25 ANOS DEPOIS!

 


Martinho Júnior, Luanda
 
1 – Faz 25 anos que Angola viveu experiências impressivas para a sua trajectória de jovem país africano e para a vida em toda a África Austral; de entre essas experiências há duas sintomáticas da evolução que se seguiria ao longo da década final do século XX e primeira década do século XXI:
 
- As “South Africa Defence Forces” do regime do “apartheid”, tirando partido da panóplia de bases na Namíbia ocupada e da sua posição de força em toda a região desencadeava a “Operation Modular”, em socorro de seus “apêndices” em Mavinga, numa altura em que as FAPLA procuravam exercer a soberania angolana em todo o espaço nacional e muito em particular no imenso sudeste do país.
 
- O estado angolano iniciava as transformações a que se foi sujeitando a partir de 1985, levando a julgamento os oficiais da sua segurança que ousaram, no seguimento de orientações, dar combate ao tráfico ilícito de diamantes e à panóplia de interesses que agiam nesse âmbito e com essa cobertura, entre eles alguns interesses externos contra a orientação socialista de então.
 
2 – A tendência de muitos analistas, observadores e até historiadores é para estudar os fenómenos sem os correlacionar e sem correlacioná-los com a conjuntura global e sua evolução no espaço e no tempo; no entanto o que estava a acontecer em Angola e em toda a região, era já sintomático das transformações que ocorriam no mundo e em função disso chamo desde logo a atenção para o facto de que o que se passava a nível interno do estado angolano, tocando seus próprios instrumentos de poder, ser indissociável em relação aos acontecimentos que se desenrolavam na região ainda contaminada pelo regime do “apartheid” e seus “apêndices” (os “bantustões” e os “freedom fighters” afins), assim como era indissociável da evolução global, tendo em conta muito em particular os fenómenos que ocorriam nos países socialistas do leste da Europa e na própria URSS.
 
A “globalização” em função da hegemonia do império, explorando a lógica capitalista e o neo liberalismo, estava já em curso, depois dos ensaios na América Latina da “Escola de Chicago” tendo Milton Friedman como ideólogo e figura de destaque.
 
Karl Popper e a “Oppen Society” do “especulador-filantropo” George Soros viriam em tempo oportuno em seu socorro quando se acelerou o processo de implosão nos países socialistas, tudo sob a supervisão dos serviços de inteligência ao dispor da hegemonia e das multinacionais afectas ao domínio, tirando partido da multiplicidade de culturas indexadas à dominante cultura anglo-saxónica.
 
Se em Angola se iniciavam as transformações que iriam pôr de lado as pretensões socialistas, o regime do “apartheid” por seu turno entrava no seu período final e mais crítico, daí a intensidade dos combates que ocorreriam em Mavinga e Cuito Cuanavale, precisamente numa enorme área reclamada para prospecção por parte da De Beers!
 
Se os países do socialismo real estavam a ser intestinamente tocados, também o movimento de libertação em África se iria ressentir, pelo que as transformações se coadunavam com a lógica capitalista prevalecente: para ela sair em vantagem, a hegemonia podia tirar partido da luta entre contrários levados ao antagonismo e à guerra e, entre uma tese como a do movimento de libertação e uma antítese como a do “apartheid”, a síntese da “democracia representativa”, com as sociedades abertas aos interesses neo liberais, tornava-se de realização possível – seria por essa via que se conduziria a “globalização” ao sabor da aristocracia financeira mundial, das oligarquias e das elites formatadas, conforme às lições resultantes das experiências realizadas na América Latina, como conforme às lições que as culturas elitistas detinham em África, tendo como ponto de partida as experiências “incontornáveis” de Cecil John Rhodes… “do cabo ao Cairo”!...
 
3 – Desde então passou a ser indispensável a formação das novas elites africanas, aferidas ao padrão das “democracias representativas” e aptas para o continuado exercício de poder, se possível prevendo as suas alternâncias, pelo que o processo angolano, como de todos os componentes da SADC, deu passos imediatos nessa direcção a partir de 1985.
 
As doutrinas socialistas no quadro do movimento de libertação serviam ainda para fazer frente à besta do “apartheid”, mas mesmo sendo elas doutrinas que visavam a construção da paz, seguindo uma trilha de equilíbrio, de harmonia e de luta contra o subdesenvolvimento, ficaram à mercê da lógica capitalista que passou a iluminar os mentores do poder de estado vocacionado para o “mercado” das sociedades de consumo, até por que a reconstrução e a reconciliação nacionais iriam estabelecer o plasma para as integrações ao mesmo tempo que poderiam absorver os interesses provenientes do exterior.
 
Como sustentáculo da sua projecção em Angola, a “globalização” iria tirar partido do petróleo e da indústria mineira, sobretudo dos diamantes, binómio esse que seria alvo das disputas que levariam à “guerra dos diamantes de sangue”, que só teve fim com a morte de Savimbi em 2002.
 
