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quarta-feira, 13 de julho de 2016

BREXIT: E DEPOIS DO ADEUS?



Alberto Castro*, Londres

No dia 24 de junho a Europa e o mundo foram tomados de surpresa com o desfecho do referendo britânico onde 52% dos eleitores votaram a favor do Brexit, como ficou conhecido o lado do argumento que defendia a saída do Reino Unido (RU) da União Europeia (UE) após um casamento de 43 anos que, diga-se, nunca sempre foi pacífico. Isso porque o RU, com sua insularidade eurocêntrica e ainda com forte memória dos tempos do império verdadeiramente global, aquele onde "o sol nunca se punha", jamais se entregou de corpo e alma ao ideal europeu. Mais do que incrédulos, acordaram em estado de choque, revolta e descrença os 48% de britânicos que votaram pela permanência do país no bloco. 

''Tomamos de volta o nosso país'', jubilavam os partidários da saída, sobretudo os ultra-nacionalistas e eurocéticos radicais que, embora com sondagens favoráveis, nunca acreditaram ser possível o desfecho dado pelo veredicto popular. ''Uma tragédia'', dizia inconformado o lado oposto que logo clamou por um segundo referendo, ou pelo simples ignorar deste, argumentando, por um lado, que o mesmo não tem carácter vinculativo e, por outro, que a campanha foi feita com base nas mais sórdidas mentiras. O apelo para um novo referendo reuniu mais de 4 milhões de assinaturas logo nos dias seguintes e uma famosa firma de advocacia já se posicionou contra o Brexit dizendo que compete apenas ao Parlamento a decisão sobre a permanência ou não do país no bloco comunitário.

Foi uma campanha intensa onde foram jogadas as mais sujas cartas as do medo, mentira, nacionalismo exacerbado, racismo e da xenofobia, as três últimas principalmente por parte dos defensores mais acérrimos da saída como o populista e independentista Nigel Farage, ex-líder do Partido da Independência do Reino Unido (UKIP, na sigla em inglês), o que mais cresce a cada eleição e que, devido ao sistema de votação não proporcional no Reino Unido conta, por enquanto, com um só  deputado no parlamento de Westminster apesar dos quatro milhões de votos que obteve nas legislativas de 2015. Uma campanha cujo ódio disseminado, suspeita-se, terá causado a morte de Jo Cox, ainda jovem e promissora deputada trabalhista pró-europeísta que se destacou na defesa dos refugiados, assassinada uma semana antes do veredicto por Thomas Mair, um homem alegadamente associado ao ''Britain First'', grupo anti-imigração da extrema direita formado em 2011.       

Os defensores da permanência, com grande vantagem do establishment político, religioso, militar, financeiro e comunicacional, interno e externo, apostaram forte nos receios sobre o declínio e incertezas na economia em caso da prevalência do Brexit. Entre outros, a maioria parlamentar de Westminster, a UE, a City - como é conhecido o centro financeiro de Londres -, a FMI, a OTAN, os líderes máximos das igrejas anglicana e católica locais, o presidente Obama e parte dos pesos-pesados da imprensa escrita britânica como o Guardian, Times, Financial Times, Economist, Independent e New Statesman, todos se posicionaram a favor da permanência.

Conhecido o resultado, alguns dos seus alertas sobre a economia alertas logo se provaram verdadeiros. Os mercados ficaram nervosos, a libra esterlina caiu para valores nunca vistos desde 1985. Economistas preveem desvalorização ainda maior com as incertezas que pairam sobre a economia, empresas gizam planos de mudança dos seus quartéis-generais para a UE. Por exemplo, entre outras, a gigante alemã de energia Siemens congelou novos investimentos no RU até que a situação esteja clarificada e gigantes do setor bancário como JP Morgan e HSBC ponderam mudar as sedes ou transferir significante parte dos funcionários para o continente. Neste mesmo sentido a companhia aérea de low cost Easyjet também sinalizou. Para além da economia, os pró-europeístas jogaram também com a carta do medo. O ex-primeiro ministro David Cameron chegou a sugerir que o chamado Estado Islâmico ficaria feliz com a saída do RU do bloco europeu.

