segunda-feira, 23 de julho de 2018

Para 82% dos guineenses, país está na direção errada

Para 82% dos guineenses, país está na direção errada


Sondagem inédita na Guiné-Bissau revela que grande parte da população não confia nos políticos. Estudo "Vozes do Povo" coloca PAIGC como favorito nas eleições legislativas.

82% dos guineenses não gostam do rumo que o seu país está a tomar, e 74% acham que a situação económica da Guiné-Bissau é má ou muito má. Os dados são da sondagem "Vozes do Povo", divulgada esta quarta-feira (18.07) pela organização não-governamental "DEMOS - Centro pela Democracia, Criatividade e Inclusão Social", que revela ainda que grande parte da população deixou de confiar nos políticos.

"O povo não gosta da injustiça social no país e não gosta de ver que uma classe política minoritária seja privilegiada, deixando de lado os seus interesses. Há uma preocupação de que as disputas políticas dêem origem a conflitos violentos na Guiné-Bissau. Há também um descontentamento grande na forma como os dirigentes dos partidos estão a conduzir o país", afirmou à DW África Miguel Carter, diretor do DEMOS.

A sondagem financiada pela União Europeia (UE) mostra que, se as eleições legislativas fossem agora, o Partido Africano para a Independência da Guiné e Cabo Verde (PAIGC) conquistaria 42% dos votos, o Partido da Renovação Social (PRS) ficaria com 20% e o grupo dos 15 deputados expulsos do PAIGC somaria apenas 3%.

O representante da UE na Guiné-Bissau, Vítor Madeira dos Santos, frisa que cabe agora aos atores políticos melhorar as estatísticas. "Os dados são indicativos e os atores políticos podem lê-los da maneira que quiserem. Agora, eles refletem, sim, e de uma amostragem com uma margem de erro bastante limitada, aquilo que os guineenses fariam se fosse hoje", diz.
   
Retrato social

Madeira dos Santos considera que o estudo é um instrumento importante para compreender a condição social da população da Guiné-Bissau. "Cerca de 30% dos guineenses não completaram sequer os estudos primários, mas isso é extremamente importante para a compreensão de questões mais complexas que a população não sabia responder", explica.

"Cerca de 50% dos inquiridos tiveram muitas dificuldades em responder o que é a democracia, mas aqueles que responderam sabem bem o que ela representa, e sabem, sobretudo, que não querem viver numa ditadura", acrescenta. 

O estudo "Vozes do Povo" é tido como uma pesquisa inédita, ao revelar as opiniões da sociedade guineense como um todo sobre um vasto leque de temas, incluindo a vida pública do país, a qualidade da governação e a sociedade. A pesquisa mostra, por exemplo, que um em cada quatro guineenses tem dificuldades em aceder a comida e metade da população tem problemas no acesso à água, sobretudo no interior do país.

A sondagem baseia-se numa metodologia do Afrobarómetro, que promove sondagens noutros 37 países africanos. A amostra foram 1.200 pessoas, residentes em 150 distritos, distribuídas por todo o território nacional. Os dados foram recolhidos entre 17 de junho e 8 de julho deste ano.

Braima Darame (Bissau) | Deutsche Welle
Guiné-Bissau: Recenseamento eleitoral arranca a 23 de agosto

Guiné-Bissau: Recenseamento eleitoral arranca a 23 de agosto


O Governo guineense fixou as datas de 23 de agosto a 23 de setembro para o recenseamento de eleitores e reafirmou a sua determinação em realizar eleições legislativas no dia 18 de novembro.

Em comunicado a que a agência de notícias Lusa teve acesso, esta segunda-feira (23.07), a ministra da Administração Territorial, Ester Fernandes, adiantou que os locais e os horários do recenseamento eleitoral serão oportunamente anunciados, através dos órgãos de comunicação social.

Em conselho de ministros, o Executivo liderado por Aristides Gomes decidiu proceder ao registo biométrico de novos eleitores e dar-lhes um recibo que será substituído no momento da entrega dos cartões no GTAPE (Gabinete Técnico de Apoio ao Processo Eleitoral) em Bissau e nas regiões. Em vez de cartões de eleitorais em plástico PVC (policloreto de polivinila) o Governo guineense decidiu emitir cartões laminados.

Ultimar as questões técnicas

A Comissão Nacional de Eleições (CNE) projeta registar cerca de um milhão de novos eleitores.

Um conselho de ministros especial foi marcado para esta segunda-feira, tendo como pano de fundo ultimar as questões técnicas sobre o recenseamento eleitoral e, sobretudo, decidir como proceder para a aquisição de equipamentos do registo, indicou à Lusa fonte governamental.

A reunião vai decidir se o Governo aluga a uma empresa especializada ou pede emprestado os equipamentos do recenseamento eleitoral a Portugal, Timor-Leste ou à Nigéria.

Lusa | em Deutsche Welle
Ao serviço do porno-riquismo

Ao serviço do porno-riquismo


Se as ideias dominantes são as ideias da elite dominante, se estamos numa forma de capitalismo histórico com desigualdades de novo pornográficas e com formas correspondentes de consumo ostentatório – o porno-riquismo –, então não é de espantar que os centros (re)produtores de conhecimento traduzam de formas cada vez mais variadas o estado de coisas fixado pelo dinheiro concentrado.

Por exemplo, já temos actividades ditas de formação para executivos na área do luxo, marcas de luxo, casas de luxo, todo o conhecimento ao serviço do egoísmo a que os ricos são atreitos, da emulação consumista assim gerada, do desperdício sistemático, da busca incessante, e de soma nula, de distinção e de posição sociais, em que para uns terem outros têm necessariamente de ser excluídos. Trata-se de um conhecimento ao serviço do porno-riquismo. Este tipo de conhecimento, ainda que de formas por vezes menos directas, é, na realidade, apanágio de toda a sabedoria económica convencional.

Existe hoje toda uma imprensa moralmente corrosiva que ecoa este conhecimento, idolatrando os ricos cada vez mais ricos, os que circulam frequentemente em busca de vantagens fiscais, os grandes beneficiários de paraísos fiscais, dos chamados vistos gold e de outras prebendas associadas à circulação sem entraves do capital. Esta liberdade de circulação foi reconquistada nos anos oitenta e noventa graças à integração europeia, não se esqueçam. A liberdade de uns é a submissão de outros. Os cada vez mais exigentes standards pecuniários dos ricos cada vez mais ricos infectam cada vez mais este país.

Numa homenagem certamente inadvertida ao economista institucionalista Thorestein Veblen, o Diário de Notícias (DN), em versão agora minguada, tem um suplemento mensal dedicado ao luxo chamado Ócio. Veblen foi o autor, em 1899, do agora clássico A Teoria da Classe Ociosa, que será em breve editado entre nós, cunhador aí da noção de consumo conspícuo e um dos seus analistas críticos mais lúcidos. Um livro de uma era anterior de porno-riquismo que nos deixa pistas bem úteis para esta nova era de desigualdades pornográficas.

Entretanto, a coordenadora de cursos universitários dedicados ao luxo, Helena Amaral Neto, que já naturalmente escreveu para este suplemento, tinha antes afirmado ao DN que a arrancada do luxo no país data por sinal do ano dois da troika, 2012, estando associado ao “movimento do imobiliário, que depois gerou turismo”. Todo um país desigualmente pornográfico, em modo Florida da Europa, começava a ser literal e mateforicamente reconstruído.

Aqui chegados, e para atar provisoriamente as pontas soltas, sugiro que revisitemos a declaração de Miguel Sousa Guedes, CEO da Amorim Luxury e marido da milionária-herdeira Paula Amorim: “não podemos ter pessoas de classe média ou média baixa a morar em prédios classificados”. É preciso não esquecer que o apelido Amorim está associado ao luxo, mas também ao rentismo fundiário e à especulação imobiliária, tendo a Herdade da Comporta agora na sua mira, sem esquecer o fundamental: a Amorim Energia, empresa sediada na Holanda para receber dividendos, com o mínimo de impostos, da Galp. Ou seja, estão sempre a beneficiar fiscalmente. E isto está ludo pornograficamente ligado pela integração europeia, o nome da globalização mais intensa em parte deste continente.