Savimbi aproveitou o episódio das transformações dos instrumentos do poder de estado, sintomático na prisão dos oficiais que haviam levado a julgamento os traficantes do 105/83, para ocupar um espaço que só lhe foi possível graças ao “laxismo” e falta de prevenção do poder angolano, ele próprio também “aberto” em relação às possibilidades de “privatização” em relação à exploração e comércio dos diamantes: os recursos já não eram para benefício do povo por via do estado e desse modo, ocupar o espaço dos diamantes aluviais tornou-se-lhe apetecível ao ponto dos diamantes poderem financiar a tentativa de tomada do poder pela guerra!
 
Os dois contendores utilizaram os recursos (o petróleo dum lado, os diamantes do outro), como “barricadas”, até por que as explorações de uns e de outros eram em território distinto: o petróleo era junto ao litoral e os diamantes bem no “interior profundo”!...
 
O cartel dos diamantes tentou por via de Savimbi, encontrar soluções para chegar ao poder em Angola numa posição privilegiada e, não o conseguindo por via da guerra, haveria de o alcançar em condições satisfatórias por via da inteligência, no momento em que a “síntese” se tornou possível.
 
O “modelo” da “globalização” em Angola e em toda a África Austral, em função dos interesses e conveniências da aristocracia financeira mundial e da sua hegemonia, em função do império, iria apropriar-se da necessidade da paz que fazia parte da essência do socialismo e aproveitar esse fundamento para, depois do vazio criado pelo desalojar das correntes que se prontificavam a realizá-la, fazer coincidir isso com o final das grandes conflagrações militares: o socialismo serviria para ir até ao fim das guerras, mas já não serviria para protagonizar a paz enquanto doutrina dominante, ou mesmo de doutrina com reflexos no poder!
 
4 – Com a síntese entre os contrários, os frutos estavam maduros para os “jogos africanos” no espaço definido pela lógica capitalista e à mercê do domínio da hegemonia, tirando partido das suas tradições na África do Sul desde a formação da União Sul Africana.
 
Mesmo que o “cartel” dos diamantes aproveitasse dos lucros conseguidos com a “guerra dos diamantes de sangue” que se foi estendendo a toda a África em conexão com as disputas sobre outras riquezas, havia vida para as elites e para o elitismo para lá do fim do socialismo e do regime do”apartheid”, pois para a lógica capitalista ambas as correntes estavam condenadas, até por que acabaram por ter sido colocadas no mesmo pé, com toda a injustiça histórica que isso implica!…
 
A hegemonia fazia os seus cálculos e prevenia-se: o “apartheid” morreria, mas o socialismo tinha que ser neutralizado, pois era importante preveni-lo por ser um risco insuportável para a aristocracia financeira mundial; era uma doutrina essencialmente vocacionada para a paz, mas a paz do império era indissociável da formação de elites concentrando poder “sincronizado” – político, económico e institucional!
 
A síntese havia de propiciar espaço para a paz da “democracia representativa”, o que seria providencial para essa afirmação das elites, uma vez que a lógica capitalista iria fazer, nesses termos, o resto.
 
5 – Se houve alguém que teve a percepção disso foi Jaime Nogueira Pinto, um “cristão democrata” assumido da vida política portuguesa, que na sua juventude foi da FRA, Frente Revolucionária de Angola (de extrema direita “branca”), seguidor e fomentador dessa pista, por que também era pessoalmente interessado nas riquezas do continente, como nos seus ricos (página 27 do seu livro)…
 
Num esclarecedor “instrutivo” relacionado com a projecção de Afonso Dhlakama em Moçambique, escreveu a páginas 211 do seu “compêndio”:
 
… “Fomos desenvolvendo outras acções em seu favor, sempre no sentido de uma maior abertura e respeitabilidade como caminho para a paz. Era aliás o que ouvira e vira praticar a Franz-Joseph Strauss em relação à Alemanha do Leste e ao mundo comunista: abrir-lhes as portas e os créditos para os levar a entrar no jogo. Se o processo fosse bem conduzido acabariam por lhes tomar o gosto”…
 
6 – O “instrutivo” não ficou naturalmente por aí, pelo que a sua aplicação a Angola no momento da síntese é esclarecedor; eis o que escreveu a páginas 524:
 
… “As cartas que íamos pondo na mesa enquanto discorríamos eram iguais às lançadas naquele pequeno almoço no Cosmos com Crocker e Cleary, logo após a morte de Savimbi, mas parte das incógnitas de então estavam já resolvidas: não houvera fragmentação da UNITA, a guerra acabara de vez e José Eduardo dos Santos escolhera a via pragmática de poupar os quadros sobreviventes da UNITA e com isso acelerara a pacificação. Mas ali em Luanda com Kansteiner, Dunlap e Dell, como em Washington com Crocker e Cleary, não resistimos a entrar pelo caminho das memórias e das histórias que faziam a nossa história em África. E naquele tom meio técnico, meio distante, ora empenhado, ora vago com que quase sempre falamos, também por pudor, das coisas importantes, fomos contando as mãos jogadas e as sortes do jogo.
 