Mas se o lado da permanência jogou cartadas com receios sobre a economia e a segurança nacional, o da saída se valeu, como atrás referido, de cartas do chauvinismo, racismo, xenofobia e mentiras sobre a sobrevivência do serviço nacional de saúde, NHS sigla em ingles, uma instituição cara aos britânicos, ao qual foi prometido uma verba extra de 350 milhões de libras por semana retirados das contribuições do RU para a UE. Promessa agora desmentida pelos brexistas, como ficaram os partidários do Brexit, que sequer tinham um plano  de governo para a eventualidade. Suas estratégias de campanha contaram com o apoio do influente Daily Telegraph, de linha editorial conservadora, de tabloides sensacionalistas e conservadores líderes de audiência como The Sun e Daily Mail, de um dúzia de milionários eurocéticos e, na reta final, com uma forcinha do assustador candidato republicano Donald Trump.

O populista Farage, por exemplo, jogou com a tragédia dos refugiados e foi o que mais centrou seus argumentos numa forte retórica xenófoba, anti-imigração europeia e demonizadora da UE. Uma das suas maiores polêmicas foi ter sugerido que, com as fronteiras abertas ao fluxo migratório e de refugiados, as mulheres britânicas correriam o risco de estupro. Para a posteridade fica o controverso poster com a imagem de milhares de refugiados a caminho da Alemanha e com o slogan Breaking point: the EU has failed us all (Ponto de ruptura: a UE falhou com todos nós), denunciado nas redes sociais como similar à propaganda nazi.

Desde sempre um eurocético radical, Farage, que deixou o Partido Conservador em 1992 para fundar o UKIP em 1993, acabou por ser o grande responsável pelo êxito do Brexit embora a maior parte da mídia britânica e de comentadores políticos tendam a creditar o feito ao excêntrico conservador Boris Johnson, ex-jornalista e ex-prefeito de Londres que, ao longo da sua carreira tanto no jornalismo quanto na politica, manifestara opiniões ambivalentes sobre a presença do RU na UE, umas vezes favoráveis, outras desfavoráveis. Durante a campanha, à qual só declarou apoio em fevereiro, ele chegou ao cúmulo de comparar o bloco à Alemanha de Hitler.

Vários analistas são unânimes em concluir que a participação de Johnson teve mais a ver com suas ambições à liderança dos tories, como são conhecidos os conservadores britânicos, do que propriamente com sua convicção brexista. Alguns, como Polly Toynbee, conceituada colunista do Guardian, o veem como um "sociopata político" que, por ambições desmedidas à chefia do partido, acabou por obter uma vitória pírrica que resultou no ressuscitar de velhos fantasmas e na fratura do país entre regiões, gerações, os mais e os menos escolarizados, amigos, familiares, enfim, mergulhado em preocupantes incertezas quanto ao futuro. 

Cameron, que fez do referendo uma de suas promessas eleitorais para ganhar votos de descontentes com a imigração, demitiu-se como premiê logo no dia seguinte ao veredicto e Johnson, super favorito à liderança, acabou renunciando ao posto, diz-se que traído por Michael Gove, ministro da justiça de Cameron e, a par do ex-prefeito, um dos principais rostos do Brexit. Este se lançou na corrida à chefia dos conservadores depois de repetidas vezes ter jurado a pés juntos que jamais o faria. Foi eliminado da corrida em favor da low profilebrexista Andrea Leadson e da remainer Theresa May, atual ministra do interior cotada como a provável primeiro-ministro em substituição de Cameron em setembro. Uma das duas será a segunda mulher a ocupar o cargo depois de Margareth Thacher.

Entre os trabalhistas, europeístas na esmagadora maioria, a situação não é menos pacífica. Com maioria na bancada parlamentar do partido, os chamados blairistas, deputados apoiantes do ex-premiê Tony Blair, tentam a todo o custo derrubar o líder Jeremy Corbyn, da ala mais à esquerda do partido, um eurocético moderado que, como tal, teve uma participação pouco entusiasta na campanha pela permanência embora defenda a presença do país no bloco como a melhor forma de influenciar e promover mudanças consideradas mais democráticas ao funcionamento do mesmo. 

Como atrás sugerido, no terramoto político que ameaça a desintegração do RU e mesmo da UE e de outras paragens, Farage, ironicamente deputado ao Parlamento Europeu mas que em sete tentativas nunca fora eleito ao Parlamento britânico, acaba por ser a figura mais influente e vitoriosa do Brexit. Em êxtase, ele declarou o 23 de junho como dia da independência do país e propôs que a data fosse doravante comemorada como feriado nacional. Mas, tal como Johnson e Gove, a sua vitória acaba também por ser de Pirro devido a forma como conduziu a campanha, considerada, dentro e fora do partido, demasiado extremista, divisora da da sociedade e da unidade do reino.

