domingo, 2 de agosto de 2020

METEÓRICAS FAPLA 2

EM SAUDAÇÃO AO 1º DE AGOSTO DE 1974

“Continuai o combate pela preservação das conquistas, pela libertação completa da Pátria, pela defesa dos interesses das camadas mais exploradas, por um regime democrático, popular e progressista, pela Nação una e indivisível, pela integridade territorial, pela participação independente e soberana, no concerto livre das nações” (excerto da Proclamação das FAPLA) – http://www.agostinhoneto.org/index.php?option=com_content&view=article&id=1700:2019-08-05-12-24-28&catid=37:noticias&Itemid=206

Martinho Júnior, Luanda 

A Proclamação das FAPLA a 1 de Agosto de 1974, nas circunstâncias em que ocorreu, foi um juramento de unidade, de coesão e de disciplina tendo em conta a linha de Não Alinhamento activo do MPLA e a incondicional fidelidade ao seu líder António Agostinho Neto, também em função do seu inquebrantável espírito de luta, clarividência e capacidade dialética de entendimento da história e da antropologia contemporâneas, com todos os sentidos colocados na independência real de Angola e no futuro.

Aqueles que foram sendo mobilizados, quer antes quer depois da independência, assumiram na maior parte dos casos também esse juramento, com o tal sentido de responsabilidade, por que a libertação dos povos africanos teria de ser feita num longo percurso de luta contra o colonialismo, contra o “apartheid”, contra o neocolonialismo rampante que emergia no continente por interesse do império com os Estados Unidos à cabeça, contra as suas sequelas, mas também contra o subdesenvolvimento crónico que advinha do passado de séculos, subdesenvolvimento esse agravado em função da opressão e repressão sistemáticas que se abateram sobre os processos culturais africanos.

Os combatentes sabiam de onde saíam, tinham vastas aspirações, visionárias aspirações e sonhos, que passavam desde logo pelos direitos humanos mais fundamentais, por que nunca antes haviam sido contemplados e havia-os de arrancar pela força das ideias e se necessário das armas, ao que havia para vencer!

As FAPLA colocavam-se não só como um incontornável reforço do vector ao meridiano da luta de libertação de Argel ao Cabo, mas também como um factor imprescindível para uma aliança cívico-militar a fim de realizar a revolução cultural em Angola e em África, até por que parte da luta haveria que se fazer de forma clarividente e com toda a consciência revolucionária em situações de paz!

Foi precisamente isso que também motivou a aliança estratégica com a revolução cubana no sentido do resgate do homem africano, algo vivido com a revolução na própria carne de Cuba, uma aliança que ainda hoje se evidencia particularmente nos campos da educação e da saúde, ou seja na sua intrínseca vocação humana pela civilização para toda a humanidade, pela aspiração de futuro, pelo respeito pela vida e pela Mãe Terra e em concurso algum com a barbárie capitalista, que mais que nunca deve estar presente em nossa consciência colectiva, como um obstáculo a vencer!

A aliança com a revolução cubana acabou por motivar alianças com os mais importantes actores do campo socialista e inspirou a gestação do MPLA como Partido do Trabalho logo a seguir à Proclamação da Independência… “sob o olhar silencioso de Lénin” e reforçando o Não Alinhamento activo!

O juramento feito com a Proclamação das FAPLA obrigava os 32 Comandantes de Coluna e os 51 Comandantes de Esquadrão à unidade, à coerência revolucionária, à coesão, à disciplina e à fidelidade para com o líder, algo que a partir de determinada altura deixou de ser interpretado assim por um pequeno grupo dos que a assinaram, o que está na origem da tentativa sangrenta do golpe de estado de 27 de Maio de 1977…

05- As 20 primeiras assinaturas dos Comandantes de Coluna que sustiveram a Proclamação das FAPLA a 1 de Agosto de 1974 foram as seguintes:

- Henrique Teles Carreira, Iko;

- Rodrigues João Lopes, Ludi;

- Pedro Maria Tinha, Pedalé;

- António Ramos, Dimuka;

- João Luís Neto, Xieto, (na altura Chefe do Estado-Maior da Frente Leste);

- David António Moisés, NDozi, (na altura Chefe do Estado-Maior da Frente Norte);

- César Augusto, Kiluange;

