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quarta-feira, 12 de junho de 2013

A NATO EM CABO VERDE, OU AS SUCESSIVAS MORTES DE AMÍLCAR CABRAL – II

 

Martinho Júnior, Luanda

Cabo Verde começou a valer muito mais pelo contexto sociológico e pela sua forte identidade cultural que não se deixou abater pela diáspora do que pelo pendor revolucionário de suas gentes e, tanto o peso das comunidades migrantes, como a influência dos seus contactos, ditou a sorte do jovem estado e a natureza da sua vida e do seu desenvolvimento.

Com mais de trinta anos de Independência, se durante a Guerra Fria as ilhas viveram um pouco à margem dos acontecimentos no Mundo, durante o processo de globalização Cabo Verde tem-se vindo a acomodar num espaço geo estratégico bem definido, em relação ao qual durante várias décadas se foram constituindo laços de sangue, laços de comunidade, laços sociais inultrapassáveis e interesses, na sequência das dependências históricas que estão longe de deixar de existir.

A sua insularidade atlântica distingue Cabo Verde de África, como se seu povo fosse um velho e original navegante com identidade própria e os seus laços afirmam Cabo Verde como uma “sentinela” geo estratégica duma Europa que também ela teima em não se assumir, presa aos expedientes históricos dos impérios coloniais, aos contenciosos advenientes da IIª Guerra Mundial e particularmente a uma organização como a NATO, instrumento duma filosofia hegemónica servil à alta finança e aos seus projectos de domínio sobre o Mundo.

É no espaço físico geográfico dessa “sentinela” que a NATO escolheu precisamente o cenário para testar a sua Força de Intervenção Rápida (“NATO Reponse Force” ), ao nível de mais duma vintena de unidades navais (algumas delas constituídas em autênticas plataformas estratégicas) e de 7.000 homens e para isso muito contribuíram o antigo guerrilheiro Pedro Pires, (actual Presidente de Cabo Verde), o PAICV (herdeiro histórico do movimento de libertação) e dirigentes ao nível do Primeiro Ministro de Cabo Verde, expoente da nova geração de governantes das ilhas.

O “Steadfast Jaguar 2006” não serviu apenas para testar a capacidade da “NATO Reponse Force” fora dos limites tradicionais da NATO e, pela primeira vez, num país africano: o exercício foi mais um elo na sucessão que o poder hegemónico vem dinamizando no eixo dum paralelo que vai das Caraíbas ao Afeganistão, bordejando uma estratégia de alargamento de influência das principais potências do sistema Norte Americano – Europeu.

O seu enquadramento foi perfeito na sucessão de exercícios como o “Partnership of the Americas”, realizado pelo SOUTHCOMMAND dos Estados Unidos, o “Joint Caribean Lion 2006”, sob comando Holandês, ou ainda o “Phoenix Express”, assim como conjunto de missões que as marinhas de guerra dos Estados Unidos e dos países da NATO foram explorando no Atlântico e no Mediterrâneo, entre elas a visita do Emory S. Land à costa Ocidental Africana, em tempo oportuno para fazer avançar o reconhecimento subaquático em toda a profundidade dos vários campos de manobra e tendo em conta os teatros regionais.

A sublinhar o enquadramento foram utilizadas unidades navais similares, algumas delas pertencendo às mesmas classes de navios:

Por parte dos Estados Unidos utilizaram-se os navios de assalto anfíbios como o USS Bataan e o USS Saipan, utilizaram-se ainda porta-aviões como o USS George Washington, como o navio comando USS Mount Whitney, que alberga o comando da 6ª Esquadra da Navy.

Por parte dos Europeus, navios como o Roterdan (da Holanda), ou o Castilla (de Espanha), unidades polivalentes que servem para desembarque e assalto.

Nunca as frotas de desembarque e assalto dos Estados Unidos, como dos países europeus da NATO, foram tão poderosos como hoje e isso é por si um sinal de como este “modelo” de globalização se instrumenta em meios militares, como uma forma “cirúrgica” e “persuasiva” de ampliar sua margem de manobra e de influência, impondo a “New World Order”.

Ao aceitar que seu território fosse palco dum exercício desta natureza, integrando um pacote tão vastos de exercícios com profundo significado militar, político e sócio cultural, Cabo Verde deixou de se identificar com aqueles países que procuram estratégias alternativas, integradas e Não Alinhadas, como Cuba, Venezuela ou Bolívia, na América Latina, países que procuram encontrar soluções geo estratégicas que escapem ao unilateralismo Norte Americano e da NATO, como a Rússia, a China, ou mesmo alguns países africanos, que vêem na União Africana muito mais que uma forma integrada de pensar e agir África.

Ainda o exercício estava em curso, Cabo Verde foi (muito oportunamente) visitado pelo Ministro dos Negócios Estrangeiros de Cuba, Filipe Pérez Roque, que veio convidar o Presidente Pedro Pires para a 14ª Cimeira do Movimento dos Não Alinhados, como que se Cuba Revolucionária estivesse precisamente a lembrar que a presença da NATO era por si uma fronteira em relação à qual a “sentinela” Cabo Verde, deveria séria e dignamente ter a possibilidade de optar.

