quinta-feira, 27 de agosto de 2015

MORREM CINCO PRESOS POR MÊS NAS CADEIAS ANGOLANAS




Faltam medicamentos, assistência médica e água nas prisões sobrelotadas, principalmente em Luanda

Angola conta actualmente com uma população penal de 24.165 reclusos, para uma capacidade instalada de 21.874, ou seja, mais 2.291 presos do que as celas podem comportar, representando uma sobrelotação de 9 por cento, anunciou ontem o director dos serviços penitenciários.

Em conferência de imprensa, realizada para falar sobre a situação das cadeias angolanas, António Fortunato disse que Luanda, apresenta a maior sobrelotação, com 8.784 reclusos para uma capacidade de 6.443 presos, um excesso de 2.341 reclusos.

A construção de mais 11 estabelecimentos prisionais em todo o país está parada, segundo adiantou o responsável, devido à crise económica que se regista desde o ano passado com a baixa do preço do petróleo.

António Fortunato, que caracterizou como “calma e controlada” a situação nas penitenciárias, referiu que a morte de reclusos maioritariamente por doenças, na ordem das cinco pessoas por mês, tem sido uma preocupação.

Segundo o responsável, as patologias mais frequentes são a tuberculose, VIH/sida e a malária. A falta de medicamentos e assistência médica adequada tem sido uma das causas para a morte de reclusos, com casos frequentes na cadeia de Peu-Peu, na província do Cunene, onde o número de reclusos infectados por VIH/sida é maior.

“Há acções em curso para a questão da sida, para o combate à tuberculose e também a malária. Essas doenças devem ser curadas com base em aplicação de dosagens permanentes e que não podem ser interrompidas. Sempre que há um declínio no fornecimento de medicamentos e na administração ao doente, há aquilo que se chama resistência, e é esse o grande problema que devemos combater”, frisou.

Entre as doenças acima mencionadas, as de fórum cutâneo também se destacam entre os reclusos devido ao elevado número de pessoas confinadas no mesmo espaço e à falta de água que a cadeia enfrenta, consequentemente o baixo volume de banhos.

A cadeia masculina de Viana, arredores de Luanda, apresenta uma necessidade de água na ordem dos 100 mil litros por dia, mas a capacidade de atendimento é apenas de 25 mil litros. Isto é, um quarto do necessário.

“Estamos com a execução de programas para reforçar e aumentar o volume da água que nos é fornecida para a cadeia masculina de Viana e também para a cadeia feminina, que necessita de 50 mil litros diários”, explicou o responsável.

António Fortunato adiantou que a alternativa tem sido o abastecimento por cisternas de água, mas vários constrangimentos enfrentados nesse exercício, como distância, trânsito, impedem o cumprimento da meta dos 100 mil litros.

Relativamente ao corpo de efectivos penitenciários, o responsável disse que a formação tem sido a aposta da direcção, salientando que o número de formandos superou três vezes mais os registados entre 2008 e 2014.

“É necessário que o actor penitenciário, o controlador, saiba aquilo que está a fazer, conheça as normas, os procedimentos que deve seguir para agir com os reclusos e que possa observar a eficácia e eficiência da sua actividade”, disse António Fortunato, comentando o caso de agressão que uma reclusa sofreu na semana passada na cadeia feminina de Luanda. Continue a ler aqui.

Lusa, em Rede Angola

Angola. Parentes de activistas confirmam marcha no dia 28 apesar da oposição do Governo



Coque Mukuta – Voz da América

Vários jovens activistas começaram a mobilizar nesta Terça-feira, 25,  zungueiras, motoqueiros e a sociedade em geral para a manifestação da próxima Sexta-feira, 28, em que mães e parentes dos 15  activistas acusados de preparem golpe de Estado contra o presidente Eduardo dos Santos vão voltar a exigir a libertação.

As brigadas de activistas estiveram hoje no Cassequel, Congolenses, 1º de Maio, Mudamba, Marginal e São Paulo, onde, segundo os seus membros, foram bem recebidos.

A movimentação dos activistas visa mobilizar muito mais pesosas que as 40 que estiveram na manifestação reprimida a 8 de Agosto.

Apesar de o Governo da Província ter dito que a manifestação não pode realizar-se, as mães e outros parentes dos activistas garantem que vão sair às ruas na próxima Sexta-feira.

Após 65 dias de detenção, os jovens do denominado Movimento Revolucionário enfrentam muitos problemas de saúde, alguns a recomendar muitos cuidados médicos.

No encontro entre as mães e o vice-procurador-geral da República há três semanas, o general Hélder Pita Grós garantiu que os activistas seriam soltos em breve, segundo disseram as mães.

A mãe de Nito Alves, Adélia Chivonde, lamenta a atitude das autoridades angolanas, e convida os angolanos a ajudarem-na a conseguir a liberdade do seu filho e amigos.

“Nós estamos preparadas para a manifestação do dia 28 e por isso convido outras mães a nos ajudarem a libertar os nossos filhos”, pediu.

De recordar que o activista Nicola Radical, detido na cadeia de Caquila, tem graves tumores na cabeça e não se alimenta há mais duas semanas.

Por seu vez, Nelson Dibango, Hitler Chivonde e Mbanza Hanza que se encontram na cadeia de São Paulo estão doentes e há quatro dias que não comem. A denúncia é Leonor João, mãe de Mbanza Hanza.

Conselho de Segurança da ONU discute situação na Guiné-Bissau




O Conselho de Segurança da ONU reúne-se esta sexta-feira à porta fechada com o Representante Especial para a Guiné-Bissau, Miguel Trovoada, depois do responsável informar publicamente a organização sobre a situação no país.

A informação foi confirmada à Lusa por uma fonte do Conselho de Segurança, que adiantou ainda que a comunicação de Trovoada acrescenta novos dados sobre o último relatório semestral sobre o país, que foi divulgado a 13 de agosto, antes da demissão do Governo pelo Presidente da República.

O embaixador do Brasil junto da ONU, Antonio Patriota, que preside ao Grupo de Contacto para a Guiné-Bissau da Comissão de Consolidação da Paz nas Nações Unidas, falará na parte pública do encontro mas não deverá estar presente no encontro à porta fechada.

No relatório elaborado pelo Gabinete Integrado das Nações Unidas para a Consolidação da Paz na Guiné-Bissau (UNIOGBIS), o secretário-geral mostrava-se já "preocupado com as divisões políticas e sociais enraizadas nos partidos políticos e nas instituições do Estado".

