quinta-feira, 14 de janeiro de 2016

O LABORATÓRIO AFRICOM – XIV




Com as experiências adquiridas em São Tomé e Príncipe e Guiné Equatorial no seguimento do“Africa Oil Policy Innitiative Group”, o Pentágono tirou lições de articulação a partir das “Private Military Companies”, onde quer que fosse possível estender o poder da aristocracia financeira mundial, agenciadora de oligarquias e de elites.

As “Private Military Companies” aprestavam-se a um flexível leque de ingerências e manipulações maior que os meios militares de bandeira, em guerra como na paz.

Em guerra (como no Iraque), em paz (como em São Tomé e Príncipe e sobretudo na Guiné Equatorial).

Essa experiência seria muito importante para o “Laboratório AFRICOM”:

- Demonstrava previamente as capacidades a instalar no Comando África do Pentágono, integrando “componentes civis” fossem organizações governamentais como a USAID, fossem organizações não-governamentais, como por exemplo o “National Endowment for Democracy”, de forma aberta ou velada (conforme aos ensinamentos recolhidos com as “Private Military Companies” logo no início da “era Bush”);

- Possibilitava assim um maior empenho da panóplia de serviços de inteligência (CIA, DIA, NSA…) que passaram a ter opções e disponibilidades mais variadas e ao mesmo tempo, possibilidades de gestão integrada dos meios ao seu dispor e melhor sincronização na tomada de decisão em relação às actividades entrosadas, militares e civis entre sobretudo as potências anglo-saxónixas;

- Integrava nos dispositivos, as elites de forma a, ao moldá-las de acordo com os interesses e conveniências da aristocracia financeira mundial, agenciá-las e implantar seus próprios interesses e conveniências neo coloniais nos vulneráveis espaços nacionais e regionais africanos;

- Acoplava ao expediente a experiência “FrançAfrique” (para além do seu “pré carré”);

- Incentivava também os africanos e outros, às iniciativas instrumentalizadas nas “parcerias público-privadas” ao sabor do capitalismo neoliberal decorrente da hegemonia unipolar rampante e sem obstáculos.

Os conceitos que foram desenvolvidos pelo Pentágono no início do século em relação a África, conforme aos acontecimentos em São Tomé e Príncipe e Guiné Equatorial, acabaram também por moldar a CPLP:

- A Guiné Equatorial seria integrada nessa comunidade, sendo a oposição conservadora portuguesa “um filme” frouxo, com uma argumentação quase inóqua, perante as evidências insufladas pelo Pentágono (na verdade Portugal demonstrou-se muito obediente devido à inserção histórica na NATO desde a sua fundação, que não teve qualquer dúvida numa altura em que o Estado Novo era fascista e colonialista);

- A mensagem das articulações público-privadas estava lançada e passaria a ser influente em todos os membros da CPLP e particularmente em Portugal e em Angola, inclusive nos seus inter-relacionamentos bilaterais, “acomodando-se” à “The New World Order”!

A esta distância e no momento da eclosão duma IIIª Guerra Mundial não declarada que se reflecte hoje em Angola com o “fim da era Bush”, no momento em que na 70ª Assembleia Geral da ONU se pode constatar a eclosão da emergência multipolar, pode-se hoje fazer uma melhor avaliação do que escrevi em 2004, ainda no “ACTUAL”!

SÉCULOS DE SOLIDÃO, GUINÉ EQUATORIAL – “BÚFALOS FORA DE HORAS”

Menos de um ano depois do golpe de estado na vizinha República de São Tomé e Príncipe, (um golpe de estado que faz este mês o seu primeiro aniversário), que teve como eixo de sua concretização os remanescentes do “Batalhão Búfalo” naturais do pequeno arquipélago do Golfo da Guiné, um novo golpe de estado teve início em relação à República da Guiné Equatorial, ainda com remanescentes daquelas forças outrora alimentadas pelo regime do “apartheid”.

