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segunda-feira, 23 de outubro de 2017

Portugal | RECADO AO PEDRO




Eu vou-te avivar a memória, já que não te lembras daquilo que fizeste quando eras Primeiro Ministro.

A primeira medida que tomaste foi o aumento do IVA, recordas?

Dessa medida resultou a falência de milhares de PMEs e o desemprego de milhares de trabalhadores.

Milhares de pequenos empresários ficaram sem meio de vida, cheios de dívidas viram-se obrigados a entregar casas aos bancos e a pedir esmola.

Conheci vários que se mataram dentro das empresas em desespero porque como eram empresários nem direito tinham a um subsídio de desemprego.

O desemprego disparou para níveis nunca vistos neste país.

As IPSSs, a Cáritas e outras organizações de Solidariedade Social não tinham mãos a medir para atender pedidos de ajuda de famílias inteiras que sem apoios da Segurança Social estavam a passar fome e desesperadas sem conseguirem fazer face ás despesas básicas.

Milhares de famílias foram atiradas para a rua, despejadas das suas casas pela Banca, por senhorios e pelas Finanças através de penhoras por dívidas ao Estado, quando muitas dessas dívidas eram de valor inferior ao valor real das habitações.

Depois vieram os cortes nas pensões de reforma, no complemento solidário para idosos, nas pensões de viuvez, nos abonos de família e nas pensões não contributivas como por exemplo no RSI que cortaste a torto e a direito sem olhar a quem e sem apelo nem agravo.

Aumentaste o IMI, começaste a cobrar IUC sobre veículos independentemente de estarem ou não em circulação, chegando ao ponto de cobrares esse imposto a quem nem carro tinha ou sobre veículos já abatidos há anos.

Aumentaste impostos na gasolina, no gasóleo, no tabaco, nas bebidas alcoólicas, aumentaste as portagens e todos esses aumentos foram reflectir-se no aumento do custo de vida que como é óbvio foi mais sentido pelas classes sociais mais frágeis e carenciadas.

Criaste as taxas moderadoras e com essa medida muitos idosos deixaram de ir ao médico ou aos hospitais.

Fechaste Centros de Saúde, Maternidades e Hospitais e muitos idosos morreram por falta de assistência médica, mas também jovens e parturientes morreram por falta de cuidados médicos.

Doentes oncológicos viram as suas cirurgias adiadas e sem cuidados continuados.

Doentes crónicos ficaram sem médicos de família e sem comparticipação em medicamentos imprescindíveis ao tratamento das suas doenças.

Lembras-te dos doentes com Hepatite C a quem negaste um medicamento que podia salvar vidas e mesmo curar?

Deu até azo a manifestações populares na AR que a tua amiga Assunção Esteves reprimiu e mandou deter alguns doentes que se manifestavam indignados e com razão!

Não eram suicidas mas tu querias bem lá no fundo que fossem para poupares algum. Fazia-te jeito para ficares bem visto perante a Troika e a tua amiga Merkel.

Fechaste escolas e fizeste dos professores e das suas vidas gato sapato, obrigando-os a andar em Bolandas sem saberem o que fazer e onde ir!

Mudaste Freguesias, alteraste comarcas, encerraste Tribunais e deste com os juízes e advogados em doidos com a porcaria do sistema Citius todo baralhado.

Esqueceste essa cena?

Eu lembro-te.

Dessa confusão resultaram prejuízos para empresas, para cidadãos e para todo o país que nunca mais se vai recuperar!

Pais que perderam a guarda dos filhos conheci 19, 5 mataram-se.

Fora os que não conheço e olha que não conheço muita gente.

Mães que se viram sem as pensões de alimentos por culpa da baralhada com o Citius foram milhares.

Uma era professora e o filho era deficiente.

Atirou-se da varanda de um hotel.

Mas também houve mães que envenenaram os filhos e a seguir mataram-se porque não tinham nem emprego nem apoios e nem ajuda de psicólogos.

Sabes Pedro, moro em Almada.

Fui obrigada a vir morar para aqui.

Não, não foi culpa tua.

As coisas neste país já não estão bem há muitos anos.

Realmente apanhaste o país num grande caos económico, mas mesmo assim se fosses honesto e um bom gestor terias evitado cortar onde mais doeu!

Os cortes atingiram os mais fracos e para recuperar um país começa-se por por ordem nas finanças públicas cobrando impostos aos que não pagam.

Mas para o fazeres, para cobrares aos que sempre fugiram aos impostos terias de começar por ti, não é assim?

E depois os teus amigos e financiadores não iriam gostar nada de terem de alargar os cordões à bolsa.

Mas como te dizia, vim viver para Almada há uns anos e sabes, aqui temos uma Ponte onde todos os dias durante o teu governo assistimos a muitos suicídios.

E também temos o Metro que não é subterrâneo, é como um eléctrico sabes?

Pois volta e meia para não dizer uma a duas vezes por semana, lá se tinha de chamar o INEM por causa de um velhote ou velhota que "escorregava" e caía à linha!

E quantos eu vi a chorar de vergonha por serem apanhados no supermercado a guardar uma lata de salsichas ou de atum na mala ou num bolso do casaco!

E outros a sairem da farmácia sem aviar a receita porque a reforma tinha encolhido e os filhos tinham-se mudado lá para casa e estavam desempregados e sem subsídios de desemprego!

Sabes Pedro, sabes qual é o teu mal?

Teres tido um pai fantástico e uma mãe que tudo te desculpou.

Os anos de cabulice, as más notas no liceu, as noitadas na vadiagem, a vida boémia, as drogas, a pouca ou nenhuma vontade de estudar ou trabalhar e a falta de respeito por toda a gente.

Tu não tens noção da quantidade de vidas que deste cabo ao longo da tua vida, não só nos quatro anos em que te tivemos de aturar como Primeiro Ministro, mas desde que te conheci quando vivias na Rua República da Bolívia.

Tenho pena de não ter adivinhado naqueles anos naquilo em que tu te irias transformar!

A sério Pedro.

Naquele dia em que chamei a PSP de Benfica e evitei que a malta do Bairro do Charquinho te desse um arraial de porrada, se eu tivesse adivinhado no que te irias transformar, eu tinha fechado os olhos e fingido que te tinhas atirado da varanda do quinto andar.

Teria evitado tanta coisa, até ouvir as alarvidades que continuas a atirar pela boca fora.

Tantos anos depois e continuas a ser o mesmo chulo que conheci na nossa adolescência e juventude.

Olha Pedro, queres um conselho?

Reforma-te da política e mete uma rolha na boca ou um dia destes apareces suicidado nalguma esquina da vida.

É que nem todos os que te conhecem bem são tão pacíficos e compreensivos como eu e como a malta que te aparou as pancas lá em Benfica, tu sabes bem na casa de quem.

Espero que a Laura recupere depressa da maldita doença.

Ela não merece tanto sofrimento!

E se um dia nos voltarmos a cruzar nalguma rua de Lisboa vira o rosto, para que eu não me sinta tentada a sujar as minhas mãos na tua cara.

É que eu tentei duas vezes o suicídio por tua causa quando me vi atirada para a rua sem qualquer apoio e a lutar contra o cancro e sem ajuda psiquiátrica.

Não acertei na dosagem.

Não tinha de ser.

Quem sabe o que a vida me reserva?