Ex-deputado do PSD ganha meio milhão num dia em negócio com o GES

Ex-deputado do PSD ganha meio milhão num dia em negócio com o GES


António Preto, que foi deputado do PSD entre 2002 e 2011, fez a 2 de setembro de 2016 uma apetecível mais valia: no mesmo dia comprou um terreno na Amadora ao GES por 1,5 milhões e revendeu-o à empresa Dekra por 2 milhões

O advogado António Silva Preto, que foi deputado pelo Partido Social Democrata (PSD) entre 2002 e 2009, conseguiu em 2016 tornar-se “meio milionário” numa questão de horas: a 2 de setembro de 2016 comprou um lote de terreno a um fundo do Grupo Espírito Santo (GES) por 1,5 milhões de euros e logo de seguida revendeu-o à empresa de inspeções automóveis Dekra por 2 milhões.

O negócio foi alvo de uma queixa que a empresa Pharol SGPS enviou ao Banco de Portugal e à Comissão do Mercado de Valores Mobiliários (CMVM), denunciando a atuação da gestora do fundo em causa, a Gesfimo, como o Expresso noticia na sua edição deste sábado. A Pharol, recorde-se, é credora da Rio Forte (braço não financeiro do GES), por ter ficado com o crédito das aplicações de tesouraria que a antiga Portugal Telecom fez no GES, estando há vários anos a tentar recuperar o dinheiro.

O negócio que envolveu António Preto foi feito e escriturado num só dia, mas o advogado garante ao Expresso que antes das duas escrituras (a da compra do terreno ao Invesfundo e a da venda do mesmo imóvel à Dekra) houve um processo negocial que levou mais tempo.

O administrador da Dekra em Portugal, Sérgio Vitorino, disse ao Expresso que o terreno em causa tem 14.400 metros quadrados. O gestor confirma os 2 milhões pagos pelo imóvel, mas assegura que não sabia que António Preto o tinha adquirido por 1,5 milhões.

O interesse da Dekra no terreno, o Lote 3 do Marconi Parque, na Venteira, na Amadora, vinha já de 2014. Nesse ano, segundo Sérgio Vitorino, o Invesfundo pediu pelo imóvel 2,4 milhões de euros. O Invesfundo reporta no relatório e contas de 2014 que chegou a firmar em 2014 um contrato-promessa de compra e venda com a Dekra, mas no ano seguinte o contrato foi resolvido, alegadamente por incumprimento da Dekra.

Ora, em 2015 já o BES tinha colapsado: a medida de resolução do Banco de Portugal foi tomada em agosto de 2014. Segundo António Preto, isso provocou uma “alteração de circunstâncias”, da qual a sua empresa, a Barrocas & Preto, tirou partido.

Sérgio Vitorino conta que em 2015 a Dekra não não aceitou adquirir o lote, uma vez que tinha uma avaliação independente de 2,15 milhões de euros. O valor patrimonial tributário daquele terreno era de 2,01 milhões.

“No verão de 2016 a Barrocas & Preto propôs-nos a venda por 2 milhões de euros. Valor esse que aceitámos, considerando que o lote tem 14.400 metros quadrados e que nos permite construir um centro de inspeções e a sede da empresa com capacidade para 500 colaboradores. Ou seja, não tínhamos conhecimento do preço a que a Barrocas & Preto tinha comprado o mesmo”, explica o administrador da Dekra.

Já António Preto garante que o negócio foi feito com total transparência, uma vez que na escritura de venda à Dekra ficou referido que o imóvel tinha sido adquirido no mesmo dia pela Barrocas & Preto ao Invesfundo. “Eu quis fazer isto com toda a clareza, não usei nenhum tapume”, afirmou o antigo deputado ao Expresso. “Eu apareci quando o negócio estava morto e encontrei uma oportunidade de negócio”, acrescentou.

“O DINHEIRO ESTÁ NA MINHA CONTA, QUEM QUISER PODE VER”

Questionado sobre se o ganho de meio milhão de euros ficou exclusivamente para si ou foi partilhado com terceiros, António Preto garante que a mais-valia ficou para si. “O dinheiro está na minha conta. Quem quiser ir ver vê à vontade”, declarou.

As contas da Barrocas & Preto consultadas pelo Expresso revelam que depois do negócio de setembro de 2016 a empresa não voltou a ter nenhum negócio daquela amplitude. A empresa de António Preto fechou 2017 com capitais próprios de 697 mil euros.

António Preto disse ainda ao Expresso que as mais-valias na compra e venda de imóveis são “normais” e que o próprio ainda recentemente conseguiu alguns ganhos com a compra de imóveis de empresas em insolvência para posterior revenda.

Segundo as contas de 2016 da Barrocas & Preto, o resultado da empresa nesse ano foi de 536 mil euros, sobre os quais pagou um imposto de 8.167 euros. Em 2017 a empresa teve um lucro de 1677 euros, sobre o qual pagou IRC de 340 euros.

Miguel Prado | Expresso | Foto: António Pedro, por João Carlos Santos
Centeno reafirma alinhamento com imposições de Bruxelas

Centeno reafirma alinhamento com imposições de Bruxelas


«O objectivo é cumprir o défice», disse Mário Centeno sobre a política orçamental do Governo e o trabalho do Ministério que dirige. Só depois refere como objectivos «que os serviços públicos funcionem e que haja verbas ao longo de todo o ano sem serem necessários orçamentos rectificativos».

As afirmações do ministro das Finanças surgem pouco depois de o seu colega de Governo Augusto Santos Silva ter assumido que o cumprimento das regras orçamentais da União Europeia é algo que o Executivo não questiona: «Não podemos avançar mais, de forma a pôr em causa os restantes compromissos que assumimos, designadamente as metas de défice orçamental», afirmou.

Centena procura ainda afastar aumentos salariais para os trabalhadores da Administração Pública no próximo ano, dizendo que isso não consta do programa do Governo, assim como um novo aumento extraordinário das pensões. No entanto, este último – que se verificou em 2017 e se irá concretizar de novo em Agosto próximo – também não constava do programa do Governo, o que não impediu que se viesse a materializar por proposta do PCP.

Mesmo com contas erradas, Governo insiste em violar OE2018

Sobre as progressões nas carreiras em que o tempo de serviço é o principal factor, o ministro das Finanças insiste no argumento financeiro para não cumprir o Orçamento do Estado (OE) para 2018, que impõe a contagem de todo o tempo de serviço em que estas estiveram congeladas: nove anos, quatro meses e dois dias.

Centeno admite, no entanto, que as contas que o Governo fez sobre o custo do descongelamento para os professores estavam erradas (agora refere 37 milhões de euros, em vez dos 90 milhões orçamentados), o que parece justificar o entendimento com a plataforma sindical para que as contas sobre o peso da contagem do tempo sejam refeitas.

Os professores têm defendido que o valor em causa é significativamente inferior ao que o Governo difundiu, mas há ainda um outro elemento que fragiliza os argumentos do Governo – tanto em relação aos professores como a outras carreiras em que o modelo de contagem do tempo está em negociação: o que os trabalhadores estão a exigir é que seja cumprido o direito à carreira e que deixem de ser prejudicados pelas decisões deste e dos anteriores governos, que congelaram as progressões, até porque já passaram mais de nove anos sem progredir como deveriam.

Números preocupantes na Saúde e investimento, ministra olha para o lado

Mário Centeno entrou ainda na polémica sobre o orçamento da Saúde, dizendo que o OE2018 tem mais 700 milhões de euros para o sector do que o OE2015. No entanto, ainda no sábado o Expresso noticiava que, em percentagem do produto interno bruto (PIB), o orçamento do Serviço Nacional de Saúde (SNS) é o mais baixo desde 2003.

Recorde-se ainda que, de acordo com dados recolhidos pelo AbrilAbril, mais de 40% da despesa do SNS não serve para pagar salários ou despesas de funcionamento, mas vai para o sector privado da Saúde: entre exames complementares de diagnóstico, parcerias público-privado e outras subcontratações, receberam 3,8 mil milhões de euros no ano passado.

Segundo dados do Jornal de Negócios, publicados em Fevereiro, 51% das receitas dos hospitais privados vêm dos cofres públicos, particularmente do SNS e da ADSE.

O ministro das Finanças revelou ainda que o Governo espera reforçar o investimento público com o lançamento da construção dos hospitais do Seixal e Lisboa Oriental, mas também na ferrovia. No entanto, Centeno  reconhece que este continua em níveis historicamente baixos essencialmente por uma razão: para cumprir os objectivos exigidos por Bruxelas, o corte no investimento público tem ajudado muito.