"Tais divisões continuam a comprometer a estabilidade duradoura e o desenvolvimento da Guiné-Bissau", refere.

Contra todas as posições dentro e fora do país, o Presidente da República da Guiné-Bissau demitiu o Governo a 12 de agosto e designou como primeiro-ministro, no dia 20, Baciro Djá, vice-presidente do PAIGC.

O PAIGC, que venceu as eleições e tem maioria no Parlamento, acusou Vaz de cometer "um golpe palaciano" e sustenta que não havia razão para demitir o Executivo.

O Parlamento da Guiné-Bissau pediu na segunda-feira que o Supremo Tribunal de Justiça se pronuncie sobre as decisões do Presidente ao mesmo tempo que foi criada uma comissão de inquérito para averiguar da veracidade da alegada corrupção e outras ilegalidades invocadas por Vaz para destituir o Governo.

Lusa, em Notícias ao Minuto

Chefes religiosos tentam mediar conflito político na Guiné-Bissau




Líderes religiosos da Guiné-Bissau têm-se desdobrado em contactos com os responsáveis políticos com vista a ajudar a aproximar as partes desavindas desde que o Presidente do país derrubou o Governo eleito.

Durante mais de duas horas, uma delegação de chefes religiosos da Igreja Católica, das comunidades muçulmana e Evangélica, reuniu-se hoje o líder do Partido Africano da Independência da Guiné e Cabo Verde (PAIGC), Domingos Simões Pereira - depois de na quarta-feira se ter encontrado com o Presidente do país, José Mário Vaz.

Em declarações à imprensa, Lampra Cá, bispo auxiliar da Diocese de Bissau e porta-voz do grupo, afirmou que os chefes religiosos pretendem dar a sua "modesta contribuição" na procura de "soluções com menores efeitos colaterais e adversos" perante a crise que assola a Guiné-Bissau.

Segundo Lampra Cá, é intenção dos responsáveis religiosos encontrar "uma solução airosa", numa conjugação de esforços com todas as partes.

"Sentimos que o nosso país está um pouco doente, sentimos esse dever, como religiosos que somos, de poder dar uma mãozinha naquilo que é possível", assinalou Lampra Cá, recusando-se a adiantar quais as propostas de solução que os religiosos defendem.

O responsável da igreja católica guineense disse que o grupo ainda vai entabular mais contatos com a classe política antes de avançar com a sua proposta de solução.

Contudo, Lampra Cá disse pressentir que, tanto da parte do PAIGC, como da do Presidente "existe a vontade" de ultrapassar a crise.

"É o interesse do país que está em causa", defendeu o porta-voz dos chefes religiosos.

Lusa, em Notícias ao Minuto

O LABORATÓRIO AFRICOM – IV




O contraste entre o deserto (a norte) e a existência de água (no centro e no sul) do continente, tem correspondência humana, sob os pontos de vista antropológico, histórico, social e religioso.

A faixa do Sahel é atingida por elevados índices de fome e desnutrição, que podem ser facilmente agravados quando há conflitos (por exemplo na Mali, no Níger, no Chade, ou no Sudão), o que faz aumentar o êxodo de populações.

No que diz respeito à religião a influência islâmica sunita estende-se a norte e a influência cristã junto à costa do Oeste e Golfo da Guiné, como no centro, no leste e no sul do continente, polarizando-se secularmente por via das colonizações.

A migração humana, dadas as características físico-geográficas-ambientais, existe a partir de países islamizados abrangidos pelo Sahara e Sahel, centrifugadas em direcção ao Mediterrâneo e ao sul do continente.

O centro-sul rico em água, catalisa (tal como o Mediterrâneo e a Europa) a recepção desses migrantes, ocorrendo áreas de constante tensão nos Grandes Lagos (entre nilóticos como os tutsis mais cosmopolitas e os bantus mais sedentários como os hútus, por exemplo), no Uganda, no Ruanda, no Burundi e nos Kivus, precisamente na região das grandes nascentes, dos Grandes Lagos, o coração equatorial-tropical de África.

Qualquer conflito gera êxodos em África, mas quando os ocidentais se fazem sentir com seu poderio bélico, os desgastes multiplicam-se e expandem-se; foi assim que ocorreu quando a Líbia foi atacada pelos interesses AFRICOM-NATO.

Os estados que compõem a União Europeia não colocam como causa as deliberadas desestabilizações em África e no Oriente Médio, nem com o caos, nem com as correntes humanas que fogem ao caos.

Também escondem que afinal Kadafi era um obstáculo importante que impedia a instalação do caos.

Mantendo um padrão de hipocrisia e de cinismo inexcedíveis, além de nunca fazer referência a esse tipo de nexos, os estados europeus raramente consideram os que chegam à Europa como refugiados de guerra, como refugiados políticos, ou como refugiados económicos… para a Europa eles são apenas “migrantes”, como se essas torrentes humanas ocorressem nesta escala antes das agressões!

Desse modo esses estados escondem de seus próprios cidadãos qualquer papel que tenham tido nessas agressões e na instalação do caos!

Essa hipocrisia e esse cinismo exponenciais, são ainda agravados por que a hegemonia unipolar, de que a União Europeia é agenciada, cultiva várias ementas de caos como medida destinada a aumentar a dose de domínio sobre os outros, tirando o máximo de proveito desse mesmo caos.

Se há muita mão-de-obra não qualificada nessas torrentes humanas, há também técnicos superiores e médios, professores de todos os níveis, médicos e enfermeiros, um rol imenso de capacidades que desse modo são “exfiltrados” de seus países, onde fazem tanta falta.

A “fuga de cérebros”, que se incrementou com o caos, é um efeito directo, indirecto, ou “colateral”, pois as regiões que sofreram e sofrem os impactos do caos, uma vez desestabilizadas, não podem garantir suas actividades, seu trabalho e o exercício do seu papel humano nas sociedades e nas comunidades.

A dívida para com os povos do terceiro mundo alvos do caos premeditado, do caos produzido em laboratório, em África e no Médio Oriente, jamais será ressarcida e o colapso provoca o protelamento em muitos anos, da possibilidade de criar desenvolvimento sustentável, tendo em conta o que por vezes foi alcançado com tanto sacrifício por via de sucessivas gerações e foi destruído.

Há casos, como os de Tombuctu, ou Palmira, onde até bibliotecas seculares e monumentos que são património da humanidade, são destruídos irremediavelmente!