- Gilberto T. da Silva, Jika, (na altura Comissário Político do Estado-Maior da Frente Leste);

- Eurico Gonçalves, (na altura Comissário Político do Estado-Maior da Frente Norte);

- Alves Bernardo Baptista, Nito;

- Jacob Caetano João, Monstro Imortal;

- Zacarias José Pinto, Bolingó;

- José Manuel Paiva, Bula Matadi;

- Rui Filomeno de Sá, Dibala;

- Bonifácio Kinda, Cantiga;

- Paulo Silva Mangungu, Dangereux;

- Francisco NGombe, Likolongo;

- Beston Cachongo, Kilolo;

- Pedro Castro Van-Dúnem, Loy;

- Eugénio Veríssimo da Costa, NZagi.

Esse escalonamento de assinaturas pressupõe o respeito pela hierarquia de então embora fosse ainda um processo embrionário, o que conduzia também às definições de hierarquia para depois da independência, algo que se juntaria ao juramento dos novos membros que se viessem a juntar às FAPLA. (https://www.angop.ao/angola/pt_pt/noticias/sociedade/2017/8/36/Angola-Agostinho-Neto-considerado-impulsionador-libertacao-Africa-Austral,be453c7d-7412-4859-a54c-82e1a97059b5.html).

Dos 32 Comandantes de Coluna só 2 levaram a cabo a intentona do 27 de Maio de 1977: Alves Bernardo Baptista, Nito e Jacob Caetano João, Monstro Imortal (10º e 11º dessa lista).

Dos 51 Comandantes de Esquadrão só 2, Eduardo Bernardo, Bakalov e Arsénio L.Mesquita, Sihanuk, alinharam…

No dia 27 de Maio de 1977 foram assassinados entre outros, 3 Comandantes de Coluna, Eurico Gonçalves, 9º da lista, Paulo da Silva Mungungu, Dangereux, 16º e Eugénio Veríssimo da Costa, NZage, 20º, assim como 1 Comandante de Esquadrão (Saidi Mingas, Lutuima).

Os traidores como Nito Alves, que assinou a Proclamação das FAPLA a 1 de Agosto de 1974, foram dos primeiros a renegar essa Proclamação e Nito Alves foi duplamente traidor, por o ter assinado levianamente e por depois ter feito o que fez em relação aos seus próprios camaradas menos de 3 anos depois, com outros de seu grupo…

As “Treze teses em minha defesa” ressoam hoje em Portugal na vã tentativa de lavar a traição eengrossar as fileiras duma vasta campanha em curso, algo só possível com a consumação e amadurecimento do golpe do 25 de Novembro de 1975 que está na origem do “arco de governação” e até da “primavera” que constitui a “geringonça”… (https://www.esquerda.net/dossier/27-de-maio-lembrar-para-nao-esquecer/48865https://www.historia.uff.br/stricto/td/1571.pdf).

Ao serviço de quem estavam a 27 de Maio de 1977, pois há rescaldos até aos nossos dias, tendo em conta a exploração para efeito de propaganda pelas inteligências da NATO e sobretudo pelos avassalados serviços de inteligência portugueses com seus agentes de provocação disfarçados de “historiadores”, de “jornalistas independentes” e capazes de, sem problemas financeiros, disseminar as conveniências aprontadas para o século XXI trespassado pelo capitalismo neoliberal?! (https://paginaglobal.blogspot.com/2020/06/angola-obsessao-do-odio-pelo-odio.html).

O Bloco de Esquerda, por via do Esquerda Net, é deliberadamente responsável por se constituir numa caixa-de-ressonância sem dar azo a qualquer contraditório, mas cobrindo um espectro de sensibilidades para além de suas fileiras, com algumas personalidades identificáveis na composição da própria “geringonça primaveril”!... (https://www.esquerda.net/topics/dossier-270-o-27-de-maio-de-1977-em-angola).

Na altura prevaleciam as Leis Revolucionárias da República Popular de Angola publicadas em Diário da República e em colectânea apropriada, Leis que ninguém podia alegar desconhecer, nem na altura, nem hoje, por coerência histórica, quanto mais não seja… (https://opais.co.ao/index.php/2019/09/17/parlamentar-destaca-feitos-de-neto-na-libertacao-de-africa/https://opais.co.ao/index.php/2019/07/02/pr-rende-homenagem-a-agostinho-neto/).