Talvez me reserve a felicidade de te ver a ti Pedro e aos teus amiguinhos (tu sabes a quem me refiro) atrás das grades e a pagares pelos milhares de vidas dos que se suicidaram ou tentaram em desespero por vossa causa!

Assino o nick com que me conhecias: Nini Nilo

*Em Facebook, Mário CamposMaria Henriques e outros

Os dois partidos apoiam o rearmamento dos EUA contra a Rússia



Manlio Dinucci*

Os Democratas, que diariamente atacam o republicano Trump por suas declarações belicosas, votaram no Senado juntamente com os Republicanos pelo aumento em 2018 do orçamento do Pentágono de 700 bilhões de dólares, 60 bilhões a mais do que o próprio Trump pediu.

Acrescentando os 186 bilhões anuais para os militares reformados e outros itens, a despesa militar total dos Estados Unidos chega a cerca de um trilhão de dólares, um quarto do orçamento federal.

Foi decisivo o voto unânime do Comitê de questões militares, formado por 14 senadores republicanos e 13 democratas. O Comitê sublinha que “os Estados Unidos devem reforçar a contenção da agressão russa: a Rússia continua a ocupar a Crimeia, a desestabilizar a Ucrânia, a ameaçar os nossos aliados da Otan, a violar o Tratado sobre mísseis de curto e médio alcance, conhecido como Tratado INF (sigla em inglês), e a sustentar o regime de Assad na Síria”.

Também acusa a Rússia de conduzir “um ataque sem precedentes aos nossos interesses e valores fundamentais”, em particular através de “uma campanha voltada para minar a democracia americana”. Uma verdadeira declaração de guerra, com a qual o alinhamento bipartidário motiva o fortalecimento de toda a máquina bélica estadunidense.

Eis alguns itens da despesa militar para o ano fiscal de 2018 (iniciado em 1° de outubro de 2017): 10,6 bilhões para adquirir 94 caças F-35, 24 a mais do que a administração Trump pediu; 17 bilhões para o “escudo antimísseis” e a atividade militar espacial, 1,5 a mais do que a cifra pedida pela administração; 25 bilhões para construir mais 13 navios de guerra, 5 a mais do que a administração demandou.

CHINA | Xi Jinping elogiado por “travar golpe” de facção do PCC



O presidente da Comissão Reguladora de Valores da China, Liu Shiyu, afirmou sexta-feira que uma facção do Partido Comunista (PCC) conspirava para tomar o poder e enalteceu o Presidente chinês, Xi Jinping, por travar “o golpe”.

Liu, que falava durante um painel de discussão no XIX Congresso do PCC, afirmou que Xi salvou o partido, informou o jornal de Hong Kong South China Morning Post (SCMP).

Entre os líderes da suposta facção, Liu Shiyu destacou Sun Zhengcai, antigo chefe do PCC no município de Chongqing, que era visto como candidato a ser um dos líderes máximos da China ao longo da próxima década.

Sun foi expulso do Partido e está a ser investigado por corrupção.

O director do órgão regulador citou ainda o antigo ministro do Comércio Bo Xilai e o antigo chefe da Segurança Pública Zhou Yongkang, ambos condenados à prisão perpétua.

“Eram altamente corruptos e planeavam usurpar a liderança do Partido e o poder do Estado”, afirmou.

Liu referiu ainda, na intervenção, Ling Jihua, ex-director do Comité Central do PCC e adjunto do antigo presidente Hu Jintao.

“A liderança central, com o secretário-geral Xi como núcleo, salvou o Partido, o exército e o país durante os últimos anos. [Xi] salvou o socialismo”, afirmou Liu.

No final do ano passado, o responsável pelo órgão máximo de disciplina do partido, Wang Qishan, visto como o segundo líder mais poderoso da China, disse que alguns altos quadros do PCC tentaram apoderar-se da organização.

A campanha anticorrupção lançada por Xi, após ascender ao poder, em 2013, castigou mais de um milhão e meio de funcionários públicos e investigou 440 altos quadros do regime.

Observadores consideraram que as afirmações de Liu sugerem que a expulsão da organização e condenação à prisão perpétua dos nomes mencionados tiveram também motivos políticos, e expõem a existência de lutas internas no PCC.

Hoje Macau

Macau | O RETORNADO



João Luz | Hoje Macau | opinião

Matéria, energia, pessoas e corpos celestes seguem um percurso que os impele a volver. Seja de uma forma cíclica ou esporádica, o retorno é quase uma inevitabilidade de tudo o que é dinâmico, de tudo o que vive. Regressar a Portugal pela primeira vez foi uma das viagens mais densas em termos emocionais e psicológicos que fiz, como se tivesse condensado um ano em três semanas de nostalgia fresca.

Macau adicionou um factor de distorção temporal e significado à minha vida, ao ponto de achar ser possível ter saudades do que nunca vi e de sentir familiaridade esvair-se de uma ferida conhecida.

Rumei para a Ásia há pouco tempo, mas parece que sempre estive cá. Por outro lado, o retorno a Lisboa trouxe reflexões novas. Talvez seja pensamento em excesso, algo curável com um trabalho braçal que não implique reflexão. O facto é que cidade onde morei nas últimas duas décadas continuava lá, alva e suja em simultâneo, paradoxal como sempre. O Largo da Severa, o Vale do Silêncio, a Almirante Reis, o Tejo a anunciar a margem sul. Mesmo o uterino Alentejo adquiriu um travo de irrealismo banhado a luz intensa.

Pode uma pessoa perder-se em lugares que conhece? Onde está o meu torrão, a minha quota-parte de terra? Nenhum pedaço de planeta é meu, porém, até a Marte me arrogo. Sou um “cosmofundiário”, tudo me pertence em parceria com todos, ao mesmo tempo que não sou dono de absolutamente nada. Vistas bem as coisas, vivemos todos este socialismo de alma territorial alargado às estrelas, tornando as fronteiras em conceitos aberrantes e contranatura, imbecilidades que ignoram a força do grande íman que nos puxa e repele.

Redes sociais acolhem debates e comentários sobre situação política em Timor-Leste



Díli, 23 out (Lusa) - A incerteza sobre o futuro político de Timor-Leste e os cenários em jogo no caso da queda do Governo, depois do chumbo parlamentar do programa, estão a marcar os debates políticos do país.

Uma situação que se torna particularmente evidente nas redes sociais, especialmente no Facebook, que nos últimos meses têm sido um dos principais palcos de debate político, com muitos dirigentes partidários e políticos, instituições públicas e privadas e cidadãos a usarem perfis para defender as suas posições.

Essa tendência aumentou significativamente durante as campanhas para as eleições presidencial e parlamentar deste ano e tornou-se novamente "acesa" no fim de semana, depois de a oposição ter aprovado um primeiro chumbo do programa do Governo.

A dominar o debate nos últimos dias está a questão dos cenários que se colocam ao país no caso de a oposição voltar a chumbar o programa do Governo que, o executivo disse estar a rever para voltar a apresentar aos deputados.

No caso do segundo chumbo, o Governo cai e cabe ao Presidente timorense, Francisco Guterres Lu-Olo, decidir se convida outro partido a formar Governo, se avança para um Executivo de iniciativa presidencial ou se opta por eleições antecipadas.