A outra faceta do problema está nas redes que fazem do êxodo um objecto de lucro, por vezes utilizando meios que não podem garantir o mínimo de segurança, como acontece na travessia do Mediterrâneo, onde os desastres ocorrem amiúde.

Os dispositivos navais europeus são insuficientes para fazer face a todos os problemas e a União Europeia recolhe uma parte do “efeito boomerang” das guerras que expandem o caos em África e no Médio Oriente, arcando com um enorme fardo de responsabilidades.

O Mediterrâneo tem-se vindo a transformar num cemitério e as mortes acrescem às vítimas directas e indirectas da expansão do crime contra todo o tipo de direitos humanos, de que o AFRICOM-NATO são os principais responsáveis! 

Mapas: 
1 – “Mortes de migrantes por região”; 
2 – Êxodo humano fugindo ao caos; 
3 – Fuga de cérebros no mundo.
  
A consultar:
- Estado Islâmico ameaça enviar 500.000 imigrantes para a Europa – http://economico.sapo.pt/noticias/estado-islamico-ameaca-enviar-500000-imigrantes-para-a-europa_212371.html
- “Aqui jaz a Líbia”: e os destroços atingirão a Europa – http://www.publico.pt/mundo/noticia/aqui-jaz-a-libia-e-os-destrocos-atingirao-a-europa-1687655
- La fuga de cerebros y el fortalecimiento de capacidades en África – http://www.gloobal.net/iepala/gloobal/fichas/ficha.php?entidad=Textos&id=1059 
- La economía contra los pueblos africanos – África traicionada – http://cadtm.org/IMG/pdf/La_economia_contra_los_pueblos_africanos_-_Africa_traicionada.pdf 
- Fuga de Cerebros en el Sector Médico del África Subsahariana:
Explorando la Utilidad de un Marco de Validez Eco-psicopolítica en
la Investigación sobre Migración Médica – http://www.copmadrid.org/webcopm/publicaciones/social/in2011v20n3a6.pdf 
- Tombuctú y el Fondo Kati o Biblioteca Andalusí (Mali) –  http://caxigalinas.blogspot.com/2013/05/tombuctu-y-el-fondo-kati-o-biblioteca.html 
- La historia de Al Andalus huye de Tombuctú – http://cultura.elpais.com/cultura/2014/03/15/actualidad/1394913984_945148.html 
- The New Thirty Years War in the Middle East: A Western Policy of Chaos? – http://www.globalresearch.ca/the-new-thirty-years-war-in-the-middle-east-a-western-policy-of-chaos/5469351 
- A cegueira da União Europeia face à estratégia militar dos Estados Unidos – http://www.voltairenet.org/article187425.html 
- The Age of Imperial Wars; From Regional War, "Regime Change" to Global Warfare – http://www.globalresearch.ca/the-age-of-imperial-wars/5470957

CRISE DOS REFUGIADOS – ABRIR A EUROPA




Após algumas semanas, o VoxEurop juntou-se ao projeto #OpenEurope, que reúne vários meios de comunicação, ONGs e associações europeias e que visa “contar as solidariedades concretas que se construem para ajudar os imigrantes e defender um projeto europeu fiel aos seus valores do acolhimento”.

Na verdade, pensamos que a crise ligada ao número inédito de imigrantes e de refugiados que estão a chegar à Europa desde há vários meses não é um fenómeno passageiro e que requer que os governos, as instituições europeias e os cidadãos europeus forneçam respostas à altura do desafio humanitário, social e económico que este representa.

Se a Europa, no seu momento de terra de emigração, foi durante décadas um destino privilegiado para todos os que, começando pelos nacionais das suas antigas colónias, procuravam um futuro melhor, agora é procurada por pessoas como os sírios, líbios, eritreus e iraquianos que fogem à perseguição e à guerra. Guerras nas quais os países europeus tiveram – através da sua intervenção ouindiferença – um papel. Desta forma, têm uma responsabilidade, se não legal, moral, se é que este termo tem algum significado na política. É por isto que deveriam mostrar mais preocupação e generosidade na hora de analisar as solicitações de asilo dos refugiados.

Entre as dezenas de milhares de pessoas que batem às portas da Europa, muitos deles são, sem dúvida, imigrantes económicos à procura de trabalho e de uma situação melhor para si e para a sua família. Não devem ser confundidos com os refugiados, mas deveriam beneficiar de procedimentos de acolhimento simplificados, através das antenas da UE nos países afetados. Deveriam sobretudo beneficiar de uma melhor imagem no seio da opinião pública. Para tal, os responsáveis políticos europeus deviam deixar de transmitir a ideia de que a imigração económica é uma ameaça para o nosso bem-estar e o nosso Estado-providência: várias estudos demonstram o contrário. Que tipo de ameaças colocam à nossa civilização e à nossa cultura? Estas estão bem enraizadas e, além disso, exportam-se bastante bem.

Talvez não seja fácil em tempos de crise económica, mas, por definição, cabe aos líderes dirigir os seus concidadãos e não seguir os impulsos da multidão. No entanto, para defender o que é correto, é necessária uma estatura e uma visão política, algo que falta aos nossos líderes atuais. As negociações sobre as quotas de refugiados foram, muito recentemente, prova disso. Não se trata de dar as boas-vindas a “toda a miséria do mundo”, como alguns gostam de repetir, pois a maior parte dos habitantes deste planeta aspiram a viver tranquilamente no seu país, mas de encontrar um espaço para os que precisam de proteção ou que tem qualquer coisa para oferecer.

Porém, tal como demonstram as várias iniciativas que circulam um pouco por toda a Europa, os valores que caraterizam o nosso continente – a solidariedade, o humanismo, a empatia, a generosidade – continuam a ser populares. São estes que impulsionaram a união europeia deixando de lado o rancor e os interesses particulares após a carnificina da Segunda Guerra Mundial, para criar uma união que se converteu a primeira potência económica e um modelo para todo o mundo e que assegurou a paz entre os seus membros. Não os atraiçoemos.

Gian Paolo Accardo* - VOX EUROP 

*Jornalista italo-holandês, nascido em Bruxelas em 1969. Redator no Internazionale e no Courrier International… Perfil

DAVID CAMERON E A IMIGRAÇÃO. ALTO AÍ!




Milhares de imigrantes, que esperam atualmente em Calais para entrar no Reino Unido, tentaram novamente atravessar o Canal da Mancha pelo Eurotúnel esta semana, provocando uma nova polémica. Segundo uma recente sondagem do Instituto YouGov, a maioria das pessoas dos dois países – 54% dos franceses e 67% dos britânicos, respetivamente –, “estaria a favor do envio de militares do Governo britânico para ajudar as autoridades francesas a manter a ordem em Calais”.