… Os combatentes sabiam muito bem de onde se vinha e sendo necessário lutar pelo futuro, para onde se ia!... (https://www.youtube.com/watch?v=v_ARxdSbvgg&feature=share&fbclid=IwAR2bPuCLB4OQ17-u2qwGfGXwPaVFa1ZFHvPKr7Xc03-I62McrHhnx-WURXo).

A Proclamação das FAPLA foi decisiva para a sustentação da liderança do Presidente do MPLA, António Agostinho Neto, para a sustentação da linha por ele conduzida e era por si um garante de unidade, de coesão, de disciplina e de fidelidade, pelo que quem, de seus componentes, atraiçoasse o seu espírito e a prática organizativa e estrutural que se pôs então em marcha numa ampla torrente cívico-militar, se incorresse numa ruptura abrupta, lesava o movimento de libertação segundo a trilha do Não Alinhamento activo e o estado nascente num parto de alto risco, a República Popular de Angola. (http://paginaglobal.blogspot.com/2016/10/agostinho-neto-um-imprescindivel-na.html).

As FAPLA eram também produto e forja dos sonhos dos angolanos, incluindo de patriotas que pelo caminho alargaram as margens com a sua própria honestidade intelectual e humana profunda, quando se refugiavam na sua sensível angolanidade, coerente e lúcida, mesmo que quase só dessa maneira se tivessem de afirmar fora das fileiras… (https://www.youtube.com/watch?v=22cQVR0WbPUhttp://jornaldeangola.sapo.ao/cultura/livros/livro_de_arlindo_barbeitos_retrata_a_historia_de_angolahttps://www.novafrica.co.ao/cplp/angola/fiapos-de-sonho-a-realidade-decantada/).

Também esses não mereciam um pesadelo da natureza do que ocorreu!

06- Na curta série elaborada este ano, sob o tema “Duma vitória colonial-fascista que nunca houve” é feita a leitura justa perante aqueles que consideraram, como António Pires Nunes, que houve uma “Vitória Militar no Leste” de Angola. (https://paginaglobal.blogspot.com/2020/02/duma-vitoria-colonial-fascista-que.htmlhttps://paginaglobal.blogspot.com/2020/02/duma-vitoria-colonial-fascista-que_13.htmlhttp://www.cd25a.uc.pt/media/pdf/Biblioteca%20digital/Cota%20MS/MS0266_Seminario%20Guerra%20de%20Africa_2012.pdf).

Leituras do tipo “Vitória Militar no Leste” só poderiam ser feitas em tempo de Portugal do “arco de governação” decorrente do golpe do 25 de Novembro de 1975, 14 dias depois da Proclamação da Independência da República Popular de Angola. (https://comum.rcaap.pt/bitstream/10400.26/7843/1/Tia%20Asp%20Al%20Cav%20Andr%C3%A9%20Gon%C3%A7alves.pdfhttps://www.revistamilitar.pt/artigo/467).

Uma das provas humanas que de facto estava-se apenas numa situação que obrigava a repensar e a reequacionar a luta, é precisamente a quantidade e a qualidade dos combatentes que assinaram a Proclamação das FAPLA a 1 de Agosto de 1974, num total de 83!... (https://www.facebook.com/169858930213728/posts/556282024904748/http://jornalcultura.sapo.ao/historia/o-comandante-a-guerrilha-e-a-formacao-do-exercito/fotos).

Por cada um deles, pelo menos outros 3 podiam-se perfilhar para preencher as cadeias de comando dos combatentes dispostos para a luta na direcção dum futuro Exército, apesar da prioridade política.

Esses 83 foram o núcleo duro decisivo em torno do líder, instrumento fiel do seu poder estratégico conforme ficou demonstrado até ao 11 de Novembro de 1975, cumprindo com todo o tipo de obrigações, deveres e missões que prepararam a Proclamação da Independência em Luanda a essa data, com as vantagens que amplamente se registaram naquele momento, a favor do parto da República Popular de Angola!