A oposição tem vindo a insistir no primeiro cenário argumentando que as três forças que chumbaram o programa do Governo - Congresso Nacional da Reconstrução Timorense (CNRT), Partido Libertação Popular (PLP) e Kmanek Haburas Unidade Nacional Timor Oan (KHUNTO) - se uniram numa Aliança de Maioria Parlamentar (AMP) capaz de garantir estabilidade governativa, que acusam o atual Governo minoritário de não ter.

Parlamento timorense aprova voto de pesar pelas vítimas em Portugal



Díli, 23 out (Lusa) - O Parlamento Nacional timorense aprovou hoje um voto de pesar e solidariedade para com as vítimas dos incêndios em Portugal, enaltecendo os "homens e mulheres heroicos" que se juntaram aos bombeiros no combate às chamas.

"Fustigados pela tragédia, os portugueses uniram-se na luta contra a calamidade e, lado a lado, combateram os fogos com coragem e entrega total", refere o texto aprovado por unanimidade.

"Neste momento de dor e consternação, o Parlamento Nacional exprime pesar e endereça sentidas condolências às vítimas e famílias e quer homenagear os homens e mulheres heroicos que combateram o fogo, expressando solidariedade para com o povo português", acrescenta.

O texto recorda que esta foi a segunda vez este ano que Portugal "foi assolado por fogos florestais fatídicos", com mais de 443 fogos a deflagrarem no norte e sul do país no dia 15 de outubro, "tornando este dia num dos mais negros e trágicos da história recente de Portugal.

No voto de pesar o Parlamento timorense recorda os mais de 40 mortos, as várias dezenas de feridos e a "perda inestimável de um vasto patrimonial florestal" causados pelos fogos que destruíram ainda inúmeras casas e edifícios fabris e agrícolas.

As centenas de incêndios que deflagraram no dia 15, o pior dia de fogos do ano segundo as autoridades, provocaram 44 mortos e cerca de 70 feridos, mais de uma dezena dos quais graves.

Os fogos obrigaram a evacuar localidades, a realojar as populações e a cortar o trânsito em dezenas de estradas, sobretudo nas regiões Norte e Centro.

Esta é a segunda situação mais grave de incêndios com mortos em Portugal, depois de Pedrógão Grande, em junho deste ano, em que um fogo alastrou a outros municípios e provocou, segundo a contabilização oficial, 64 mortos e mais de 250 feridos. Registou-se ainda a morte de uma mulher que foi atropelada quando fugia deste fogo.

ASP // FV.


domingo, 22 de outubro de 2017

Ex-agente da CIA: presidentes dos EUA são marionetes nas mãos dos serviços secretos



O ex-analista da CIA, Ray McGovern, disse à Sputnik Alemanha que a política internacional de Trump é definida pelos serviços secretos dos EUA. Segundo ele, os serviços secretos, a mídia e a política impedem que o presidente dos EUA, Donald Trump, melhore as relações com a Rússia.

De acordo com o especialista, Trump "gostaria de realizar uma política mais racional em relação à Rússia, mas ele não pode fazer isso devido à mídia, serviços secretos e vendedores de armas".

McGovern sublinhou na entrevista à Sputnik Alemanha que o financiamento dos serviços secretos dos EUA aumentou 3 vezes desde o 11 de setembro de 2011. Quanto às relações entre a Rússia e os EUA, a campanha sobre a alegada interferência de Moscou nas eleições presidenciais estadunidenses em 2016, lançada pela mídia norte-americana, bem como as afirmações que Trump se tornou presidente graças ao apoio da Rússia, impedem que o presidente dos EUA realize a outra política em relação à Rússia.

Nos anos 1980, Ray McGovern foi analista da CIA e especializou-se em União Soviética. Ele trabalhou na CIA durante 27 anos e acompanhou sete presidentes norte-americanos. Agora ele é um dos fundadores da organização Profissionais Veteranos da Inteligência pela Sanidade (VIPS, na sigla em inglês) que tem como objetivo denunciar o uso abusivo da informação pelos serviços secretos.

Durante a campanha eleitoral de 2016, ele esperou que a vitória de Trump pudesse contribuir para a mudança de rumo político de Washington em relação a Moscou. Entretanto, ele entendeu que o novo presidente pode ser enganado pelos serviços de inteligência e administração em Washington através de informações incorretas.

Ao mesmo tempo, ele sublinha que Donald Trump é um político imprevisível. Por exemplo, o ataque dos EUA na Síria, realizado após uma suposta utilização de armas químicas em 4 de abril na província síria de Idlib, foi lançado antes de ele receber uma informação mais detalhada sobre o assunto.

PORTUGAL | Os julgadores julgados



Manuel Carvalho da Silva* | Jornal de Notícias | opinião

Uma vaga de incêndios em circunstâncias semelhantes em Portugal e Espanha (Galiza) desencadeou diferentes reações no espaço público. Em Espanha, as autoridades autonómicas e estaduais evocaram como causa principal um "terrorismo incendiário", não especificado. Em Portugal, a opinião instalada nos grandes meios de Comunicação Social e os partidos da Oposição apontaram o dedo aos decisores políticos e operacionais agora em funções, ou seja, a pessoas concretas, mas só àquelas que não podem fugir da responsabilidade. São automaticamente ilibados todos os que ao longo de décadas geraram os obstáculos que alimentaram a tragédia. Quer em Espanha, quer em Portugal, estes mecanismos acusatórios fazem lembrar a criança que culpa a parede, em que acabou de colidir, pela dor provocada pelo choque. São sintomas de uma insanidade coletiva, que busca a todo o custo imediatos culpados, quantas vezes transformada em processos de caça às bruxas.

Existem incendiários? Existem pessoas incompetentes em cargos de responsabilidade? Em Portugal, o Governo empurrou problemas com a barriga e não teve atempada consciência da tragédia? Certamente que sim e a cada um devem ser atribuídas a responsabilização e a penalização adequadas, no seu devido tempo. O Governo pagará a fatura dos seus erros e terá de ser muito mais responsável e eficaz pois o tempo não apaga tudo. Entretanto, não se pode instrumentalizar o drama das pessoas para uma oportunista tentativa de recuperação da Direita. É legítimo que a Direita queira recuperar. Esse é, até, um desiderato já antes afirmado pelo presidente da República. Mas façam-no com dignidade.

sábado, 21 de outubro de 2017

A MORTE DA HISTÓRIA



John Pilger

Um dos mais louvados "eventos" da televisão americana,The Vietnam War, arrancou agora na rede PBS. Os directores são Ken Burns e Lynn Novick. Aclamados pelos seus documentários sobre a Guerra Civil, a Grande Depressão e a história do jazz, Burns diz acerca dos seus filmes sobre o Vietname: "Eles inspirarão nosso país a começar a conversar e pensar acerca da guerra do Vietname de um modo inteiramente novo". 

Numa sociedade muitas vezes destituída de memória histórica e sob o domínio da propaganda do "excepcionalismo", a guerra do Vietname "inteiramente nova" de Burns é apresentada como "trabalho histórico épico". Sua luxuosa campanha publicitária promove o seu grande apoiante, o Bank of America, o qual em 1971 foi incendiado em Santa Barbara, Califórnia, como símbolo da odiada guerra no Vietname.

Burns diz que está grato a "toda a família do Bank of America" a qual "desde há muito apoia veteranos do nosso país". O Bank of America foi um apoio corporativo a uma invasão que matou talvez até quatro milhões de vietnamitas e devastou e envenenou uma terra outrora generosa. Mais de 58 mil soldados americanos foram mortos e estima-se que aproximadamente o mesmo número se tenha suicidado.