AbrilAbril | Foto: Stephanie Lecocq/EPA / Agência Lusa
ERA UMA VEZ O COMUNISMO, QUE DEU LUGAR AO CONSUMISMO COMPULSIVO

ERA UMA VEZ O COMUNISMO, QUE DEU LUGAR AO CONSUMISMO COMPULSIVO



Um Curto muito curto de luz limitada contradiz o adágio composto por “Candeias à frente iluminam duas vezes”. Mas há candeias que não iluminam nada, ao princípio. Só lá mais para o fim.

Vai haver quem não goste nada de ler o atrás. Provavelmente nem o à frente. Paciência. Mas pior só a seguir. Provavelmente nem entendem nadinha do que está a ser aqui escarrapachado. Pois, é uma questão de interpretação. Explicar melhor? Não. Este é o Curto do Expresso e é para lá que vão. Estamos na época estúpida do ano nesta coisa das letras impressas e/ou online, nas notícias, nas férias, na dita falta de notícias… Mentira. Levantem lá o traseiro da cadeira e saiam para as ruas, para os casarios dos pobretanas, para os tais bairros sociais, reportem a miséria, as injustiças, os casos escabrosos. Ou embrenhem-se no interior do país e deixem de ver “bonito” o que é feio e um atraso de vidas. Deixem-se de merdas e trabalhem no duro. Ganham para isso e muito mais. Gastem menos com essas manias das grandezas. Pois. Quem? Ora, eles sabem quem. Só se pica quem tem as barbas na fossa deste consumismo desbragado, os cabeças tontas. E depois dizem que ganham pouco, apesar de contabilizarem mensalmente vários salários mínimos… Porra, e mesmo assim o dinheiro não chega? Têm de recorrer a empréstimos? A pagar juros e prestações disto e daquilo. 

Pois não chega, há por aí muitos que dias antes de receberem têm de limpar o “sim-senhor” a folhas de edições de propaganda dos supermercados e outras publicidades que encafuam nas caixas de correio, porque nem já há para comprar papel higiénico. Enfim, até que esta é a realidade de uns quantos (muitos) desses tais que dizem e choram-se por ganharem pouco apesar de contabilizarem mensalmente vários salários mínimos (repetição). Ganham pouco ou gastam à toa e demasiado? Pois. Manias das grandezas. Que tal visitarem o psiquiatra ou similar? Ou ganharem consciência da porcaria de sociedade em que estamos inseridos... Bem, há os que estão à margem. Os marginais.

Adiante. Adiante pode ler o Curto. Bom dia, boa semana. Saúde, sorte, dinheiro para gastos e boas festas aos animais. (MM | PG)

Bom dia este é o seu Expresso Curto

Pedro Candeias | Expresso

O fim do comunismo, as capitulares de Trump, a retenção de crianças e os bebés por encomenda

No primeiro dia de 1959, o ditador Fulgencio Batista fugiu de Cuba para a República Dominicana – mais tarde fugiria para o Funchal –, o guerrilheiro Fidel Castro tomou o poder e o mundo mudou outra vez, desta vez a partir de uma pequena ilha comunista a menos de 400 quilómetros de Miami.

Inevitavelmente, porque o território era limitado e geograficamente desirmanado da Mãe-Rússia, Cuba acabou isolada numa bolha ideológica e física, fechando-se dentro dela com os cubanos, com o regime e os seus ideais, virtudes e defeitos.

Um deles, talvez o maior de todos, a intolerância à diferença, e poucas coisas a representaram tão bem como as UMAP, as Unidades Militares de Ayuda a La Produción, suavização para campos de trabalho forçado de 60-horas-semanais-a-sete-pesos-por-mês.

Era para lá que se enviavam os homens que não queriam cumprir serviço militar (daí, Unidades Militares) por objeção de consciência, mas também os homens religiosos, como Testemunhas de Jeová, e os homossexuais, que eram identificados nas ruas de Havana pelas calças apertadas, óculos escuros e sandálias.

A viril Cuba não podia permitir.

Há relatos de tratamentos de choque e de hormonas e maus tratos avulso; e há um filme extraordinário que explica as UMAP e que é, também, o título de um livro: “Antes Que Anochezca”, de Julian Schnabel com Javier Bardem, que conta a vida do escritor Reinaldo Arenas, homossexual e contestatário de Fidel, que fugiu do país durante o Êxodo de Mariel. 

Ora, porquê esta introdução de cinco parágrafos com histórias do passado?

Porque, aparentemente, Cuba deixou de ser comunista - e o mundo vai mudar um bocadinho mais.

Contexto: a Assembleia Nacional prepara o anteprojeto para uma reforma constitucional histórica com 87 novos artigos e 117 modificações aos anteriores.

Conclusão: esta nova “Carta Magna” prevê, entre outras coisas, o direito à propriedade privada e a figura do primeiro-ministro, lançando as bases para uma uma espécie de liberalismo económico – tudo, claro, devidamente condicionado e supervisionado pelos desígnios do socialismo cubano. Porque “isto não quer dizer que renunciamos às nossas ideias”, atirou Esteban Laz, presidente da Assembleia Nacional.

Por outro lado, a Cuba renascida reconhecerá as relações homossexuais, já que a “Carta Magna” revista fala em “casamentos entre duas pessoas” e não entre “um homem e uma mulher”. E sobre isso falou Mariela Castro, filha de Raúl e sobrinha de Fidel, que é deputada e diretora do Centro Nacional para a Educação Sexual. “Com esta proposta de regulação constitucional, Cuba situa-se entre os países da vanguarda ao nível do reconhecimento e da garantia dos direitos humanos”.

Contexto: Mariela Castro é a imagem do modernismo possível dentro de um país anacrónico. Acontece que ela é, digamos assim, ligeiramente ambígua, como este texto do El País explica: um dia, questionada sobre o escritor Reinaldo Arenas, falou em sobrevalorização cinematográfica de um autor mentiroso e pedófilo.
Conclusão: é complicado

P.S. O povo cubano irá ser consultado sobre esta nova constituição entre 13 de agosto e 15 de novembro.

OUTRAS NOTÍCIAS

A notícia foi manchete do “Público” de domingo, mas as reações mantiveram-na a pular de noticiário em noticiário até esta segunda-feira: o Serviço de Estrangeiros e Fronteiras deteve vinte menores em 2017 no CIT (Centro de Instalação Temporária) no aeroporto de Lisboa; a jornalista descreve uma “bebé de três anos” que está “detida há mês e meio”, o que representa uma clara “violação da convenção dos direitos da criança”. A primeira reação foi do SEF: as crianças não estão “detidas” e sim “retidas” - uma questão semântica - alertando para um aumento de “indocumentados e fortes indícios de tráfico de menores”. Depois, o PSD, por Duarte Marques, que disse que “Portugal tem uma tradição e prática política” de acolher bem. E em terceiro, o BE, por José Manuel Pureza, afirmou “o Estado português é estado parte na Convenção dos Direitos da Criança e portanto ou leva a sério essa circunstância ou, se não leva, a situação é grave”. Acho que todos concordamos com isto.

O que também é grave para a generalidade do planeta, mas na singular cabeça de Donald Trump nem por isso, são as constantes informações que o vão colando a um grande esquema de conluio com a Rússia de Putin durante a campanha para as presidenciais. No domingo, a Administração Trump revelou documentos e transcrições de gravações confidenciais da investigação do FBI a um dos antigos conselheiros de Trump, Carter Page, com o objetivo de mostrar que o processo está inquinado desde o início. “É cada vez mais claro que a campanha de Trump foi ilegalmente espiada para ganhos políticos da Crooked Hillary Clinton e dos democratas”, lançou The Donald no Twitter. O New York Times escreve que o presidente deixou convenientemente de fora dos 280 carateres as suspeitas do FBI sobre Page, pois nos documentos está especificado isto: “O bureau acredita que Page foi um dos alvos de recrutamento da Rússia e que estava a colaborar e conspirar com os russos”. Adiante, que as miudezas não lhe interessam, apenas as capitulares do Twitter com ameaças musculadas ao Irão para criar cortinas de fumo – é que, na quarta-feira, Paul Manafort, outro antigo conselheiro sinistro, irá a julgamento.