Cuba Revolucionária, fiel à lógica de Brazzaville, do Não Alinhamento e dando sequência à epopeia do movimento de libertação, lembra também e dum modo muito diplomaticamente discreto, que todos os exercícios navais, das Caraíbas ao Afeganistão, assim como todos os contenciosos militares e operativos dentro dessa vastíssima região, são a prova de que a NATO está dilatada muito para lá das suas fronteiras tradicionais e que suas ambições não se limitavam à quimérica defesa da Europa segundo o pensamento típico anglo-saxónico.

Cuba Revolucionária lembra ainda que para a Espanha, tão singularmente presente no “Phoenix Express” quanto no “Steadfast Jaguar 2006”, tal como para Portugal, há uma alternativa para o pensamento estratégico anglo-saxão na via dum Pacto Hispânico alargado à América Latina e a África, alternativa essa que nunca foi alguma vez explorada.

A NATO veio provar em Cabo Verde a sua vontade em atingir outras paragens, alargar a sua influência e servir os interesses que tutelam o “modelo” de Globalização que as elites financeiras do grande capital pretendem, em função da sobrevivência dos seus “lobbies” e interesses.

Não conseguiu esconder contudo o essencial: a vida não se compadece com um contínuo exercício musculado de poder e, se as nações e povos do Sul, como pretendem estadistas como Hugo Chavez, conseguirem lutar por seus interesses e unidade, muita coisa se poderá alterar, inclusive no microcosmos que constitui o que é hoje a “sentinela” de Cabo Verde.

Texto produzido em Junho de 2006.

Foto: O Presidente Pedro Pires passa revista aos efectivos da NATO no âmbito da “Steadfast Jaguar 2006”: os dados estavam lançados… - Distinguished visitors are hosted in the USS Mount Whitney during Steadfast Jaguar 2006 – 23 de Junho de 2006 – http://www.nato.int/shape/news/2006/06/060601a.htm; Pedro Pires visita Regiões Militares – http://liberal.sapo.cv/noticia.asp?idEdicao=64&id=7700&idSeccao=527&Action=noticia

Nota: Este texto foi por mim produzido na sequência do Exercício Militar da NATO “Steadfast Jaguar 2006”, que teve lugar em Cabo Verde entre 1 e 12 de Junho de 2006, está a fazer sete anos.

Nessa altura tinha a intenção de fazer parte dum conjunto de alertas para o que viria a desencadear-se a seguir: a NATO no Afeganistão, a Líbia, as “primaveras árabes” submissas ao diktat dos interesses ocidentais, o Mali, a crónica Somália, o Iémen, os enredos do Médio Oriente e do petróleo barato, o crescendo do neo colonialismo em África, o AFRICOM, as manipulações só possíveis com as artificiosas ementas do “combate ao tráfico de droga”, “combate à migração clandestina”, “combate à pirataria”, “combate ao terrorismo”… a criação de “frentes mobilizadoras” que dessem possibilidade a “parcerias” que se traduzem nas ingerências a que se passaram a sujeitar as nações africanas na via neo colonial que se começava a estender, por dentro de suas sociedades, como nos enredos regionais e internacionais característicos da globalização capitalista e neo liberal…

A independência de bandeira não é a independência de facto.

Para a América Latina 200 anos não bastaram para alcançar a independência de facto, nem mesmo com o engenho e a arte histórica da integração, pois o penoso processo de luta continua com avanços e recuos, com recurso à imensa coragem e à consciência rebelde dos seus povos…

Para África contudo, uma África minada pelo subdesenvolvimento, sem infra estruturas, com extremamente frágeis identidades nacionais, ocupando a cauda dos Índices de Desenvolvimento Humano, esse processo ainda não tem a energia resoluta das grandes opções e o fim do movimento de libertação contra o colonialismo e o “apartheid” é comprovado por que as burguesias coloniais e as “brancas”, estão a ser sucedidas pelas burguesias negras trabalhadas pela globalização neo liberal na direcção da submissão e da dependência do continente-berço da humanidade!

África está à mercê do neo colonialismo, a única forma de relacionamento para que as culturas indexadas ao universo anglo-saxão, aquelas que se subordinam aos tais 1% da humanidade, estão vocacionadas!

 

1 comentário:

Anónimo disse...


«Flores de nenúfar» dos EUA em África*

Carlos Lopes Pereira

A presença militar dos EUA no Atlântico Sul é uma peça fundamental na estratégia imperialista de dominação global e de controlo das fontes de produção e das rotas do petróleo. Apontando prioritariamente a África, o seu objectivo estratégico visa mais longe, nomeadamente a disputa dos recursos energéticos e outros às novas “potências emergentes”. A paz, a independência nacional, o progresso dos povos africanos são as vítimas imediatas



http://www.odiario.info/?p=2907