Assisti ao primeiro episódio em Nova York. Ele não deixa dúvidas desde o princípio acerca das suas intenções. O narrador diz que a guerra "foi começada em boa fé por pessoas decentes em resultado de entendimentos incorrectos decisivos, a super-confiança americana e a Guerra Fria.

A desonestidade desta declaração não surpreende. A fabricação cínica de "falsas bandeiras" que levaram à invasão do Vietname é uma questão factual – o "incidente" do Golfo de Tonquim, em 1964, que Burns promove a verdadeiro, foi apenas um deles. As mentiras grassam numa multidão de documentos oficiais, nomeadamente os Pentagon Papers, os quais o grande denunciante Daniel Ellsberg divulgou em 1971.

Não havia boa fé. A fé era apodrecida e cancerosa. Para mim – como deve ser para muitos americanos – é difícil assistir ao amontoado de mapas do "perigo vermelho", entrevistas não explicadas, arquivos cortados de modo inepto e sequências choronas de campos de batalha.

No press release da série na Grã-Bretanha – a BBC irá apresentá-la – não há qualquer menção a mortos vietnamitas, só a americanos. "Estamos todos em busca de algum significado nesta tragédia terrível", diz uma citação de Novick. Muito pós moderno.

Tudo isto será familiar àqueles que observaram como os media americanos e a grotesca cultura popular reviram e serviram o grande crime da segunda metade do século vinte: desde The Green Berets (Os boinas verdes) e The Deer Hunter (O caçador) para Rambo e, ao assim fazer, legitimaram subsequentes guerras de agressão. O revisionismo nunca para e o sangue nunca seca. O invasor merece piedade e é expurgado de culpa, enquanto "buscam algum significado nesta tragédia terrível". Alusão de Bob Dylan: "Oh, onde tem estado, meu filho de olhos azuis?"

Penso acerca de "decência" e "boa fé" quando recordo minhas primeiras experiências como jovem repórter no Vietname: a observar hipnoticamente como a pela cai de crianças camponesas submetida ao napalm tal como velho pergaminho e as crateras de bombas que deixaram árvores petrificadas e engrinaldadas com carne humana. O general William Westmoreland, o comandante americano, referiu-se ao povo como "termites". 

Portugal | A DESASTROSA PRIVATIZAÇÃO DA PROTECÇÃO CIVIL



Palavras do Tenente-Coronel Costa Mota, presidente da Associação de Oficiais das Forças Armadas ( AOFA ), em entrevista à TVI: 

É FÁCIL: em vez do negócios de milhões com aluguer de aviões, basta 

– dar meios aéreos à Força Aérea (que não os tem) 
– dar dinheiro para combustível e manutenção (que não tem)
– dar mais meios humanos (que não tem, nem qualificação para combate a incêndios); 

LUCRO PARA PORTUGAL: 

– ficamos com os meios para Portugal, 365 dias por ano (e não na fase Charlie ou outra);
– a manutenção é assegurada 365 dias por ano pela Força Aérea (sem custos adicionais);
– os pilotos ganham o mesmo 365 dias por ano (o que ganham agora);
– o Estado deixa de gastar milhões de euros com privados. 

PORQUE É QUE A FORÇA AÉREA NÃO FAZ ISTO? 

– Porque os sucessivos governos não o quiseram... 

O vídeo deste entrevista está aqui (ver entre os minutos 21 e 25). 

Os negócios & negociatas com serviços de protecção civil (meios aéreos, Siresp, etc) resultam da desastrosa ideologia privatizadora que impera em Portugal. Esta levou a que o Estado se demitisse das suas funções e despertou a sanha do capital privado interessado em apanhar o botim. As dezenas de mortes verificadas nos incêndios florestais deste ano são consequência do neoliberalismo imposto há muito por governos PS, PSD e CDS. 

É preciso dar meia-volta.

Resistir.info

quinta-feira, 19 de outubro de 2017

Portugal | MATANÇA



Ora a perda de cem vidas humanas, nas circunstâncias em que ocorreu – dois picos de vagas incendiárias muito concentradas no tempo e imprevisivelmente diversificadas no espaço –, não é um acidente: é uma matança, um selvático assassínio em série.

José Goulão | AbrilAbril | opinião

Anuncia-se que, por ora, as chamas estão extintas; fazem-se os enterros, recolhem-se os salvados, secam-se as lágrimas, respeita-se o luto, limpam-se os destroços, recontam-se as poupanças – se ainda as há – deitam-se mãos à obra porque a vida continua e sempre é menos dura sob o abrigo de um tecto. Até à próxima.

Sem surpresa, e como já percebemos, agora segue-se a campanha feroz contra o governo, exigem-se cabeças de ministros, sobe de tom a troca de soundbitescomo balas, exercita-se a caridadezinha público-privada, provavelmente teremos de assistir às repugnantes práticas de necrofilia política dos que, habituados a tratar mal os vivos jamais respeitarão os mortos.

Cem mortos e dezenas de feridos é o rescaldo provisório da hecatombe dos incêndios deste ano em Portugal. Ano após ano, fogos florestais sempre houve; mas não há memória de uma tragédia humana com esta envergadura, de uma insegurança, de um sentimento de fragilidade e de terror que se estende a todos os cidadãos que habitam no território português.

Onde havia jogos sujos de madeireiros e se apostavam grandes interesses imobiliários e florestais tornou-se este ano comum o sacrifício de vidas humanas. Salta à vista, sente-se no peito, que o País ficou desestabilizado num tempo em que, finalmente, recomeçava a olhar em frente.

Escrevi há dois meses que as circunstâncias qualitativamente diferentes dos fogos deste ano exigiam abordagens, medidas e respostas diferentes. Lembrei o caso, também único, do Verão de 1975, quando a multiplicação de incêndios, então centralizados no Alentejo, tinha como objectivo político não apenas a destruição da Reforma Agrária mas também a expansão de um clima de pânico que forçasse o país e os seus habitantes a desejarem um recuo drástico na Revolução.

E admiti a hipótese de estarmos agora perante uma desestabilizadora operação de terrorismo puro e duro, uma prática que, embora não pareça a quem se regula pela comunicação social dominante, não se cinge às malfeitorias do Daesh, nem sequer ao universo do radicalismo islâmico.

PORTUGAL | As coisas estão mais complicadas para Costa



O governo Costa faz em novembro dois anos

Ana Sá Lopes | Jornal i | opinião


O Presidente da República fez, na noite de terça-feira, o melhor discurso que alguma vez foi feito no passado recente, em Portugal, por um chefe do Estado. Exatamente porque demonstrou, para quem ainda tinha dúvidas, para que serve um chefe de Estado. Vamos lá fazer o exercício de pensar que os 107 mortos dos incêndios mais as desastradas intervenções de Constança, Costa e Jorge Gomes se tinham passado em 2004 durante o governo Santana Lopes – o Presidente da República não teria esperado por esse inverno de 2004 para dissolver o parlamento. Teria tomado a decisão logo em outubro. 

António Costa sobreviveu politicamente aos incêndios de Pedrógão Grande, como o prova a extraordinária vitória que obteve nas eleições autárquicas. Mas vai ser mais difícil uma reconciliação popular depois do que se passou no domingo. Apesar de ontem, na Assembleia da República, António Costa parecer ter interiorizado algumas das lições da véspera da comunicação ao país de Marcelo – e a sua performance no debate parlamentar, despojado da arrogância e autossuficiência que o caracterizam, foi indiscutivelmente boa –, as coisas tornaram-se mais complicadas doravante. Se havia um antes e um depois de Pedrógão Grande, a fronteira agora aumentou substancialmente.

