segunda-feira, 18 de junho de 2018

Enfrentarão os EUA um colapso semelhante ao da URSS na Europa?

Enfrentarão os EUA um colapso semelhante ao da URSS na Europa?


O jornal The Wall Street Journal publicou recentemente um artigo intitulado “Europa Pondera Nova Ordem Mundial Enquanto seus Laços Transatlânticos se Rompem”. Para o colunista da Sputnik, Ivan Danilov, este artigo demonstra que, para que tudo corra bem nos EUA, tudo deve correr mal nos outros países.

O artigo do The Wall Street Journal, escrito pelo cientista político Simon Nixon, oferece um prognóstico pessimista. "Os pobres laços de Trump com os aliados da Europa Ocidental levantam a possibilidade de 2018 ser um ano de desarticulação ideológica, como 1989 foi para a Europa Oriental", indica o artigo.

Desta vez, o império que irá perder a sua influência na Europa da noite para o dia não será a União Soviética, mas sim os Estados Unidos.

"Da perspetiva europeia, o risco de o continente enfrentar um colapso da ordem norte-americana na Europa é comparável ao colapso da ordem soviética de 1989. Naquele ano, o controle que a Rússia mantinha sobre a Europa Central e Europa do Leste colapsou praticamente da noite para o dia quando se evaporou a ideologia na qual o sistema de regras comuns se baseava. Isso obrigou [os países do Leste] a buscarem alternativas", escreveu Nixon no seu artigo.

Quem terá que procurar alternativas agora é a Europa. Para Ivan Danilov, os europeus ainda se lembram muito bem e tomaram muito a sério as opiniões uma vez expressas pelo seu aliado, Donald Trump, de que a "Europa é pior do que a China" e que "a União Europeia não fomenta os interesses norte-americanos". Assim, para os europeus, o caminho escolhido pela administração Trump demonstra que Washington já não quer tratá-los como seus aliados, com os quais se deve compartilhar os frutos da geopolítica norte-americana. Por isso, adverte Nixon (opinião compartilhada por Danilov), entre os EUA e a Europa podem surgir divergências ideológicas.

Para entender a nova posição de Washington relativamente à Europa, é preciso levar em consideração a saúde da economia estadunidense. Como chefe de Estado, Donald Trump "está obrigado" a manter a aparência de que a economia do país vai bem e que no futuro estará ainda melhor, explica Danilov. Mas nem sempre foi assim.

"Durante a campanha eleitoral ele era muito mais sincero e deixou bem claro que a economia norte-americana era 'uma grande bolha'. O estado da economia é o principal problema e dor de cabeça do líder dos EUA. E são as tentativas de corrigir este estado crítico por conta de outros […] que definem a estratégia política externa da administração estadunidense", ressaltou o analista russo.

Para que esta "bolha" não expluda, os EUA precisam que as empresas chinesas, europeias, japonesas, mexicanas, canadenses e outras, bem como seus empregados por todo o mundo, lucrem muito menos e gastem mais dinheiro comprando produtos americanos. Isso permitirá que as empresas e seus empregados nos Estados Unidos lucrem, por sua vez, muito mais, avança Danilov.

"Trump precisa de 'saquear' todo o mundo de uma vez e o mais rápido possível, caso contrário, as contas não baterão certo", assinala o colunista.

Para Danilov, para resolver esta situação os líderes europeus devem adotar medidas bastante radicais, que implicarão sérias mudanças geopolíticas.

Em particular, podem transformar o desafio existencial em um instrumento de consolidação e centralização da Europa sob um único centro de governo, como propõe o presidente francês Emmanuel Macron. Podem também tentar estabelecer alianças táticas com a China e a Rússia, acrescenta Danilov, ou tentar combinar ambos os cenários.

"Até agora, tanto a chanceler alemã, Angela Merkel, como o próprio Macron têm se comportado como se houvesse uma terceira opção: esperar até que os Estados Unidos tomem juízo. Mas depois da falhada cúpula do G7, poucos acreditam nisso", conclui Danilov.

Sputnik | Foto:  AFP 2018 / MOLLY RILEY
CHINA | Xi Jinping assinala construção de força marítima de elite durante inspeção à Marinha

CHINA | Xi Jinping assinala construção de força marítima de elite durante inspeção à Marinha


Jinan, 16 jun (Xinhua) -- O presidente chinês, Xi Jinping, sublinhou a construção de uma força marítima de elite para completar resolutamente diversas missões encarregadas pelo Partido e pelo povo.

Xi, também secretário-geral do Comitê Central do Partido Comunista da China e presidente da Comissão Militar Central (CMC), fez o comentário durante uma inspeção à força marítima do Comando do Teatro de Operações do Norte do Exército de Libertação Popular em 11 de junho.

Enfatizou a necessidade de implementar resolutamente o pensamento do Partido sobre o fortalecimento da força militar para a nova época e de continuar consolidando a lealdade política das forças armadas, e de reforçá-las mediante a reforma e a tecnologia e operá-las segundo a lei.

Também falou da necessidade de que a Marinha atinja os requisitos da transformação.

Xi visitou uma força submarina por volta das 15h30 de segunda-feira enquanto uma brisa de verão fazia ranger as árvores na costa de Qingdao, na Província de Shandong, no leste da China.

No porto se encontrava um novo tipo de submarino que tinha participado do recente desfile naval no Mar do Sul da China. Sobre o casco, os soldados permaneceram em formação esperando ser inspecionados.

Xi subiu a bordo e conversou com eles e lhes fez perguntas sobre seu trabalho e sua vida. O presidente disse que sempre se preocupa com soldados que passam anos de sua vida em submarinos em águas profundas.

Depois de saber que os soldados são dedicados à carreira, trabalham arduamente e cumprem suas tarefas, Xi assentiu com a cabeça para demonstrar sua apreciação.

O presidente desceu ao interior do submarino para conhecer sobre armas e munições. Incentivou os soldados a manter-se firmes em ideais e convicções, a construir uma equipe forte e a treinar para sobressair em suas habilidades. Xi assinou seu nome no diário de bordo.

Antes de deixar a doca, Xi caminhou para outro submarino que se encontrava cerca e saudou com a mão os soldados.

Xi inspecionou o treinamento da força submarina em uma instalação de simulação integral.

"Como está o treinamento baseado em simulacros? As instalações cobrem as demandas? Quais são os desafios?", perguntou o presidente.

Mostrou-se feliz ao saber que os soldados se beneficiam muito do treinamento e falou sobre a necessidade de continuar melhorando a infraestrutura de exercícios.

Xi observou um grupo de recrutas em um exercício de reconhecimento de sonda. Ele uniu-se para pô-los à prova e, com o dedo polegar para cima, elogiou um soldado que deu a resposta correta.

Xi se reuniu com altos oficiais da Marinha na sede do Comando do Teatro de Operações do Norte e tirou uma fotografia em grupo com eles.

Escutou o relatório de trabalho naval do comando e pronunciou um importante discurso.

Xi falou da necessidade de compreender as mudanças nas circunstâncias da segurança nacional, de acelerar os preparativos para a luta militar, incluindo o planejamento da batalha, o desenvolvimento de capacidades e a construção do sistema de comando.

Quando ao treinamento, Xi disse que a intensidade deve ser fortalecida, os módulos, inovados, e a supervisão, reforçada. Assinalou a necessidade de treinar com fins específicos e em condições de combate e de treinar os comandantes.

Pediu esforços para implementar os requisitos para a transformação da Marinha, acelerar o trabalho para melhorar as forças de combate de elite e concentrar-se em abordar as áreas de debilidade e em obter avanços.

Também são necessários planos progressistas e projetos de máximo nível para promover a transformação e o desenvolvimento das forças aéreas navais, disse Xi.

Xi também destacou a liderança absoluta do Partido sobre as forças armadas e o trabalho incessante para melhorar a liderança do Partido, fortalecer a disciplina do Partido e combater a corrupção.

"O trabalho ideológico dentro do exército deve fortalecer-se e a capacidade para o combate deve ser considerado como o critério para a construção militar."

