domingo, 7 de julho de 2019

O PENSAMENTO DE AGOSTINHO NETO É UM CONSTANTE “INCÓMODO”!


Martinho Júnior, Luanda  

Como se colectivamente se propiciasse rever, reavaliar e reinterpretar a “matéria dada”, a substantiva densidade do pensamento e da obra intemporal de António Agostinho Neto ganha na presente conjuntura a potencialidade criativa que parece até renascer das cinzas da afirmação patriótica angolana…

01- No dia 21 de Junho de 2019, na sala de entrada do Mausoléu António Agostinho Neto, a Fundação que ostenta o honroso nome do Presidente Fundador do estado angolano, fez o lançamento da memória fotográfica em livro (“da guerrilha aos primeiros anos da independência”), da autoria da insigne progressista Augusta Conchiglia, daqueles anos decisivos e heroicos do MPLA que abriram caminho à independência, realizando o Programa Mínimo e aos primeiros anos de afirmação dessa independência com a Presidência de António Agostinho Neto!

A memória regista em mais de 100 fotos inéditas os imprescindíveis que foram alguns desses heroicos guerrilheiros e alguns dos fundadores da República Popular de Angola, numa torrente humana que alimentou uma utopia consumada e está na base de ter-se tornado possível no sentido dos angolanos assumirem por suas mãos seu próprio destino, procurando encontrar um lugar justo e legítimo entre os povos de toda a humanidade.

Alguns desses heróis da luta de libertação ainda vivos estiveram presentes e, apesar de sua modéstia, transmitiram outro vigor à memória, catalisando o ambiente.

Para além do álbum fotográfico memória de Agostinho Neto e dos seus guerrilheiros, uma pequena parte representativa e participativa da obra humana de Neto, da vanguarda do povo angolano, esteve vitalmente presente, com muitos de seus telúricos “incómodos”…



02- O sentido histórico e humano, mais que exaltado, deve-se tornar profunda cultura vivencial, geração após geração, num ambiente que se abre à “batalha das ideias”…

O pensamento de Agostinho Neto, redescobrimo-lo perante os imensos desafios e socorre-nos por que as opções mais legítimas de futuro estão sobre a mesa, contrariando os impactos da terapia neoliberal em curso.

Sabemos que para muitos dos presentes, quantos deles antigos guerrilheiros do movimento de libertação em África, não bastou a consumação do Programa Mínimo…

Quantas vezes terão eles reflectido noutras projecções garantes de independência, de soberania, de vitalidade participativa e democrática, por que de há muito as gerações presentes estiveram no seu horizonte nutrido de justas utopias, sonhos e aspirações?!

Seus olhares transparentes e húmidos, transmitiram na sala essa capacidade eléctrica e electrizante de encarar presente e futuro, como se seus rostos dessem humana expressão à qualidade da memória fotográfica de Ausgusta Conchiglia, connosco por dentro…

Agostinho Neto foi um chefe vanguardista, Comandante do Exército Popular de Libertação de Angola e mais tarde Comandante-em-Chefe das Forças Armadas Populares de Angola…

Ele fez tudo para conhecer o quadro humano do MPLA e do estado angolano, por identificar-se com ele para cultivar relacionamentos que dessem corpo ao portentoso rio da libertação do continente do colonialismo, do “apartheid”, do neocolonialismo e de suas múltiplas sequelas, uma lição de dignidade humana que, se outros Comandantes-em-Chefe que se lhe sucederam não interpretarem e reinterpretarem a contento, se arriscam a deixar perder o essencial de coerência patriótica de que urge dar sequência!...

O pensamento “incómodo” de Agostinho Neto e sua obra, ajudam-nos a definir o espaço humano que tanto tem a ver com o patriotismo, quando o “mercenarismo de mercado” aplicado a Angola nos tornaram seu dilecto pasto no dia-a-dia duma época indelevelmente marcada pelo capitalismo financeiro transnacional angariador de “novas elites” suas agenciadas, por si iludidas, por si alienadas, por si formatadas e por si irremediavelmente instrumentalizadas!...


03- Eu próprio senti-o enquanto prosseguia o programa da cerimónia, inaugurado com o cântico feminino de vozes originárias da 2ª Região Política Militar interpretando motivos revolucionários da época, vozes de antigas guerrilheiras do MPLA, que hoje são avós!...

Fui levado para as florestas do Maiombe em noites de fogueiras dos guerrilheiros e isso ocorreu no ambiente recriado da sala, prendendo-nos à cerimónia com aberta solenidade, com transparência, com solidariedade, com uma afirmação digna de humanidade, como se o pensamento de Agostinho Neto, com toda a sua leveza, se distendesse por esse comunicativo rio…

A cada solavanco da memória trespassada de emoções, fui-me questionando, balanceando recordações, a vontade, a persistência e a minha própria coerência vital!

Afinal, se Angola de hoje tem tanto a ver com o que nunca a seu tempo foi combinado, como estou eu a responder não deixando de dar sequência lúcida aos “incómodos” ensinamentos e à obra do movimento de libertação e de seu líder, imprescindível entre os imprescindíveis?

O pensamento de Agostinho Neto nessa tarde de 21 de Junho de 2019, incomodou-me entranhável, carregando as baterias que dão energia à minha própria consciência crítica: o que há por fazer é muito mais do que alguma vez se fez em prol do povo angolano, particularmente ao longo do século XX e na primeira década do século XXI…

…Então, para todos os justos e dignos “incomodados da terra”, uma coisa é certa, ainda que a vitória não se vislumbra no curto tempo de nossa vida singular: a luta continua!

Martinho Júnior - Luanda, 28 de Junho de 2019

Fotografias do acontecimento:
01- O Mausoléu António Agostinho Neto a 21de Junho de 2019;
02- Augusta Conchiglia e Maria Eugénia Neto, no acto do lançamento do livro de memória fotográfica, de que é autora a primeira;
03- Certificados de Mérito da FAAN, entregues pela sua Presidente Maria Eugénia Neto, viúva do Presidente António Agostinho Neto, a todos os prelectores e a uma guerrilheira, a Jovita, pequena-grande guerrilheira, que na foto está ao lado do médico Mário de Almeida, “Kassessa”).

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