Alguns dos principais doadores do UKIP o censuraram publicamente e ameaçaram com a criação de um novo partido caso ele não renunciasse. Acabou por fazê-lo argumentando que "ter o país de volta" foi objetivo principal da sua vida política e que agora era tempo de ''ter a sua vida de volta''. Todavia, muitos o comparam como mais um dos ratos que, cientes do futuro político imediato pouco promissor, abandonam um navio em naufrágio para se salvarem. 

No caos político gerado pelo referendo, uma figura que emerge imaculada como vitoriosa é Nicholas Sturgeon, a líder dos nacionalistas escoceses que, com o resultado da votação, renovou de imediato o apelo para um novo plesbicito sobre a independência da Escócia que, ao contrário da Inglaterra e do País de Gales, votou expressivamente pela permanência na UE. A Irlanda do Norte também votou pela permanência e, em reação, os nacionalistas do Sinn Féin já se manifestaram em defesa de um referendo por uma Irlanda unida.

Não bastassem as confusões do Brexit, foi finalmente publicado na quarta feira (6) o tão esperado relatório Chilcot, assim chamado em nome do relator, Sir John Chilcot, chefe de uma comissão de inquérito há sete anos estabelecida para inquirir sobre a participação do RU na guerra do Iraque.  Com cerca de 2,6 milhões de palavras, quatro vezes mais do que a famosa Guerra e Paz de Leon Tosltoi, o documento foi demolidor para Blair, acusado de ter levado o país a participar ativamente em uma guerra com base em informações e avaliações falhas e de ter um alinhamento incondicional aos EUA.

O relatório confirma que, oito meses antes da invasão, ele se comprometeu a estar de "qualquer jeito" com o ex-presidente Bush filho na determinação deste em invadir o país árabe sem que se esgotassem todos os esforços diplomáticos e sem que estivesse concluído o trabalho dos inspetores da ONU sobre a questão das alegadas armas de destruição massiva detidas pelo regime de Saddam Hussein. Vários politicos, analistas e comentadores locais são unanimes na leitura de que as conclusões do relatório são uma tragédia devastadora da reputação internacional do RU. O ex-premiê trabalhista, que na sequência da publicação do documento foi acusado pela irmã de um dos 179 militares britânicos mortos no Iraque de ser o "pior terrorista do mundo", enfrenta agora crescentes pedidos para que responda criminalmente pela sua desastrosa liderança no processo que levou à tragédia do Iraque e sofra um impeachment simbólico que o bana para sempre da vida pública. 

Cumprindo uma promessa que havia feito quando assumiu a liderança trabalhista, Jeremy Corbyn, forte opositor da intervenção no Iraque enquanto deputado e à época um dos líderes da organização anti-guerra "Stop the War Coalition", pediu de imediato, em nome do Partido Trabalhista, "sinceras desculpas ao povo do Iraque que pagou o maior preço pela desastrosa decisão" que levou à guerra. A esses desenvolvimentos, somou-se a humilhante eliminação da seleção inglesa afastada da Eurocopa de futebol pela pequena Islândia com apenas cerca de 300 mil habitantes e sem tradições no futebol europeu.  

E depois do adeus?

Se o terramoto político e, com ele, os impactos sísmicos sobre a economia foram as imediatas consequências do voto pelo Brexit, outro e não menos preocupante dos estragos causados pela opção, questionavelmente democrática pela forma como no plano ético a campanha foi conduzida, foi o surto de casos de racismo e xenofobia no país que se orgulha da sua multiculturalidade e de ter uma sociedade aberta e tolerante. Um cenário previsível mas que choca e espanta pelas proporções adquiridas. 

E depois do adeus / quis saber quem sou / o que faço aqui / quem me abandonou. Este trecho da letra de uma musica (E depois do adeus) do português Paulo de Carvalho, vencedora do festival da canção da Rádio Televisão Portuguesa (RTP) em 1974 e que serviu como uma das senhas para a revolução dos cravos em abril do mesmo ano, retrata bem o estado de espírito da grande maioria dos cerca de 3 milhões de cidadãos da UE, na maioria europeus do leste, que escolheram as terras da rainha para residir e trabalhar e dos cerca de 1,2 milhões de britânicos que optaram pelo inverso. De repente uns e outros, separados pelo Canal da Mancha mas partilhando em comum os múltiplos benefícios da cidadania europeia e sentimentos de pertença a um comunidade de todos, se sentem estranhamente estrangeiros nos respectivos espaços que optaram por fazer ou refazer suas vidas. 

