domingo, 20 de maio de 2012

O BOSQUE EM FLOR



Rui Peralta

Geopolítica da Petro-especulação

Price makers e price takers

         Em todos os mercados existem duas figuras motoras: os que fazem o preço e o os que aceitam o preço. Mas esta relação no mercado do petróleo traduz-se numa luta acérrima. O controlo do mercado petrolífero torna esta relação entre as duas figuras motoras da valorização completamente desfigurada.

         Sendo o petróleo essencial para a acumulação e sendo o sistema monetário parcialmente estruturado nas mercadorias, o controlo do mercado petrolífero passa pelo reforço de poder nos restantes mercados. Por isso torna-se necessário para exercer o controlo deste mercado, o desenvolvimento de modelos estratégicos que levem ao enfraquecimento ou aniquilação dos restantes intervenientes.

         Essencial para qualquer modelo estratégico de controlo do mercado petrolífero é a introdução de tensões nas áreas de produção. Esta operação tem como objectivo medir e equacionar a forma como os estados produtores de petróleo abdicam da sua soberania em relação ao produto e simultaneamente mantém afastados outros intervenientes que podem directamente afectar a política de controlo. Ora é exactamente este princípio que os USA utilizam para fortalecer o pilar da sua estratégia de controlo do mercado: o petrodólar.

          Na parte visível do icebergue os preços do petróleo variam reagindo a factores múltiplos de natureza económica e geopolítica. No entanto a amplitude das flutuações do preço do petróleo nos últimos tempos acaba por ser atribuída aos riscos geopolíticos directamente relacionados com o Irão e á fluente liquidez contraposta às margens de refinação, sendo cada vez de menor amplitude a faixa entre a oferta e a procura. Os excessos de liquidez são, no entanto, absorvidos pela bolha petrolífera criada por esta amplitude decrescente da faixa entre oferta e procura, o que acaba por fortalecer o dólar e reforça o posicionamento dos USA no mercado petrolífero. Isto apesar dos preços altos frustrarem a recuperação global, o que parece não preocupar muito os USA, muito mais interessados na sua tentativa de forçar o Irão a ceder.

Agora se observarmos a imensidão submersa do icebergue observamos que os preços do petróleo são demasiado importantes para que o seu mecanismo seja um mecanismo de mercado. Ao manter o petrodólar a subida dos preços do petróleo prejudica as economias importadoras numa escala muito maior do que a norte-americana. É que as variações dos preços do petróleo criam alterações nos graus de domínio dos USA e reafirmam o seu controlo do mercado através do mecanismo da moeda padrão.

Também o capital financeiro fica satisfeito com este mecanismo de expansão da divida dos USA, geradora da circulação crescente do capital fictício. E é também por aí que as apregoadas economias emergentes respiram e emergem cada vez mais, como enormes baleias que acompanham o imenso icebergue. O capital, assumidamente global, mesmo que travestido de cores nacionais e de aparência progressista, demonstra robustez em consequência das dividas que afectam as camadas fornecedoras de mão-de-obra, cada vez mais dispensadas nas economias centrais e cada vez mais baratas nas economias emergentes, que por sua vez têm a margem suficiente para melhorar as condições de reprodução da sua reserva excendentária de mão-de-obra.

As consequências mais nefastas da expansão do capital fictício recaem, no entanto, sobre os povos vitimas das guerras de agressão que têm como objectivo o financiamento das dívidas crescentes dos USA.

A volatilidade dos preços

          A especulação financeira, particularmente a compra de futuros nas ramas de petróleo é responsável pela alta do preço do barril, impelida por considerações geopolíticas. Será de bom-tom referir que as considerações geológicas relacionadas com o fim do petróleo não são responsáveis pela alta dos preços. Por uma simples razão: as considerações geológicas apenas têm impacto no longo prazo. Ora as necessidades actuais dos intervenientes do mercado petrolífero só podem ser satisfeitas por considerações de curto prazo. E essas são as considerações geopolíticas que perturbam, constantemente e de forma fatídica, os mercados.

         Nesse sentido os problemas do Golfo, tanto os de passado recente como os presentes, tornaram-se permanentes e a perspectiva de um ataque ao Irão aumenta a ansiedade do mercado. A preocupação maior a curto prazo que mais influencia o preço do petróleo é a de uma repentina falha de abastecimento e um maior risco de diminuição da amplitude da faixa entre a oferta e a procura nos fornecimentos da Arabia Saudita, responsável pelo grosso da capacidade excedentária.

         A elevada taxa de crescimento económico da China e de outros países asiáticos, nas últimas décadas, contribui para um aumento regular da procura de petróleo. A capacidade produtiva do petróleo de fácil extracção e com menor teor de enxofre, tanto pelos países da OPEP, como pelos USA, está passar por dificuldades evidentes. Até agora essas dificuldades na oferta não se fazem sentir porque há mais refinarias a aceitar o crude de qualidade mais pesada e porque a amplitude da faixa entre a oferta e a procura tem vindo a diminuir.

         O mercado petrolífero só funciona de forma eficaz se existir capacidade de produção de determinados níveis de excedentes, para compensar os efeitos das catástrofes naturais e dos conflitos em geral (greves, instabilidade social, guerras, etc.). Mas nenhuma alteração na amplitude da faixa entre a oferta e a procura será suficiente se o Estreito de Ormuz for encerrado. E esta é uma das maiores e mais rentáveis operações de marketing efectuadas na história do mercado petrolífero. O objectivo é fazer crer que o medo disto ocorrer cria alimenta profundas oscilações do preço do petróleo. Mas, é claro, que nem o mercado integrado nem os serviços de informação acreditam nesta realidade virtual que coloca o Irão com capacidade militar naval e aérea suficiente para encerrar o Estreito de Ormuz e conter um ataque dos USA no Golfo. Tal como aconteceu com o Iraque, o potencial militar do Irão está a ser n vezes aumentado para justificar a agressão. O controlo dos USA sobre o flanco oriental do Golfo Pérsico é muito mais relevante e primordial, mantendo esta região como uma área de acumulação de capital, do que a contribuição de receitas petrolíferas dai provenientes e que se revelam insignificantes.