Dessa trilha e esforços resultou a Constituição da República Popular de Angola que os fraccionistas do 27 de Maio de 1977 deveriam ter honrado e foram os primeiros a desonrar a tiro, de armas na mão e de forma sangrenta, começando por eliminar seus próprios camaradas!... (http://cedis.fd.unl.pt/wp-content/uploads/2016/01/LEI-CONSTITUCIONAL-de-1975.pdf).

A luta era prioritariamente política e nem as medidas gerais e específicas de contrainsurgência, o domínio do espaço aéreo no Leste de Angola, o uso napalm e de desfolhantes para acabar com as lavras que alimentavam a guerrilha, (http://www.scielo.mec.pt/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S1645-91992009000200009) nem a presença das South Africa Defence Forces desde 1966, (https://www.amazon.co.uk/African-Defence-Forces-Border-1966-1989/dp/1909982768;  https://www.revistamilitar.pt/artigo/1234https://www.youtube.com/watch?v=230oZM4bEVY) nem a subalternização de Savimbi por via da Operação Madeira, tudo isso conjugado com as manobras de inteligência que incidiram especialmente em torno do Presidente Kenneth Kaunda, eram suficientes para neutralizar a FRELIMO e o MPLA na linha da frente que tinha na Zâmbia o seu ponto central! (https://www.youtube.com/watch?v=ocbZoYY2orQ).

Sob a liderança do Presidente António Agostinho Neto e sua percepção dialética dos acontecimentos, nem sequer o recrutamento de agentes a fim de fraccionar o MPLA (constate-se o exemplo de Daniel Chipenda), ainda que o movimento estivesse tão aberto a novas mobilizações, conseguiu subverter o rumo da libertação e a tão legítima visão de futuro que havia de suplantar as contradições internas. (https://www.historia.uff.br/stricto/td/1571.pdf).

A energia dialética do MPLA, motivada por razões éticas e morais, em antítese à tese colonial-fascista no espectro do Exercício Alcora, era uma fluência evidente no quadro das articulações do movimento de libertação em África na trilha do Não Alinhamento activo, apesar do avolumar das contradições internas (em função dos desgastes da luta num amplo território, com tantos problemas de comunicação, de interligação e segundo processos socioculturais tão diversificados), e também apesar dessa linha se estar a tornar numa condicionante na obtenção das armas antiaéreas indispensáveis para a progressão da guerrilha das fronteiras até ao interior profundo de Angola. (http://www1.ci.uc.pt/cd25a/wikka.php?wakka=armas).

Ao MPLA, também por causa do fraccionismo de Daniel Chipenda, em tempo útil não recebeu da URSS o mesmo tipo de mísseis que decidiram a sorte da luta na Guiné-Bissau, levando à sua independência a 24 de Setembro de 1973, com a Proclamação em Madina do Boé (sete meses antes do 25 de Abril de 1974)! (http://www.odiario.info/?p=3017).

O “míssil” do nitismo haveria porém de acontecer, apesar do fornecimento do material de guerra que tendo sido utilizado em tempo oportuno nos teatros operacionais dos primeiros anos da independência, foi utilizado no próprio dia do golpe do 27 de Maio de 1977: os BRDM da 9ª Brigada utilizados pelos nitistas e os tanques da Unidade da Guarda Presidencial (quartel da Vidrul), no contragolpe.

 

Mal se sabia que na URSS já estava na forja a linha Gorbatchev, visível mais tarde também por via do alinhado José Milhazes!... (http://darussia.blogspot.com/2006/11/faleceu-vadim-zagladin.html).

07- Unidade, coesão, disciplina interna e fidelidade ao líder no núcleo duro em seu entorno, era também uma questão fundamental face às rápidas transformações decorrentes do processo histórico e por tabela em função da transitoriedade e flexibilidade das opções e dos organismos “ad hoc” que se tiveram de criar, gerir, fazer operar, transformar reaproveitando, ou fazer em momento julgado oportuno, acabar.

Esse desafio épico e de primeira grandeza ética e moral, teve de ser aceite numa altura em que, tendo em conta a enorme dispersão de meios (do Congo à Tanzânia, passando pela Zâmbia e pelo vasto interior de Angola, nas cidades, nos campos e até nas prisões), as comunicações eram insuficientes, quantas vezes deficientes e/ou sujeitas a intercepção de forças inimigas adstritas à tese colonial-fascista, com múltiplas “zonas cinzentas” nas articulações intermédias…

Essa foi uma época em que por via duma extensiva mobilização confluente para o MPLA e para as FAPLA, indivíduos, colectivos e comunidades inteiras, de natureza muito heterogénea (uma parte dos candidatos a combatentes provenientes da “zona cinzenta” por causa da opressão e repressão inteligente que foi feita pelas obrigações da tese colonial-fascista), havia que integrar.