Pediu à Marinha coordenar-se com os departamentos civis, fortalecer inovações de instituições e mecanismos e modelos de desenvolvimento para melhorar a integração militar-civil.

Na quinta-feira em Jinan, capital de Shandong, Xi se reuniu com altos oficiais das tropas estacionadas na Província.

O vice-presidente da CMC, Xu Qiliang, participou dos eventos.
A GUERRA PSICOLÓGICA DO IMPÉRIO DA HEGEMONIA UNIPOLAR EM ÁFRICA

A GUERRA PSICOLÓGICA DO IMPÉRIO DA HEGEMONIA UNIPOLAR EM ÁFRICA


Martinho Júnior | Luanda 

1- Três acontecimentos se podem considerar de marcos vinculativos para a formulação dos parâmetros e conceitos da guerra psicológica que o império da hegemonia unipolar move em África:

- O derrube das torres gémeas de Nova-York, a 11 de Setembro de 2001 (que criou condições para o argumento de qualquer tipo de ingerência, intervenção e/ou manipulação no universo, em particular no Médio Oriente e em África, sob o pretexto de combate contra o terrorismo);

- A criação do AFRICOM em 2007, colocando-o operacional em 2008 (que criou condições adequadas à situação de África, adoptando os novos termos de guerra psicológica para o continente, o que inclui exercícios de “soft power”, civis e exercícios militares em esforços contínuos e com correntes bem definidas);

- O assassinato de Kadafi, na Líbia, a 20 de Outubro de 2011 (que permitiu a eclosão dos processos contraditórios em curso em África, nutridos pelas conveniências de ingerência, intervenção e manipulação).

O colapso do socialismo na década de 90 do século XX tornou-se um esteio que propiciou o fim duma guerra psicológica, a Guerra Fria, cujos conteúdos foram sempre tão propagandeados pela “civilização ocidental” com os Estados Unidos à cabeça e seu cortejo de vassalos que incluíam a NATO, pelo que para o império da hegemonia unipolar, ficou disponível um espaço vazio global que era uma oportunidade para a “globalização” de feição, feita à sua imagem e conveniência que, com base em novas tecnologias, era já um processo dominante à mercê inclusive do seu “soft power” eminentemente anglo-saxónico.

Nesse processo dominante com factores antropológicos nunca antes experimentados a essa escala, urgia nutrir os conteúdos desse domínio em função da visão dum “polícia do mundo”, que para a aristocracia financeira mundial deveria ser erguido persuasivamente e tanto quanto o possível “acima de qualquer suspeita”, numa antropologia de âmbito global, hegemónica e unipolar!

Estabelecidos os critérios na generalidade, então, com a instrumentalização dos Estados Unidos e de seus vassalos, passou-se a tratar dos casos especiais tendo desde logo como justificação o derrube das torres gémeas em Nova-York, a 11 de Setembro de 2001: novo século, nova guerra psicológica!

O que é inerente às novas tecnologias permitiram assim, nos termos da nova guerra psicológica, onde os contraditórios passaram a ser fluxos de ampla mas versátil manipulação, o que Ignatio Ramonet definiu com tanta propriedade em “O império da vigilância”(http://razonesdecuba.cubadebate.cu/articulos/el-imperio-de-la-vigilancia-de-ignacio-ramonet/):

… Con el pretexto de luchar contra el terrorismo y otras plagas, los gobiernos, incluso los más democráticos, se erigen enBig Brother, y no dudan en quebrantar sus propias leyes para poder espiarnos mejor.

En secreto, los nuevos Estados orwelianos intentan, muchas veces con la ayuda de los gigantes de la Red, elaborar exhaustivos ficheros de nuestros datos personales y de nuestros contactos, extraídos de los diferentes soportes electrónicos”…

As implicações na gestação do caos, do terrorismo e da desagregação, que chegam a alimentar correntes filosóficas a cavalo nos conceitos dos “Chicago Boys”, foram a base que propiciou a implantação dos sistemas globais de vigilância e ambos têm sido intimamente associados ao âmbito e conteúdo da guerra psicológica também em curso em moldes adaptados a África: cada um desses conteúdos (neoliberalismo, sistemas globais de vigilância e guerra psicológica) interpenetram-se uns nos outros e nenhum deles foi concebido para se tornar num factor isolado de intervenção!


2- Como África é uma ultraperiferia económica e se tem reduzido por via da opressão resultante do domínio ao papel“básico” de fornecedor de matérias-primas e de mão-de-obra barata, o “império da vigilância” não consegue atingir por si grande parte de sua população e comunidades, particularmente nas imensas áreas rurais, onde parte delas, ainda que se localizem nos espaços vitais idealmente disponíveis, sobrevivem em regimes de autossubsistência e estão ainda fora das possibilidades de acesso às novas tecnologias…

Para muitas dessas comunidades os horizontes são as montanhas circundantes, cursos de água de contingência, ou mesmo a impenetrabilidade de algumas florestas.

… Por isso, existe um campo não coberto, que para o império da hegemonia unipolar era preciso preencher com a implantação directa duma rede de manipulações de contraditórios que a partir dos ensaios da “Iª Guerra Mundial Africana”(um choque de natureza neoliberal que ocorreu durante toda a década de 90 do século passado), tornaram possível primeiro a instalação do AFRICOM em 2008 e depois o golpe na Líbia em 2011, como pedras de toque para, ao expandir-se o caos, o terrorismo e a desagregação, melhor argumentar (justificando) a favor do esforço de amplitude continental de vigilância, com a integração dos meios interventivos de potências como os Estados Unidos, a França e outros vassalos da NATO (Portugal incluído ainda que ao serviço da ONU como ocorre na República Centro Africana), principalmente, a fim de os combater!

Se houver algum investigador que siga a pista do dinheiro que financia o caos, o terrorismo e a desagregação, decerto que vai desembocar nos nós fulcrais que mexem os cordelinhos “behind the scenes”, intrincando-se nas aproximações históricas entre anglo-saxões, sionistas e as agenciadas casas monárquicas da península arábica!

Enquanto nos países mais desenvolvidos os sistemas de vigilância “asfixiam” (conforme a exposição de Ignatio Ramonet), nos países da ultraperiferia económica, uma parte dos sistemas de vigilância tornaram-se interventivos e, no caso africano, com a justificação do combate ao terrorismo, o eixo dessa intervenção passou a ser desempenhado pelo AFRICOM e por vassalos da NATO como a Grã-Bretanha e a França, esta última explorando os nexos e os vínculos decorrentes do “pré carré”, estabelecendo assim os procedimentos da nova guerra psicológica que surgiu em função das enormes potencialidades das novas tecnologias.

Na razão inversa do acesso das comunidades africanas às novas tecnologias, está a crescer o campo de intervenção militar inserida nos parâmetros da nova guerra psicológica em curso em África!

As alianças que o esforço de vigilância propicia em África, após a expansão do AQMI, do surgimento do BOKO HARAM e da implantação das milícias de radicais islâmicos na República Centro Africana, ou na Somália, agora no norte de Moçambique, ampliam a vassalagem dos frágeis países africanos que são alvo desses expedientes instrumentalizados e artificiosos, impondo as regras do jogo que favorecem os interesses do domínio do império da hegemonia unipolar e de seus vassalos de fora (incluindo antigas potências coloniais) e de dentro do continente.

Graças ao “pré carré”, a “FrançAfrique” possui elementos sólidos que se arrastam desde trás em particular na África do Oeste e no Sahel, tornando ainda mais persuasivos os expedientes neocoloniais.

Neste caso as condições que foram criadas para a fermentação que está na raiz do caos, do terrorismo e da desagregação, estão intimamente associadas às condições que promovem a implantação dos sistemas de vigilância, tanto os civis como os militares!

 Outro indicador em resultado dessa fermentação, são as migrações africanas para dentro da Europa, incluindo este episódio corrente do navio Aquarius, num momento em que as migrações em resultado do caos, do terrorismo e da desagregação influem até no carácter dos estados europeus, em função dos seus próprios sistemas democráticos representativos, abrindo caminho a ideologias xenófobas, racistas e de “extrema-direita” que começam a ameaçar a formulação da própria União Europeia!

