ONU. 10 mil residências foram completamente destruídas e 30,000 parcialmente destruídas. A estes números dramáticos, a esta estatística do inferno em que Gaza se tornou, contrapõe-se os cerca de 70 soldados israelitas mortos em Gaza e entre 3 a 5 civis mortos em Israel.

VI - As guerras criam histeria, tornam as pessoas "superpatriotas"... Nestes períodos o senso comum escasseia e a crítica é crime. Os discursos inflamados de Netanyahu e dos "falcões" sionistas não conseguem travar, as demonstrações públicas diárias contra a guerra. O centro de Telavive, durante os protestos, torna-se palco de um conflito que atravessa a sociedade israelita desde a sua proclamação como Estado: a construção da tolerância (sonho milenar iniciado no Exodus e transportado para a diáspora errante) versus a destruição da esperança (a esperança dos sobreviventes do Holocausto), levada a cabo pelos falcões da guerra, profetas da histeria.

Do outro lado, o  Hamas, considerado terrorista por Israel e pelos USA, vê-se a si mesmo como força libertadora e sente-se (como os seus inimigos sionistas) senhor absoluto da verdade. Foi assim que na madrugada do dia 22 deste més executou 18 cidadãos palestinianos acusados de colaboracionismo. Todos admitem, hoje, que o Hamas é incontornável e que faz parte da resolução e não do problema. E isto é tão evidente como o facto de que a solução só será possível de esboçar quando Israel desocupar os territórios. Os cerca de 10 mil guerrilheiros do Hamas defrontam um dos mais modernizados exércitos do mundo. A guerra prolongada é o caminho traçado por ambos os lados. A superioridade tecnológica do exército israelita torna esse caminho inevitável para os palestinianos. Por outro lado a mesma superioridade tecnológica-militar israelita tornou-se essencial para a economia israelita, que rentabilizou o factor guerra e segurança, tirando proveito das diferentes amplitudes do conflito, tratando-os como nichos de mercado.

Um dos problemas básicos gerados pelas guerras reside no facto de ambas as forças apenas dialogarem através de intermediários. Neste caso específico, Israel e o Hamas (e a Autoridade Nacional Palestiniana, obrigatoriamente, porque é a autoridade legitima) não discutem directamente. Os acordos de cessar-fogo, por exemplo, são negociados pelo Egipto, que neste momento é tão inimigo do Hamas quanto Israel. Ao surgir como negociador, mediando o conflito, o papel do Egipto é, no mínimo suspeito aos olhos do Hamas. Isto para não falar da mediação norte-americana, que é ridícula aos olhos de todos os que demonstrem um mínimo de bom senso, ou tenham, pelo menos dois dedos de testa. Obama repete, como um papagaio, tudo o que os falcões sionistas propagandeiam e quanto a Kerry é preferível nem referir (é, sem duvida, uma prova do triunfo da mediocridade). Assim, não existem mediadores credíveis. Quanto muito os USA poderão aconselhar Israel e disponibilizar "logística comunicativa" e o Egipto, em função do seu posicionamento geo-histórico e do relacionamento que mantem com Israel e com a resistência palestiniana poderá realizar um papel de "vaso comunicante".

É evidente que o Hamassente-se desconfortável no Cairo a negociar tréguas através do Egipto, para mais não sendo o Egipto um Estado amigável para o Hamas (em relação a Gaza os egípcios entendem-se  mais facilmente com os israelitas do que com o Hamas). Israel, o Hamas e a Autoridade Nacional Palestiniana têm de falar directamente, sem intermediários e esta é a única forma de Washington e Cairo não serem parte do problema - já de si demasiado complexo - entre Telavive e a Palestina (da qual Gaza é parte, não devendo o Hamas esquecer que a legitimidade da Autoridade Palestiniana é nacional).

Habitam cerca de 2 milhões de palestinianos na faixa de Gaza, um pequeno território de 500 quilómetros quadrados (50km x 10km). Quatro almas por metro quadrado de terreno bombardeado, de terra queimada, de ruinas, dramas e tragédia, de 8 anos de bloqueio, com todas as fronteiras fechadas, incluindo a marítima e onde nada é obtido sem a permissão de Israel.