Farto de julgamentos públicos, Mesut Özil deixou a seleção da Alemanha. Num longo comunicado, o internacional acusou de racismo o presidente da federação alemã de futebol e também alguns media e figurões da sociedade germânica. “Chamaram-me porco turco e violador de cabras e mandaram-me para Anatólia. Quando a Alemanha ganha, sou alemão,quando perde, sou turco”, escreveu Özil no comunicado. As críticas ao talentoso médio ofensivo aceleraram quando tirou uma fotografia com o presidente Erdogan.

Por fim, o pacífico, evoluído e democrata Canadá de Trudeau volta a não ficar bem na foto: um tiroteio em Toronto resultou em duas mortes (uma delas, a do atirador) e 13 feridos, sendo que, no meio destes, há uma menor ainda em estado crítico. Há relatos de 25 tiros um país em que, escreve o Expresso, as mortes por violência armada na cidade canadiana aumentaram 53% até ao momento, em relação a igual período do ano passado. Ainda de acordo com informações da polícia, divulgadas na semana passada, o número de tiroteios subiu 13.

Manchetes dos jornais:
“Jornal de Notícias”: “Rendas em atraso nos bairros sociais somam 48 milhões”
“Correio da Manhã”: “Centeno trava carreiras na função pública”
“Público”: “Professores? ‘O OE é para todos os portugueses’”
“I”: “Festivais obrigam os agentes a trabalhar em dias de folga”
“Jornal de Negócios”: “Idade média da reforma no privado sobre para 64 anos”

FRASES

“Nos anos 90 os árbitros eram compravam-se árbitros como se compram tremoços. Trios de arbitragem, não era só o árbitro” Manuel-decano-dos-decanos-José, em entrevista à Tribuna Expresso

“Atenção, este não é um movimento de apoio à minha candidatura, mas sim para garantir que todos os sócios poderão concorrer livremente às eleições de 8 de setembro” Bruno de Carvalho, no sítio do costume, a propósito de uma recolha de assinaturas que decorre esta segunda-feira

“Deputados nunca deviam ter feito acordo. Se Manuel Pinho não queria falar sobre isto, não ia. Tem algo a esconder” Marques Mendes, na SIC, sobre as não-respostas de Manuel Pinho, um clássico à portuguesa

“Não há nada pior para a estabilidade política do que ter políticos que, de repente, se tornam impacientes” Manuel-zen- Centeno, em entrevista ao “Público”

“Ronaldo é um pouco narcisista e infantil” John Carlin, fã assumido e irredutível de Messi e do Barcelona, entrevistado pelo “DN”

O QUE ANDO A LER

É impossível ignorar as premissas: hoje, é mais provável morrer por comer em demasia do que por fome, há mais gente a morrer por suicídio do que em guerras ou crimes violentos. Em “Homo Deus: Uma Breve História do Amanhã”, a sequela de “Homo Sapiens”, o autor Yuval Noah Harari traça-nos cinicamente um futuro dominado pela tecnologia e pelo Homem que quer assumir o papel de Deus que matou, transformando o meio em que vive, transformando-se a si na busca pela perfeição.

Harari diz-nos que teremos bébés feitos por encomenda, sem dispensar a consulta prévia num catálogo; que seremos dominados pela fixação criada em torno das métricas e da análise obsessiva dos dados, a que ele chama “dataísmo”; que criaremos uma classe social saudável e com uma esperança média de vida longuíssima, mas perigosamente inútil, porque as máquinas vão substituir o trabalho humano e a isso se chama redundância e exclusão.

O autor traça-nos um cenário apocalíptico de seres supersaudáveis e indistinguíveis uns dos outros que irão querer viver para sempre – e eu não sei muito bem o que achar disto tudo enquanto escrevo este Expresso Curto com um portátil ao colo, um olho nas métricas do Google Analytics, e como aveia integral com fruta dita biológica, por causa das coisas.
VIVA O POVO SANDINISTA DA NICARÁGUA!

VIVA O POVO SANDINISTA DA NICARÁGUA!


A REVOLUÇÃO SANDINISTA FAZ SUA PROVA DE VIDA!

 Martinho Júnior | Luanda

AS RAZÕES DE SANDINO, CONTINUAM A SER AS MAIS LEGÍTIMAS RAZÕES DE LUTA!

São muitos os textos contra Daniel Ortega e sua esposa e há muito que rever na Frente Sandinista de Libertação Nacional, todavia e enquanto houver fôlego anti-imperialista, enquanto a resistência existir no quadro da ALBA, enquanto a Doutrina Monroe for empenhada pelo domínio contra os povos da América, é com os povos que devemos resolutamente estar!...

Daniel Ortega inexoravelmente passa, mas fica o povo sandinista da Nicarágua que tantas provas de luta tem dado ao longo duma história de resistência à prova de império!...

A legalidade constitucional faz parte dessa essência e deve prevalecer honrando a própria democracia!


Por outro lado, o império da Doutrina Monroe, à falta de melhor, recorre às filosofias aplicadas do “golpe suave” ao jeito de Gene Sharp, ou seja, tenta impor uma vontade que nada, radicalmente nada, tem que ver com a Constituição democrática do país, muito menos com a revolução sandinista!

Há por isso que regar a floresta sandinista, manancial único inspirador dos povos da América Central, ainda que haja algumas árvores que tenham começado a apodrecer, ou indiciem estar a apodrecer!...

O tempo trará inexoravelmente a caducidade dessas árvores, por que os seres humanos estão de passagem pela vida e as provas de maturidade só os povos sabem dar, por que só as podem dar ao longo de gerações!

Por isso a floresta precisa manter-se viçosa, mesmo que haja tantas queimadas ao seu derredor, ou mesmo em alguns lugares intestinos!...

É dentro da FSLN e não fora dela que os revolucionários devem cerrar fileiras, por muito subversivo que seja o ambiente interno, onde os impactos neoliberais procuram a todo o transe abrir brechas, manipulando, subvertendo e dividindo!...


Os revolucionários não podem, nem devem ser masoquistas, devem-se inspirar respeitando seu próprio povo e devem ter sempre presente algo que um dia Agostinho Neto disse não só para Angola e os angolanos: AO INIMIGO, NEM UM PALMO DA NOSSA TERRA!...

...e isso ainda que se tenha perdido muito do terreno fértil da revolução!

A FSLN não pode ser uma concha cujo proprietário foi esvaziado para entrar uma outra criatura, uma criatura que advogue contra a sua própria natureza!

Por outro lado, há que levar na devida conta um dos segredos multipolares: quando uma articulação ficar débil, há que acorrer para, por via da luta da solidariedade, do internacionalismo e da clarividência, a reforçar!...

Só assim é possível um multipolarismo capaz de integração solidária, coerente, digna e inteligente!...

Esse segredo deve ser cultivado quando há projectos com sinal multipolar de ordem geoestratégica, como o é, na Nicarágua, a construção do novo canal ligando o Atlântico ao Pacífico!

É imperioso que o ambiente anti-imperialista transfira todas as suas forças para uma lógica com sentido de vida que se deve saber transmitir aos povos mobilizando-os (essa é uma barricada intransponível quando a maré das adversidades capitalistas neoliberais, ou um avassalador domínio como o da Doutrina Monroe, cai sobre os povos) e, neste caso, cai, com todos os cacetes, sobre povo sandinista da Nicarágua!

Martinho Júnior - Luanda, 15 de Julho de 2018.

Ilustrações:
O império da Doutrina Monroe procura dividir e confundir o povo sandinista da Nicarágua;
Os golpistas afiliados às filosofias do “golpe suave” de Gene Sharp;
Ileana Ross, Marco Rubio e Mario Díaz-Balart, sustentáculos do “golpe suave” na Nicarágua

Textos de suporte:
Daniel Ortega traiu a Revolução sandinista – https://www.resistir.info/mur/nicaragua_12nov16.html
En Nicaragua, la operación Contra Bis está fracassando? – https://www.investigaction.net/es/en-nicaragua-la-operacion-contra-bis-esta-fracasando/
Nova Constituição cubana elimina termo “comunismo”

Nova Constituição cubana elimina termo “comunismo”


Membros da Assembleia Nacional começaram a debater texto da nova Carta do país, que prevê ainda o direito à propriedade privada e ao casamento gay. Projeto, entretanto, mantém monopólio do poder do Partido Comunista.