Se para ambos foi inesperadamente inaugurado um tempo de incertezas quando ao futuro, ao direito de residir e trabalhar, o que mostra o Brexit às minorias étnicas nacionais e estrangeiras em terras de Sua Majestade após uma campanha de inflamatórias retóricas política anti-UE e xenófoba contra a imigração usadas por boa parte defensores da saída?

Tais retóricas se tornaram em uma ameaça real tanto para os imigrantes europeus como para as minorias étnicas nacionais e extracomunitárias em terras de Sua Majestade. Nove das doze regiões e nações que compõem o RU votaram pela saída, principalmente nas áreas rurais e nas adjacentes à maioria das grandes capitais. Apenas Londres, Escócia e Irlanda do Norte optaram majoritariamente pela permanência.

A antes anunciada crise económica, agravada pelas incertezas do Brexit, e um referendo conduzido na base perigosamente irresponsável do "vale tudo" provocaram um assustador ressurgimento do nacionalismo exacerbado, do racismo e da xenofobia, como já referido. Não significa isso assumir que a maioria dos que votaram pela saída seja racista e xenófoba mas, como notou Trevor Philips, ex-Alto Comissário para a Igualdade Racial, em entrevista à BBC, ''a maioria dos racistas estava no lado do Brexit''.

A título de exemplo note-se que, logo nos dias seguintes ao referendo, a polícia britânica reportou um aumento de 57% nas queixas de incidentes racistas e xenófobos. A comunidade polaca, a maior de origem europeia no país, com cerca de 1 milhão de residentes, foi a mais visada. Além de ter a fachada da sua associação cultural em Hammersmith, zona oeste de Londres, pixada com a frase ''Go Home'', foram também reportados casos de incidentes físicos e verbais envolvendo os seus cidadãos.

Para além de europeus, cidadãos negros, asiáticos, árabes e de outras paragens nascidos e criados no país, alguns deles figuras públicas e britânicos há várias gerações, não escaparam à onda de intolerância racista e xenófoba dos que de repente se sentiram empoderados e legitimados para exercerem seus ódios há muito adormecidos ou reprimidos pela lei.

O conhecido deputado trabalhista David Lammy, negro londrino de origem jamaicana, que foi ministro júnior nos governos de Tony Blair e Gordon Brown, foi vítima de centenas de abusos racistas e ameaças de morte por ter defendido no parlamento a necessidade de um segundo referendo.  

Durante a campanha, a baronesa Sayeeda Warsi, filha de imigrantes paquistaneses, que de 2010-12 foi co-presidente dos tories e se tornou na primeira mulher muçulmana a ser ministra do primeiro escalão em um governo (Cameron) de Sua Majestade, que inicialmente apoiava o voto pela saída, mudou de lado ao sentir que o racismo e a xenofobia cresciam assustadoramente entre os defensores da saída. 

No País de Gales, Shazia Awan, uma ex-política conservadora e empresária muçulmana de origem asiática e africana nascida em Cardife que fez campanha pela permanência, disse ter recebido uma série de injúrias raciais. Ela fez questão de, em programa da BBC, ler um email que a preocupou com a seguinte mensagem: ''Nem agora, nem nunca você será galesa. Tendo nascido em Gales nada tem a ver com ser galesa. Não posso esperar pelo dia de enviar você e o seu lixo anti-branco de volta à lixeira do terceiro mundo de onde vieram''.

Em entrevista ao New Statesment ela disse que havia abandonado o Partido Conservador em razão do racismo de alguns dos seus membros, manifestado durante a campanha do partido contra o trabalhista Sadiq Khan, britânico muçulmano de origem paquistanesa que acabou eleito prefeito de Londres. Ainda em Gales, Ali Ahmed, vereador trabalhista de Butetown, Cardife, originário do Bangladesh disse que ficou em estado de choque quando foi abordado por um homem que o mandou sair do país. ''Eu votei pela saída. Quando você vai sair? Este é o nosso país, saia'', contou ele à rede de televisão ITV.