Esse processo telúrico que é um “efeito boomerang”, está subjacente à vassalagem em relação aos Estados Unidos, contribuindo sob fundo psicológico para a pôr em causa e procurar o “corte das amarras”, ainda que à custa do reforço da vigilância.

Em África simultaneamente o AFRICOM (constate-se aqui: http://www.africom.mil/) possui componentes militares e civis cujos conceitos se interpenetram nas aplicações em curso, facilitando a coordenação dos processos próprios de manipulação, ingerência e intervenção, a coberto das necessidades de vigilância artificiosamente criadas pelo império da hegemonia unipolar, o que se traduz nos termos da guerra psicológica do império em África, inclusive nas suas linhas“transversais” dirigidas às sociedades-alvo e explorando os pontos críticos que se aprouverem (foi assim com as“primaveras árabes” na Tunísia e no Egipto, mas também na Líbia, na base da escalada da agressão e trágico fim dum Kadafi assassinado, é assim com as migrações africanas).

Essa manobra do poder dominante nutre-se de muitos factores, mas no essencial ao domínio, dum conjunto de sistemas de vigilância que Ignatio Ramonet define como “Uma aliança sem precedentes”, que é um esteio para o “soft power”anglo-saxónico (mas á uma agressão que por vezes é dolorosamente sentida em muitas comunidades tradicionais africanas):

… “En cierto modo, la vigilancia se ha privatizado y democratizado. Ya no es un asunto reservado únicamente a los servicios gubernamentales de información. Aunque, gracias también a las estrechas complicidades que los Estados han entablado con las grandes empresas privadas que dominan las industrias de la informática y de las telecomunicaciones, su capacidad en materia de espionaje de masas ha crecido de forma exponencial. En la entrevista con Julian Assange que publicamos en la segunda parte de este libro, el fundador de WikiLeaks afirma:

Las nuevas empresas, como Google, Apple, Microsoft, Amazon y más recientemente Facebook han establecido estrechos lazos con el aparato del Estado en Washington, especialmente con los responsables de la política exterior. Esta relación se ha convertido en una evidencia […]. Comparten las mismas ideas políticas y tienen idéntica visión del mundo. En última instancia, los estrechos vínculos y la visión común del mundo de Google y la Administración estadounidense están al servicio de los objetivos de la política exterior de los Estados Unidos.

Esta alianza sin precedentes – Estado + aparato militar de seguridad + industrias gigantes de la Web – ha creado esteImperio de la vigilancia cuyo objetivo claro y concreto es poner Internet bajo escucha, todo Internet y a todos los internautas”…

Em África também muitos sistemas de vigilância estão em mãos privadas, incluindo os de âmbito mercenário, em especial quando se procura proteger as iniciativas mineiras em grande parte resultante de investimentos externos, acompanhados de agenciamentos locais.

Um exemplo disso é o que está a acontecer no Níger, em pleno deserto quente, onde a Areva é um potentado na exploração do urânio por parte de empresas francesas, o AFRICOM possui algumas das principais bases de drones na região e o poder nigerino está reduzido à impotência do agenciamento.


3- A guerra psicológica do império da hegemonia unipolar em África com esses nutrientes, começa por tratar de dar aos acontecimentos de 2011 na Líbia a sua própria versão (que é também ideológica), conforme por exemplo à Wikipedia (https://pt.wikipedia.org/wiki/Muammar_al-Gaddafi)...

Para os “filtros”, toda a vida de Kadafi foi à margem do admissível, como se fosse aberrante ou “excêntrica”, sendo essa a linha essencial que é transmitida sugestivamente a quem consulta essa “fábrica”:

… “Em sua época de estudante, Gaddafi adotou as ideologias do nacionalismo árabe e do socialismo árabe, pois era fortemente influenciado por Gamal Abdel Nasser.

Durante o início da década de 1970, Gaddafi formulou sua própria abordagem do nacionalismo e do socialismo árabe, conhecida como Terceira Teoria Internacional, que foi descrita como uma combinação de socialismo utópico, nacionalismo árabe e terceiro-mundismo, que eram teorias que estavam em voga na época.

Sua nova teoria foi consolidada por meio do Livro Verde, no qual ele pretendeu explicar a estrutura da sociedade ideal e defendeu a unificação do mundo árabe em um único estado-nação.

Ele descreveu sua abordagem para a economia como socialismo islâmico, embora outros biógrafos sustentem que osocialismo de Kadafi tinha um tom curiosamente marxista, Gaddafi via seu Regime das massas socialista como um modelo que o mundo árabe, o mundo islâmico e os países não-alinhados deveriam seguir.

Sua visão de mundo foi moldada pela sua experiência de vida, ou seja, a sua  islâmica, sua educação beduína, e seu desgosto com as ações de colonizadores europeus na Líbia. Ele acreditava que estava cumprindo uma missão divina e que era um instrumento de Alá, razão pela qual supunha que qualquer ação para atingir seus objetivos seria legítima, não importando os custos”…

No Wikipedia não há uma palavra de análise histórica, antropológica e sócio-política que indicie a capacidades da trajectória de Kadafi enquanto um dirigente líbio vocacionado desde logo para alterar profundamente para melhor a situação do seu povo e assumir em África um papel alternativo progressista em relação às imensas vulnerabilidades africanas.

É por exemplo Thierry Meyssan que recentemente aborda esse tema (http://www.voltairenet.org/article201397.html), quando num artigo bem estruturado e aberto à compreensão e à lógica dos acontecimentos com os olhos de África (“A Líbia segundo a ONU e a dura realidade”) relembra a história da Líbia:

“A Líbia existe apenas há 67 anos. Por altura da queda do fascismo, e do fim da Segunda Guerra Mundial, esta colónia italiana foi ocupada pelos britânicos (na Tripolitânia e na Cirenaica) e pelos franceses (em Fezzan, que eles dividiram e ligaram administrativamente às suas colónias da Argélia e da Tunísia).

Londres favoreceu a emergência de uma monarquia controlada a partir da Arábia Saudita, a dinastia dos Senussis, que reinou sobre o país desde a independência, em 1951. De religião wahhabi, ela mantêm o novo Estado num obscurantismo total, promovendo, ao mesmo tempo, os interesses económicos e militares anglo-saxónicos.

Ela foi derrubada, em 1969, por um grupo de oficiais que proclamou a verdadeira independência e colocou na porta de saída as Forças Estrangeiras. No plano político interno, Muammar Kadhafi redigiu, em 1975, um programa, o Livro Verde, no qual garantiu à população do deserto ir satisfazer os seus principais sonhos. Por exemplo, enquanto cada beduíno ambicionava ter a sua própria tenda e o seu camelo, ele promete a cada família um apartamento gratuito e um carro. A Jamahiriya Árabe Líbia oferece igualmente a água, educação e a saúde gratuitas. Progressivamente, a população nómada do deserto sedentariza-se junto à costa, mas os laços de cada família com a sua tribo de origem permaneceram mais importantes que as relações de vizinhança. Instituições nacionais foram criadas, inspiradas nas experiências dos falanstérios dos socialistas utópicos do século XIX. Elas estabeleceram uma democracia directa em coexistência com as antigas estruturas tribais. Assim, as decisões importantes eram primeiro apresentadas à Assembleia Consultiva das Tribos antes de serem deliberadas pelo Congresso Geral do Povo (Assembleia Nacional). No plano internacional, Kadhafi dedicou-se a resolver o conflito secular entre os Africanos, árabes e negros. Ele pôs fim à escravatura (escravidão-br) e utilizou uma grande parte do dinheiro do petróleo para ajudar ao desenvolvimento dos países subsarianos, especialmente do Mali. A sua actividade acordou os Ocidentais, que começaram, então, políticas de ajuda ao desenvolvimento do continente.