À falta de cidadãos naturais da Guiné Equatorial desta feita garantiu-se uma mobilização de cidadãos originários de vários países, entre eles angolanos (que foram aliás efectivo maioritário no“Batalhão 32” por força da sua origem, da história de sua aplicação e dos objectivos em relação aos quais foi garantido no quadro das SADF e dos serviços de inteligência do regime do “apartheid”).

Tal como o “expediente” relacionado com São Tomé e Príncipe, a iniciativa do golpe de estado na Guiné Equatorial não teve o rótulo duma “Private Military Company”, dadas aliás as características da acção, mas é justo notar que, quando os interesses em jogo precisam de garantir coberturas, ou dar um carácter mais oficial às iniciativas, então elas surgem pela via duma “PMC”; neste caso havia a conveniência das coisas se passarem em perfeita clandestinidade, pelo que uma vez mais se garantiu:


- O recrutamento de velhos efectivos que serviram no Batalhão 32, particularmente angolanos (o factor da língua era importante, pois na Guiné Equatorial fala-se o espanhol, castelhano, uma língua próxima do português).

- Ter também, uma vez mais a África do Sul como fulcro da “operação”, de acordo com factores políticos, económicos e sociais favoráveis a tal tipo de acção, bem como às “tradições” até hoje“preservadas” naquele país, em relação a antigas instituições e iniciativas.

Na África do Sul, “nação arco – íris”, apesar do fim do “apartheid” e da ascensão do ANC, a direita actuante que teve alicerces fortes quer nas SADF quer nos serviços de inteligência e da polícia sul africana, refugiou-se em círculos de pouco impacto político, mas conotados com os empreendimentos de segurança um pouco por todo o país, particularmente a segurança industrial ligada à poderosa e omnipresente indústria mineira.

Tendo as multinacionais mineiras da nebulosa da “Anglo American Corporation” e da “De Beers”,o comando de praticamente todas as acções no ramo e em muitos outros sectores de actividade na África do Sul, necessariamente os grupos de segurança assim formados depois do desmantelamento do “apartheid” e o advento dos Governos do ANC tendem a responder aos interesses que habitualmente servem dentro ou fora da África do Sul, independentemente das bandeiras, das nacionalidades e até das diferentes cores políticas e opções.

O sinal democrata, cujo “lobby” assenta nos interesses ligados à indústria mineira duma forma geral e nos interesses do cartel dos diamantes muito em particular, tem assim “tentáculos”perduráveis, naturalmente muito para lá do tempo útil do regime do “apartheid”, que foram sendo utilizados ao longo da década de noventa do século passado e ainda subsistem.

Aparentemente desgarrados dos contextos, eles garantem sempre conotações ascendentes de conveniência que convergem para a super estrutura financeira que tutela a própria globalização, pelo que a sua actuação comporta sempre as colorações próprias dos grupos de pressão existentes e aumentam a capacidade de manipulação em todas as conjunturas onde hajam estados enfraquecidos e vulneráveis, particularmente em África.

O “Consórcio Internacional de Jornalistas Investigadores”, um grupo de jornalistas-investigadores reconhecidos internacionalmente, (http://www.icij.org), realizou vários trabalhos sobre o tema das“PMC” e dos mercenários (um tema actual que está longe de ser encerrado, uma vez que os Estados Africanos continuam a dar mostras de serem fracos e vulneráveis em relação aos espaços nacionais e regionais circunvizinhos).

Uma das muitas conclusões a que chegou foi que a esmagadora maioria das “PMC” são de origem“anglo saxónica”: norte-americana , britânica e sul-africana, precisamente as potências-chave da“Commonwealth” à escala global e à escala da África sub Sahariana, tendo como raiz os critérios do imperialismo britânico dos finais do século XIX, sob o signo de Cecil John Rhodes.

