segunda-feira, 4 de abril de 2016

ANGOLA SOB O CHOQUE E A TERAPIA NEOLIBERAL




O cessar dos combates em Angola ocorreu há 14 anos, num país com 40 anos de independência e onde foi necessário travarem-se as justas lutas contra o colonialismo e o “apartheid” no âmbito da Luta de Libertação em África.

O momento do fim do “apartheid” na África do Sul, garantindo as independências da Namíbia e do Zimbabwe com processos mais ou menos atribulados, coincidiu praticamente com o fim do Pacto de Varsóvia e do bloco socialista do leste europeu, assim como com a implosão da URSS, o que não foi por acaso.

De facto a hegemonia unipolar tutora da globalização capitalista neoliberal, iniciada ao nível das grandes potências nos Estados Unidos com a administração republicana de Ronald Reagan e na Grã-Bretanha com Margaret Thatcher, ficou de “mãos livres” para explorar o êxito, impondo suas“correias de transmissão” neoconservadoras, alienantes e sob os auspícios dos falcões liberais, a tal ponto que nem as administrações democratas (nos Estados Unidos) se puderam esquivar desse “diktat”.

O continente africano começou a ter sintomas do desamparo em que caiu e os Grandes Lagos e o Zaíre (República Democrática do Congo), tal como Angola, sentiram na carne dos seus povos o choque sangrento da guerra neoliberal.

O Ruanda e os Kivus experimentaram mesmo o terror do holocausto, em pleno exercício da administração do democrata Bill Clinton!...

Em Angola foi Savimbi que assumiu por inteiro o choque neo liberal entre 1992 e 2002,“somalizando” ao ponto de levar a guerra às cidades, por que nem o enfraquecimento dos instrumentos de poder do estado angolano (fragilização da Segurança do Estado e fim das FAPLA), nem o fim do Partido do Trabalho em que se havia constituído o MPLA, demoveu a ele e aos seus tutores da opção pela guerra.

Savimbi aliás, para executar o choque neo liberal sob encomenda neoconservadora e dos falcões liberais, tirou mesmo partido do exacto momento das transformações do MPLA e do próprio estado angolano, tão débeis passaram a ser as respostas em relação sobretudo aos diamantes, que ele haveria de procurar a todo o transe monopolizar enquanto “diamantes de sangue”.

Fez em Março trinta anos que foi fragilizada a Segurança do Estado, com a detenção daqueles que garantiam políticas de rigor no exercício do estado angolano e davam simultaneamente luta ao tráfico ilegal de diamantes…

Foi a partir do sector de petróleo que o estado angolano alicerçou sua capacidade de resposta e para isso contou com a flexibilização deliberada dos Estados Unidos, tirando partido das multinacionais petroleiras presentes em Angola e dos seus associados.

Perdida a vanguarda enquadrada no MPLA, um MPLA visando a social-democracia e com características de “partido de massas” seguiu-se-lhe ao mesmo tempo que o capitalismo neo liberal procurava provocar em Angola uma apetecível “open society” num processo que se estende até aos nossos dias e visível nos acontecimentos sócio-políticos, económicos e financeiros correntes.

No final do choque provocado com a instrumentalização de Savimbi, a hegemonia unipolar, utilizando a esteira do sector do petróleo que era (e ainda é) tão essencial a Angola, desencadeou a partir de 2002 a terapia de choque neoliberal, com impactos em múltiplos sectores da vida do país e com vista a garantir subtis formas de ingerência e manipulação.

À tese ocupada pelo MPLA e o estado angolano, a manipulação no âmbito da terapia neo liberal expande uma antítese gerada numa difusa oposição com “geometria variável”, pouco se importando para a necessidade de paz a fim de que Angola possa fazer vingar uma cultura de luta contra o subdesenvolvimento, com equilíbrio e justiça social.

O próprio Comando África do Pentágono foi lançado uma altura em que a cessação das hostilidades já havia ocorrido há 5 anos em Angola (2007) e quando o estado angolano iniciava um conjunto de dispositivos que visavam a extensão de políticas de paz em África.

O AFRICOM “preparado em laboratório” foi constituído com componentes civis e militares, para que tivesse desde logo um leque mais abrangente de subtis opções de ingerência e manipulação.

O fim da época do “petróleo para o desenvolvimento”, conforme à administração republicana do texano George W. Bush e o início da época do “petróleo enquanto excremento do diabo” já com a administração do democrata Barack Hussein Obama, permitiu no início da segunda década do século XXI, o choque das “primaveras árabes”, do assassinato de Kadafi e da proliferação do terrorismo em África sobretudo a norte do Equador e, ao mesmo tempo, o delineamento da“terapia de choque” particularmente em relação à Nigéria, como a Angola, os maiores produtores de petróleo a sul do Sahara.

A crise em curso espelha-se de forma mais evidente em Angola, tornando possível aos menos avisados por via da corrente crise, sentirem a armadilha que se distende em África, abrindo espaço ao neo colonialismo e ao saque.

A cultura de paz em Angola deve corresponder com inteligência e clarividência perante tais desafios, por que agora se torna imperativo optar uma vez mais pela independência, pela soberania e pela emergência justa do país nos relacionamentos internacionais.

Até que ponto um MPLA social-democrata e um estado que tem sido tão permissivo, tão “aberto” à terapia neoliberal vão poder resistir, é algo que está em balanço, por que as ingerências e as manipulações, inclusive aquelas que providenciam, potenciam e estimulam agentes “intestinos”estão aí com seu cortejo de projectos alienantes, de misérias, de desequilíbrios e até de morte (é só constatar o que continua a acontecer no quadro da saúde em Angola).

Só um estado angolano capaz de recuperar o rigor dos tempos do Partido do Trabalho poderá ser capaz de alguma resposta, algo que pode passar ao lado das fragilidades sociais-democratas do MPLA de massas que tantas “aberturas” (e descaracterizações) providenciou no que à doutrina, à ideologia à organização e à disciplina diz respeito.

Foto: O Presidente José Eduardo dos Santos e Lúcio Lara, duas evocações históricas que são indispensáveis para que o estado angolano possa recuperar a capacidade de rigor possível que leve a aprofundar e estimular a cultura de paz num exercício saudável de independência e soberania face aos impactos e riscos próprios do capitalismo neoliberal que impendem sobre Angola.

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