No entanto, apesar dos progressos conseguidos, trinta anos de Jamahiriya não bastaram para transformar esta Arábia Saudita africana numa sociedade laica moderna”…

É evidente que foram os algozes de Kadafi que assim o quiseram e fizeram para que o caos, o terrorismo e a desagregação decorrente das contingências disponíveis, viessem a justificar o carácter de intervenção, ingerência e manipulação do AFRICOM, dos seus “associados” (antigas potências coloniais e membros da NATO) e dos agenciamentos dos frágeis estados africanos, sobretudo os da África do Oeste e do Sahel!


4- Assim o quiseram e a partir daí, instalado o caos, o terrorismo e a desagregação por todo o Sahel até ao Lago Chade, às bacias do Congo, do Nilo e do Zambeze, assim como às imediações dos Grandes Lagos, as manipulações dialéticas do império da hegemonia unipolar em África, tiram partido de outra contradição que se nutre de tensões decorrentes da incessante busca de espaço vital que faz deslocar migrações cada vez mais numerosas das imensas regiões dos maiores desertos quentes do globo, não só em direcção ao Mediterrâneo (para alcançar a Europa), mas também para alcançar o espaço vital rico em água interior, a sul, tendo no horizonte a África Austral.

O AQMI, o Boko Haram, as milícias radicalizadas na República Centro Africana, actuam sobre a Mauritânia, o Mali, o Níger, a Nigéria, o Chade, os Camarões, a República Centro Africana, tiram partido dessas migrações e da desagregação artificiosa do Sudão, esvaído não só em convulsões étnicas e regionais, mas também arregimentado ultimamente para fazer parte da “coligação arábica” no Iémen.

Dessa forma, quer o AFRICOM, quer a França do “pré carré”, ajustam suas ideologias, ingerências, manipulações e práticas interventivas de inteligência militar, aos termos dos argumentos que promovem os moldes da nova guerra psicológica em África!

Num artigo publicado no Opera Mundi (http://operamundi.uol.com.br/conteudo/samuel/40228/grupos+extremistas+se+fortalecem+na+africa+em+meio+a+aumento+de+operacoes+militares+dos+eua+na+regiao.shtml), o inventário estatístico das acções do AFRICOM, fundamentadas pelos termos da nova guerra psicológica resume-se assim:

“Por anos, o Exército norte-americano insistiu publicamente que seus esforços na África eram insignificantes, deixando a população dos EUA e os próprios africanos sem consciência sobre o tamanho real, escala e escopo de suas operações no continente. Porta-vozes e generais do Africom têm alegado repetidas vezes que se trata apenas de uma leve ação no continente. Eles alegam ter apenas uma base na África: Camp Lemonier, no Djibouti. Eles não gostam de falar sobre operações militares. Eles somente fornecem informações sobre uma parte de seus exercícios de treinamento. Eles se recusam a divulgar os locais onde as tropas estão baseadas ou mesmo o número dos países envolvidos.

Durante uma entrevista, um porta-voz do Africom uma vez expressou que somente enumerar quantas ações o comando tem na África seria oferecer uma imagem distorcida dos esforços dos EUA no continente. A portas fechadas, no entanto, oficiais do Africom têm afirmado repetidamente que o continente é um campo de batalha norte-americano e que eles já estão envolvidos em uma guerra factual.

De acordo com cifras divulgadas pelo Comando Militar dos EUA na África, o escopo dessa guerra cresceu de forma dramática em 2014. Em sua Declaração de Operações, o Africom relata que conduziu 68 ações no ano passado, representando um aumento em relação às 55 do ano anterior. Esse número inclui as missões de auxílio às tropas francesas e intervenções africanas no Mali e na República Centro-Africana; a operação Observant Compass, um esforço para desmantelar o que resta do Exército de Resistência do Senhor (LRA, na sigla em inglês) na África Central; e a United Assistance, o envio de militares para combater a crise de ebola na África Ocidental.

No ano passado, foram realizados exercícios de militares norte-americanos em conjunto com exércitos africanos em países como Marrocos, Senegal, Camarões e Malaui. O Africom também realizou exercícios de segurança marítima, incluindo operações no Golfo da Guiné e na costa do Senegal, e três semanas de cenários de treinamento de segurança marítima, como parte da operação Phoenix Express 2014, com marinheiros de vários países, incluindo a Argélia, a Itália, a Líbia, o Malta, o Marrocos, a Tunísia e a Turquia.

O número de atividades cooperativas de segurança passou de 481, em 2013, para 595, no ano passado. Tais esforços incluíram treinamento militar em um programa de parceria entre Estados, que alia forças militares africanas a unidades da Guarda Nacional dos EUA e à Assistência e Treinamento para Operações de Contingência na África (ACOTA, na sigla em inglês), iniciativa financiada pelo Departamento de Estado dos EUA através da qual conselheiros militares norte-americanos e mentores providenciam equipamentos e treinamento para tropas africanas.

Em 2013, o total de ações norte-americanas combinadas no continente alcançou 546, uma média de mais de uma missão por dia. No ano passado, esse número saltou para 674. Em outras palavras, as tropas norte-americanas conduziram quase duas operações, exercícios ou atividades – de ataques de drones a instruções de contrainsurgência, coleta de inteligência e treinamento de pontaria – em algum lugar no continente a cada dia de 2014. Isso representa um significativo aumento das 172 missões, atividades, programas e exercícios que o Africom herdou de outros comandos quando começou suas operações em 2008”.

A persistência deste tipo de cenários revela que, mesmo que a Europa venha a pôr em causa a vassalagem em relação aos Estados Unidos, dificilmente isso será reflectido pelo comportamento europeu em relação a África, pelo que é necessário por parte dos estados africanos, uma maior clarividência no diálogo com os europeus, algo que siga o exemplo muito recente de Angola, com a muito oportuna visita do Presidente Joao Lourenço a França e à Bélgica.

Com a eclosão da ameaça radical wahhabita no norte de Moçambique (pode-se avaliar aqui:https://www.publico.pt/2018/06/10/mundo/noticia/de-onde-apareceu-o-extremismo-islamico-que-assola-mocambique-1833590), depois dessa ameaça ter sido “destravada” em 2011 na Líbia com o fim da era Kadafi, não nos admiraria começar a ver os instrumentos dessa ingerência a criarem condições de penetração com o rótulo de “parcerias” na África Austral, tentando avassalar as elites de todos estados africanos que compõem o espaço da SADC e isso apesar deles estarem apostados em políticas de paz… ou precisamente por causa disso!…

Martinho Júnior - Luanda, 10 de Junho de 2018

Ilustrações:
O Exercício Southern Mistral 2011, antecipou a coordenação do ataque franco-britânico à Líbia (integrando os dispositivos dos Estados Unidos), com vista ao fim do governo de Kadafi (https://www.globalresearch.ca/when-war-games-go-live-staging-a-humanitarian-war-against-southland/24351);
US builds drone base in Niger, crossroads of extremism fight – https://www.yahoo.com/news/us-builds-drone-niger-crossroads-extremism-fight-090624861.html;


Os conteúdos do AFRICOM - Grupos extremistas se fortalecem na África em meio a aumento de operações militares dos EUA na região –http://operamundi.uol.com.br/conteudo/samuel/40228/grupos+extremistas+se+fortalecem+na+africa+em+meio+a+aumento+de+operacoes+militares+dos+eua+na+regiao.shtml
Trump contra todo o resto

Trump contra todo o resto


Prabhat Patnaik [*]

O abandono de Donald Trump da cimeira do G-7 sem que tivesse alterado nem uma vírgula do seu proteccionismo indica desunião entre os principais países capitalistas acerca da estratégia para ultrapassar a crise dos mesmos. Trump decidiu que os EUA seguiriam seu próprio caminho, ampliando o défice orçamental, não apenas dando concessões fiscais às corporações, o que teria pouco efeito no estímulo à procura, mas também pelo aumento da despesa governamental o que teria este efeito e, ao mesmo tempo, o de proteger o mercado interno. 