“De facto, uma investigação levada a cabo durante dois anos pela ICIJ, identificou pelo menos 90 companhias militares privadas (conforme preferem ser conhecidos alguns mercenários deste novo milénio), que operavam em 110 Países espalhados pelo mundo. A maior parte dessas companhias providenciavam serviços a forças militares nacionais que incluíam treinos militares, inteligência, logística, combate e segurança em zonas de conflito, com quartéis-generais nos Estados Unidos, Grã Bretanha e África do Sul, muito embora o grosso dos seus serviços fosse prestado em áreas de conflito em África, América do Sul e Ásia” (in “Privatizing combat, The New World Order”).

Uma outra conclusão a que os jornalistas-investigadores infelizmente não tiraram na altura, parece ser a de que os golpes de estado contemporâneos envolvendo mercenários (alguns dos quais que já serviram em “Private Military Companies”), estão a ser muito mais profusos, por razões históricas e conjunturais, em países que se expressam em línguas latinas, em África pelo menos, que nos países que se expressam em língua anglófona, ou seja, é a partir de países que constituem os esteios da aristocracia financeira mundial e lhe servem como “correias de transmissão” a nível global e regional, que se estão a accionar dispositivos mercenários com maior ou menor cobertura legal e / ou oficial, tendo como alvo principal os países de fora da “Commonwealth”, o que é um dos factores principais de manipulação e da moderna pirataria.

Essa situação é sinónimo histórico do facto de, ao ter beneficiado com a revolução industrial da parte mais suculenta do planeta no período do Império Britânico e antes da descolonização, a“Commonwealth” tende a ser um dos instrumentos que dá cobertura aos interesses das multinacionais operadoras das explorações minerais, que podem operar em áreas onde os “lobbies”de sinal democrata estão em perda, em relação aos “lobbies” de sinal republicano, sincronizados com as multinacionais do petróleo.

No fundo implementaram-se artificiosos processos de manipulação que resultaram em ganhos para as “nervuras” que se prendem ao processo de globalização, por uma via ou outra e se no caso de São Tomé e Príncipe visava-se a consolidação da democracia representativa e a integração de agentes nas suas forças armadas, na Guiné Equatorial fica o sério aviso àqueles que mantendo o poder, ainda não puseram sequer em marcha o processo de implantação da democracia representativa, tão de conveniência dos poderes globais.

Esse “aviso” foi dado com recurso a mecanismos de pressão internos que contrataram os “velhos Búfalos”, apesar do regime da Guiné Equatorial procurar recorrer a “PMC” a fim de formar as suas forças armadas, aproveitando a formulação dos conceitos próprios do “AOPIG”.

Para colocar na Guiné Equatorial em posição vantajosa, uma “PMC” como a “MPRI”, recorreu-se aos “Búfalos”, mobilizando alguns dos efectivos que já fizeram também parte, muito provavelmente, doutra “PMC” como a “Executive Outcomes”, que publicamente terá deixado de existir.

Por outro lado, é evidente que entre uma “PMC” ao nível duma “MPRI”, norte-americana e uma“Executive Outcomes”, sul-africana que recorre à mobilização de antigos oficiais dos serviços de inteligência do regime do “apartheid” e de antigos efectivos do “Batalhão Búfalo”, os “lobbies” do petróleo estão a fazer tudo para imporem os primeiros, chegando até a conferir-lhes cobertura legal, colada às linhas de força de sua geo estratégia.

De facto e ainda segundo o artigo “Privatizing Combat , The New World Order”, por causa dos interesses do petróleo na Guiné Equatorial o “Military Professional Resources Incorporated”(“MPRI”), identificada como uma das mais poderosas e influentes empresas de mercenários, estará em vias de obter a sua completa legalização nos Estados Unidos e uma completa aceitação na Guiné Equatorial.

“O MPRI tem agora o poder do departamento legal da L-3 Communications por detrás e algumas vezes um departamento do governo fará o lobby em relação a outro, em benefício da PMC. Em Abril de 2001 um Relatório do Pentágono obtido pelo ICIJ referia que o MPRI podia precisar do nosso apoio na obtenção da … licença do Estado, necessariamente para o caso da companhia propor contratos a fim de treinar forças militares na Guiné Equatorial rica em petróleo, acerca do qual o Pentágono considerava tratar-se do Kuwait do Golfo da Guiné”.