A Assembleia Nacional do Poder Popular de Cuba começou a debater neste sábado (21/07) o texto da nova Constituição do país. O rascunho do texto elimina o termo "comunismo" e inclui o direito à propriedade privada e ainda abre a possibilidade para a legalização do casamento de pessoas do mesmo sexo.

O anteprojeto constitucional, que está sendo submetido a debate pelos mais de 600 deputados da Assembleia, só menciona o "socialismo" como política de Estado, em contraste com o texto vigente desde 1976, que foi influenciado pela União Soviética e que em seu artigo 5 declara o "avanço para a sociedade comunista".

"Isto não quer dizer que renunciamos às nossas ideias, mas que em nossa visão pensamos em um país socialista, soberano, independente, próspero e sustentável", argumentou esta semana o presidente da Assembleia Nacional, Esteban Lazo, durante as sessões preliminares nas quais os deputados estudaram a proposta de reforma constitucional. As discussões devem se estender até segunda-feira.

Para defender a supressão do termo comunismo, Lazo também alegou que a situação atual de Cuba e o contexto internacional são muito diferentes em comparação a 1976, segundo apontou o jornal estatal Granma.

O artigo 21 do novo texto submetido a debate também reconhece "outras formas de propriedade como a cooperativa, a propriedade mista e a propriedade privada", e admite o investimento estrangeiro como "uma necessidade e um elemento importante do desenvolvimento".

Estas mudanças buscam adaptar a Constituição à nova realidade econômica de Cuba. Durante as reformas promovidas durante o governo de Raúl Castro surgiram vários negócios privados, mas a ilha ainda sofre com uma persistente crise econômica.

Os artigos dedicados à economia no novo texto marcam uma grande diferença com relação à atual Carta Magna, que só reconhece a propriedade estatal e a cooperativa agropecuária, em linha com o modelo de Estado comunista aplicado no país por Fidel Castro após a Revolução de 1959.

Mesmo assim, o anteprojeto submetido a debate a partir de hoje ratifica o papel do Estado ao estabelecer que "a empresa estatal é o sujeito principal da economia como gerador da riqueza do país" e que "a propriedade socialista de todo o povo é o núcleo fundamental".

No âmbito político, o texto da minuta confirma que não haverá mudanças no "caráter socialista do sistema político e social" e mantém como "força dirigente superior" o Partido Comunista de Cuba, embora institua a figura do presidente da República, limite seu mandato a dez anos e proponha a criação do cargo de primeiro-ministro.

Casamento gay

O projeto de reforma constitucional também propõe definir o casamento como "união entre duas pessoas", o que abriria a porta para a legalização das uniões homossexuais.

A Constituição vigente define o casamento "como a união arranjada voluntariamente entre um homem e uma mulher", o que impede por enquanto a aprovação de uma modificação no código de família para legalizar as uniões entre pessoas do mesmo sexo.

O secretário do Conselho de Estado da ilha, Homero Acosta, explicou aos deputados que o conceito de casamento será modificado de modo para "não especificar de que sexo são as pessoas que o formariam".

"Não diz que se trata de casamento igualitário, apenas rompe com essa barreira de maneira que no futuro se poderia incorporar", disse Acosta na emissora televisão estatal, que transmite com uma hora de atraso os debates no plenário da Assembleia Nacional, ao qual não tem acesso a imprensa estrangeira.

Acosta, veterano integrante da cúpula estatal cubana, ressaltou que "a nova Constituição não podia fugir deste assunto, que foi analisado e debatido" pela comissão encarregada da reforma da Carta Magna, dirigida pelo ex-presidente e líder do governante Partido Comunista de Cuba, Raúl castro.

"Não somos os primeiros, nem seríamos a vanguarda neste tema pois há cerca de 24 países que têm incorporado este conceito. Não podíamos dar as costas a este assunto ao elaborar um novo projeto constitucional", destacou.

Este seria um enorme passo a favor dos direitos LGTBI na ilha, uma sociedade ainda muito conservadora em temas de liberdade sexual e onde até algumas décadas atrás se perseguia os homossexuais para interná-los em campos de trabalho, as chamadas Unidades Militares de Ajuda à Produção (UMAP).

JPS/efe | Deutsche Welle
Demência em massa no establishment ocidental

Demência em massa no establishment ocidental


– Donald Trump terá sido eleito pela Rússia? 

– Reacção dos media de referência à reunião Trump-Putin

Diana Johnstone [*]

Por onde começar a analisar a loucura dos media de referência em reacção à reunião Trump-Putín em Helsínquia? Ao concentrar-se na psicologia individual, a psicologia relegou o problema da insânia em massa, a qual agora subjugou o establishment dos Estados Unidos, seus mass media e a maior parte dos macacos de imitação europeus. Os indivíduos podem ser sãos, mas como uma manada eles estão prontos para saltar o abismo.

Durante os últimos dois anos, um grupo de poder específico tentou explicar a sua perda de poder – ou antes, a sua perda da presidência, pois ele ainda predomina no poder institucional – através da criação de um mito. Os media de referência são conhecidos pelo seu comportamento de manada e, neste caso, editores, comentadores, jornalistas apresentaram uma narrativa em que inicialmente eles próprios dificilmente poderiam acreditar.

Donald Trump terá sido eleito pela Rússia?

À primeira vista, isto é absurdo. Claro, os Estados Unidos podem forjar eleições fraudulentas nas Honduras, ou na Sérvia, ou mesmo na Ucrânia, mas os EUA são demasiado grande e complexo para deixar a escolha da Presidência a uma barragem de mensagens electrónicas totalmente não lidas pela maior parte dos eleitores. Se isto fosse assim, a Rússia não precisaria tentar "minar nossa democracia". Isto significaria que a nossa democracia já estava minada, em cacos, morta. Um cadáver em pé pronto para ser derrubado por um tweet.

Mesmo se, como é alegado sem provas, um exército de bots russos (ainda mais vasto do que os notórios bots do exército israelense) estivesse a assediar os media sociais com as suas calúnias nefastas contra a pobre e inocente Hillary Clinton, isto poderia determinar uma eleição apenas num vácuo, sem outras influências no campo. Mas havia muitas outras coisas a acontecerem nas eleições de 2016, algumas a favor de Trump e outras de Hillary, e a própria Hillary marcou deu próprio objectivo crucial ao denegrir milhões de americanos como “deploráveis” porque eles não se ajustavam na política de identidade dos seus círculos eleitorais.

Os russos nada podiam fazer para dar apoio a Trump e não há nem um indício de prova de que o tenham tentado. Eles poderiam ter feito alguma coisa para prejudicar Hillary, porque havia muito ali: os emails do seu servidor privado; a fundação Clinton; o assassinato de Gaddafi; o pedido de uma zona de exclusão aérea na Síria ... eles não precisavam inventar isto. Estava lá. O mesmo aconteceu com a promiscuidade do Comitê Nacional Democrata (CND), sobre o qual as acusações se concentram clintonitas, talvez para fazer com que todos esqueçam coisas muito piores.

Quando se chega a pensar nisto, o escândalo do CND centrou-se em Debbie Wasserman Schultz, não na própria Hillary. Berrar acerca de "russos a hackearem o CND" tem sido um diversionismo em relação a acusações muito mais séries contra Hillary Clinton. Apoiantes de Bernie Sanders não precisaram de tais revelações para deixarem de gostar de Clinton ou mesmo para descobrir que o CND estava a trabalhar contra Bernie. Isto sempre foi perfeitamente óbvio.

Assim, na pior das hipóteses, "os russos" são acusados de revelarem alguns factos menores referentes à campanha de Hillary Clinton. Grande coisa.

Mas isso é suficiente, depois de dois anos de falsificações, para remeter o establishment para um furor de acusações de "traição" quando Trump faz o que disse que faria quando estava em campanha, tentar normalizar relações com a Rússia.

Este berreiro vem não só do mainstream dos EUA como também das elites europeias as quais durante setenta anos foram domesticadas como caniches ou bassets obedientes do zoo americano, através da pressão intensa de "associações de cooperação" americanas transatlânticas. As ditas elites basearam suas carreiras na ilusão de partilhar o império mundial ao seguir os caprichos dos EUA no Médio Oriente e ao mudar a missão das suas forças armadas da defesa para unidades de intervenção externa da NATO sob o comando dos EUA. Não tendo pensado seriamente acerca das implicações disto durante meio século, elas entram em pânico à sugestão de serem deixadas por conta própria.