Estas duas fibras da estratégia de Trump juntaram-se. Na realidade, na ausência de proteccionismo, qualquer estímulo orçamental no interior da economia estado-unidense, tal como uma maior despesa governamental deliberada, extravasaria para fora do país com a criação de maior procura por importações de bens de outros países, caso em que os EUA estariam a gerar emprego não dentro de casa mas sim no exterior – e também a incorrer em dívida para com aqueles mesmos países se assim fizesse. Mas um maior défice orçamental combinado com o proteccionismo assegura que sejam criados empregos internos e não se incorra com isso em dívida externa.

Trump pode permitir-se empreender esta estratégia devido à posição dos EUA no mundo capitalista. Qualquer outro país que prosseguisse uma tal estratégia de défice orçamental ampliado juntamente com proteccionismo testemunharia um fluxo de saída financeiro pois a "confiança do investidor" naquele país seria minada. Mas os EUA estão numa posição diferente: a sua divisa ainda é considerada "tão boa quanto o ouro" apesar de não ser oficialmente tão ordenada (como era sob o Sistema de Bretton Woods). E isto constitui, por uma variedade de razões, a base principal das finanças, de onde, a menos que haja fortes provocações, elas não gostariam de sair. Trump está, assim, a explorar essa posição dos Estados Unidos como o Grande Senhor do mundo capitalista, junto sem dúvida com algum aumento na taxa de juros dos EUA, a fim de pressionar uma estratégia para a revitalização só dos EUA, sem sequer pensar na revitalização do mundo capitalista como um todo.

O que há de errado com esta estratégia não é a habitual afirmação destituída de fundamento de que "o proteccionismo é mau", de que "o livre comércio é bom", ou de que esta estratégia representa um "nacionalismo" que é reaccionário pois oposto ao "internacionalismo" que é progressista. O que está errado com esta estratégia é que"não funcionaria mesmo para os EUA (embora actualmente possa parecer ter êxito), muito menos para o mundo capitalista como um todo.

Todo este discurso acerca de "nacionalismo" contra "internacionalismo" é não só analiticamente errado, porque estes termos não podem ser definidos sem referência ao seu conteúdo de classe ("nacionalismo" por exemplo não é uma categoria homogénea e o "nacionalismo" de Ho Chi Minh é bastante diferente do de Hitler); ele é também eticamente não fundamentado: se níveis mais altos de emprego pudessem ser alcançados por toda a parte, juntamente com níveis mais altos de despesas sociais, colocar cada país a seguir uma estratégia "nacionalista", quando comparados a uma situação onde tentam em vão prosseguir uma estratégia "internacionalista", então contestar uma tal estratégia "nacionalista" é claramente indefensável.

Actualmente a estratégia de Trump, destaca muita gente, parece estar a funcionar nos EUA. A taxa de desemprego está oficialmente baixa e em torno dos 4 por cento. Embora a taxa de participação da força de trabalho continue a estar abaixo da que estava antes da crise de 2008, de modo que, na suposição de uma taxa de participação da força de trabalho inalterada, a taxa de desemprego seria apenas superior a 6 por cento, esta mesma taxa, sugerem alguns, representa um declínio em comparação com a de alguns anos atrás. Ao mesmo tempo, embora Trump tenha utilizado o défice orçamental para agradar os capitalistas através de isenções fiscais, ele não tem, sugere-se, restringido demasiado os gastos sociais. E ainda assim, apesar destas supostas condições de boom, a taxa de inflação é bastante baixa e o dólar continua a estar forte.

Vamos para argumentar assumir que todas estas afirmações acerca do êxito da estratégia de Trump sejam verdadeiras, embora um momento de reflexão mostre que todas elas não poderiam ser verdadeiras em simultâneo. Por outras palavras, é impossível haver uma coexistência, excepto apenas transitória, das seguintes quatro características: uma baixa taxa de desemprego; um grande défice orçamental; uma política de proteccionismo e uma baixa taxa de inflação. As primeiras três delas provocariam excesso de pressões da procura que fariam subir a taxa de inflação, a qual não mais permaneceria baixa. Mas ainda assim vamos assumir que todas as quatro características fossem verdadeiras.

Mas todas estas características são apenas os resultados da primeira fase da estratégia Trump. Outros países, aqueles atingidos pelo proteccionismo dos EUA, não ficariam apenas passivos e a aceitar o aumento do desemprego que a estratégia dos EUA de avançar sozinho lhes exportaria. A breve trecho começariam a tomar medidas compensatórias através da ampliação dos seus próprios défices orçamentais, juntamente com o proteccionismo necessário. No caso deles, no entanto, tais medidas implicariam uma fuga das finanças, já que lhes falta o status de Grande Senhor que os EUA desfrutam. Eles teriam, portanto, que aplicar controles sobre os fluxos financeiros, ou seja, “controles de capitais”; ou elevar suas taxas de juros a fim de estimular as finanças a não os abandonarem.

Controles de capitais, contudo, atacariam as próprias raízes da actual globalização. Vale a pena notar que mesmo Trump, com todas as suas medidas proteccionistas contra as importações de bens e serviços, não aplicou restrições contra os fluxos financeiros livres. Da mesma forma, os outros países capitalistas seriam avessos a restringir fluxos de capitais através das suas fronteiras. Eles portanto recorreriam a altas de taxas de juros para impedir quaisquer saídas financeiras.

Estas altas nas taxas de juros anulariam numa certa medida seus esforços para expandir para reduzir o aumento do desemprego devido ao proteccionismo dos EUA e também provocariam um aumento correspondente nas taxas de juro dos EUA. O que neste momento parece ser uma "guerra comercial" iniciada por Trump – e está a ser discutida e ridicularizada como tal pelos seus oponentes – em breve assumiria a forma de altas competitivas nas taxas de juro, da qual a presente ascensão nas taxas de juro dos EUA teria sido o primeiro sintoma. E tais altas para todos os países capitalistas tomados em conjunto, incluindo os Estados Unidos, anulariam quaisquer ganhos no emprego que um défice orçamental ampliado e o proteccionismo pudessem ter causado.

O que a conjuntura actual mostra claramente é que é impossível ultrapassar a crise capitalista sem impedir fluxos financeiros globais, o que significa livrar-se da hegemonia da finança globalizada. A estratégia de Trump não pretende afastar esta hegemonia e muito menos os outros países capitalistas estão desejosos de se livrarem da mesma, eles iriam todos empenhar-se numa luta competitiva de altas de taxas de juro as quais colectivamente não implicaria qualquer melhoria na situação da economia capitalista mundial.

Só há dois caminhos lógicos possíveis para a economia capitalista mundial poder sair da sua actual crise prolongada. Um é através de um estímulo orçamental coordenado de todos os países avançados, da espécie que Keynes e um grupo de sindicalistas alemães sugeriu durante a Grande Depressão da década de 1930. Isto naturalmente teria a oposição categórica do capital financeiro internacional, o qual se opõe a todo activismo directodo Estado que não passe por seu intermédio. Mas a unidade entre os principais Estados-nação que pudesse, através da mesma, actuar como um Estado mundial substituto, poderia concebivelmente ultrapassar esta oposição. Mas ninguém no G-7 está sequer a falar acerca desta estratégia, o que significa que ela não faz parte da agenda do mundo capitalista. Qualquer tentativa de persegui-la, uma vez que teria de superar a oposição do capital financeiro internacional, o que o capitalismo é incapaz de fazer, teria necessariamente de implicar uma transição para além do capitalismo, ou seja, uma transcendência do capitalismo no próprio processo de superação da sua crise.

O segundo caminho lógico é países particulares decidirem avançar sozinhos, como Trump está a tentar fazer. Mas para isto ter êxito, teriam de ser postos em prática controles de capitais pois, de outro modo, a prevenção de saídas de capital como uma consequência de tal avanço solitário (que necessariamente exigiria activismo orçamental a que a finança sempre se opõe) pressionaria o país, e seus rivais, para altas de taxas de juro competitivas, as quais subvertem – tanto individualmente para países particulares como colectivamente para o mundo capitalista como um todo – as perspectivas de revitalização económica.

