sexta-feira, 11 de janeiro de 2013

Portugal: PS EXIGE ELEIÇÕES SE GOVERNO AVANÇAR COM MEDIDAS DO FMI




Liliana Valente – Jornal i

Maioria vai criar uma comissão eventual para acompanhar o corte na despesa de quatro mil milhõs no parlamento, revela Marques Mendes

Um ano e meio depois das eleições, o PS prepara-se para novo sufrágio. Ontem, o vice-presidente da bancada parlamentar José Junqueiro falou em eleições antecipadas caso o governo decida levar a cabo a proposta de corte na despesa de quatro mil milhões. Para os socialistas, o governo não tem mandato para fazer este corte que não passa, disse, de um “outro programa de governo”. Por isso, o “primeiro-ministro voluntariamente deveria submeter-se ao sufrágio universal”.

No plenário, José Junqueiro criticava a intenção do governo de fazer este corte na despesa e de, para isso, apoiar-se no relatório do FMI. “Não acha que o governo, ao apresentar com este relatório um outro programa de governo, ao apresentá-lo nas costas dos portugueses, não acha que este primeiro-ministro voluntariamente se deveria submeter ao sufrágio universal para ver se as pessoas queriam ou não aprovar estas medidas?”, questionou a deputada do Bloco de Esquerda Catarina Martins. As palavras de Junqueiro levantaram dúvidas no plenário e o deputado do PSD Emídio Guerreiro chegou mesmo a ironizar, perguntando se o pedido de eleições antecipadas era “a resposta às movimentações do presidente da Câmara de Lisboa, António Costa, e dos seus apoiantes”. Na resposta, a deputada Odete João corrigiu o discurso de Junqueiro dizendo que não se tratava de pedir eleições antecipadas, mas de defender que o governo não tem mandato para cortar no Estado.

Não é a primeira vez que os socialistas falam – sem defenderem directamente – na hipótese de regressarem ao poder mais cedo através de eleições antecipadas. No final do ano, o líder parlamentar Carlos Zorrinho já tinha dito que o PS está preparado para “um ciclo de governação que se iniciará em 2015 ou mais cedo se os portugueses assim o entenderem”.

Se no parlamento a discussão aqueceu com o relatório do FMI como pano de fundo, o secretário-geral do PS, apesar de crítico, não foi tão longe. Durante uma visita a Ferreira do Alentejo, António José Seguro disse que o primeiro- -ministro “está hoje isolado do consenso nacional que existe” e que o governo “é um factor de instabilidade”. O líder socialista criticava sobretudo o facto de o governo ter elogiado o relatório do FMI através do secretário de Estado adjunto do primeiro-ministro, Carlos Moedas. “Quando o governo vem elogiar o relatório do FMI, acho que isso é uma ofensa aos portugueses.” No comentário, Seguro voltou a repetir que é necessário apostar no crescimento económico e que o que o primeiro-ministro faz é apenas apresentar uma proposta: “Cortes e mais cortes, com a brutalidade daqueles que encomendou ao FMI.”

CRÍTICAS As críticas ao relatório dos técnicos do FMI e do Banco Mundial continuaram durante o dia de ontem e tiveram resposta do governo, através do secretário-geral da Presidência do Conselho de Ministros, Marques Guedes. “Sei que ontem houve algumas declarações, umas excessivas, outras acaloradas, outras até a roçar o absurdo, mas, com toda a franqueza, não é momento de estar a responder a essas questões”, disse. O responsável do governo voltou depois a chamar os partidos e a sociedade para o debate: “Era bom que todos, e principalmente os dirigentes partidários e os dirigentes políticos, se empenhassem também em formular os seus contributos, porque o que está em causa é demasiado sério.”

Depois do coro de vozes que se levantou nos últimos dois dias contra o relatório do FMI, o PSD e o CDS vão criar uma comissão eventual de acompanhamento dos cortes na despesa na Assembleia da República. A revelação foi feita por Marques Mendes no programa da TVI24 “Política mesmo”, onde disse que esta era a medida da maioria para “corrigir o tiro”. O ex-líder do PSD criticou o facto de o relatório ter saído na imprensa antes de ter sido entregue aos partidos da oposição, em especial ao PS, apesar de, defende, o PS já não aceitar nada porque se encontra em “campanha eleitoral”.

As vozes contra o documento surgiram também dentro do campo político da maioria. Num artigo de opinião no “Diário de Notícias”, o eurodeputado do CDS Nuno Melo lembra que “há despesas e há despesas” em que se pode cortar. E o eurodeputado Diogo Feio, num vídeo publicado no Facebook, diz que os cortes “têm de ser selectivos” e aponta o dedo à comunicação do governo.

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