( … )
“Charles Snyder, o Adjunto do Secretário de Estado para os Assuntos Africanos, disse que a renovação de licenças tais como as propostas para o MPRI em relação à Guiné Equatorial, tal como era considerado pelo seu staff, era algo valioso para a política norte-americana para aquela região: nós achamos que existe mérito ao se usar um contrato no exterior por que assim não estamos a empregar nem os uniformes americanos, nem nossos efectivos, disse. Um país como a Guiné Equatorial obterá possibilidades de treino onde quer que seja, então é melhor termos contratos norte-americanos no terreno. Por essa via pelo menos teremos conhecimento da informação de retorno tendo como base a informação oriunda de nossos profissionais, se os treinos tiverem ou não algum impacto”.

Movimentar os cenários desse modo é pois um objectivo em si dos grandes interesses, criando as ilusões que as manipulações e as por vezes artificiosas contradições geram e, nesse sentido, a utilização de observadores com interesses em vastas regiões com enorme capacidade de manobra, como Christian Rudolf Glaubrecht Hellinger, torna-se importante e “plenamente justificável”, especialmente quando esse tipo de personagens ganham capacidade em jogar em todos os tabuleiros, experimental e historicamente testados, independentemente das frentes, tal como seus eméritos professores, ao nível dos Rothschild, dos Oppenheimer, ou de Maurice Tempelsman.

 O aparente êxito dos serviços de inteligência da África do Sul, do Zimbabwe e de Angola, ao despoletarem a “ameaça fora de horas dos Búfalos” em relação à Guiné Equatorial, (o que não foi conseguido em relação a São Tomé e Príncipe faz agora um ano), não deixa de ser um processo perfeitamente condicionado que além do mais “responde à virtude” de não pôr em causa no sentido mais lato o terrível fenómeno do mercenarismo enquanto fenómeno do interesse da Nova Era Global.

Os “velhos Búfalos” terão caído num engodo que eles próprios muitas vezes souberam tão bem ajudar a criar quando respondiam às SADF, ao regime do “apartheid” e mesmo às multinacionais mineiras post Botha, para obter vitórias sobre seus adversários.

Os seus responsáveis não fizeram uma suficiente avaliação de forças, tanto no Golfo da Guiné quanto na própria África do Sul e apesar do passado recente em vigor em praticamente toda a década de 90, começam a haver indícios que o sinal democrata está a abandonar o recurso ao mercenarismo típico da segunda metade do século XX, entregando neste caso os deserdados“Búfalos” às feras e acatando a conveniência da ascensão duma “PMC” como o “MPRI” para o plano privilegiado das actuações no Golfo da Guiné.

Nenhum serviço de inteligência tanto de países da SADC quanto da África Central, ou do Golfo da Guiné que puseram em causa a actuação desgarrada dos “Búfalos” , apanhados a meio caminho e detidos em Harare, ousaram levantar sequer a mínima suspeita sobre a actuação do “MPRI”.

Com a actuação dos “Búfalos fora de horas”, os grandes interesses dão-se por satisfeitos com as obedientes respostas de todos os componentes regionais e na Guiné Equatorial, podemos quase estar certos que até a implantação tímida duma democracia representativa pode estar indefinidamente adiada.

Imagens:
- Localização da Guiné Equatorial;
- Simon-Man um dos chefes dos mercenários capturados na tentativa de golpe de estado na Guiné Equatorial;
- Publicação no ACTUAL nº 403 de 17 de Julho de 2004 – “Búfalos fora de horas”.

*Por engano publicámos primeiro O LABORATÓRIO AFRICOM – XV em data anterior, está convidado(a) a conferir e ler Martinho Júnior.

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