António Costa tem o problema de outros tantos primeiros-ministros que o precederam – Passos Coelho, Sócrates, Cavaco Silva, por exemplo, eram também profundamente teimosos e incapazes, a partir de um certo momento, de estabelecer uma relação com o mundo das pessoas normais.

A cápsula do poder tende a capturar a melhor das inteligências – e Costa é profundamente inteligente, ao ponto de ontem ter conseguido recuar no estado de dissociação da realidade que estava a revelar relativamente aos horríveis fogos de domingo.
O governo Costa faz em novembro dois anos. É menos do que governou Sócrates, Cavaco ou Passos Coelho. E nenhum deles, a começar por Sócrates, foi fustigado, num período tão curto, por um Presidente da República da maneira que Costa foi. Se isso lhe vai servir para adquirir uma qualidade que não lhe assiste – alguma humildade –, não se sabe. A bolha do poder e o permanente contacto com yes men não ajudam a um melhor programa.

Moção da oposição timorense contesta programa e forma insensata da formação do governo



Díli, 19 out (Lusa) - Os três partidos da oposição timorense subscrevem a moção de rejeição apresentada no parlamento nacional ao programa do Governo, contestando quer o conteúdo do documento quer a forma "insensata" como o executivo foi formado.

O texto de seis páginas da moção de rejeição está assinado pelos líderes das três bancadas da oposição, Arão Noé Amaral (CNRT), Fidelis Magalhães (PLP) e Luís Roberto da Silva (KHUNTO), que entre si representam 35 dos 65 deputados. O CNRT é presidido por Xanana Gusmão e o PLP por Taur Matan Ruak, dois líderes históricos do país.

A Constituição prevê a queda do Governo, liderado por Mari Alkatiri e apoiado pelos 30 deputados da Frente Revolucionária do Timor-Leste Independente (Fretilin) e do Partido Democrático (PD), se o programa for rejeitado duas vezes.

No documento os signatários referem que o Presidente da República nomeou um primeiro-ministro "sem se preocupar com a falta de uma maioria parlamentar" e afirmam que apesar de a decisão não ser inconstitucional é "politicamente insensata e imprudente".

Deveria o Presidente da República, argumentam, "ter procurado soluções alternativas de Governo com apoio maioritário no Parlamento Nacional, seguindo assim o exemplo dos seus antecessores".

PM timorense diz que teve garantia do CNRT de apoio a programa e Orçamento



Díli, 18 out (Lusa) - O primeiro-ministro timorense, Mari Alkatiri, disse hoje que Xanana Gusmão, presidente do maior partido da oposição, o CNRT, lhe garantiu apoio total ao programa e ao Orçamento do Estado, de que o Governo necessita por ser minoritário no parlamento.

"Xanana Gusmão disse-me que me ajudava a garantir o programa e o Orçamento do Estado. Eu disse que não tinha 33 deputados [a maioria] e ele disse: ´não te preocupes´", afirmou, numa intervenção no Parlamento Nacional.

Alkatiri disse que esperaria pelo regresso a Timor-Leste de Xanana Gusmão - está atualmente numa visita à Madeira - para que em conjunto possam explicar à sociedade timorense esses compromissos.

"Não há segredo. Esta é a realidade. Este é o compromisso com o irmão Xanana Gusmão e que agora divulgo", afirmou o líder do Governo.

Os comentários de Alkatiri, no terceiro dia consecutivo de debate sobre o programa do executivo no Parlamento Nacional, surgem numa altura em que a oposição maioritária se constituiu numa Aliança de Maioria Parlamentar (AMP) que quer ser alternativa de Governo.

2016 | SEBASTIÃO, EMPRESÁRIO PORTUGUÊS RAPTADO EM MOÇAMBIQUE… SILÊNCIO À NYUSI



Governo português “espreme” contraparte moçambicana exigindo esclarecimentos sobre o sumiço do seu concidadão há mais de um ano em Sofala

Portugal continua indignado com a alegada demora e o mutismo do Governo moçambicano em relação ao rapto de um cidadão lusitano, há 15 meses, na província de Sofala. Desde essa altura a esta parte, não se sabe o que é que aconteceu, efectivamente, ao cidadão em causa, facto que está a originar crispação entre os dois países. Aquele país acusa ainda o Executivo da chamada “Pérola do Índico” de estar a ignorar, há meses, as insistentes démarches da embaixadora de Portugal em Maputo, com vista a obter possíveis novos desenvolvimentos em torno do caso. E diz que o Governo do Presidente Filipe Nyusi decidiu, agora, pautar por aquilo que considera “um blackout quase absoluto”. E avisa que não se vai deixar vencer pelo cansaço.

Trata-se do empresário Américo António Melo Sebastião, raptado a 29 de Julho de 2016, no distrito de Marínguè, em Sofala, por indivíduos não identificados.

O seu paradeiro é desconhecido e o Executivo moçambicano não dispõe de nenhuma novidade. Por conseguinte, parece haver um profundo retraimento diplomático entre Portugal e Moçambique.

ANGOLA | Estado de graça



Luísa Rogério | Jornal de Angola | opinião

O Presidente João Lourenço regressou à instituição que se inscreve, em caixa alta, no seu percurso político.

Foi deputado, presidente do Grupo Parlamentar do MPLA e, por último, 1º Vice-Presidente da Assembleia Nacional. João Lourenço entrou pela porta grande do sumptuoso edifício do Parlamento, e pela primeira vez na condição de Presidente da República, com o propósito de falar sobre o Estado da Nação. Desse modo, deu-se cumprimento ao disposto no artigo 118º da Constituição da República de Angola. 

O discurso, considerado transversal sob os diferentes pontos de vista, terá ido ao encontro das expectativas de sectores distintos da população, incluindo os mais críticos. Em diferentes plataformas, diz-se, e com destaque para as redes sociais, que o Presidente tocou em pontos chaves. Em linhas gerais, disse aquilo que muita gente desejava ouvir, que outros tantos não esperavam ouvir tão cedo.

João Lourenço inspirou o seu discurso na premissa da resolução dos problemas do povo, tendo reiterado o foco do mandato numa aposta maior no sector social e na diversificação da economia. A coragem para “melhorar o que está bem e mudar o que está mal, com a serenidade e a firmeza”, segundo as palavras do Presidente da República, esteve omnipresente no discurso que traçou as linhas mestras do programa de governação para os próximos cinco anos. 

A primeira comunicação, depois do acto de posse, deu vazão a vários ângulos de análise, apesar de nem todos espaços mediáticos os terem explorado de forma exaustiva. A identificação dos elementos fulcrais, denominados “desafios da mudança”, esteve bem patente na abordagem madrugadora que deixou recados políticos muito claros.

HÁ QUE PÔR FIM A “UMA SAÚDE MERCENÁRIA EM NOME DO MERCADO”!



Martinho Júnior | Luanda

Desde 2007, quando se começaram a melhor detectar os impactos na saúde angolana das questões que se prendem aos comportamentos típicos do capitalismo neoliberal, que tenho vindo a espaços a chamar a atenção para a impraticabilidade e amoralidade relativas do que se tem vindo a fazer.