O êxito aparente de Trump com a economia dos EUA – se é que há algum êxito, o que é duvidoso – representa portanto apenas a primeira etapa nesta luta competitiva. Este êxito está destinado a ser eliminado quando os outros reagirem aos seus movimentos. Uma vez que nem Trump nem os seus rivais estão sequer a pensar em quaisquer restrições aos fluxos de capital, o que minaria a hegemonia do capital financeiro internacional e por isso está descartado, a crise estrutural do capitalismo está fadada a continuar apesar de todas as aparências em contrário.

17/Junho/2018

[*] Economista, indiano, ver Wikipedia 

O original encontra-se em peoplesdemocracy.in/2018/0617_pd/trump-versus-rest . Tradução de JF. 

Este artigo encontra-se em https://resistir.info/ 
FRANÇA | Macron lança ataque à habitação social

FRANÇA | Macron lança ataque à habitação social


O governo de Emmanuel Macron fez aprovar na generalidade pela Assembleia Nacional francesa, na passada terça-feira, uma proposta de lei que altera profundamente o panorama da habitação pública e social naquele país, onde esta tem um peso muito significativo, particularmente quando comparado com o que acontece noutros países da União Europeia.

Um dos principais objectivos é fundir os organismos que gerem a habitação social, a maioria dos quais gerem habitação pública, e aumentar as vendas anuais de uma média actual 8 mil casas para 40 mil, segundo o L'Humanité.

Governo promove alienação da habitação pública

Os actuais senhorios, sejam do sector privado ou do sector público (no essencial, organismos municipais), vão ver os apoios directos à construção por parte do Estado reduzidos. Ao mesmo tempo, o subsídio de renda, assumido também pelo Estado, já sofreu cortes que podem chegar a 60 euros mensais, de acordo com o corresponde em Paris do jornal espanhol El Salto. Agora, transferiu esses encargos para os organismos que gerem a habitação social, que terão que reflectir a descida nas rendas praticadas. Com isto, o executivo de Macron pretende empurrá-los para um ciclo de vendas que visa reduzir brutalmente o parque habitacional público e social.

A lei ELAN, como é conhecida, põe ainda um ponto final no limite das rendas em 28 cidades, introduzido na legislação francesa em 2014, tornando-o experimental e voluntário. Até ao momento, apenas em Paris e em Lille foi introduzido um tecto máximo, entretanto cancelado. Os principais grupos económicos do sector reagiram com satisfação quando a proposta foi conhecida. Desde o fim do limite em Paris, os preços subiram 5,7%, segundo a imobiliária Century21, citada pelo L'Humanité, cujos responsáveis terão admitido num encontro com os trabalhadores da empresa que «é hora de expulsar os quadros intermédios da capital».

Esta intenção será ainda mais facilitada porque o prazo no qual uma habitação social continua a contar para efeitos estatístico passa de cinco para dez anos, permitindo que o objectivo fixado em 2000 na lei de que cada localidade deve ter 20% de habitação social não seja cumprido.

Segurança mínima, lucro máximo

Outra novidade do pacote legislativo de Macron é a criação de um «contrato de mobilidade», apelidado pelas estruturas de inquilinos como um «contrato de precariedade». Através deste novo mecanismo, passa a ser possível arrendar casas por períodos entre um e dez meses, não renováveis.

A medida é apontada como um autêntico favor para os proprietários que utilizam plataformas de arrendamento de muito curta duração como o Airbnb, que em França está limitado a 120 noites por ano. Nestes casos e a ser aprovada a proposta, ganham um mecanismo para manter as casas a render nos restantes oito meses em que não as podem colocar nessas plataformas, sem o risco das elevadas multas a que arriscam caso ultrapassem o limite.

França é dos países da União Europeia em que a habitação social tem um peso significativo, cerca de 19% do parque habitacional e mais de 40% do mercado de arrendamento. Em Portugal, de acordo com dados da federação Housing Europe, a habitação social representa apenas 3% do parque habitacional.

AbrilAbril

Na foto: Emmanuel MacronCréditosJulien de Rosa/EPA / Agência Lusa
FRANÇA | Greve em todas as frentes

FRANÇA | Greve em todas as frentes


Rémy Herrera

Nestes últimos meses, desde a intensificação dos conflitos sociais em França, os media dominantes do país cumprem o seu papel na perfeição: eles difundem de modo permanente uma propaganda destinada a minar a moral dos trabalhadores em luta e transmitem servilmente os discursos mentirosos do governo do presidente Emmanuel Macron – mantido pela alta finança e ocultando sob a palavra de "reformas" uma vontade de destruição sistemática dos serviços públicos.

Depois de ter pretendido que o número de grevistas e manifestantes opostos às medidas neoliberais efectuadas em todas as direcções para diminuí-las, agora estes media anunciam "o fim próximo da greve dos ferroviários"... No entanto, os sindicatos mais combativos do sector ferroviário (CGD, SUD...) discutem actualmente a possibilidade de prosseguir o movimento na SCNF para além do calendário de greves intermitentes previsto inicialmente (28 de Junho).

É verdade que a simples leitura da lista das múltiplas greves que decorreram recentemente ou continuam a decorrer em França esgotaria o tempo de antena dos jornais televisivos! Os comentadores subordinados ao poder falam, a propósito destes conflitos, num "mal francês" que seria preciso erradicar. Um deputado da maioria presidencial chegou mesmo a falar em "grevicultura" (ou cultura da greve).

Quanto a nós, devemos ver nesta multiplicação das lutas sociais um motivo de optimismo. São nestes movimentos que os trabalhadores, sobretudo os mais jovens, se formam, reaprendem a construir os laços indispensáveis de solidariedade, estruturam as formas locais de organização, fazem surgir os líderes do futuro. Apesar das numerosas dificuldades encontradas, estas lutas serão ampliadas pouco a pouco e darão os seus frutos. É preciso ser paciente. A consciência de classe progride e, com ela, a coragem de trabalhadores cada vez mais numerosos que saem da inércia e da resignação.

Em certa medida alguns destes movimentos sociais são insólitos, ou mesmo históricos.

Exemplos:

O número de sindicalizados entre os empregados das lojas fast food aumenta fortemente. No McDonalds, grevistas – alguns deles lutaram mais de seis meses – reivindicam melhores condições de trabalho e de salários, mas denunciam também a evasão fiscal e a captação dos lucros praticada pelos proprietários do grupo. Empregados de outras cadeias não hesitam mais em revelar casos de exploração e de maus-tratos no trabalho. No rastro da mobilização de empregados dos supermercados franceses do Carrefour, o movimento estendeu-se à Bélgica, onde uma centena de lojas Lidl têve de fechar por causa de uma greve espontânea.

Desde há vários meses, os empregados dos estabelecimentos para pessoas idosas dependentes manifestaram-se para denunciar os salários irrisórios, as cadências de trabalho, o pessoal insuficiente, mas também as más condições de vida provocadas aos pensionistas e as despesas exorbitantes que lhes são exigidas.

Em Maio, os turistas puderam observar que os trabalhadores do lixo e dos esgotos de Paris estão mobilizados. Eles pretendiam que se reconhecesse a dureza das suas profissões e obter reformas antecipadas.

Em meados de Junho, agricultores bloquearam 14 refinarias de petróleo do país para protestar contra a decisão governamental de autorizar a importação de óleo de palma (da Indonésia, nomeadamente) destinado a alimentar as fábricas de bio-carburante, mas ameaçando a linha da colza francesa.

Sob a nova pressão neoliberal, o mal-estar social é tão profundo que atinge até mesmo profissões que, na memória dos observadores, jamais se manifestaram. Em Maio, um milhar de revisores oficiais de contas desceram à rua contra um projecto de lei que prevê a anulação da obrigação às pequenas e médias empresas de certificarem as suas contas por gabinetes de peritos em contabilidade (daí um deixar de ganhar para eles).

Um mês antes, magistrados e advogados estavam em greve para protestar contra o anúncio feito pelo Ministério da Justiça de "fundir" (na realidade, de encerrar) os tribunais habilitados a julgar os pequenos litígios (cujo pedido de indemnização não ultrapasse 5000 euros) com as jurisdições superiores, o que implicaria, além das reduções de orçamentos e de postos de trabalho, um justiça desumanizada e privatizada, dissuadindo os pobres de se empenharem em procedimentos judiciais para defenderem seus direitos.