Depois, deixámos o Coconuts por entre seguranças, jipes e música, e enquanto seguíamos no cacimbo e na amálgama de luz e som das noites de Luanda, voltei àquela manhã de Washington em que também tínhamos feito as contas do jogo.
 
Despedíramo-nos então à porta do Cosmos, cada um partindo para i seu dia. Eu tinha ido a pé pela Wisconsin e descido pela Connecticut até Downtown, passando pelos escritórios das firmas que representavam os governos do mundo junto das instâncias do Império e onde Santos e Savimbi também tinham os seus lobbies. Mais abaixo, já perto da Casa Branca, pensara nos circuitos de comunicação, guerra e inteligência em que todos nos tínhamos enredado e nas teias que nos tinham prendido às guerras de África – primeiro no romantismo do fim do Império, depois como peões voluntários e independentes do Grande Jogo. À laia de emissários de resis desconhecidos e por vezes sob bandeiras estranhas, fôramos vivendo e tratando com bons e maus, com os Ignosis e os Tualas da Guerra Fria – e circulando entre os átrios dos poderes deste mundo e as periferias instáveis, passando sempre pela casa de partida”…
 
7 – Vinte e cinco anos depois daquela charneira de 1987, a percepção dos acontecimentos de então permite-nos melhor perceber o quadro de então e o actual, dez anos depois do calar das armas.
 
Houve a quem também se abriu “as portas e os créditos para os levar a entrar no jogo”, mas não gostaram, com razões muito fiáveis de quem não esteve disposto a determinado tipo de “jogos africanos”.
 
Houve quem assumisse compromissos assentes em princípios firmes por inteiro com o povo angolano e levasse a sua luta nessa direcção; por ter experimentado essa trilha, só possível como o movimento de libertação, ainda hoje faz disso seu compromisso e trincheira, em relação à qual “crédito” algum poderá demover.
 
Houve quem permanecesse numa outra “barricada”, aquela que alimenta o sentido de vida e por isso não teve ilusões em relação às “barricadas” efémeras do petróleo, ou dos diamantes, nem ilusão em relaçõ aos “jogos africanos” fossem eles de Jaime Nogueira pinto, de George Soros, de Frank Charles Carlucci, ou de qualquer outro com essa matriz ou referência!…
 
Alguns deles foram até os primeiros a experimentar: pelas suas mãos logo em 1976 passaram imensas riquezas do seu país, que foram integralmente creditadas nas contas do seu estado; poderiam ter sido os primeiros ricos, dispostos aos “jogos africanos”, mas souberam não se vender, nem se comprometer!
 
Em 1976 detinham-se e julgavam-se os mercenários que não tiveram tempo de fugir, não se produziam nem se abria as portas a mercenários!
 
É legítima a posição desses justos: não são “pragmáticos” mercenários e os seus compromissos, são compromissos de paz, são-nos com sentido de vida e para toda a vida!
 
Em paz eles acham que humanizar a educação e a saúde são causas de solidariedade e internacionalismo imprescindíveis para se vencer o subdesenvolvimento com amor e as mais saudáveis expectativas em relação ao futuro!
 
A vida, para esse tipo de entidades, não tem preço e necessário se torna salvaguardá-la com todo o respeito que implicam a humanidade e a Mãe Terra!
 
8 – O compromisso com sentido de vida não pode deixar de ser responsável também em relação ao respeito que merece o passado de luta.
 
Esse compromisso dessa forma não corta com o passado, confere-lhe coerência e mantém a direcção em relação à necessidade de equilíbrio, de construção duma democracia para além da representatividade, com participação e cidadania, de solidariedade, internacionalismo e de luta contra o subdesenvolvimento.
 
À antiga rota de escravos, sucedeu-se um conjunto enorme de nações, em ambos os lados do Atlântico Sul, onde a imperatividade da luta contra o subdesenvolvimento tem sido uma constante da vida, dando também identidade e consolidação às independências para lá do içar de suas próprias bandeiras de há pouco mais de 200 anos a esta parte.
 
Em Angola os resgates históricos não acabaram com o final da guerra e necessário se torna que as vitórias contra o colonialismo, o “apartheid” e as suas sequelas, não terminem num mero “1 homem, 1 voto”, ainda por cima quando isso ocorre numa lógica capitalista elitista sistematizada em relação à exploração dos recursos, relativamente tímida em relação às indústrias e tecnologias e com fins lucrativos, especulativos, ou incentivando tráficos, uma lógica que pela via do império e de sua “globalização” se abre aos interesses da aristocracia financeira mundial.
 