Essa mobilização e integração ocorreu a quente, quando os fraccionismos internos presentes na hora da Proclamação das FAPLA se faziam sentir, correndo-se o risco de mais à frente poderem vir a ocorrer outros mais fraccionismos, decorrentes da rapidez dos acontecimentos na fase decisiva do processo histórico da independência entre o 25 de Abril de 1974 e o 11 de Novembro de 1975, decorrentes também da precariedade das filtragens que foram feitas, pois era prioritário fazer face, a quente, ao inimigo que estava a ser reforçado com poderosos exércitos externos antes do momento decisivo da mudança de paradigma histórico!

Enfrentar a força da acção desse inimigo não deu tempo para muito mais, pelo que a maior parte dos quadros estava totalmente “voltada para fora” em termos de enfrentamento e não vocacionados para algo mais do que isso, ou seja, sem uma avaliação suficiente para o que se passava dentro do sistema MPLA!

Estavam completamente absorvidos na actividade operativa, militar, sociopolítica e sociocultural!

O MPLA esteve aberto a essa heterogeneidade (por tabela exposto), particularmente na capital, Luanda, a fim de mobilizar ao máximo todos os substractos sociais que não se identificassem com o colonialismo, que aliás só em parte foram mobilizados e recrutados para as FAPLA, (na maior parte dos casos foram-no para os outros organismos do MPLA), a fim de antes da independência a capital estivesse livre da acção da subversão inimiga…

Esse trabalho foi levado a cabo com o concurso de camaradas que haviam feito a trilha da luta clandestina e sido presos pela PIDE/GDS mas se mantiveram fieis, com soldados íntegros do MPLA e por isso não poderam ser beliscados pelos processos de desagregação e subversão nitista!

Em relação à juventude universitária, por exemplo, haviam preocupações em função da origem de classe dos jovens e, tendo em conta a rápida abertura em curso, fez-se pouco a pouco sentir o leque de ideologias da época fora do contexto do Não Alinhamento activo do MPLA em torno do seu líder, propiciando-se um sem número de correntes e reinterpretações de correntes, como por exemplo os Comités Amílcar Cabral, os Comités Henda, o grupúsculo Enver Hoxa e até uma Organização Comunista Angolana que preferiu processos clandestinos para a sua própria projecção a fim de melhor situar sua afirmação e influência, sua conveniência e sua projecção doutrinária-ideológica por dentro do MPLA ou à sua ilharga e paulatinamente em desafio à organização e ao líder.

No seguimento imediato da independência os processos de sub-reptícia subversão do MPLA, do seu líder e das FAPLA, começaram a ganhar mais visibilidade e também mais consistência.

Nessa exposição, começaram-se a gerar conjunturas, indexadas na maioria dos casos ao MPLA, mas tendentes à sua subversão organizativa e estrutural interna, que no fragor da luta fugiam ao carácter das Proclamações das FAPLA e da Independência e ao rigor doutrinário e ideológico que com elas se queria implementar em antítese face à tese colonial-fascista e ao “apartheid” que constituíam o principal e mais urgente desafio a vencer.

A proliferação do MPLA nos bairros com um leque muito heterogéneo de comités de difícil integração, permitia-se a todo o tipo de enredos, uma vez que era prioritário enfrentar-se a reacção colonial susceptível duma independência como a da Rodésia, assim como enfrentar as sensibilidades sociopolíticas inerentes aos etno-nacionalismos, portadoras do gérmen neocolonial e tido isso antes da Proclamação da Independência a 11 de Novembro de 1975.

Esse enfrentamento foi decisivo em Luanda e sem o qual, a própria Proclamação da Independência não seria feita nos termos em que o Presidente António Agostinho Neto definiu, mas teve aproveitamentos desagregadores e subversivos no seguimento da independência, que confluíram para a tentativa de golpede estado a 27 de Maio de 1977!