Desde o primeiro ano de independência que no sector da saúde interesses egoístas e privados têm vindo a provocar desgastes a todos os níveis ao sistema de saúde do estado angolano, mas foi a partir de 2002 que no âmbito da “terapia neoliberal”, esses desgastes mais se têm evidenciado, por que foi a partir desse ano que o estado mais investiu na saúde nacional!

A delapidação do património e o desvio de medicamentos têm sido uma constante ao longo dos tempos, uma prática impune que socorre as iniciativas privadas dos mercenários!

Há que dar urgentemente combate a essas práticas!

Por isso há que, de forma abrangente, se chamar a atenção de todos os angolanos PARA UMA CUIDADA REFLEXÃO!

Os impactos neoliberais têm atingido Angola, provocando desequilíbrios e fazendo aumentar o fosso das desigualdades!

Há toda a necessidade patriótica e humana de reverter essa situação!

No "ESTADO DA NAÇÃO" pronunciado pelo Presidente da Republica camarada João Lourenço, há um indicador a ter em conta: começar a impedir que alguns impactos neoliberais causem mais estragos para além dos que já provocaram!

Para Angola, o mais importante continua a ser RESOLVER OS PROBLEMAS DO POVO!

Boaventura: A ILUSÓRIA “DESGLOBALIZAÇÃO”



Não nos enganemos: vitória de Trump e Brexit expressam uma nova fase de globalização – mais dramática, mais excludente e talvez capaz de eliminar a democracia

Boaventura de Sousa Santos | Outras Palavras | Imagem: Adrian Paci, Centro de Permanência Provisória (2007)

Em círculos acadêmicos e em artigos de opinião nos grandes meios de comunicação tem sido frequentemente referido que estamos entrando num período de reversão dos processos de globalização que dominaram a economia, a política, a cultura e as relações internacionais nos últimos cinquenta anos. Entende-se por globalização a intensificação de interações transnacionais para além do que sempre foram as relações entre Estados nacionais, as relações internacionais, ou as relações no interior dos impérios, tanto antigos como modernos. São interações que não são, em geral, protagonizadas pelos Estados, mas antes por agentes econômicos e sociais nos mais diversos domínios. Quando são protagonizadas pelos Estados, visam cercear a soberania do Estado na regulação social, sejam os tratados de livre comércio, a integração regional, de que União Europeia (UE) é um bom exemplo, ou a criação de agências financeiras multilaterais, tais como o Banco Mundial e o FMI.

Escrevendo há mais de vinte anos1, dediquei ao tema muitas páginas e chamei a atenção para a complexidade e mesmo o caráter contraditório da realidade que se aglomerava sob o termo “globalização”. Primeiro, muito do que era considerado global tinha sido originalmente local ou nacional, do hamburger tipo MacDonald’s, que tinha nascido numa pequena localidade do meio-oeste dos EUA, ao estrelato cinematográfico, ativamente produzido no início por Hollywood para rivalizar com as concepções do cinema francês e italiano que antes dominavam; ou ainda a democracia enquanto regime político globalmente legítimo, uma vez que o tipo de democracia globalizado foi a democracia liberal de matriz europeia e norte-americana e, na versão neoliberal, mais norte-americana que europeia.

Segundo, a globalização, ao contrário do que o nome sugeria, não eliminava as desigualdades sociais e as hierarquias entre os diferentes países ou regiões do mundo. Pelo contrário, tendia a fortalecê-las. Terceiro, a globalização produzia vítimas (normalmente ausentes dos discursos dos promotores do processo) que teriam agora menor proteção do Estado, fossem elas trabalhadores industriais, camponeses, culturas nacionais ou locais, etc. Quarto, por causa da dinâmica da globalização, as vítimas ficavam ainda mais presas aos seus locais e na maioria dos casos só saíam deles forçadas (refugiados, deslocados internos e transfronteiriços) ou falsamente por vontade própria (emigrantes). Chamei a estes processos contraditórios globalismos localizados e localismos globalizados. Quinto, a resistência das vítimas beneficiava por vezes das novas condições tecnológicas tornadas disponíveis pela globalização hegemônica (transportes mais baratos, facilidades de circulação, internet, repertórios de narrativas potencialmente emancipatórias, como, por exemplo, os direitos humanos) e organizava-se em movimentos e organizações sociais transnacionais. Chamei a esses processos globalização contra-hegemônica e nela distingui o cosmopolitismo subalterno e o patrimônio comum da humanidade ou jus humanitatis. A mais visível manifestação deste tipo de globalização foi o Fórum Social Mundial, que se reuniu pela primeira vez em 2001 em Porto Alegre (Brasil) e do qual fui um participante muito ativo desde a primeira hora.

quarta-feira, 18 de outubro de 2017

AMIGOS DOS INCÊNDIOS | PSD e CDS-PP cortaram mais de 20 milhões na defesa da floresta



O anterior governo, com Passos Coelho como primeiro-ministro e Assunção Cristas como ministra das Florestas, cortou o orçamento do Instituto de Conservação da Natureza e das Florestas (ICNF) em um quarto, entre 2011 e 2015.

O orçamento de despesa da entidade pública responsável pela gestão do património florestal do Estado e das áreas protegidas foi altamente afectado pelos cortes orçamentais do anterior governo. Entre 2011 e 2015, o orçamento caiu mais de 25%, passando de mais de 82 milhões de euros para pouco mais de 61 milhões durante esse período.

A fusão da Autoridade Florestal Nacional e do Instituto de Conservação da Natureza e da Biodiversidade em 2012, que criou o Instituto de Conservação da Natureza e das Florestas (ICNF), resultou num corte de 10 milhões de euros no seu financiamento, logo no primeiro ano completo do governo do PSD e do CDS-PP, com Passos como primeiro-ministro e Cristas como ministra da tutela.

Até à derrota eleitoral de 2015, o orçamento do ICNF foi sofrendo cortes sucessivos, perdendo outros 10 milhões de euros até ao final da legislatura. O orçamento para investimento foi o que mais sofreu a partir de 2013: nesse ano passa de 9 para 3 milhões de euros; em 2014 é praticamente obliterado, passando para 500 mil euros.

Foi a queda do anterior governo que permitiu aumentar, ainda que de forma muito insuficiente, o investimento na defesa da floresta contra incêndios e, particularmente, no funcionamento das equipas de sapadores florestais. Os cerca de 14 milhões de euros anuais reservados para a defesa da floresta contra incêndios durante os anos do PSD e do CDS-PP passaram a 32 milhões em 2016 e, no caso das equipas de sapadores florestais, o compromisso financeiro para o seu funcionamento passou de 9 para 26 milhões de euros.

Mas aqui fica também evidente a falha na concretização das medidas, já que este reforço das equipas de sapadores florestais, apesar de prevista nos plano do Fundo Florestal Permanente do ICNF de 2016 ainda não foi concretizada.

AbrilAbril

64 MAIS 42 IGUAL A 106… | Fogos, incompetência e pouca-vergonha invadiram Portugal



É fácil de somar mas é muito doloroso de sentir a amargura da perda de vidas humanas por desleixo e incompetência dos que em principio deviam servir o Estado. 