O primeiro-ministro britânico, David Cameron, tinha descrito os imigrantes como uma “nuvem de pessoas que querem entrar no Reino Unido para obter trabalho e uma vida melhor”.

SÜDDEUTSCHE ZEITUNG MUNIQUE - VOXEUROPE

Mohr - O cartonista Burkhard Mohr nasceu em 1959. Depois de estudar Belas-Artes na Bélgica, voltou à Alemanha em 1988. Os seus cartoons são publicados, entre outro, […]  Outros cartoons deste Mohr

VAROUFAKIS EXPLICA – E DESMISTIFICA – O BITCOIN




Ex-ministro grego que desafiou oligarquia financeira afirma: moeda da moda concentra riquezas, favorece especuladores e difunde ilusão de que existe “dinheiro apolítico” 

Yanis Varoufais*  - Outras Palavras - Tradução: Antonio Martins

A crise de 2008 difundiu em nossas sociedades um enorme ceticismo em relação papel das autoridades — tanto governos  quanto bancos centrais. É natural que muitos sonhem com uma moeda que políticos e banqueiros não possam manipular; uma moeda do povo, pelo povo, para o povo. O Bitcoin emergiu como uma grande esperança branca comumde algo do tipo. Entretanto, a esperança que ele leva a corações e mentes é falsa. E a razão é simples: embora seja verdade que comunidades locais conseguiram no passado, gerar com sucesso moedas comunitárias (que lhes permitiram aumentar o bem-estar em seu meio, especialmente em tempos de agudas crises econômicas), não pode haver moedas despolitizadas capazes de “empoderar” uma sociedade industrial avançada.

1. O que são bitcoins e o que faz eles uma forma especial de moeda digital:

Bitcoins são unidades digitais de moeda que se pode usar, na internet, para comprar (um limitado número de) bens e serviços. A natureza digital dos bitcoins não é o que os torna novos e únicos. Há, de fato, uma grande ordem de moedas dcomumigitais, incluindo dólares, euros, milhas aéreas para passageiros frequentes, pontos na Amazon, etc. Começando com dinheiro comum: mais de 90% dos dólares, euros, ienes, etc. são, de fato, digitais. Quando seu banco lhe dá um empréstimo, por exemplo, ele aparece como dinheiro digital na sua conta bancária. E quando você usa cartões de debito ou credito, ou movimenta sua conta via internet, para fazer transferências para a conta de alguém que de quem compra um bem ou serviço, seus dólares, euros e reais vêm e vão como meras unidades digitais de moeda. Apenas uma pequena porção do dinheiro normal assume hoje a forma de papel ou metal.

De forma similar, quando uma empresa aérea entrega a você milhas aéreas, que você pode usar como parte de uma compra com cartão de crédito ou para trocar por algum vôo, está sendo criada uma moeda digital que se pode acumular com o propósito de usar no futuro. Similarmente, quando a União Europeia criou o esquema de seu mercado de carbono, para ser usado por corporações e operadores financeiros, ela inventou ações digitais de dióxido de carbono, divididas em pequenos lotes, distribuiu-as às corporações (vinculando a cada lote ou unidade uma quantia de dióxido de carbono que o proprietário pode emitir) e depois autorizou estas empresas a comercializar seus lotes (ou direitos de poluir) entre si mesmas, na esperança de que esse mercado digital geraria um preço tal pelo dióxido de carbonocomum que haveria um incentivo para reduzir sua produção. Se este esquema tivesse funcionado, esses lotes de dióxido de carbono emergiriam como uma moeda unicamente digital.

O bitcoin não é novo porque é uma moeda digital ou porque é autônoma. Moedas digitais, “autônomas”, estão em toda parte. O queé, de qualquer forma, genuinamente novo e único sobre os bitcoins é que nenhuma instituição ou companhia faz a guarda do chamado Ledger: o arquivo das transações que garante que, quando você gastar uma unidade da moeda, haverá uma unidade a menos em sua carteira digital.

Posto de forma diferente, peguemos o ouro monetário como um exemplo: por sua natureza (metálica), ele constitui meio de troca privado e excludente, no sentido de que se eu uso um para pagar Maria o carro que ela está me vendendo, eu devo terminar com uma unidade a menos em minha carteira. O grande desafio de criar uma moeda não-física, totalmente digital, é o seguinte: se uma unidade de moeda é uma sequência de zeros e uns em meu computador, quem pode me impedir de pegar esta sequência, copiá-la e colá-la quantas vezes eu quiser e me tornar infinitamente endinheirado? Porque se eu puder fazer isso, então seria como se todos nós tivéssemos impressoras de dinheiro em nossos quartos, ou o mecanismo instantâneo da hiperinflação.

Até o surgimento dos bitcoins, o conhecimento convencional dizia que, para uma moeda não hiper-inflacionaria ser possível, um Banco Central, ou uma corporação, precisaria manter um Arquivo Digital de Transações, capaz de conservar o rastro dcomumcomume cada unidade que você e eu gastamos. Por exemplo: o Federal Reserve dos EUA, o Banco Central Europeu ou mesmo o Visa, que mantêm controle de nossos dólares ou euros. Ou a British Airways, Lufthansa ou Amazon, que mantêm o arquivo de pontos de milhagem que administram. O bitcoin rompeu, de forma audaciosa, essa presunção.

O bitcoin nasceu num dia, em 2008, em que algum programador anônimo maluco, usando um pseudônimo japonês incomum (akaNakamoto), postou um algoritmo (em um obscuro portal na internet) que tornou possível algo notável. Ele pôde gerar uma sequência de zeros e uns que era única, assegurando que, antes que pudesse ser transferida de um computador ou aparelho para outro, um mínimo número de outros usuários tivesse de rastrear a transferência e verificar que o valor deixou o aparelho do comprador, antes de mover-se para o aparelho do vendedor de algum bem ou serviço.

