quarta-feira, 27 de abril de 2016

O PACTO COM O DIABO

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Miguel Guedes – Jornal de Notícias, opinião

Aberto até de madrugada, sem o argumento de Tarantino. Podemos esperar até às 00.20 horas do dia 25 para cantar a Grândola mas as revoluções acontecem na madrugada dos amanhãs que cantam e são precedidas pelas maiores declarações de amor e compromisso na véspera. Foi assim a 24 de Abril de 1974 nas operações do MFA em Portugal e assim foi a 24 de Abril de 2016 no pacto Ted Cruz/John Kasich para as eleições primárias do partido Republicano nos EUA. Em ambas as situações, medidas à escala, a vontade de salvar a pele ou a pele dos outros. Em ambas as situações, o desejo de se verem livres do carrasco ou do ditador, do "estado a que chegámos" (como dissertava o capitão Salgueiro Maia, sobre as diversas modalidades de Estado). No 24 de Abril de 74 para o MFA, o desejo do fim de Marcelo Caetano, o ditador progressista. No 24 de Abril de 2016 para Cruz e Kasich, o desejo do fim de Donald Trump, o ditador em progressão.

Aberta a cronologia da madrugada, só os republicanos podem ter visto o filme de Robert Rodriguez. Mas é verdadeiramente inacreditável que não tenham percebido que o acordo de 24 de Abril, dois dias antes da vitória de Trump na Pennsylvania nesta madrugada, é mesmo uma admissão de derrota perante o multimilionário que lidera todas as sondagens. O MFA tinha o apoio do povo democrata, Donald Trump tem o apoio do povo republicano. Ainda que a história possa vir a contar que há uma enorme distância entre delegados e o povo.

O sinal expresso não é dado apenas pela mais do que previsível vitória de Hillary Clinton e de Donald Trump nas "primárias de Acela" nesta madrugada portuguesa. O mais significativo é que, nas sondagens, Trump consegue - pela primeira vez - liderar maioritariamente o apoio nacional entre os republicanos com 50% de intenções de voto, com Cruz a registar 26% e Kasich apenas 17% (fonte NBC News). A soma dos dois não chega a Trump. Ainda que, entre Trump e Cruz, saia o Diabo de dentro deles e escolha. A mais cómica das eleições e também a mais perigosa.

O pacto de Ted Cruz e John Kasich é aparentemente simples: o primeiro abandona a corrida por Oregon e New México e o segundo deixa cair o estado de Indiana. O que parece um mero tacticismo é uma efectiva admissão de falência técnica no momento em que Trump desfila com apoio maioritário. A dupla deste pacto está matematicamente morta e só pode ressuscitar pela diferença que separa a opinião dos delegados em Congresso da opinião do povo nas urnas. Várias formas de recordar, sem as imagens de Roman Polanski, o pacto com o Diabo e a sua semente ou de soletrar a forma como as elites na revolução podem mesmo manter o tasco aberto.

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