A elite ocidental agora sofre de demência auto-infligida.

Donald Trump não é particularmente articulado, navegando através da linguagem com um pequeno vocabulário repetitivo, mas o que ele disse na sua conferência de imprensa em Helsínquia foi honesto e mesmo corajoso. Tal como os cães ladram pelo seu sangue, ele muito correctamente recusou-se a endossar as "descobertas" das agências de inteligência dos EUA, catorze anos depois de as mesmas agências terem "descoberto" que o Iraque estava repleto de armas de destruição em massa. Como é que alguém no mundo poderia esperar qualquer outra coisa?

Mas para os media que se proclamam como referência, "a narrativa" na cimeira de Helsínquia, mesmo a únicanarrativa, foi a reacção de Trump às acusações forjadas de interferência russa em nossa democracia. Você foi ou não foi eleito graças a hackers russos? Tudo o que eles queriam era uma resposta sim ou não. A qual não poderia ser sim. Assim poderiam escrever suas notícias com antecedência.

Qualquer um que tenha frequentado os meios dos jornalistas mainstream, especialmente aqueles que cobrem os "grandes temas" nos assuntos internacionais, está consciente da sua obrigação de conformismo, com poucas excepções. Para conseguir o emprego, ele deve ter "fontes" importantes, o que significa porta-vozes governamentais desejosos de contar o que é "a narrativa", muitas vezes sem serem identificados. Uma vez que eles sabem o que é "a narrativa", estabelece-se a competição: competição no como contá-la. Isso leva a uma escalada da retórica, variações sobre o tema: "O presidente traiu nosso grande país entregando-o ao inimigo russo. Traição!"

Este coro enlouquecido sobre o "hacking russo" impediu mesmo os media mainstream de fazerem a sua tarefa. Até mesmo de mencionar, e muito menos analisar, qualquer das questões reais na cimeira. Para encontrar análises deve-se ir on line, longe das falsas notícias oficiais da reportagem dita independente. Exemplo: o sítio the Moon of Alabama apresenta uma interpretação inteligente da estratégia de Trump, a qual soa infinitamente mais plausível do que "a narrativa". Em suma, Trump está a tentar cortejar a Rússia para afastá-la da China, numa versão invertida da estratégia de Kissinger de quarenta anos atrás de cortejar a China para afastá-la da Rússia, evitando assim uma aliança continental contra os Estados Unidos. Isto pode não funcionar porque os EUA se demonstraram tão inconfiáveis que os cautelosos russos provavelmente não abandonarão sua aliança com a China em troca de sombras. Mas isto faz perfeito sentido como uma explicação da política de Trump, ao contrário dos miar de gatos que temos ouvido de senadores e de apresentadores na CNN.

Tais pessoas parecem não ter ideia do que é diplomacia. Elas não podem conceber acordos que fossem benéficos para ambos os lados. Não, para elas tem de ser um jogo de soma zero, o vencedor fica com tudo. Se eles vencem, nós perdemos e vice-versa.

Elas também não têm ideia do dano para ambos os lados se não concordarem. Elas não têm projecto, nem estratégia. Apenas odeiam Trump.

Ele parece totalmente isolado e todas as manhãs vejo os noticiários para ver se já foi assassinado.

É inimaginável para quaisquer moralistas maniqueus que Putin também estar sob fogo internamente por deixar de repreender o presidente americano pelas violações dos EUA direitos humanos em Guantanamo; ataques de drones assassinos contra cidadãos indefesos por todo o Médio Oriente; pela destruição da Líbia em violação do mandato da ONU, pela interferência nas eleições de incontáveis países por "organizações não governamentais" financiadas pelo governo (a National Endowment of Democracy); pela espionagem electrónica à escala mundial; pelas invasões do Iraque e do Afeganistão, sem mencionar a maior populacional prisional do mundo e os massacres de crianças de escolas. Mas os diplomatas russos sabem como ser polidos.

Ainda assim, se Trump realmente fizer um "acordo", poderá haver perdedores – não os EUA nem a Rússia, mas sim terceiros. Quando duas grandes potências chegam a um acordo, muitas vezes é a expensas de outrem. Os europeus ocidentais temem que sejam eles, mas tais temores são infundados. Tudo o que Putin quer é relações normais com o Ocidente, o que não é pedir muito.

Ao invés disso, o candidato número a pagar o preço são os palestinos, ou mesmo o Irão, de modos marginais. Na conferência de imprensa, indagado acerca de possíveis áreas de cooperação entre as duas potências nucleares, Trump sugeriu que os dois podiam concordar na ajuda a Israel:

"Ambos falamos com Bibi Netanyahu. Eles gostariam de fazer certas coisas em relação à Síria, tendo a ver com a segurança de Israel. Quanto a isso, gostaríamos absolutamente de trabalhar a fim de ajudar Israel. Israel estará a trabalhar connosco. Assim ambos os países trabalhariam em conjunto".

Em termos políticos, Trump sabe onde reside o poder e está contando com a influência do lobby pré Israel, o qual reconhece a derrota na Síria e a crescente influência da Rússia, para salvá-lo dos imperialistas liberais – uma aposta ousada, mas ele não tem muita escolha.

Acerca de outro assunto, Trump disse que "nossos militares" entendem-se melhor com os russos "do que os nossos políticos". Trata-se de outra aposta ousada, sobre o realismo militar que poderia de algum modo neutralizar o lobby no Congresso do complexo militar industrial por cada vez mais armas.

Em suma, a única probabilidade de finalizar a ameaça da guerra nuclear pode depender do apoio a Trump de Israel e do Pentágono!

Os histéricos globalistas neoliberais parecem ter descartado qualquer outra possibilidade – e talvez esta também.

"Diálogo construtivo entre os Estados Unidos e a Rússia adianta a oportunidade de abrir novas vias rumo à paz e à estabilidade no nosso mundo", declarou Trump. "Eu antes assumiria um risco político em busca da paz do que arriscaria a paz em busca da política", acrescentou.

Isso é mais do que os seus inimigos políticos podem reivindicar.

20/Julho/2018

Da mesma autora: 

[*] Autora de Fools' Crusade: Yugoslavia, NATO, and Western Delusions . Seu novo livro é Queen of Chaos: the Misadventures of Hillary Clinton . As memórias do pai de Diana Johnstone, Paul H. Johnstone, From MAD to Madness , foram publicadas pela Clarity Press com comentários seus.   diana.johnstone@wanadoo.fr . 

O original encontra-se em www.globalresearch.ca/... 

Este artigo encontra-se em http://resistir.info/ 
Portugal | Manuel Pinho foi ao Parlamento gozar connosco

Portugal | Manuel Pinho foi ao Parlamento gozar connosco


Vivemos no país em que um ex-ministro da Economia acha que pode ir ao Parlamento falar de tudo menos daquilo que importa. Na terça-feira, o país assistiu a um show de impunidade.

João Miguel Tavares | Público | opinião

Manuel Pinho foi ao Parlamento fazer-nos corninhos. Outra vez. Não por gestos – mas por palavras. Ele não deu uma única justificação em relação àquilo de que é suspeito: ter continuado a receber salário do BES enquanto era ministro da Economia; ter recebido uma casa em Nova Iorque em troca de certos favores; ter recebido um lugar na Universidade de Columbia em troca de outros favores. Sobre isso, nada. Mas a sua intervenção foi muito instrutiva. Demonstrou não só a mais descarada falta de ética de tantos governantes da era Sócrates, como ajudou a clarificar aquilo que tem sido uma das mais perniciosas tendências da nossa democracia: a confusão lastimável (e propositada) entre responsabilidade criminal e responsabilidades políticas, morais ou disciplinares, numa barafunda de planos distintos, com o argumento de que se os tribunais não condenaram, então toda a gente deve ser tida por inocente. Politicamente inocente. Moralmente inocente. Disciplinarmente inocente.