África existe para o colonialismo, tanto como para o neo colonialismo, como fonte de matérias-primas e pouco mais, pelo que esse quadro não é admissível nos termos da legitimidade do renascimento africano, numa sustentação da lógica com sentido de vida!
 
9 – A luta contra o subdesenvolvimento implica pois a necessidade dos relacionamentos com as emergências, em especial aquelas que fluem Sul-Sul, precisamente na mesma altura em que estão em causa as relações desiguais impostas por essa aristocracia, tão profunda e barbaramente sentida em África desde os alvores do capitalismo moderno e depois tanto com a sua revolução industrial, como com a revolução tecnológica dos últimos dias.
 
Com esse enquadramento Angola não perde o passado histórico de relacionamento com Cuba Revolucionária durante as horas difíceis do parto da independência e primeiros anos de sua afirmação, por que Cuba Revolucionária deu sequência aos ganhos de sua Revolução, apesar do bloqueio com mais de 50 anos, em relação às questões fundamentais da educação, da saúde e da investigação de acordo com as necessidades humanas e planetárias.
 
A lógica capitalista está historicamente associada à escravatura, ao fascismo, ao colonialismo, ao “apartheid” e às suas sequelas, restando como um factor dissuasor do progresso para todos, do aumento do conhecimento científico e tecnológico para todos, dissuasor da implantação de indústrias e tecnologias em função dos equilíbrios e do interesse de todos, retrógrado em relação ao desenvolvimento sustentável, às tecnologias que se disseminam com base nas energias renováveis, enfim fomentadora de desequilíbrios e injustiças sociais, como ainda retrógrado em relação à saúde e educação dos povos!
 
É nessa lógica que ocorre a apropriação da natureza e por isso em África as poderosas elites fazem surgir uma das suas últimas “invenções”: os “Peace Parks”, alguns deles transfronteiriços, onde podem desfrutar de todas as benesses modernas em estreita integração nos ambientes mais selvagens, mantendo, tal como acontece noutros sectores de actividade, natureza e mão-de-obra barata ao dispor e para seu exclusivo uso, “benfeitoria” e serviço!
 
É nessa lógica em que se registam 66% de pessoas letradas com tanto analfabetismo ainda por combater!
 
É nessa lógica capitalista que como colmeias vão surgindo os “condomínios murados” que trazem para a geografia humana das grandes cidades o cunho visível do “apartheid social”, fórmula que só pode surgir com o avolumar das injustiças sociais!
 
É nessa lógica capitalista que, apesar da construção, da reconciliação e da emergência, Angola possui ainda, segundo alguns, cerca de 27% de desemprego da sua população activa!
 
É por via dessa lógica capitalista que tende a explodir o “vulcão” sul africano!...
 
Angola merece a hora dos saudáveis oportunidades em função dos sacrifícios de sangue consentidos nas longas lutas que travou e por isso deve-se voltar ainda sobre si própria e descobrir as fórmulas e os métodos para um resgate que vai ser longo, um resgate que além do mais terá de buscar equilíbrio, cidadania, participação e justiça social e não se perca o que para África é tão importante – um amplo e coerente renascimento do continente-berço, assumido e com toda a legitimidade!
 
A atenção para com alguns extractos sociais, como as crianças, as mulheres, os jovens e os antigos combatentes deve ser uma constante dessa afirmação!
 
A mobilização de meios humanos, científicos e técnicos para resolução dos problemas do povo deve ser uma constante!
 
Os índices de mortalidade para as crianças e para as mulheres são ainda elevados; os índices de desemprego para os jovens são elevados e, quanto aos antigos combatentes é de lembrar que, sendo alguns deles dos primeiros nas frentes de batalha, estão a ser dos últimos a experimentar os benefícios da reconstrução e reconciliação nacional.
 
A lógica com sentido de vida é a energia mais potente que está presente desde o passado e irá estar presente em todas as pequenas vitórias que há que alcançar na longa luta contra o subdesenvolvimento e na construção duma economia efectivamente sustentável, assente e consciente no inventário real dos recursos e não no neo liberalismo promovido pelo capital em crise que alguns tentam impor a partir de fora e no momento em que se “abrem as portas”!
 
Vinte e cinco anos depois daquele ano de 1987, alimentar essa lógica com consciência crítica, é uma prova de paz, de amor, de coerência e de responsabilidade histórica que responde ao Programa Maior do movimento de libertação!
 
Martinho Júnior, Luanda
 
27 de Agosto de 2012
 
Gravura: - Gráfico da população angolana em 2008 / 2009: a população com menos de 40 anos é largamente maioritária; a tendência não teve expressiva alteração entre 2009 e 2012.