sexta-feira, 10 de fevereiro de 2012

Portugal: OS CABEÇUDOS QUE PAGUEM A CRISE




João Quadros – Jornal de Negócios, opinião

Vou ser sincero, finalmente uma medida que Passos toma e que me agrada - não há tolerância no Carnaval - é a primeira contra os cabeçudos. É uma opinião muito pessoal, sou entrudo-intolerante: os mascarados azedam-me e a música dá-me vómitos. Perguntam: faz sentido acabar com o feriado do Carnaval? Não sei. Mas tenho pena do João Proença. É preciso ter azar, acabam com o feriado do Carnaval agora que a UGT ainda tinha tantas serpentinas que sobraram da festa da concertação social.

Pondo de parte as minhas convicções, acho muito desagradável acabarem com o feriado assim de repente e, na minha opinião, pode ser perigoso para a saúde das pessoas que desfilam no nosso Carnaval, porque ficam com menos tempo para recuperar da hipotermia. O que me incomoda neste assunto são os argumentos do nosso primeiro-ministro. São argumentos mascarados de sentido. As respostas têm o tom de folia só de um; é o que o Carnaval seria se fosse uma festa organizada por cínicos.

Diz Passos Coelho: "há quem prefira continuar a lamentar-se com as medidas, com os feriados, com o Carnaval em vez de lançar mãos à obra". Ora, aí é que está. Na realidade, havia muita gente que tinha lançado mãos à obra a centenas de carros alegóricos. Porque, por mais confusão que faça ao primeiro-ministro, existe um indústria da folia (não foi por isso que ele acabou o curso aos 37?) e podemos argumentar que o Governo está a dar cabo dela. O pior é que, em simultâneo, Passos Coelho pede aos portugueses para serem "menos piegas". Ou seja, se como alguém (que gostava da iniciativa privada) disse "com a crise as pessoas choram, então é uma boa oportunidade para vender lenços de papel", com este discurso, até este tipo de investimento Passos está a afastar do País. Se os portugueses forem sensíveis ao apelo para serem menos piegas, nem as empresas cujo negócio era a crise vão apostar no nosso mercado para sairmos da crise. Mais grave, se cumprirmos o que o primeiro-ministro pediu, podemos pôr em causa tudo o que de mais importante conquistámos no último ano. Porque, se deixarmos de ser piegas, pomos em risco o fado património imaterial da humanidade.

É isto que me causa irritação: não podemos ser foliões, não podemos ser piegas, vamos ser o quê? Alemães? É isso? O Governo vai compensar o fim do feriado de Carnaval com tolerância de ponto para quem quiser festejar a Oktoberfest? Falta pouco para exigirem que sejamos todos arianos: "portugueses, vocês são demasiado baixos e feios e não podemos continuar assim, porque é isso que eles mostram lá fora com imagens do Rossio."

Neste Carnaval aconteceu, ao nosso primeiro, o que normalmente acontece quando a máscara é fraquita (comprada aos chineses): rebentou o elástico da caraça a Passos Coelho ainda não ia a festa a meio.

Não vou ter saudades do Carnaval, não sou saudosista, sou nostálgico, e a folia não calça com a nostalgia. Saudades tenho, do Passos Coelho piegas que pedia desculpas aos portugueses pelo PEC2.

Três pares de piegas

1. Estela Barbot e Campos e Cunha no novo Conselho Directivo do Centro Cultural de Belém: Estela Barbot já decidiu qual vai ser a tonalidade do CCB? Cinzento FMI? Ouvi dizer que quadros de nus, no CCB, só com a luz apagada.

2. Sarkozy: "Deixar que um país com 9 milhões de pessoas entre em bancarrota não é uma opção"- Grécia has left the building.

3. Cavaco quer que "os jovens sintam que a CPLP seja uma mais-valia nas suas vidas". - A CPLP tem de sair da sua zona de conforto - larguem os mosquiteiros. Se calha a CPLP começar a fazer reuniões do G7, ficamos de fora.

4. Manifestações e gás lacrimogéneo em Atenas - Merkel (e a economia alemã) continua a ganhar com a crise grega: esta semana o que se vendeu mais em Atenas foram bandeiras alemãs (e fósforos).

5. Só há uma forma de resolver a crise europeia: A UE vai pegar na dívida grega e deitá-la ao mar no mesmo local onde os USA deitaram o Bin Laden.

6. Só há uma forma de resolver a nossa crise: Portugal precisa do melhor farmacêutico da Volta à França em bicicleta.

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