Não, não deve – e Manuel Pinho fez o tremendo favor de demonstrar ao país porque é que não deve. Esta questão tem sido recorrentemente abordada por mim, e ainda há pouco a invoquei a propósito de Domingos Farinho. No caso da Faculdade de Direito da Universidade de Lisboa, confunde-se responsabilidade disciplinar e ética com responsabilidade criminal. No caso de Manuel Pinho, confunde-se responsabilidade ética e política com responsabilidade criminal. O mesmo Pinho que de manhã arranjou um incidente processual para não responder às questões do Ministério Público, à tarde estava a queixar-se de nunca ter sido confrontado pelo Ministério Público com os indícios daquilo de que é acusado. Se isto não é fazer-nos corninhos, é o quê? Vivemos no país em que um ex-ministro da Economia acha que pode ir ao Parlamento falar de tudo menos daquilo que importa. Na terça-feira, o país assistiu a um show de impunidade.

Manuel Pinho foi passear a sua pose professoral diante dos senhores deputados. Foi dizer-nos o que fazer para diminuir a conta da electricidade. Propôs baixar o IVA e eliminar a taxa do audiovisual. Trouxe um Powerpoint que demorou tempo a compor, e que segundo ele continha dados magníficos, que ofereceu ao Parlamento com generosidade e sapiência. Disse que talvez fosse publicar um livro com aquela informação, tão útil ela é. Partilhou a sua mundividência e as suas inúmeras viagens. Disse maravilhas sobre a China, e de como a sua economia, juntamente com a da Índia, Japão e Coreia, já é maior do que as economias americana e europeia juntas.

E no meio de tanta sabedoria vertida, quando lhe perguntaram pelo BES disse que não podia responder. Sobre a sua colecção de offshores disse que não podia responder. Nem sobre as declarações ao Tribunal Constitucional. Há tempos, afirmou que não respondia porque era arguido. Agora, afirmou que não respondia porque já não era arguido. E assim sucessivamente. Manuel Pinho até achou conveniente dar sermões aos deputados mais insistentes, afirmando que não foi para isso que tinha sido convidado. Anunciou que tinha imposto as suas condições para ir ao Parlamento e que elas tinham sido aceites. Declarou que quando convidamos uma pessoa para ir ver futebol a nossa casa não a pomos a esfregar o chão. Para Manuel Pinho, responder sobre suspeitas gravíssimas na casa da democracia portuguesa é semelhante a esfregar o chão. Por uma vez, a boca fugiu-lhe para a verdade. Inocente, só se tiver sido aí.

domingo, 22 de julho de 2018

Portugal | Política e ética

Portugal | Política e ética


Manuel Carvalho da Silva* | Jornal de Notícias | opinião

Nesta última semana tivemos, em Portugal e no plano internacional, comportamentos de alguns políticos que causam indignação e deixam, ao cidadão comum, acrescidas desconfianças para o futuro. Trump foi, uma vez mais, a expressão limite da amoralidade, da utilização descarada da mentira, da negação de valores e princípios éticos que se exigem no exercício da política. E não faltam por aí atores políticos com total desprezo pela verdade e dispostos a mobilizar os cidadãos contra a democracia e pela negação da política. Na Assembleia da República (AR) assistimos a um comportamento desses: Manuel Pinho achincalhou os deputados e gozou com os portugueses, talvez por acreditar que os buracos nas leis, o espaço para manobras processuais e o arrastamento dos processos judiciais, e a sobreposição do poder económico ao poder político lhe permitirão passar impune. A sua arrogância e sobranceria foram chocantes.

Entretanto, também esta semana, vimos partir um político exemplar - João Semedo - um Homem de enorme humanismo e compromisso com as gerações futuras, que dedicou a vida à causa pública buscando como contrapartida a construção de vida mais feliz para o conjunto dos seres humanos - sempre a partir da defesa dos que mais precisam - e por consequência para ele. Era esse o alimento da alegria que nos mostrava nas horas boas e más dos combates políticos, sociais ou culturais em que se envolveu, a partir de uma militância empenhada primeiro no PCP e depois no BE.

Este contraste desafia-nos a uma reflexão séria sobre o que se passa com o exercício de responsabilidades públicas, com a política e a ética, identificando e denunciando as suas subversões. Imaginemos, por exemplo, uma associação cuja missão é a ajuda a terceiros em situação de necessidade e que nela, oportunisticamente, alguém se oferece para ocupar um cargo de responsabilidade, não para cumprir a missão da associação, mas para retirar do cargo vantagens pessoais de algum tipo. Quando a tramoia é descoberta, o prestígio da associação sofre um duro golpe, da mesma forma que a honorabilidade de todos os que trabalham para essa associação, mesmo a dos mais honestos e dedicados. E basta a existência de um ou outro caso destes para a reputação de todas as associações serem postas em causa. A partir daí, o desconforto de ser confundido com práticas detestáveis não afastará malandros dispostos a obterem vantagens por qualquer forma, mas levará muitas pessoas generosas e honestas a pensar duas vezes antes de se disponibilizarem para assumir responsabilidades.

Nesta sociedade tão dominada pela economia e pela finança, lembremos o palavrão que os economistas usam - "seleção adversa" - para designar situações em que o mau produto expulsa do mercado o bom produto. É claro que falar de política é mais amplo e exigente do que tratar estas questões, mas na verdade a política é para aqui chamada.

O que designa a expressão "classe política" nestes dias? Um grupo sob suspeita a que se associam normalmente epítetos do tipo "o que tu queres sei eu" e "eles são todos iguais" - uma associação de malfeitores. Quem quer ser da "classe política"?

As coisas estão tão mal que há um certo espanto quando se descobre, geralmente demasiado tarde, que há mulheres e homens honrados que dedicam ou dedicaram uma vida inteira à política por convicção e por generosidade. Aí surge uma espécie de ritual coletivo de penitência pública feito de elogios adiados, alguns genuínos, outros hipócritas.
Se queremos evitar que os partidos e outras instituições sejam desacreditados, que as cadeiras do Governo ou da AR não passem a estar em pleno ocupadas por malandros - mesmo que malandros finos, de gravata e muito "bons modos" - são precisos mais do que elogios requentados. É preciso sermos severos contra a conversa do "é tudo farinha do mesmo saco" que polui as caixas de comentários da Internet. É necessário não transigir com o "ele rouba mas faz" que já produziu, mesmo entre nós, candidatos vencedores. É preciso combater os julgamentos na praça pública feitos pelo jornalismo de cordel. É indispensável construir projetos políticos alternativos de rigor e de compromisso efetivo com as pessoas.

*Investigador e professor universitário
Portugal | Diga Salgado com voz doce e 1249 mil milhões amargamente

Portugal | Diga Salgado com voz doce e 1249 mil milhões amargamente


Salgado não foi nem é doce, é Salgado. Pronto. No comes e bebes também é assim. A diferença é que aquele Salgado causa-nos um amargo de boca desesperante porque é insuportável. De volta e meia lá voltamos a experimentar o amargo que Salgado sempre nos causa. Ainda nestes dois últimos dias, ou assim por aí, voltámos a esse terror do amargo do Salgado. Reparem neste breve parágrafo sobre os "cozinhados" de Salgado e seus "ajudantes", sobre o banco e as "operações" da vigarice e do gamanço: “No final, o desvio de fundos penalizou o banco em €1249 mil milhões.”

O paragrafo faz parte integrante do artigo do Expresso que devem ir ler - mesmo que se fartem de vomitar - com o título catita e próprio dos maraus tipo Salgado: “Acusação do Banco de Portugal. Investigação revela esquema de desvio de dinheiro de Salgado”. Faz espécie só agora o Banco de Portugal concluir esses tais desvios e tal. Faz espécie Cavaco dar por bom, seguro, confiável o Espírito Santo (Banco) quando já se sabia que estava nas lonas, faz espécie esta cambada de políticos e lambe-botas aprendizes da vigarice que andaram a lamber as botas ao vígaro-mor e aos das suas ilhargas sempre declarando que não sabiam de nada ou até que estava tudo bem e tal... Estamos ainda a ver o peso das ações dos ladrões a aumentar e já lá vão alguns anos desde a declaração da "descoberta da crise na banca". Estamos a ver como estes sarnosos da sociedade nos roubam e passam uma vida a intrujar os que na realidade são a sustentação da produção, do trabalho, do país. Clamorosamente explorados, é evidente.