Em Maio, foi a vez dos trabalhadores das Catacumbas (ossuário subterrâneo da praça Denfert-Rochereau), depois da Cripta arqueológica, de efectuar a mais longa greve jamais efectuada nos Museus de Paris. Os empregados reclamam condições de trabalho "dignas e equitativas", segurança para os agentes e para este sítio turístico, assim como um prémio por trabalhar no subsolo em condições difíceis. 

17/Junho/2018

Este artigo encontra-se em http://resistir.info/ 

Na foto: Os trabalhadores das catacumbas protestam
FLOTILHA DA LIBERDADE ESCALA PORTUGAL

FLOTILHA DA LIBERDADE ESCALA PORTUGAL


Dia 19 a Flotilha da Liberdade, a caminho do campo de concentração de Gaza, escalará Portugal. Este ano a flotilha navega sob o lema "Um futuro justo para a Palestina". 

Está prevista uma concentração junto à Marina de Cascais a partir das 17 horas do dia 19. Nos dias 20, 21 e 22 haverá outras iniciativas de denúncia das atrocidades do estado nazi-sionista, a saber:

  Quarta-feira 20 de Junho, 18:30 Sessão pública na AJA, Rua de São Bento nº170, Lisboa, com a presença e participação de membros da Plataforma de Apoio à Flotilha 2018, MPPM, Representante do Grupo Parlamentar de Amizade Portugal-Palestina, Membros da Flotilha da Liberdade Coro da Achada (presença a confirmar)

  Quinta-feira 21 de Junho, Conferência de Imprensa 11:00 junto da Marina de Cascais a bordo do veleiro "Freedom". Entrevistas à partir das 14:15 (marcação prévia) 18:30 Conversa com membros da Flotilha na Fábrica das Alternativas, Rua Margarida Palla nº19A, Algés; 19:00 Conversa com membros da Flotilha na RA - Rua de Arroios nº100, Lisboa

  Sexta-feira 22 de Junho, Partida dos barcos da Marina de Cascais com destino a Cádis. Concentração junto à Marina a partir das 8:00 Sambacção/ROR (presença a confirmar) 19:00 Benefit Flotilha na Disgraça, Rua da Penha de França nº 217A/B, Lisboa. Programa provisório: jantar, curtas metragens, concerto, apresentação da Flotilha, lançamento das Folhas Soltas do GAP nº9, apelo a participação Folhas Soltas nº10 (...) 

UE | Assentar os pés na terra

UE | Assentar os pés na terra


Carvalho da Silva | Jornal de Notícias | opinião

Foi anunciado que em finais de junho a União Europeia (UE) tomaria decisões históricas a respeito do seu futuro e em particular sobre o euro, capazes de resolver as deficiências da moeda única e esconjurar crises futuras. Reparemos agora nos temas da agenda que acompanha a convocação da reunião: (1) migrações; (2) segurança e defesa; (3) emprego, crescimento e competitividade; (4) inovação e Europa digital, orçamento de longo prazo da UE; (5) relações externas. Perguntar-me-ão, então onde pára o euro? Um parágrafo adicional esclarece: "os líderes discutirão também o Brexit (em formato UE 27) e a eurozona (em formato Cimeira do Euro)".

Tal agenda significa que outras questões urgentes se amontoaram, nomeadamente migrações, segurança e defesa, relações com os EUA. Mas quer dizer também que temas estruturais basilares como o euro continuam a ser evitados. Como conseguirão os dirigentes europeus discutir os delicados pontos da agenda e ainda ter fôlego (nalguma ceia ou ao pequeno-almoço reforçados?) para tomar decisões históricas sobre o euro?

Dir-se-á que na UE todas as decisões são preparadas previamente e as cimeiras são um pró-forma. Se assim for, e não há dúvida que andam por aí discussões sobre o euro, é muito preocupante que essas discussões possam culminar em deliberações acerca das quais ninguém, a não ser os habitantes do Olimpo europeu, foi ouvido ou achado. Neste tempo que estamos a viver, há fortes razões para se duvidar que esta cimeira se limite à verificação de consensos em todos os pontos da agenda, ou a acrescentos de vírgulas no comunicado final. O que vai efetivamente ser discutido e com que profundidade é, pois, desconhecido. E é difícil imaginar uma ordem de trabalhos mais agreste e um contexto pior do que este para uma mera discussão, quanto mais para tomar decisões nos vários pontos enunciados e ainda quanto ao euro.

No quadro internacional assistimos hoje a movimentações geoestratégicas carregadas de sombras e de difícil perspetivação do rumo para que nos conduzem. Entretanto, a UE está prenhe de contradições e cada vez mais desequilibrada, em resultado do reforço da extrema-direita e do crescendo de compromissos do conservadorismo tradicional com essa mesma extrema-direita. Trump não imaginava conquistar tantos "aliados europeus" em tão pouco tempo.

A cimeira tem quase tudo para correr mal. E correr mal, a respeito de decisões sobre o euro, pode significar a adoção de mais alguns pequenos passos na direção da transferência de soberania para a União, sem assunção coletiva de responsabilidades políticas e financeiras. Vai-se consolidando o "nós mandamos, mas tu pagas" que vem sendo posto em prática e continuará a existir na chamada União Bancária: o tipo de "mais Europa" com que a Alemanha concorda. Pode representar, também, um desacordo radical propiciador de condições para um colapso desordenado de todo o edifício.

O que seria esta cimeira correr bem neste contexto? Talvez um reconhecimento sensato de que a fuga para a frente, quando as brechas da construção se alargam, apenas contribui para aprofundar essas mesmas brechas e precipitar um resultado calamitoso, ou seja, o reconhecimento de que a União Económica e Monetária, sobretudo num contexto de agravamento das divergências políticas, sociais e económicas, não é reparável. Ela transformou-se numa bomba-relógio que deve ser cuidadosamente manipulada e desativada, dando lugar a um projeto que, sendo comum, assente num ordenamento de cooperação entre povos e países, em regras e compromissos que permitam aos governos nacionais disporem de capacidades e de instrumentos de políticas com que possam efetivar projetos de desenvolvimento específicos de cada país, exercer as suas responsabilidades e cumprir os mandatos para que foram eleitos.

Todos os grandes temas que emergiram na agenda política nacional nas últimas semanas - limitações orçamentais, saúde, educação, demografia, qualidade de emprego, inovação tecnológica - só poderão ter resposta com políticas nacionais específicas que certos constrangimentos europeus instituídos impedem. Realismo, hoje, é reconhecer este facto. Precisamos de governação com pés bem assentes na terra.

* Investigador e professor universitário
Portugal | Afinal, por que lutam os professores?

Portugal | Afinal, por que lutam os professores?


Aos professores não peçam que calem a luta, que fiquem paralisados enquanto o tempo avança e a legislatura se esgota, enquanto o governo toma decisões e aceita decisões que outros tomam e que põem em causa a resolução dos problemas.

João Louceiro | AbrilAbril | opinião

Em nome da austeridade, o governo de Sócrates e o de Passos Coelho, e as suas maiorias parlamentares, deixaram de respeitar o tempo de serviço prestado pelos trabalhadores da administração pública que, com outras exigências, é condição necessária para os desenvolvimentos de carreira, de acordo com o que a legislação determina. 

Fizeram o trabalho que lhes competia, cumpriram deveres e obrigações, aliás, em condições particularmente adversas, suportaram sobrecargas e a degradação das condições em que desempenham funções, cortes brutais de rendimento. Os governos fizeram como se não tivessem trabalhado... Assim extorquiram milhares de milhões de euros devidos, neste caso, a quem trabalha no âmbito da administração pública; milhares de milhões vazados nos destinatários habituais dos saques, juros e serviço da dívida, banca, PPP, negócios privados em áreas públicas, etc., etc.