64 mais 42 totaliza 106. Para já esse é o balanço ainda provisório das vidas humanas que morreram esturricadas pelos fogos que lavraram em Portugal desde Pedrógão, em Junho, até agora, em Outubro. Pode ler aqui a última atualização, em Notícias ao Minuto: Proteção Civil confirma: Incêndios do fim de semana fizeram 42 mortos

O atual governo, com o primado de António Costa, levou com todas as culpas pelo sucedido. A oposição, CDS e PSD, eleitoralistas, procuraram fazer uma “lavagem” ao facto de terem sido governo durante décadas e nunca levarem a sério o  cadastro e ordenamento do território nem de fazerem as reformas adequadas das florestas. Nunca deitaram as mãos ao fenómeno da desertificação do território devido à migração do interior para o litoral. Muito pouco ou nada se preocuparam com o desenvolvimento do interior de Portugal e consequente fixação de indústria e demais atividades económicas que também fixassem os oriundos dessas regiões nas terras onde nasceram. Obviamente que ao PS cabe também tais responsabilidades do passado porque junto com CDS e PSD foram por décadas governo, contudo as lágrimas de crocodilo hoje vistas e as palavras ocas hoje escutadas no debate parlamentar pelos três partidos do denominado “arco da governação” não passaram de um exercício de hipocrisia, de lavar as mãos sobre a tragédia de que todos eles são responsáveis diretos e indiretos, política e moralmente. Responsáveis de facto. Indignos atores num drama que só por ser tão terrível não possui a mínima hipótese de virar por uns segundas em comédia. Por isso aqui tem o debate ou o arremedo de algo kafkiano que para além da tristeza nos carrega de mágoa, repulsa e revolta. Leia, se não conhece a “peça”: Debate: Das "desculpas" de Costa, às acusações à "ministra do eucalipto"

Entretanto a ministra da Administração Interna demitiu-se, e Costa teve de aceitar a demissão. Não se percebe a razão porque não aconteceu antes, visto que no dizer da ministra “já antes tinha manifestado ao PM Costa a intenção de se demitir”. Bem, mas para os portugueses diziam exatamente o contrário. Trapaceiros, vilões, estúpidos que ao longo dos anos ainda não perceberam que a mentira tem a perna curta – diz o povo e é verdade. Não por acaso, para uma vasta maioria de portugueses, Passos Coelho não é mais nem menos que um grande aldrabão. E agora temos Costa, com esta da ministra Constança. Ex-ministra, já. Nada fica por aqui, o secretário de Estado da Administração Interna também confirmou que está demissionário. Pudera. E agora faltam os restantes responsáveis de organismos que deviam evitar esta calamidade. Demitam-se. Proteção Civil, bombeiros, comunicações, etc, etc. Para já saem a ministra e o secretário de estado. Saiba aqui: Após ministra, secretário de Estado confirma que também está de saída

Por hoje a abordagem finda aqui. Desejamos profundamente que não nos apareçam mais notícias de mais vítimas mortais. 106, na senda assassina e destruidora dos fogos e da incompetência e abandono do Estado para com os seus cidadãos, já é demasiado e uma enorme vergonha.

Há muito tempo que está mais que provado o falhanço escandaloso dos partidos políticos integrantes do tal “Arco da Governação”, CDS, PSD, PS. Que tal memória nunca mais se apague.

MM | PG

terça-feira, 17 de outubro de 2017

IRRACIONALIDADE HUMANA!



 Martinho Júnior | Luanda  

... “Una importante especie biológica está en riesgo de desaparecer por la rápida y progresiva liquidación de sus condiciones naturales de vida: el hombre.

Ahora tomamos conciencia de este problema cuando casi es tarde para impedirlo”…

… “Cesen los egoísmos, cesen los hegemonismos, cesen la insensibilidad, la irresponsabilidad y el engaño.
Mañana será demasiado tarde para hacer lo que debimos haber hecho hace mucho tiempo”.


1- Por incrível que possa parecer a um extraterrestre recém-chegado à Terra, ainda que sábio conhecedor das infinitas linguagens da nossa Torre de Babel, o homem está hoje em unidade, com os sentidos em uníssono nas coisas que ao espaço dizem respeito em pleno século XXI, mas dilacera-se à superfície, na agónica atmosfera, como nas profundezas do subsolo, como se estivesse no século XII, ou XIII, ali onde se sente feudalmente sugado até à morte…

Será um efeito da gravidade do misterioso planeta azul que é sua casa comum?…

Mesmo que o extraterrestre conseguisse decifrar todas as linguagens e gestos humanos, ser-lhe-ia indecifrável esse comportamento do homem com os pés no chão e consciência no espaço, mesmo que percebesse muito de psicologia, de sociologia, da antropologia, de história, de economia, de finanças e até do homem voltado para a fascinação exterior…

A Terra assemelha-se de facto, com essa humanidade, neste ano da graça cristã de 2017, a uma azotada nave de loucos!...

LÍDERES EUROPEUS SEM FILHOS, SEM INTERESSES DIRETOS NO FUTURO DA EUROPA



Alberto Castro*, Londres

CURIOSO!

Phil Lawyer fez um balanço sobre os líderes da Europa

O recente eleito presidente da república francesa, Macron, não tem filhos
A Chanceler, Angela Merkel, não tem filhos
A PM do Reino Unido, Theresa May, não tem filhos
O PM de Itália, Paolo Gentiloni, não tem filhos
Mark Rutte da Holanda, não tem filhos
Stefan Lofven, da Suécia, não tem filhos
Xavier Better, do Luxemburgo, não tem filhos
Nicola Sturgeon, da Escócia, não tem filhos
Jean-Claude Juncker, Presidente da CE, não tem filhos

Portanto, um grande número de pessoas que tomam decisões sobre o futuro da Europa, não tem quaisquer interesses diretos nesse futuro!

*Alberto Castro é correspondente de Afropress em Londres e colabora em Página Global

As dores dos sobreviventes | O FOGO, A SOLIDARIEDADE E A MORTE



Manuel morreu a lutar pelo amigo enquanto, sem saber, a sua casa também ardia

O telefone tocou e Manuel saltou da casa, sem hesitar. Perderia a batalha contra as chamas. O fogo que deixou um rasto de escuridão em muitos lugares matou cinco pessoas em São Joaninho, Viseu.

Maria Helena secava as lágrimas invisíveis à conversa na berma da estrada com um homem sentado na mota, com o capacete enfiado na cabeça e a voz gasta. Santa Comba Dão, em Viseu, está como muitos lugares da região centro. As matas estão mais magras, o chão fuma e não deseja ser mais pisado, os muros das casas transformaram-se em muralhas e os troncos estão da cor da alegria da terra. Os caminhantes caminham à procura de mensageiros da fortuna. Outros lamentam-se. Maria Helena diz que foi um pesadelo. Uma vizinha até lhe pediu ajuda para tirar os animais sem vida do barracão que ardeu. Não teve coragem. Ainda não tem.

Esta zona está praticamente toda sem comunicações. Nem nos correios foi possível fazer um telefonema. Há gente no estrangeiro em sobressalto, há más notícias por dar, há alívios por aliviar. Nada. Quase nada. Quando interrompidos ou questionados sobre as coisas, que teimam descrever como "nunca visto", o tom é sempre terno, de quem prefere aproximar a afugentar. É meigo. Ou talvez derrotado. Puxa os olhos para o chão, os ombros têm menos confiança hoje, a ressaca da desgraça.