Além disso, o algoritmo foi escrito de modo a garantir uma “produção” estável dessas sequências — ou bitcoins — ao longo do tempo, em resposta ao poder computacional oferecido pelos usuários para ajudar no rastreamento das transferências e, porcomumtanto, manter coletivamente o Arquivo. Finalmente, para coroar o suprimento de bitcoins, e salvaguardar seu valor, o algoritmo garantiu que o número dessas sequências — ou bitcoins — poderia crescer, no máximo (dada a estrutura do algoritmo) até atíngir 21 milhões de unidades, por volta do ano de 2040. Uma vez alcançada essa quantidade, sua produção cessaria e os usuários de bitcoins teriam que lidar com essas 21 milhões de unidades. Até esta data, e até que o suprimento máximo de bitcoins seja alcançado, a facilidade com a qual os usuários poderiam “cunhar” ou “minerar” novos bitcoins (tornando seu poder computacional disponível para a comunidade dos bitcoins) seria inversamente relacionado à quantidade total de bitcoins já “criados” ou “extraídos” do algoritmo.

De certa forma, o descomumigner do algoritmo dos bitcoins (o agradável senhor “Nakamoto”, que desapareceu do radar há algum tempo) parece ter programado a nova moeda a partir da fé na versão mais crua do Teoria Quantitativa do Dinheiro. Segundo ela, o valor do dinheiro depende apenas da quantidade de moeda oferecida ao público. A ideia era, portanto, criar o equivalente digital ao… ouro! Pense nisso: o bitcoin foi, de fato, criado tendo como modelo o ouro.

2. O Bitcoin como a simulação digital de metal precioso (por exemplo, o ouro)

Qual é o grande mérito do ouro? Sua escassez! O fato de que os humanos, por algum estranho motivo (possivelmente relacionado ao seu brilho perpétuo e sua escassez) começaram a usá-lo como: a) um meio de troca; e b) uma reserva de valor, fez do metal uma moeda. Significativamente, sua menor quantidade possível tornou-se, também, uma unidade monetária. O programador do algoritmo do bitcoin deu seu máximo tentando copiar o ouro. Exatamente como o metal, cuja presença na superfície terrestre é vista por muitos como limitada, o bitcoin também e limitado artificialmente (através da programação de seu algoritmo), ao teto de 21 milhões de unidades. E, justamente como o ouro, há apenas duas formas de adquirir bitcoins: uma é comprá-los usando dólares, frangos, seda, mel, qualquer coisa… A outra é “garimpá-lo” como faziam os garimpeiros individuais no passado. Para cumprir este intento, o senhor “Nakamoto” programou seu brilhante algoritmo de uma maneira que permitiu a “mineração de bitcoins”.

O caráter único do bitcoin, como frisei anteriormente, é que nenhuma instituição centralizada (pública ou privada) faz a custódia doArquicomumcomumvo de transações de bitcoin. Então, quem faz? A resposta é espetacularmente liberal-comunitária: “Nós todos fazemos!” Quero dizer que o algoritmo do bitcoin foi escrito de tal maneira que torna possível (ou mesmo exige) que toda a comunidade de usuários de bitcoin tenha acesso ao Arquivo de Transações e o policie. Isso assegura que eu não posso copiar e colar meu único bitcoin indefinidamente.

Por isso, os usuários de bitcoins precisam disponibilizar seu poder computacional para a comunidade da moeda virtual, de modo que qualquer um possa “ver” o Arquivo, de modo a assegurar a perfeita propriedade compartilhada do registro de transações, já que se opõem a acreditar em alguma agencia governamental (por exemplo o Fed) ou alguma corporação privada, que pode ter sua própria agenda. Naturalmente, como a economia bitcoin e o número de transações crescem exponencialmente, o montante de poder computacional que cada indivíduo precisa disponibilizar para a “comunidade bitcoin” de modo a “cunhar” ou “garimpar” cada novo bitcoin cresce exponencialmentcomume com o tempo. Essa complexidade crescente também age como um legitimador da noção de que novos bitcoins são entregues às contas de usuários que oferecerem à comunidade bitcoin uma capacidade computacional cada vez maior.

3. Os dois defeitos fundamentais do bitcoin

Como em todo o mundo digital, o bitcoin suscita preocupações acerca de segurança: por exemplo, o medo de invasores e espiões. Imagine um mundo em que o dinheiro migrou inteiramente para os bitcoins. Nós não viveríamos com medo de que algum invasor engenhoso se apropriasse do algoritmo de Nakamoto e o manipulasse em seu benefício? Seria inteligente, para a humanidade, assumir que o algoritmo do bitcoin é perfeitamente seguro (especialmente quando não há uma autoridade capaz de intervir e resolver o problema, se algo terrível acontecer ao algoritmo)? Além disso, mesmo se o algoritmo for seguro, há sempre o perigo de alguém acordar e perceber que seus bitcoins foram roubados on-line durante a noite. Pode-se confiar a guarda a alguma empresa com bons firewalls e segurança computacional, mas o que acontecerá (na ausência de um Banco Central de bitcoins) se essa companhia falir ou simplesmcomumente desaparecer por entre as fendas mais escuras da internet, levando consigo os bitcoins dos clientes?

Essas preocupações provavelmente bastariam para reduzir o charme do bitcoin. Mas as principais desvantagens da moeda não estão aí. Há duas questões intransponíveis que fazem dele uma moeda altamente problemática: Primeiro, a economia social dos bitcoins tende a sofrer deflação crônica. Segundo, já surgiu uma aristocracia do bitcoin (um termo cunhado pelo blogueiro grego @techiechan). Além das questões de justiça distributiva, este fato suscita temores sérios sobre a capacidade de pouquíssimas entidades, ou pessoas, para manipular a moeda e enriquecer, provocando ao mesmocomum tempo grave instabilidade financeira. Vamos examinar estes dois problemas com algum detalhe.

Primeiro, a deflação é inevitável na comunidade porque há um limite máximo — 21 milhões de bitcoins — e aproximadamente metade deles já foi cunhada em uma época em que muito poucas transações de bens e serviços eram realizadas em bitcoins. Se esta moeda for bem-sucedida e penetrar cada vez mais no mercado, uma quantidade crescente de novos bens e serviços será comercializada em bitcoins. Por definição, a taxa de crescimento das transações será maior que o avanço no suprimento de bitcoins (severamente comprimido pelo algoritmo de Nakamoto). Ou seja, um volume restrito de bitcoins será altamente procurado, à medida em que o número de transações com a moeda. Portanto, a quantidade disponível de bitcoins para cada unidade de bens ou serviços transacionada irá cair, causando deflação dos preços dos bens e serviços transacionados por meio da moeda, altamente valorizada.