O governo de António Costa prolongou o esbulho e tenta agora encontrar forma de, tanto quanto possível, o perpetuar. Há uma sanha indisfarçável em relação aos professores, não por qualquer calunioso privilégio, mas porque, além de serem necessariamente muitos, são trabalhadores com elevadas qualificações e destacada importância social. Para azia de certa gente, isto há de ter alguma tradução na carreira deles.

Os professores reclamam a normalização, de acordo com o que está consagrado na legislação. Tal não se alcança só com o retomar (mitigado) da contagem de tempo, o dito descongelamento. Exigirá que os professores sejam colocados no ponto da carreira em que devem estar, segundo as regras e a estrutura aprovada, diga-se, por governos do PS. Idêntica reclamação mobiliza outros trabalhadores de outras carreiras? É de inteira justiça que lutem!

Importa dizer, ainda, que as razões dos professores não se esgotam na recuperação do tempo de serviço. O governo também não responde à necessidade de medidas que atenuem o vincado desgaste que atinge os docentes, ao imperativo de fazer face ao envelhecimento do corpo docente, o que, combinado com o tema anterior, suporta a exigência de um regime de aposentação adequado, ao problema da precariedade laboral, em relação ao qual o esforço realizado é manifestamente insuficiente.

Justiça e lei

A normalização da carreira é uma aspiração justa. Quem ataca a luta dos professores, dizendo que são privilegiados, alegadamente por a sua carreira ter escalões (muitos, demasiados!) de quatro anos, devia saber que, hoje, os docentes com 18 anos de serviço ainda estão a chegar ao segundo escalão, quando deviam estar no quinto; ou saber que a lei estabelece que, com 27 anos de serviço, um professor devia estar no oitavo mas, afinal, ainda está retido no segundo escalão! 

Se os argumentos de justiça não mexem com António Costa, o governo e o seu partido, lembrem-se que o Orçamento do Estado – é da lei que voltamos a falar – estabelece a negociação dos prazos e do modo da recuperação do tempo de serviço nas carreiras do tipo da dos professores; não põe à discussão quanto tempo é para apagar, para fazer de conta que não foi tempo de trabalho.

O governo não quer cumprir a lei, quer perpetuar roubos através da não recuperação do tempo de serviço prestado no longo inverno dos congelamentos.

E se a lei em vigor o determina, existe ainda uma resolução da Assembleia da República que a reforça. Recomenda a contagem de todo o tempo e a correspondente valorização remuneratória. Tentado pelo produto do roubo de tempo de serviço, António Costa desvaloriza a recomendação aprovada, também, com os votos do PS.

Não admira que o governo despreze o compromisso que assinou com as organizações sindicais em novembro, no qual se destacava a recuperação do tempo de serviço. Não admira e não se desculpa!

Intransigência de quem?!

A FENPROF, acompanhada pelas organizações que têm convergido no atual processo de luta, vem insistindo com a necessidade de se encontrarem respostas para os problemas, tem apresentado propostas e procurado abrir caminhos. Não reivindica a devolução dos milhões extorquidos nos últimos largos anos: apenas a (progressiva) normalização da carreira docente.

Aceitou não dificultar a discussão com outro tempo de serviço perdido em revisões da carreira (da responsabilidade de governos do PS), perdas que adensam os prejuízos suportados pelos docentes.

Aceitou que a recuperação não arrancasse já este ano mas sim, moderadamente, no próximo. Admite um faseamento prolongado, de forma a não comprometer a dita sustentabilidade do processo.

Apresentou propostas mas não excluiu a possibilidade de as rever e as alongar ainda mais no tempo. Aceitará, aliás, como base de negociação, se assim for proposto pelo governo, a consideração do tempo de serviço por ele admitido, desde que, naturalmente, a recuperação de apenas 30% do tempo não sirva para o roubo definitivo, o apagão, dos outros 70%! Inflexibilidade de quem? Intransigência de quem?!

Notas finais

Contra a luta dos trabalhadores, mexe sempre outro argumento. Em especial a greve, é um direito fundamental da democracia, tem de ser respeitado; mas, com mil diabos, sempre que acontece é inoportuna e demonstra um egoísmo intolerável por parte de quem foi obrigado a fazê-la.

Repete-se com a greve às avaliações que a FENPROF e outras nove organizações sindicais convocaram a partir de dia 18, num importante e ponderado movimento de convergência para a defesa de legítimos interesses dos professores, bem significativo quando os divisionismos do costume, sempre úteis ao poder e muito ativos quando a luta tem de ser mais forte, já assumiram as habituais posições no campo de batalha.

Agora a inoportunidade e o egoísmo voltam a ser porque estamos no final do ano... Conhecemos a ladaínha... A verdade é que os problemas estão colocados há muito e a estratégia do governo tem sido não lhes dar resposta, deixar o tempo passar, adiar, empatar...

Aos professores não peçam que calem a luta, que fiquem paralisados enquanto o tempo avança e a legislatura se esgota, enquanto o governo toma decisões e aceita decisões que outros tomam e que põem em causa a resolução dos problemas. A paciência tem limites.
O governo há de saber e o partido do governo há de lembrar que tal tipo de comportamento tem custos políticos. A continuar assim, chegarão os custos eleitorais.

A justíssima luta dos professores prossegue com a greve às avaliações convocada pela FENPROF e outras nove organizações sindicais que os representam.

*O autor escreve ao abrigo do Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa de 1990

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Portugal | Governo prepara aliança com a direita para aprovar alterações laborais

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O secretário-geral da CGTP-IN reafirmou «profundo repúdio» quanto ao acordo com o patronato sobre legislação laboral e apelou à rejeição da proposta do Governo.

«O que está em marcha é uma tentativa de o Governo fazer uma aliança com o PSD e o CDS-PP para aprovarem esta proposta de lei [sobre legislação laboral] na Assembleia da República», disse o secretário-geral da central sindical, Arménio Carlos, em conferência de imprensa, em Lisboa.

Para Arménio Carlos, caso o PS aprove a proposta de lei do Governo ao lado do PSD e do CDS-PP, isso significará um regresso ao «bloco central de interesses contra o qual os portugueses votaram em 2015».

A proposta de lei do Governo sobre as alterações ao Código do Trabalho resulta do acordo cozinhado com as associações patronais e aceite pela UGT, como tem sido hábito. A cerimónia de assinatura está marcada para segunda-feira no Conselho Económico e Social, em Lisboa, com a presença do primeiro-ministro, António Costa.

O documento está em discussão pública e será votado no plenário do Parlamento a 6 de julho, dia em que a Intersindical tem agendada uma concentração contra o diploma em frente à Assembleia da República.

Alterações agravam precariedade laboral

Arménio Carlos manifestou «profundo repúdio relativamente ao acordo», defendendo que este é «contrário ao que foi prometido», pois «perpetua a precariedade, ataca a contratação coletiva e reduz a retribuição dos trabalhadores».

O dirigente sindical defendeu que «é altura de pôr termo à hipocrisia e ao cinismo» e de «falar a verdade aos portugueses» no que toca às alterações à legislação laboral.

«O Governo, provavelmente porque se estão a aproximar as eleições, provavelmente porque poderá ter perspectivas de poder ter um resultado suficiente para que possa governar sozinho, sem o apoio, sem a colaboração com outros partidos, está claramente a encetar um percurso que caminha para a direita», disse ainda Arménio Carlos.

Segundo o representante, a CGTP-IN pediu reuniões aos grupos parlamentares com o objetivo de que a proposta do Governo seja travada, considerando que, se for aprovada, «vai agravar o relacionamento entre todos os partidos, nomeadamente entre aqueles que neste momento defendem uma posição diferente para Portugal». «Era um belíssimo exemplo que, particularmente o PS, poderiam dar» se rejeitassem as alterações à lei laboral, considerou Arménio Carlos.

AbrilAbril com Agência Lusa

Na foto: Milhares de pessoas gritam palavras de ordem durante a manifestação nacional da CGTP-IN, entre o Campo Pequeno e o Marquês de Pombal, em Lisboa. 9 de Junho de 2018CréditosJosé Sena Goulão / Agência LUSA