         Os mecanismos actuais do preço do petróleo assentam cada vez mais num conjunto de mercados de futuros, mercados á vista, mercados a prazo e mercados de derivados, todos com grande expansão de liquidez. São mercados que englobam importantes instituições financeiras como a SG, a Morgan Stanley, a Goldman Sachs, a JP Morgan e a Merril Lynch, para além de um número significativo de hedge funds e de apostadores individuais. Ou seja o actual mercado petrolífero é formado por especuladores natos. Por isso é que o preço do petróleo oscila em resposta a taxas diferenciais de retorno de investimento noutros mercados, mais do que á relação tradicional oferta-procura. Na presença de uma grande liquidez e de baixas taxas de retorno noutros mercados as expectativas do que será o equilíbrio oferta-procura nos meses seguintes, o medo de que uma eventual guerra no golfo crie uma escassez repentina, arrastam o excesso de liquidez, tornando-se a força motriz deste mercado.

As dores de cabeça

         As dores de cabeça relacionadas com o Golfo e as ameaças de sanções ao Irão não são recentes e já de há muito que sobrevoam o mercado petrolífero.      Talvez já nem sejam dores de cabeça e tenham-se transformado em dores de parto. O alarido dos opinion makers dos grandes meios de comunicação social sobre a inevitabilidade do ataque ao Irão elevaram os níveis de tensão, aumentando a instabilidade do preço do petróleo. Aliás é este o objectivo e o papel destes agentes de informação.

         O poder emanado do controlo geoestratégico dos USA nas áreas do petróleo e a instável variabilidade do preço do petróleo são elementos fundamentais da mesma equação, através dos quais os USA aumentam o seu peso em relação a outros intervenientes. O dilema de importadores como a China é reduzir o controlo dos USA nas áreas petrolíferas, mas de forma equilibrada, para não abalar o padrão do dólar norte-americano, precipitando um processo de desvalorização e deflação da divida dos USA. Grande parte da gestão deste processo depende de os USA expandirem e nivelarem a intensidade dos conflitos nas áreas estratégicas com a sua distorcida política monetária e com o impacto da flutuação do preço do petróleo, mais especificamente na forma como é distribuído este impacto na relação económica com os outros estados.

         O controlo do petróleo pelos USA e a abdicação total ou parcial das soberanias nacionais é a principal garantia contar o seu endividamento crescente. As guerras nas regiões petrolíferas permitem aos USA exercer uma maior influencia sobre o mercado petrolífero e servem de mediação na contradição entre o débil desempenho económico dos USA e o endividamento alimentador dos sectores do capital financeiro global. Os conflitos, tensões e guerras no Médio Oriente e em África espelham as rivalidades entre os USA e os restantes intervenientes deste mercado quanto á aquisição desproporcionada de rendas no sector.

         A persistência tépida do ciclo de crédito, a precária rentabilidade financeira e os resultados medíocres das orquestradas campanhas do Iraque e do Afeganistão, levaram aos acontecimentos da Primavera Árabe, da tragedia Líbia e da agressão á Síria. Esta assume o papel de balão de ensaio final para o prelúdio do ataque ao Irão. Ensaio que é reforçado pelas sanções aparentemente destinadas a suspender o programa nuclear iraniano, mas que têm como objectivo único o enfraquecimento estrutural da capacidade económica iraniana.

         Sobre a agressão ao Irão o capital global divide-se em dois modelos estratégicos: Num modelo o capital nacional funciona como um meio de conta controlada, o outro é um modelo de livre capital financiado internacionalmente. No primeiro modelo a colaboração tácita das elites (por exemplo das elites dos BRICS) com a posição de agressão dos USA ao Irão apenas se manterá desde que os prejuízos estratégicos nas áreas petrolíferas não desestabilizem as suas economias nacionais e não sejam afectadas as suas reservas em dólares (o balão de oxigénio da emergência económica). No segundo modelo os capitais que resultam de financiamentos acrescidos, parasitários dos empreendimentos norte-americanos, apostam na estabilidade do dólar, realizando todos os esforços possíveis no auxílio ao controlo americano das áreas petrolíferas.

O petrodólar á laia de conclusão

         O padrão petrodólar é uma identidade que não obriga á estabilidade de uma determinada divisa em termos de produtos, ou que o dólar mantenha um valor constante. Na história recente das últimas duas décadas nunca houve falta de petróleo e nunca os preços do petróleo foram estáveis. O elo entre o dólar e o preço do petróleo é determinado pelo grau com que a influência dos USA é predominante nos produtores directos e na relação com os importadores.

         A variabilidade dos preços do petróleo é um mecanismo de preservação do domínio dos USA, necessária num contexto em que os desequilíbrios mundiais pressionam a desvalorização do dólar ao mesmo tempo que os USA utilizam a ameaça de desvalorização e deflaccäo da divida para retirar dinheiro aos seus credores. Para os USA o perigo principal é que o nível de liquidez eleve os preços do petróleo á saída da bomba, a níveis politicamente intoleráveis. Daí ouvir-se, nos últimos tempos, falar constantemente em libertar reservas estratégicas, o que implica que os preços serão geridos em caso de ataque ao Irão.

         O padrão petrodólar é assim um instrumento, sob a forma de produto-dinheiro, destinado ao domínio do mercado internacional petrolífero pelos USA.

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