Se Luanda não estivesse livre do grosso dessas ameaças, seria a própria independência que ficaria em perigo antes mesmo da sua Proclamação, a 11 de Novembro de 1975! (http://www.maan.co.ao/media/50c8b474-2824-4edb-8edb-b22d57794a3d.pdfhttps://www.youtube.com/watch?v=6NAYCTCkfww) 

Por isso, no discurso da Proclamação o Presidente António Agostinho Neto considerou:

“Com a proclamação da República Popular de Angola as Forças Armadas Populares de Libertação de Angola (FAPLA) são institucionalizadas em exército nacional.

As FAPLA, braço armado do Povo, sob a firme direcção do MPLA constituem um exército popular que tem por objectivo a defesa dos interesses das camadas mais exploradas do nosso Povo.

Preparadas na dura luta de libertação nacional contra o colonialismo português e armadas de teoria revolucionária, continuam a ser um instrumento fundamental da luta anti-imperialista.

As FAPLA, como força, libertadora da República Popular de Angola, caberá defender a integridade territorial do País e, na qualidade de exército popular, participar ao lado do Povo na produção para a grandiosa tarefa da Reconstrução Nacional”

08- Quando as contradições se avolumaram dentro do sistema colonial-fascista português, ocorreu por via do MFA, Movimento das Forças Armadas, o 25 de Abril de 1974, mas também esse movimento não era à partida homogéneo, nem garantia homogeneidade sem acesa luta interna. (https://resistir.info/portugal/confer_vg_12fev04.html).

Se por dentro do MPLA as contradições foram sensíveis, dentro do sistema colonial-fascista elas tiveram uma sensibilidade “tridimensional” (Guiné-Bissau, Angola e Moçambique)… (https://media.rtp.pt/memoriasdarevolucao/acontecimento/o-fim-do-imperio-colonial-em-africa-independencia-de-angola/).

O sistema colonial-fascista por si não trazia soluções para os povos português e das colónias pelo que ao crescer nas Forças Armadas Portuguesas o campo dos que sabiam que se estava num beco sem saída e face a um emaranhado de contradições que crescia em ordem geométrica, havia cada vez mais correntes que procuravam cada uma fazer prevalecer as suas opções, a coberto de interesses e conveniências daquela época. (http://www.avante.pt/pt/2191/temas/137979/O-golpe-contra-revolucion%C3%A1rio%3Cbr%3Edo-25-de-Novembro.htm).

Os escalões das Forças Armadas Portuguesas tinham percepções distintas uns dos outros e se o MFA era o “movimento dos capitães” (com uma coerência solidária acima da média em relação ao resto), as coisas não se passavam do mesmo modo acima desse quadro de oficiais (oficiais superiores e generais).

O General António de Spínola foi um desses exemplos contraditórios, com uma visão, “Portugal e o futuro”, que se propunha a motivações híbridas, ainda redundantes do próprio processo colonial-fascista, abertas à autodeterminação que ia desembocar no neocolonialismo e com a manutenção de vínculos à “matriz” da portugalidade (uma tentativa evidente de assimilação). (https://www.dn.pt/artes/livros/o-livro-portugal-e-o-futuro-e-o-25-de-abril-1539703.html).

O oficialato mais jovem das Forças Armadas Portuguesas contudo, a partir do momento que foi formado o MFA pretendeu sem equívocos ir muito mais longe: as colónias tinham o direito à autodeterminação, à independência e ao exercício da soberania pelos respectivos povos que haviam sofrido na carne a bárbara colonização.

Desse modo, após o 25 de Abril de 1974 quando foi derrubado o regime colonial-fascista, desenrolou-se um processo dialético intenso dentro das Forças Armadas Portuguesas levando à vitória temporária dos grupos mais progressistas, que tiveram de vencer a natureza retrógrada do “spinolismo” e seus aliados, a fim de melhor tentar realizar a descolonização institucional, sabendo que a descolonização mental na via sociocultural levaria muito mais tempo, geração após geração.

Essa foi também a percepção do Presidente António Agostinho Neto e do MPLA, já por diversas ocasiões testados pela subversão etno-nacionalista de tendência abertamente neocolonial e pelas tentativas de desestabilização interna de tendências fraccionistas: Viriato da Cruz, Revolta Activa e Revolta de Chipenda.

