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sexta-feira, 29 de abril de 2016

Brasil. UM MERGULHO NO PASSADO: OS ALMANAQUES GAÚCHOS



“Assim as semanas, assim os meses, assim os anos.  E choviam almanaques, muitos deles entremeados e adornados de figuras, de versos, de contos, de anedotas, de mil coisas recreativas. E choviam. E chovem. E hão de chover almanaques  (....)”.

Machado de Assis (1839-1908) – Como se inventaram os almanaques
                                                                                     

Um tipo de publicação, desde o século XX, acompanhou gerações e foi bastante apreciada pelo público leitor no Rio grande do Sul: os almanaques. Tratando das fases da Lua, dados estatísticos e curiosidades sobre os mais variados temas, esta tradicional publicação era aguardada com expectativa, ao final de cada ano, por uma grande parte da população, constituindo-se numa marca da imprensa gaúcha.

De acordo com a ensaísta, professora de literatura e comunicação social brasileira, Jerusa Pires Ferreira, o almanaque traz “por um lado a fragmentação, por outro a memória reativada. A concepção de almanaque cobre e recupera práticas e saberes dos mais antigos aos mais imediatos”

Origem

Os almanaques possuem uma origem remota, que antecede aos tipos móveis e metálicos de Gutenberg (1398- 1468). Trazidos do Oriente para o Ocidente, no final da Idade Média, o mais antigo foi encontrado no Egito Antigo, no século XIII a.C. De acordo com os autores Corrêia e Guerreiro (1986), foi por meio de astrólogos árabes que o almanaque chegou à Europa com  formatação e conteúdo ligados diretamente ao c calendário. Embora existam controvérsias, quanto à origem do termo, em algumas fontes deriva do árabe al-manakh, referindo-se ao local onde os árabes nômades se reuniam para orar e relatar as experiências de viagens ou notícias de outras terras.

Segundo o historiador Jacques Le Goff (1996), o primeiro almanaque surgido na Europa foi por volta do ano de 1455. No ano de 1464, circulou o Almanaque da Corporação dos Barbeiros, e, em 1471, o Almanaque Anual.  Em relação à França, o Le Grand Calendrier Compost dês Bergers, de 1471, foi o mais importante e popular almanaque francês. O primeiro almanaque em Portugal data de 1496: Almanach Perpetuum de Abraão Zacuto, Impresso em Leiria, fornecia tábuas logarítmicas e outras informações relacionadas ao curso solar para cada dia do ano.  Os dados eram para ser utilizados junto com os instrumentos de medição astronômicos.

Nos séculos XVI e XVII, os almanaques começaram a circular de forma ampla na Europa, fazendo parte de seu conteúdo: o calendário, a astrologia, utilidades e entretenimento. Porém a partir do século XVIII, eles foram adquirindo uma nova roupagem diferente da anterior, cujo padrão era in-quarto, oito paginas de um papel de baixa qualidade e ilustrações grosseiras. A nova apresentação os transformara em publicações mais elaboradas, com mais páginas e  conteúdo diverso, além de se voltarem  à propaganda e à instrução.  Os almanaques conhecidos na China, no Egito e na Índia se espalharam pela Europa, principalmente, depois da propagação do Cristianismo pelo fato de difundir as datas sagradas e os santos.

O primeiro Almanaque publicado no Brasil

Os almanaques chegam ao Brasil por meio de importações contrabandeadas da Europa, devido à Coroa Portuguesa proibir a circulação de periódicos na Colônia. Com a chegada da Família Real e a instalação da Imprensa Régia, em 1808, começa a surgir uma imprensa de caráter nacional com o lançamento dos primeiros periódicos e a instalação de tipografias particulares.

O Almanach para a cidade da Bahia, lançado, em 1812, na Tipografia de Manoel Antonio da Silva Serva (1761- 1819), foi o pioneiro no Brasil. Este primeiro exemplar do gênero seguiu o modelo europeu, tendo a função de calendário, informando os feriados e dias comemorativos. Em 1816, foi publicado o Almanach do Rio de Janeiro , sendo a segunda publicação nesse gênero. 

De acordo com José Marques de Melo (1973), as altas taxas de analfabetismo no Brasil, por muitas décadas, se constituíram num entrave para o desenvolvimento da imprensa nacional. Durante o período Imperial, a taxa de alfabetização nacional era de 3%.  Enquanto os jornais circulavam com a predominância de textos, os almanaques eram repletos de imagens que representavam os pequenos textos publicados.  É possível que este dado tenha contribuído para o sucesso editorial dos almanaques, nos quais as ilustrações tinham um caráter bastante atrativo, indo a encontro do grande número de analfabetos à época.

O êxito de público, em relação aos almanaques, pode ser atribuído também ao fator econômico, pois “eram utilizados papeis de baixa qualidade assim como um grande numero de anúncios que custeavam parte significativa dos custos com a produção” (FERREIRA, 2011, p. 13). Isso tornava possível que as edições fossem distribuídas de forma gratuita, a exemplo dos Almanaques de Farmácia, ou vendidos com valores acessíveis às camadas populares.