E por que isso é um problema? Há duas razões: primeiro, uma queda inesperada nos preços dos bens e serviços trocados por um bitcoin supervalorizado levará as pessoas que detêm a moeda a postergarem, o quanto puderem, seus gastos em bitcoins (por que alguém comprará algo hoje, sabendo que pagará menos amanhã?). Segundo, porque à medida em que os bitcoins forem usados para comprar insumos necessários para produzir bens e serviços, e assumindo que há um tipo de lapso temporal entre a compra desses insumos e a entrega do produto final ao mercado de bitcoins, uma queda escomumcomumcomumtável na média dos preços irá se traduzir em um preço de custo marginal constantemente reduzido, para as empresas que negociem em bitcoins.

Além disso, dois enormes problemas estão inevitavelmente crescendo, na economia do bitcoin. O primeiro já foi mencionado. É aquele que separa a “aristocracia do bitcoin” dos “pobres do bitcoin” — por exemplo, dos retardatários que precisam comprar bitcoins pagando, devido à valorização da moeda, um preço crescente em dólares, euros ou similares. O segundo problema separa os especuladores dos usuários — aqueles que veem o bitcoin como um meio de troca de bens e serviços daqueles que o veem como uma “reserva de valor”, uma forma de acumular riquezas. A combinação desses dois problemas, cuja extensão e profundidade estão crescendo, projeta instabilidade maciça no universo dos bitcoins. É verdade que há sempre alguma demanda especulativa por qualquer moeda, oposta à demanda por transações; mas a demanda especulativa por bitcoins ultrapassa muito de longe a demanda por transações. E enquanto isso durar, a volatilidade permanecerá enorme e desencorajará aqueles que desejariam usar os bitcoins para trocas de bens e serviços (e não como especuladores). Então, assim como o dinheiro ruim inibe o dinheiro bom (acomum famosa lei de Gresham), a demanda especulativa por bitcoins inibe a demanda de transações reais em sua economia.

Esses dois defeitos podem serem corrigidos? Seria possível calibrar a longo prazo o suprimento de bitcoins, de um modo a reduzir os efeitos deflacionários descritos acima, presentes quando a balança pende para a demanda especulativa, em prejuízo da demanda por transações reais? Para que isso fosse possível, precisaríamos de um Banco Central de bitcoins — o que  obviamente seria contraditório com o propósito de criar uma moeda totalmente descentralizada.

4. Conclusão: A fantasia do dinheiro “despolitizado” e “honesto”

A crise de 2008 inundou nossas sociedades com um enorme ceticismo sobre o papel das autoridades — governos e bancos centrais. É natural que muitos sonhem com uma moeda que políticos, banqueiros e bancos centrais não possam manipular; uma moeda do povo pelo povo parcom  | a o povo. Os bitcoins emergiram como uma grande esperança de algo assim. Porém, a esperança que eles produzem em muitos corações e mentes é falsa. E a razão é simples: se é verdade que comunidades locais, no passado, geraram moedas comunitárias com sucesso (que lhes possibilitaram viver melhor, especialmcomumcomumente em tempos de graves crises econômicas), também é certo que não pode haver moeda “despolitizada” capaz de “sustentar” uma sociedade industrial avançada.

Desde que a segunda revolução industrial tornou possível a emergência de uma larga rede de companhias oligopolizadas (os Edisons e Fords dos 1900s; Googles e Apples de hoje), o capitalismo tornou-se dependente de amplas linhas de crédito, necessárias para financcomumiar as necessidades de capital dessas corporações. Tais linhas de credito requerem largos aportes de dinheiro, para financiar a criação de bens de capital e também para dar suporte aos novos padrões de consumo necessários a manter a nova capacidade produtiva da sociedade. Mesmo quando as economias capitalistas operaram sob o padrão ouro, os bancos encontraram maneiras de criar dinheiro aumentando os volumes emprestados, diante do limitado estoque de ouro.

Os anos 1920 demonstram a impossibilidade de oferecer dinheiro “apolítico”. Ainda que as autoridades monetárias insistissem em uma correspondência estável entre a quantidade de papel moeda impressa e o ouro, o setor financeiro turbinava o suprimento de dinheiro, inevitavelmente. As autoridades deveriam impedir isso? Se o fizessem, os Edisons e os Fords nunca teriam florescido, e o capitalismo teria sido incapaz de produzir todos os bens que produziu; teria estagnado e provocado tensões sociais capazes de colocar suas instituições sob fogo bem antes de 1929. Em vez disso, as autoridades permaneceram inertes, permitindo que as bolhas dos anos 20 inflassem, o que conduziu a 1929 e ao desastre da Grande Depressãocomum.

Dada a extensão com que o bitcoin tenta emular o padrão ouro, se uma grande parte de atividade econômica for realizada nesta moeda, os dilemas dos anos 1920 retornarão e infestarão a economia bitcoin. O setor financeiro também encontrará caminhos para criar papéis especulativos baseados em bitcoins, no estilo anos dos 20, o que causará a formação de bolhas. Ou então, a economia política bitcoin irá despencar em uma espiral deflacionária que tanto causa cobiça entre alguns seus usuários quando leva outros, mais numerosos, a abandonar a moeda.

O dinheiro é, e só pode ser, político. A única forma de navegar entre os monstros Scylla e Charybdis da moeda — ou seja, entre a especulação sem freios e a estagnação profunda — é controlar, de modo coletivo e racional, a oferta de dinheiro. E, como este controle está fadado a ser político, no sentido de que diferentes políticas monetárias afetarão de modo desigual diferentes grupos de pessoas, a única maneira decente de exercer tal controle é por meio de uma agência coletiva, democrática. Em resumo, se dinheiro apolítico é uma perigosa ilusão, um Banco Central que seja democraticamente controlado (e oposto, portanto, à noção de um Banco Central “independente”) ainda é nossa maior esperança de uma forma de dinheiro que seja comummanejada para o povo pelo povo. O bitcoin, apesar de suas qualidades interessantes, nunca poderá sê-lo.

Epílogo

Os entusiastas do bitcoin, exatamente como os que creem no padrão ouro, entendem o dinheiro como se ele fosse algum tipo de mercadoria que espontaneamente emergiu como unidade de troca – um pouco como os cigarros se converteram na “economia” dos campos de concentração, como descreveu brilhantemente R. A. Radford (1945). Trata-se de uma concepção grosseira, baseada em uma fé não questionada (e perigosamente falsa) de que não há diferença entre o campo de concentração de Radford e uma economia moderna; de que, como naquele campo de concentração, a oferta de bens e serviços é independente das expectativas e a demanda é sempre suficientemente abundante para absorver a oferta produzida. Já os investimentos, nesta teoria, são determinados unilateralmente pela poupança — que seria, por sua vez, determinada pelo ritmo em que se adia o consumo para o futuro. Nada disso acontece, numa economia que envolva não apenas troca mas também produção e investimento. E são essas duas atividades — produção e investimento — que eliminam a possibilidade de um dinheiro apolítico.