O actual governo israelita representa a extrema-direita sionista e contem sectores abertamente fascistas. Os territórios ocupados constituem 22% da Palestina histórica. Sem a desocupação não será possível existir paz, mas esse não é um objectivo de largos sectores das elites sionistas. Conservadores, liberais e trabalhistas não diferem neste (e noutros) pontos e as suas vozes podem-se misturar, num grande coro, com as da extrema-direita, por isso esta surgir em quase todas as coligações, seja através das facções ultranacionalistas (fascistas judaicos), seja pelos partidos religiosos teocráticos. É de Israel que terá de sair o percurso da paz e esse caminho inicia-se com propostas concretas de desocupação. Até lá, só resta aos palestinianos o trilho da luta...

VII - A recusa do governo israelita em alcançar um acordo com a Autoridade Palestiniana e com o Hamas (que lidera a força popular em Gaza) prolongará por tempo indeterminado a actual situação. O lançamento de rockets foi a desculpa perfeita para continuar com este assédio que o Estado de Israel exercesobre Gaza desde 2005.  Enquanto em Gaza a destruição continua, na  Cisjordânia os protestos descem às ruas e os manifestantes (jovens, na sua maioria) confrontam a polícia e o exército israelita, o que já originou a morte de 11 manifestantes e de centenas de feridos e detidos. Por toda a Cisjordânia são organizados comités populares de solidariedade com Gaza, embora a ANP oponha-se a este tipo de organização popular. Mas a posição da ANP não é entendida por largos sectores da população, que decidiram sair às ruas. Assim, em Ramallah, mais de 15.000 pessoas manifestaram-se nas ruas. A manifestação terminou em confrontos com a polícia que originaram um morto e mais de 300 feridos.

Também em Telavive decorrem manifestações contra a guerra, organizadas pelos Combatentes para a Paz, pela Coligação de Mulheres pela Paz e outros grupos, organizações, partidos e sindicatos. Estes protestos têm terminado emconfrontos com militantes de extrema-direita.Do lado israelita um factor fundamental que prepara e manipula a população para a guerra é apropaganda. A máquina de propaganda sionista nunca deixa detrabalhar e tem sempre  combustível para manter-se activa. A situação actual de nula tolerância dificulta a resistência águerra. A maioria dosisraelitas, de facto não discordam do governo e da política da direita em relação a Gaza e da estratégia governamental de aniquilar o Hamas.

Os israelitas não têm, na sua maioria, informação real nem imagens sobre Gaza nosprincipais órgãos de comunicação social. O que sabem sobre o Hamas é unicamente o que a propaganda governamental diz e um outro clip de poucos segundosexplicando que militantes do Hamas foram localizados disparandodesde hospitais e colégios. Há pouco espaço para a compaixão e a maioria das pessoas não está preocupada com o massacre em Gaza. A reacção nas redes sociais é demonstrativa dessa indiferença. Nas ruas a propaganda de apoio aos "valentes soldados" e a população organiza envios de comida e víveres para a"linha da frente".

A propaganda esconde diversas realidades da sociedade israelita. Uma delas é a indústria militar e o negócio de segurança, sectores complementares e com a mesma origem de capital. O mercado bélico é uma das principais fontes de rendimento do país, principalmente o sector de exportação. Algumas das empresas maiores deste mercado são israelitas, como a IMI e a R.A.D.S. O principal apoio que Israel  recebe nesta guerra vem dogoverno dos Estados Unidos na forma de ajuda militar. É habitual o comércio de armas entre ambos os países mas nesta guerra o Estadoisraelita recebe ainda uma ajuda de emergência. Mas para lá destes apoios (muitos deles não passam de retornos devidos pelos USA), está um outro elemento deste negócio: o teste. Armas, equipamentos, munições e sistemas são experimentados em situação real, podendo desta forma serem optimizados a um custo mais baixo e de forma rápida e com mais eficácia.Gaza, caros amigos, não é apenas um cenário de um drama...é também um banco de ensaio...