Os almanaques representam uma iniciativa, visando a ampliar a cultura impressa tão insipiente e dependente das precárias técnicas de impressão, além da resistência que havia na Colônia quanto à circulação de impressos. Os almanaques no Brasil se constituíram em livros de uso e consulta de maneira genérica. Na Corte e nas províncias, foram aos poucos surgindo almanaques, que se tornavam atraentes e alvo de interesse, entre outros fatores, pela publicidade presente em suas páginas.  Neste breve artigo, minha proposta é retratar a presença e a importância de alguns almanaques que foram impressos no Rio Grande do Sul.

Entre os periódicos publicados, no final do século XIX e inicio do século XX, o almanaque assume uma função de destaque tornando-se o responsável na difusão de informações básicas, já que o jornal, naquele momento, estava voltado às questões políticas e econômicas e os livros eram caros, raros e de difícil acesso. Diante do  desenvolvimento da imprensa local, os almanaques começam a publicar outras temáticas, como trabalho, saúde, ciência, cultura, comércio e astrologia. De acordo com o historiador francês Jacques Le Goff (1924-2014):

“A literatura popular de divulgação acolhe e difunde os almanaques. Ilustrado com signos, figuras, imagens, o almanaque dirige-se aos analfabetos e a quem pouco lê. Reúne e oferece um saber para todos: astronômicos, como os eclipses e as fases da lua; religioso e social, com as festas e especialmente as festas dos santos, que dão lugar aos aniversários no seio das famílias; científico e técnico, com conselhos sobre os trabalhos agrícolas, a medicina, a higiene; histórico, com as cronologias, os grandes personagens, os acontecimentos históricos ou anedóticos; utilitário, com a indicação das feiras, das chegadas e partidas dos correios; literário, com anedotas, fábulas, contos; e, finalmente, astrológicos” (LE GOFF, 2003, p. 518)

 Surge o Almanaque no Rio Grande do Sul

Em 1808, no Rio Grande do Sul, surgiu o “Almanaque da Vila de Porto Alegre” sob a responsabilidade de Manoel Antônio de Magalhães. Na realidade, esta publicação manuscrita se tratava mais de um relatório do que um periódico informativo, ou seja, ainda era um prenúncio do gênero.

O autor do manuscrito se tornou famoso, na sua época, por dois motivos: por ter sido o autor do Almanaque da Vila de Porto Alegre e pelo fato de ser o primeiro cidadão, em Porto Alegre, a ter janelas de vidro na fachada da sua residência.

Sua residência se localizava, na Rua Riachuelo, quase defronte ao famoso Beco do Fanha. O local passou a ser visitado pela população, inclusive, por estudantes curiosos, desde a colocação de vidros, nas esquadrias das suas sete janelas da casa, pelo francês Felix Gafury.

O almanaque não causou tanta surpresa na cidade quando apareceu, em 20 de julho de 1808.  Embora manuscrito e magro, ele tratava de Porto Alegre e trazia ponderações sobre o estado da Capitania do Rio Grande do Sul, tendo sido oferecido a dom Fernando José de Portugal.

Escondido nas compactas estantes do Arquivo Público Nacional, em 1867, foi trazido a público, por meio da publicação de um artigo na Revista do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro, sob a autoridade intelectual do Visconde de Taunay.  o Almanaque da Vila de Porto Alegre (1808)  foi o "pai dos almanaques do Rio Grande do Sul".

 O autor recomenda a sua Alteza Real, numa das primeiras páginas do almanaque, para que se evite a aquisição do charque do Montevidéu, protegendo, desta forma, o produto rio-grandense. Realmente, Manoel Antonio de Guimarães estava coerente em seu alerta, pois a concorrência com o produto platino, vendido mais barato, fez com que o nosso charque acabasse preterido, durante as negociações, pelo Império. Prejudicada economicamente a nossa elite estancieira, esta questão se tornou uma das causas importantes da Revolução Farroupilha (1835-1845), que eclodiu na província gaúcha 27 anos mais tarde.

Seu Centenário

No ano de 1908, ao completar seu centenário, o Almanaque da Vila de Porto Alegre mereceu edição própria, em forma de livro, devido à iniciativa de Augusto Porto Alegre, à chancela da Livraria do Globo e dos editores Barcellos & Cia. Nesta edição comemorativa é que se corrobora a opinião de Simões Lopes Neto (1865-1916), amparada em Domingos José de Almeida (1797- 1871): José Pinto Martins foi o proprietário da primeira charqueada que se estabeleceu em Pelotas. A afirmativa não é do criador do almanaque, Manoel Antonio de Magalhães; é de Augusto Porto Alegre. (CONTINUA)

*Pesquisador Coordenador do setor de imprensa do Musecom - Porto Alegre / RS / Brasil

Leia em Página Global o artigo integral de UM MERGULHO NO PASSADO: OS ALMANAQUES GAÚCHOS (inserido em SEPARATAS na barra lateral do PG) 

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