* O texto de Yanis Varoufakis, publicado originalmente em inglês, no blog do economista grego, foi traduzido para o português, anteriormente (em 20/6), pelo site Lavra Palavra. em 20/6, com tradução de Daniel Fabre.

Para saber mais:
Radford, R.A. (1945). ‘The Economic Organisation of a POW Camp’,Economica, Vol. 12, No. 48., pp. 189-201
Varoufakis, Y., J. Halevi and N. Theocarakis (2011). Modern Political Economics: Making sense of the post-2008 world, London and New York: Routledge, Chapter 6&7

AS DINÂMICAS DA PAZ (4)



Rui Peralta, Luanda

Efectivar os Direitos Sociais

Como efectivar os direitos sociais? Este é um dos graves problemas das economias das regiões periféricas da economia-mundo, pois a situação macroeconómica das regiões periféricas dificulta a aplicação destes direitos (embora mesmo nas regiões centrais da economia-mundo alguns destes direitos – como o direito do trabalho – são apenas formalizados). Os direitos sociais não podem ser apenas proclamados. A sua aplicação e concretização não é jurídica e muito menos moral, ideológica ou cultural. Direitos sociais como o direito ao trabalho vêm a sua concretização depender do desenvolvimento económico-social e que no momento presente deve, inclusive ser equacionado. Que fazer do direito ao trabalho com a introdução das tecnologias de 5ª e 6ª geração no processo produtivo, no comércio e no sector de serviços? Como evoluirá este direito? E o não-trabalho? Irá surgir um direito social do não-trabalho? Será o direito ao trabalho diluído noutros direitos sociais como o direito de criar e o direito de concepção, ampliando-os?

A era dos direitos sociais no plano constitucional generalizou-se após a II Guerra Mundial, embora fossem já referidos na Constituição da Republica de Weimar, na Alemanha, em 1919, com o “direito á instrução”, a “protecção ao trabalho”, os sistemas de protecção á saúde, “capacidade de trabalho e defesa da maternidade”, e estivessem largamente explanados e proclamados na Constituição Soviética. A generalização do direito ao trabalho nos textos constitucionais pós-II Guerra Mundial, considerado como um dever social do Estado, significa que para o individuo é um direito em relação ao Estado. Este já não se limita ao reconhecimento da independência jurídica do individuo e deve criar um mínimo de condições que assegurem essa independência. Dessa forma os novos textos constitucionais englobam a vida social, a família, a escola, o trabalho, a suade, etc., ou seja, o conjunto das relações sociais, mesmo que em certos Estados esses princípios fiquem apenas no papel onde foram impressos. Nasceram, assim, as “constituições largas” que ocuparam o espaço constitucional da era liberal. A integração dos direitos sociais no texto constitucional trouxe consigo a constitucionalização dos mecanismos institucionais, o que abriu porta á ingerência do Estado em múltiplos aspectos da vida dos indivíduos, tornando mais rígida a estrutura organizativa institucional e fazendo das constituições longas mantas de retalhos onde se misturam as proclamações dos direitos e os funcionamentos do aparelho.

Não deve ser esquecida ou menosprezada a influencia que teve no âmbito das democracias politicas ocidentais a declaração das 4 liberdades, proclamadas pelo presidente dos USA, T. Roosevelt, em 1941: a liberdade de expressão, a liberdade de culto, a libertação em relação ao medo e a libertação em relação á necessidade. Este discurso justificou a introdução dos direitos sociais nas novas constituições europeias surgidas durante o período de reconstrução, pós-guerra. Os direitos sociais foram considerados indispensáveis durante este período de reconstrução. O direito de segurança social e ao trabalho foram ícones deste período, mecanismos fundamentais que provocaram a medio-prazo a libertação em relação á necessidade, garantindo aos cidadãos a sua sobrevivência.

O reconhecimento dos Direitos Humanos e dos Direitos Sociais avança quanto á sua especialização: direitos da criança, do idoso, das mulheres, dos doentes, do deficiente, etc. Por outro lado foi criado um ideal universal, comum á ética laica e religiosa, em torno dos Direitos Humanos e Sociais, sendo estes últimos direitos que tendem a corrigir desigualdades e a repor a igualdade de oportunidades, alem de serem a pré-condição para a efectivação do exercício dos direitos individuais (o individuo instruído é mais livre, com saúde é mais livre, no exercício de uma actividade económica é mais independente economicamente do que estiver desempregado, etc.).

Os direitos sociais, no entanto, apenas podem ser exercidos, nas economias periféricas, em condições de desenvolvimento e crescimento económico. A estagnação social e a manutenção do subdesenvolvimento impedem a sua aplicação (e são um obstáculo ao seu reconhecimento). Ora, as condições de desenvolvimento apenas podem existir em tempo de Paz, sendo os direitos sociais um reflexo da Cultura da Paz (Na paz podre não passam de meros discursos eleitorais…).

(continua)

Portugal. O OVO E A GALINHA



Rafael Barbosa – Jornal de Notícias, opinião

1. Nunca se tinha anunciado tanto confronto de ideias. Só frente a frente entre os diferentes líderes dos partidos com representação parlamentar seriam 12 (com Costa e Passos a repetirem a dose três vezes). E mais dois debates com a presença simultânea de todos os candidatos da primeira liga. Ao todo, 14 oportunidades para uns quantos eleitores avaliarem os dotes de oratória e a consistência das propostas de cada um dos candidatos. Ainda que se deva admitir que, dado o atual nível de estima pela política e pelos políticos, para outros tantos fosse um pesadelo a evitar.

Na verdade, nunca saberemos se seria uma boa medida para diminuir a abstenção, ou se, pelo contrário, se corria o risco de fazer crescer o número dos que já não se dão ao trabalho de acorrer às mesas de voto, uma vez que a vertigem circense que sempre toma conta dos partidos nestas alturas se encarregou de provocar uma erosão nos debates, porventura até não sobrar nenhum. Seja porque a coligação PSD/CDS quis impor Portas, seja porque a Oposição vetou Portas - um enigma ao nível daquele do ovo e da galinha -, as comadres zangaram-se e o número de debates diminuiu de dia para dia.