A TSF continua a percorrer aquelas estradas onde apenas as lembranças têm cor. As conversas são todas sobre o mesmo. Há prantos a dois em supermercados. Há palavras feias apontadas aos governantes. Contam-se histórias e fados, revelam-se paradeiros e os caprichos crus da morte. Percentagens de corpos queimados. Foi-se quase tudo. A terra onde as batatas luziam, as couves ganhavam músculo, os animais levavam a sua vida. Foi-se a terra da gente que fazia daquela gente a gente da terra. Quase tudo se perdeu. A esperança, outra desaparecida entre as chamas. Resta a solidariedade do povo.

O telefone de Manuel, em São Joaninho, tocou a uma qualquer hora do dia. Era um amigo, estava aflito, as chamas ameaçavam a sua habitação. Manuel não pensou muito. Saltou da cama, deixou a hesitação para outros tempos e lá foi. Esteve na luta. Não saberia que a sua casa também seria invadida pelo fogo. A ignorância salvou a casa do amigo. Mas a besta não lhe poupou a vida. Este homem perdeu a batalha, sem lutar a sua, em nome da amizade.

Graça e Eduardo, mulher e marido, cunhados de Manuel, contam a história. Entrámos por acaso no café do casal, em busca do improvável que aconteceu: ter rede no telefone para ligar para a rádio. O incêndio levou cinco pessoas de São Joaninho.

"Era muito de ajudar", conta Eduardo, com as lágrimas nos olhos, sobre Manuel. Ver um velho derrotado, com o olhar perdido no nada, a contar os trocos na mão -- talvez uma muleta para se distrair e não chorar a valer --, promove o estômago ao estatuto de ginasta de alto gabarito das olimpíadas de 1976. A voz que o acompanha há 76 anos fala baixinho. "É assim, o que é que se há de fazer?", diz e voltaria a dizer.

Graça, 70 anos, estava mais serena, mas quanto mais falava mais lhe fugia o pensamento e a realidade lhe apertava os ossos. A voz tremia. Parava. Recomeçava. Lamenta-se das cinzas que lhe ocuparam a casa de banho do estabelecimento, que agora estava com água a mais. É um desgosto. O desconforto em não querer que os forasteiros vissem o cenário diz muito desta gente.

"É triste, é triste", suspira Eduardo. "Não tem havido luz e água. Tive de ir aos correios para ligar para França para falar com o família." Foi assim que lhes contou sobre Manuel. Enquanto conversávamos, chegam familiares. Os abraços e as lágrimas ocupam o palco. Não sabem quando é o funeral. Graça quase parece sentir-se culpada por isso. "Só se vê cabos destruídos. Destruiu tudo por onde passou. Vento, fumo e chamas", conta Eduardo, enquanto a esposa imitava o som do vento, furioso. "Vruuu, vruuu".

O fogo levou gente da terra, separou famílias, juntou famílias, queimou fotografias, formas de viver e meter o pão na mesa. "Sempre tivemos muita sorte aqui. Não me lembro de nada assim", sentencia Graça. "Eu vi logo. Como isto andava, ele vinha aí..."

Ele. Outra vez, é assim que o tratam nestes lugares. Quase dá para imaginar alguém a deixar um rasto de derrota e ruínas, com o pior que os homens levam nas veias. Ele matou terras e gente. Um homem morreu a lutar pela casa do amigo, enquanto a sua também ardia. Manuel não sobreviveu para viver o desgosto. Ele levou Manuel.

Hugo Tavares da Silva | REPORTAGEM TSF | Foto: Nacho Doce/Reuters (imagem não corresponde à reportagem) | Mais fotos no original | Título PG

CHE GUEVARA | Como é ser irmão do meu irmão



Quando passam 50 anos da morte de Che Guevara na Bolívia, o Expresso falou com Juan Martín, o irmão mais novo. Para quem Che é, acima de tudo, Ernesto. Ele quebrou um silêncio de décadas e escreveu um livro para o dizer

Ser ou não ser sempre fez a diferença. E ser ou não ser irmão de Ernesto Guevara de la Serna é algo avassalador. “Cada vez sou menos Juan Martín e mais o irmão do Che Guevara”, diz ao Expresso o mais novo dos quatro irmãos do Comandante. A família manteve um silêncio de meio século antes que Juan Martín Guevara, hoje com 74 anos, acedesse a falar sobre o que se passou. Sobre quem foi, de onde veio, o que fez, o que deixou, como morreu aquele homem que tantas vezes viu chegar e partir, até um dia o ver partir de vez. Sobre a circunstância de ser irmão de um mito, de um ícone tão indiscutível quanto vilipendiado. Falar custou-lhe a reprovação seca da irmã Celia, a segunda mais velha do clã. E a oposição acentuou-se quando escreveu, com a jornalista Armelle Vincent, o livro “Mon Frère, le Che”, publicado em França e já traduzido para 11 línguas — e acabado de sair em Portugal com o título “O Meu Irmão Che” (ed. Objectiva). “Ela estava mesmo contra isso. Sabe do livro e não gosta. Não me deixou de falar, mas há coisas de que é proibido falarmos. O livro é uma delas.” As suas mais de 300 páginas são apenas “um degrau” na decisão de procurar uma compreensão de Che diferente da “imagem distorcida, mítica e distante” que as pessoas têm dele.

Durante duas horas de conversa ao telefone desde a sua casa em Buenos Aires, Juan Martín Guevara evocou o seu famoso irmão, 15 anos mais velho do que ele. Lembrou-se de Ernesto, de Ernestito, de Teté — como só na família era conhecido —, de Fuser — diminutivo de “Furibundo [furioso] Serna” —, de Chancho, até à sua derradeira transformação em Che. “Costumo dizer que sou irmão de sangue de Ernesto e companheiro de ideias do Che. Nunca, nem eu nem os meus irmãos, sentimos nisso uma carga. O que não quer dizer que sempre tenha sido fácil. Não foi”, começa ele, que foi militante político e esteve oito anos preso durante a ditadura militar argentina e que passou por situações tão contraditórias como aquela que (conta) lhe aconteceu na cadeia. Estava a ser interrogado duramente por um polícia e pensou o pior. No fim, ele apenas comentou: “Que grande homem era o teu irmão! Pena que fosse de esquerda.”

A família Guevara de la Serna era, ela mesma, um poço de contradições. Possuía nome e antecedentes aristocráticos, mas andava sempre escassa de dinheiro e havia surgido de uma transgressão — o casamento entre Ernesto Guevara Lynch e Celia de la Serna y Llosa, que ocorreu contra a vontade dos pais dela. “Essa ideia da ‘família aristocrática e oligárquica’ do Che é uma parvoíce. A oligarquia define uma posição de riqueza e de poder. E a aristocracia tem a ver com o autoritarismo familiar. Ora, se bem que o resto da família fosse abastada, nós não tínhamos nem riqueza nem poder. Pelo contrário, pela inconstância do meu pai, estávamos sempre com dificuldades económicas. E certamente não éramos condicionados pelos hábitos tradicionalistas da linhagem. A minha mãe foi uma feminista sem o ser, antes do tempo. Fumava, vestia calças, cortou o cabelo, odiava a lida da casa, fazia o que lhe apetecia. Nem sequer se punha a pensar que a podiam questionar. Quem não gostasse que fosse dar uma volta. O meu pai era manipulador e egocêntrico e ligava mais à opinião dos outros. Mas, por outro lado, tinha muita lata. Era supersticioso e fazia coisas que eram muito estranhas aos olhos dos outros”, recorda Juan Martín.