Muito se pode pôr aqui na escrita. Até com mais rigor. Mas isso daria pano para mangas. Além de corrermos o risco de metermos os pés pelas mãos porque as "operações" são de alto gabarito, complicadas para os vulgares cidadãos vitimas incessante daqueles grandes criminosos de colarinho branco - os que sabemos, os que ainda não sabemos e os que jamais saberemos.

Passamos a transcrever um pouquinho da prosa do Expresso e depois vão lá se assim ditar o aperitivo servido já a seguir. Isto depois de lembrar que os ladrões, os vigaristas e toda essa súcia de malfeitores anda por aí à solta, a viver em grande, com todo o fausto, sem que a tal dita justiça lhes toque num único cabelo que seja. Porque será? Ora, porque não é justiça nenhuma. É uma treta. Uma armadilha que só caça 'perrapados', o povinho, a plebe que sustenta tudo e ainda mais os "reis".

Boa semana que aí vem. Salvé, escravos! (PG)

Do Expresso:

Acusação do Banco de Portugal. Investigação revela esquema de desvio de dinheiro de Salgado

100 milhões para nova sede Novo Banco vende edifício da avenida da Liberdade. KPMG Auditora e cinco quadros de topo acusados pelo supervisor

Entre 2009 e 2014, Ricardo Salgado e Amílcar Morais Pires, então presidente e administrador financeiro do BES, respetivamente, montaram um esquema através da sociedade suíça Eurofin que permitiu tirar quase €3 mil milhões do banco. O objetivo era financiar investimentos da família e de amigos, ocultar ativos tóxicos e participações estratégicas, manipular a cotação das ações do BES e fazer pagamentos ao ‘saco azul’ do Grupo Espírito Santo. Luís Filipe Vieira, Nuno Vasconcellos e Patrick Monteiro de Barros terão sido alguns dos beneficiários. No final, o desvio de fundos penalizou o banco em €1249 mil milhões.


Brasil | Independência e Soberania Nacional

Brasil | Independência e Soberania Nacional

Zillah Branco* | opinião

O Estado oligarca que serve aos interesses da sua burguesia brasileira evolui com uma lentidão aflitiva. Ha séculos delegou a responsabilidade de fazer avançar uma engrenagem, para afastar a monarquia colonialista, ao patriarca da independência - José Bonifácio de Andrada e Silva - promovendo o grito do Ipiranga por D. Pedro I. Assumiu o papel de preparar o futuro Imperador instruindo-o para desenvolver obras culturais e acolher os emigrantes europeus, e a Princesa Isabel para assinar a Libertação dos Escravos. A oligarquia, à sombra do poder político alimentado pelo sistema financeiro e comercial da Inglaterra, traçou os seus caminhos de enriquecimento e opressão do povo que ficou livre, mas sem emprego.

Uma frase habitual, quando o brasileiro não estava para se apoquentar na busca de solução para um problema trabalhoso, era "ficou por conta do Bonifácio". Era a saida irresponsável para quem tinha um lugarzinho no Estado. Com o tempo, e a preguiça, deixaram de relacionar o Bonifácio que havia de resolver a questão, com o Patriarca da Independência, que fez os seus trabalhos ha duzentos anos. Mas a mesma engrenagem existe hoje, cheia de cracas e pedras coladas ás roldanas que movem o Estado apesar das modernas tecnologias e os títulos científicos dos que comandam as atividades. Comparado com as empresas privadas fica como peça de museu.

Nunca foi posto ao serviço do povo que, entretanto, formado como operário e classe média, frequentou a escola pública onde desenvolveu a sua criatividade e chegou ás universidades com o grande impulso dado por Lula a partir de 2003. A História produziu heróis que foram criando as funções de um Estado para servir ao desenvolvimento nacional com o povo integrado: com a escola pública, o Serviço Universal de Saúde, a Previdência Social, e o desenvolvimento de estradas, transportes públicos. Mas a elite dominante, obrigada a aceitar as instituições sociais, sempre ameaçou de privatizar os serviços mais rentáveis para enriquecer as empresas vinculadas às multinacionais. Para o povo, mantinha a idéia bucólica de subir no coqueiro para tirar côco fresco, como se apenas fizesse parte da paisagem tropical que encanta os turistas.

Lula inverteu este filme. A partir da Bolsa Família, integrou a população nas condições de cidadania, apoiou os estudantes com bolsas para cursarem as universidades, abriu o caminho para acabar com os preconceitos étnicos, apesar de permitir o fortalecimento do poder financeiro que permaneceu enriquecendo a velha elite acobertada pelo setor produtivo do empresariado.

O que impressiona é que o golpe de Temer veio exatamente para destruir a modernização do Estado em benefício da Nação - na produção de minérios e energia - deixando o Brasil empobrecido com seu povo miserabilizado. Na verdade, o que parece é que a oligarquia que apoiou a ditadura de 64, aceitou a aparente democratização gerida por Sarney e depois FHC e voltou, pela mão de Temer, para evitar que as mudanças democráticas de Lula transformasse o Estado emperrado e mínimo (que convém a quem serve os interessas imperialistas), abrindo as portas à verdadeira independência nacional e patriótica.

Só que o povo agora não está em cima do coqueiro nem chama de "virundú" o "grito do ipiranga". Basta ver as suas organizações onde os oligarcas não entram, as escolas de formação e as unidades produtivas de alimentos sem veneno do MST, as associações de combate aos preconceitos racistas ou machistas, que se relacionam com as congêneres de todo o mundo, a participação entusiástica nos comícios de esquerda onde Manuela do PCdoB, Boulos do PSOL, João Paulo ex-"sem terrinha" do MST, debatem os problemas nacionais que deverão fundamentar um futuro Governo a sério para o Brasil e recuperar as suas riquezas que foram enriquecer os patrões dos oligarcas. Deste despertar de consciência sairá uma plataforma popular e brasileira para a defesa de um Estado realmente democrático.

*Zillah Branco - Cientista Social, consultora do Cebrapaz. Tem experiência de vida e trabalho no Chile, Portugal e Cabo Verde.
Brasil | Castells critica prisão de Lula e chama Congresso e Temer de corruptos

Brasil | Castells critica prisão de Lula e chama Congresso e Temer de corruptos


Em entrevista à revista IstoÉ, o sociólogo espanhol fez duras críticas ao impeachment de Dilma, à judicialização da política pela Lava Jato, à prisão política de Lula e ao governo atual de Temer.

 “A representação é ilegítima porque a designação dos representantes está condicionadas por leis eleitorais condicionadas pelos principais partidos, pelo financiamento ilegal que esses partidos obtêm e pela manipulação de opinião no processo de comunicação”, assim definiu o sociólogo e um dos principais teórios da comunicação, o espanhol Manuel Castells.

Ele não falava do Brasil, especificamente, mas do que ocorreu na construção da União Europeia e foi se propagando por todo o mundo. Lançando o livro “Ruptura — A Crise da Democracia Liberal”, pela editora Zahar, que traz uma análise da política associada aos meios de comunicação, Castells afirma que a crise na democracia do sistema liberal “está se autodestruindo pela sua própria prática corrupta”.

As declarações foram dadas em entrevista por escrito à reportagem da IstoÉ, que divulgou a íntegra nesta sexta-feira (13). Apesar de não ter como destaque na introdução da matéria, Castells também criticou a Operação Lava Jato, na medida em que “a judicialização da política elimina a separação de poderes, que era a base da democracia liberal”.

“Ela é a causa principal da crise institucional. Ela acontece em muitos países, mas, no Brasil, é muito mais brutal e mais direta, com objetivos diretamente políticos da parte do poder judicial”, denunciou o sociólogo espanhol.

Acompanhando o que vem ocorrendo no maior país da América Latina, Castells não deixou de criticar o atual mandatário Michel Temer. “Ele, sim, é corrupto e simplesmente tentar terminar seus últimos meses colaborando com uma eleição que lhe garante a impunidade. O Brasil está completamente desestabilizado. A situação é extremamente perigosa”, contou.

Segundo o teórico, “o pior mal do Brasil é a utilização da corrupção por um congresso majoritariamente corrupto” e tem como base à polarização com a “oligarquia política baseada em redes regionais de clientelismo, e seus aliados nas elites do capitalismo especulativo”.

Á revista IstoÉ o cientista social afirmou que “Lula é claramente um preso político”.

Fonte: GGN | em Pátria Latina | Foto Agência Brasil