Não tarda e ficaremos reduzidos ao que verdadeiramente interessa: duas ou três ideias repetidas até à náusea em sucessivos comícios, o som dos bombos nas arruadas, o entusiasmo dos convertidos que carregam as bandeirinhas nas feiras e os cartazes nas rotundas com fotos narcisistas e frases vazias.

Do mal, o menos, esta história já permitiu um daqueles momentos que marcam todas as campanhas: Paulo Portas, sentido de humor refinado, lembrou que "em nenhum país comunista haveria um debate com os adversários políticos, porque, se houvesse, era o último (...) Como sabem, ou lhes cortavam a cabeça ou os prendiam". Podem rir, era para ter graça.

2. Se a trapalhada da privatização da Metro e da STCP serve para alguma coisa é para demonstrar a urgência de uma reforma administrativa que permita atenuar a asfixia centralista que se acentuou nos últimos anos, chamem-lhe regionalização ou outra coisa qualquer. Entre as forças políticas do Porto, haverá quem não concorde de todo com a concessão de um serviço público a privados, como haverá quem a aceite, ainda que em termos diferentes dos que impõe o Terreiro do Paço. Com o que ninguém pode concordar é que uma decisão desta importância seja tomada à pressa e às escondidas do poder local, aquele que, com todos os seus defeitos, melhor conhece e defende os interesses dos habitantes da Área Metropolitana do Porto.

Portugal. “Há duas opções. Insistir no velho e ruinoso caminho ou abrir um novo"




O líder comunista, que concorre coligado com os ecologistas às legislativas, afirmou hoje que já houve a estabilidade governativa pedida pela coligação PSD/CDS-PP e pelo PS e que essas "maiorias absolutas" instabilizaram a vida dos portugueses.

"Outros andam a proclamar a necessidade de maioria absoluta, em nome da estabilidade. Já foram experimentadas todas as soluções, incluindo diversas maiorias absolutas do PS e do PSD. A verdade é que eles conseguiram estabilidade governativa, não conseguiram foi estabilizar a vida dos portugueses, antes pelo contrário. Instabilizaram-na, criaram esta situação dramática de vivermos num país mais endividado, mais dependente, com mais injustiças sociais, mais desemprego", disse Jerónimo de Sousa, numa ação da Coligação Democrática Unitária (CDU).

À margem do encontro com jovens da CDU, uma festa ao pôr-do-sol ("sunset"), numa esplanada lisboeta, o secretário-geral do PCP classificou ainda a notícia de eventual devolução de 25% da sobretaxa do IRS aos contribuintes como mais uma tentativa de "enganar os portugueses" porque se trata, "no fundo, de uma taxa ordinária".

"Vai ser uma campanha difícil, vão surgir mistificações, falsidades, operações de propaganda fraudulenta, que visam levar os eleitores ao engano, desde logo a coligação PSD/CDS. Eles que fizeram tanto mal... que infernizaram a vida aos portugueses, que criaram uma situação dramática para muitos, que não puderam continuar a estudar e muitos, meio milhão, nem puderam ficar no seu país e partiram para a emigração, vêm dizer agora que foi um mal necessário e estamos no bom caminho", anteviu.

Segundo Jerónimo de Sousa, a coligação Portugal à Frente esconde "o seu verdadeiro programa, que enviou para Bruxelas", onde se pode ler que "é preciso cortar mais 600 milhões de euros em reformas e pensões e mais 300 milhões nos serviços públicos (educação, saúde, proteção social)".

"É preciso dar combate a esta mentira. Querem repetir o engano", acusou o líder comunista, alertando para o "combate muito importante, que vai determinar a vida coletiva e dos jovens" até 04 de outubro, data das eleições.

"Está cada vez mais clara a opção. Há duas opções: permitir que prossiga o rumo do afundamento... ou agarrar a oportunidade de, agora, como seu apoio e voto na CDU, abrir uma rutura com a política de direita e concretizar uma política patriótica e de esquerda", disse.

Para o dirigente e histórico deputado do PCP, "é a escolha entre dois caminhos: insistir no velho e ruinoso caminho da política de direita, prosseguida pelos governos de PS, PSD e CDS, que conduziram o país à crise, aos PEC, ao pacto de agressão e os portugueses ao empobrecimento, ou abrir passagem para um caminho novo, com a força do povo, a CDU, a convergência dos democratas e patriotas, assegurar um Portugal desenvolvido, solidário, de justiça e progresso".

Jerónimo de Sousa afirmou ainda que "a CDU é a força da juventude, ao contrário do que acontece noutras forças que falam da juventude como um enfeite em tempos de campanha eleitoral", citando o exemplo do seu grupo parlamentar em que os elementos mais novos não são "um ornamento decorativo" e trabalham "no duro", como são prova os "458 projetos de lei e cerca 500 projetos de resolução" apresentados na última legislatura.

Lusa, em Notícias ao Minuto

Portugal. Afinal, Rio não avança em setembro. A que se deve o passo atrás?




Ao contrário do que se esperava, Rui Rio recuou face à intenção de apresentar a candidatura a Belém em setembro e vai aguardar pelos resultados das eleições legislativas. Alguns sociais-democratas acreditam que, em caso de derrota do PSD nas legislativas, Rio poderá assumir a liderança do partido.

PSD e PS mantêm a convicção de que as candidaturas às presidenciais só devem ser feitas depois das eleições legislativas, no dia 4 de outubro, contudo os rumores continuam e Rui Rio, de quem se esperava uma antecipação, deverá mesmo dar um passo atrás.

A apresentação da candidatura às presidenciais por parte do antigo presidente da Câmara do Porto esteve prevista para o mês de setembro, contudo o jornal i avança que o social-democrata decidiu adiar a decisão.

De acordo com algumas fontes do partido, Rui Rio tem sido pressionado a candidatar-se à liderança do PSD caso haja uma derrota da coligação Portugal à Frente nas próximas legislativas, o que o faz querer ‘esperar para ver’.

Apesar de o militante número um do PSD, Francisco Pinto Balsemão, já ter divulgado o seu apoio à candidatura de Rui Rio, a comunidade social-democrata tem noção de que a popularidade de Marcelo Rebelo de Sousa é superior. As sondagens não preveem maus resultados para Rui Rio, mas Marcelo é, sem dúvida, favorito.

Depois de a direção ter expressado preferência pela oficialização das candidaturas presidenciais depois das eleições legislativas, Rui Rio deverá esperar pelos resultados do sufrágio de 4 de outubro e só então decidir se segue para uma candidatura a Belém ou para uma hipotética liderança do PSD com a mira apontada a São Bento.

Notícias ao Minuto