E em relação á solidariedade árabe? Qual a razão do silêncio, ou do murmúrio dos estados árabes, perante este genocídio? Quais os motivos para que o mundo árabe não conteste osataques que os palestinianos sofrem?Sem dúvida que actualmente osconflitos que afectam a Síria e o Iraque, a instabilidade no Líbano, as heranças das Primaveras no Norte de África (Tunísia e Egipto e fragmentação da Líbia) contribui em muito para este muro murmurante e tímido. Gaza não é uma prioridade. Também nem toda a sociedade árabe apoia automática e necessariamente a causa palestiniana como asociedade "ocidental" (e o seu conceito retrógrado de "choque das civilizações") esperaria.Não se deve esperar demasiadas mostras de solidariedade, porexemplo, do Egipto ou da Síria, quando estes países  atravessam um período crucial da sua História. Por outro lado o conceito solidariedade parece ser inexistente nos Estados do Golfo, substituído por conceitos produtores de petrodólares.
Um facto da dinâmica interna israelita é evidente: Com este novo ataque estamos assistindo á ascensão dosmovimentos racistas e fascistas em Israel. O  racismo fortalece-se a cada dia, nas instituições e nas ruas. Casos como o homicídio de Mohammad abu-Hadid, um adolescente de 16 anos, do bairro de Shu'afat (Jerusalém) que foi sequestrado e queimado vivo por três jovens israelitas no passado mês de Junho, são casos que pertencem ao quotidiano de violência gerada pela ocupação.A ascensão da extrema- direita aglutina muita gente que habitualmente não é o tipo de pessoa que apoia esta política, mas que, em tempo de guerra e/ou de crise, é atraída por esse tipo de discurso onomatopaico. E este é um aspecto primordial (e uma consequência do controlo de massas e da sociedade. É o medo, que transforma-se numa necessidade irreal de "segurança", que é o primeiro aliado do totalitarismo e o governo israelita joga com estaferramenta para ter um controlo absoluto sobre a sociedade. O medo é usado de uma forma muito eficaz pelo aparelho do Estado sionista. Por um lado permitem a liberdade de expressão e de protesto mas por outro querem que estas estejam submetidas a apertado  controlo.

Existe uma lei excepcional (que entra em vigor sempre que o  estado de emergência é proclamado) que limita o direito de manifestação se esta superar mil pessoas. Outras leis limitam a divulgação de informação e de opinião. Ora, num país como Israel, onde o Estado de excepção é quase a norma, as liberdades civis ficam bastante limitadas. A segurança é, assim, o elemento sobre o qual assenta a manipulação.
O sionismo, transformado em nacionalismo resulta numa prática colonialista e no principal agente do imperialismo na região (sendo os Estados do Golfo os policias locais. Como nacionalismo o sionismo permite a mobilização dos diversos sectores da sociedade israelita, na tentativa de superar o conflito social interno. Como colonialismo, o sionismo, transforma-se numa prática racista, que cultiva a "superioridade" do "Povo Eleito" e o seu "direito" á expansão territorial. Como Estado agenciado, Israel cumpre a sua função de vigilante ao serviço do imperialismo norte-americano.

Este posicionamento tem um custo económico. Viver em Israel é caro, principalmente em Telaviveou Jerusalém. Os salários são baixos embora o desemprego, segundo os dados oficiais, não seja alto. O sistema de segurança socialestá numa situação catastrófica e os níveis de pobreza na sociedade israelita são os mais altos de sempre. Foi neste cenário que ocorreram os protestos sociais em 2011,  mobilizando mais de meio milhão de manifestantes em Telavive. Terminou em nada. A guerra e o discurso nacionalista são travesseiros irresistíveis...

VIII - No dia 23 foram contabilizados 11 mortos em Gaza, em consequência dos raides aéreos israelitas. Na noite de 23 para 24 foi destruído um prédio. Os apartamentos são, agora, escombros, vestígios de espaços habitados...no dia 23 Netanyahu avisa os residentes palestinianos das áreas próximas às instalações do Hamas, para as abandonarem...os dirigentes egípcios apelam para um cessar-fogo...E Gaza arde...

Notas:
Visão, nº 93, Dezembro, 29, 1994
The International Status of Palestinian People United Nations, New York, 1981
Courrier International, Jan. 17, 2002
Harris, N. Israel and Arabe nations in conflict Vaughan, Austin, 1999
Smith, C.D. Palestine and the Arabe/Israel conflict Bedford Ed. Boston, 2001
Lukacs, Y. The israeli/palestinian conflict, a documentary record 1967-1990 Cambridge University Press, Cambridge, 1992
Africa Analysis, July, 1987
L'Histoire, Fev. 1993
Geopolitique, nº 7, Oct. 1984.
Rinascita, nº 36, Sep. 20, 1986
Nouvel Observateur, Fev. 19, 1979
Nouvel Observateur, Oct. 16, 1978