Com a chegada a Luanda do MPLA e das FAPLA, a aliança entre as linhas mais progressistas do MFA e o MPLA contribuiu também de forma dialética e inteligente, para a criação das condições e conjunturas propícias à Proclamação da independência da República Popular de Angola e não na proclamação duma qualquer independência afim aos etno-nacionalismos que estiveram presentes na Conferência de Alvor, qualquer deles filtrados pelas tendências neocolonialistas conjunturais que incluíram o “spinolismo” e mais tarde os protagonistas do golpe do 25 de Novembro de 1975, ao sabor dos interesses imperialistas das administrações dos Estados Unidos representantes da aristocracia financeira mundial. (http://avante.pt/pt/2195/pcp/138396/%3Ci%3EObras-Escolhidas%3Ci%3E-de-%C3%81lvaro-Cunhal.htm).

Martinho Júnior -- Luanda, 29 de Julho de 2020

Imagens:

01- O comandante, a guerrilha e a formação do exército – Em 1974, o MPLA restabeleceu-se e a organização guerrilheira voltou a crescer do ponto de vista militar, adoptado outros parâmetros de funcionamento. De resto, as mudanças operadas permitiram efectuar a transição, com outro alento, entre 1974 e 1975. Por esta altura, o MPLA já dispunha das Forças Armadas Populares de Libertação de Angola – FAPLA, como seu braço armado, proclamada no dia 1 de Agosto de 1974.
A criação das FAPLA, com feições de exército nacional, foi fundamental, pois garantiu a existência do MPLA no turbulento período de transição política em 1975 e permitiu enfrentar as invasões externas levadas a cabo pelo Zaíre e pela África do Sul. Por isso, as FAPLA foram essenciais para a proclamação da independência nacional – http://jornalcultura.sapo.ao/historia/o-comandante-a-guerrilha-e-a-formacao-do-exercito/fotos;

02- O dia 01 de Agosto de 1974 regista o Acto de Proclamação das Forças Armadas Populares de Libertação “FAPLA”, feito a partir da sede da 3ª Região Político-Militar do MPLA. O texto da proclamação das FAPLA, além de exaltar o papel dos combatentes na vitória sobre o colonialismo, lembrou, aos combatentes do povo, soldados e comandantes, que a tarefa não estava concluída: “Continuai o combate pela preservação das conquistas, pela libertação completa da Pátria, pela defesa dos interesses das camadas mais exploradas, por um regime democrático, popular e progressista, pela Nação una e indivisível, pela integridade territorial, pela participação independente e soberana, no concerto livre das nações” – http://www.agostinhoneto.org/index.php?option=com_content&view=article&id=1700:2019-08-05-12-24-28&catid=37:noticias&Itemid=206;

03- Aníbal de Melo – Em Dezembro de 1964 foi nomeado pelo Comité, Director do MPLA representante desse Movimento de Libertação na Zâmbia, para naquele país, organizar e mobilizar os refugiados angolanos e criar novas fontes de apoio bem como facilitar a abertura da frente Leste, passando igualmente a ser o Coordenador do Comité de Acção de Lusaka. De 03 à 6 de Outubro de 1965 participou na Delegação do MPLA chefiada pelo Presidente Agostinho Neto na II Conferência das Organizações das Colónias Portuguesas em Dar-Es-Salam. Aníbal de Melo morreu a 17 de Novembro de 1975, com 58 anos de idade. No dia do seu funeral o tempo estava cinzento. Ameaças de chuvas. Mas nem por isso o povo entre mulheres, homens, FAPLAS, numerosas crianças e antigos companheiros de trincheira não deixaram de prestar a sua homenagem a Aníbal de Melo, até a sua última morada no Cemitério de Santana – https://ciam.gov.ao/patrono.php;

04- Composição da 1ª delegação oficial do MPLA chegada a Luanda – http://mpla.ao/imprensa.52/noticias.55/memorias-composicao-da-1%252525252525c2%252525252525aa-delegacao-oficial-do-mpla-.a5770.html;

05- MPLA, um só povo, uma só nação – cartazes políticos – http://www1.ci.uc.pt/cd25a/wikka.php?wakka=Galeria&album=CartazesPoliticoPartidarios

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