Em Manchester um cidadão negro norte-americano foi abordado no comboio por um trio de jovens que o convidaram a sair do país. Em resposta perguntou aos jovens que idade tinham e, perante a resposta de um deles (19 anos), revelou estar no país muito antes deles terem nascido. O homem, que depois se identificou como ex-militar, só não entrou em confrontos físicos com o trio devido à pronta intervenção de outros passageiros que os repreenderam e caracterizaram suas atitudes como vergonha para o RU.  

Imriel Morgan, uma jovem negra escritora, blogueira e co-autora de um podcast sobre diversidade escreveu no Guardian que estava indecisa sobre o lado a seguir até ter participado em um debate na ITV com a participação de Nigel Farage. Ela o questionou sobre como os defensores da saída iriam proteger os cidadãos britânicos não-brancos, suas identidade e nacionalidade, em resultado da forte retórica anti-imigração. Ignorando que ela era inglesa e julgando-a apenas pela cor da pele, o então líder do UKIP respondeu: ''Sou pró-Commonwealth... africanos, caribenhos e indianos podem vir para aqui". Ficou esclarecida ao saber que Farage apenas a considerava britânica por seus laços históricos e familiares à Commonwealth. ''A UE tem feito um trabalho fantástico na proteção dos meus direitos e não posso me arriscar a perdê-los na vã esperança de que teremos melhores acordos comerciais com a Commonwealth se sairmos'', disse.  

Todavia note-se que houve também um substancial número de votos garantidos ao Brexit por parte de minorias étnicas nacionais de origens africana, afrocaribenha e asiática oriundas de ex-colónias britânicas, manipuladas no discurso que apontava para os imigrantes como estranhos ao espírito da britanicidade, que só estariam no país por causa de haver trabalho e benefícios sociais, que seriam os responsáveis pelo aumento do desemprego e pelos constrangimentos verificados na educação, saúde e habitação. Foram manifestamente usadas pelos que não escondem o saudosismo dos tempos globalmente dominantes do Império Britânico, aquele onde "o sol nunca se punha" pela sua expansão nos quatro cantos do mundo e que a ele sonham voltar usando Commonwealth como instrumento político de seus desígnios.

Em entrevista ao The Voice, um jornal centrado em assuntos da comunidade negra britânica, Steven Woolfe, porta-voz do UKIP para a migração não hesitou em puxar pela carta de dividir para reinar, colocando imigrantes oriundos da Commonwealth contra os da UE. Ele disse ter evidências de que eram as comunidades negra e asiática as que mais tinham a recear com a permanência do RU na UE porque se sentiam em desvantagem perante a concorrência dos seus pares comunitários vistos como os responsáveis pela precariedade dos salários de trabalhadores com pouca ou baixa qualificação. Um argumento falacioso e preconceituoso que, por um lado não reconhece os salários baixos como resultado de um sistema capitalista explorador e, por outro, sugere que a população daqueles segmentos étnicos deveriam se contentar em estar um degrau acima dos imigrantes europeus.

Quem acompanha a vida política britânica sabe muito bem que o partido de Farage não é conhecido pela suas simpatia e preocupação para com minorias étnicas, sejam elas nacionais ou estrangeiras. Winston McKenzie, por exemplo, um antigo boxeador londrino de origem jamaicana, ex-empresário da noite e figura pública pela participação em realities shows é um exemplo de manipulação política de minorias. Ele se tornou ativista político e passou por todos os principais partidos britânicos antes de ser atraído e se filiar ao UKIP em 2009. Em 2014 foi nomeado porta-voz do partido para a Commonwealth claramente com velados objetivos políticos. Por um lado atrair a comunidade negra local e por outro, através dela, passar a mensagem de que o partido priorizaria cidadãos oriundos da comunidade britânica em detrimento dos da UE. Em 2015 desvinculou-se da legenda alegando racismo interno. Portanto, só muita ingenuidade para acreditar que o britanismo privilegiaria jamaicanos, ugandeses ou paquistaneses em detrimento de franceses, espanhóis ou italianos. 

Políticos vaidosos, egoístas, arrivistas, demagogos, de caráter duvidoso acabaram, com a cumplicidade de parte da mídia, por colocar em causa a unidade de um reino e de um bloco comunitário agora ameaçados de desintegração. Está incerta a paz do reino e da comunidade, como incerto está o futuro de mais de 3 milhões de europeus a residir e trabalhar no RU e dos cerca de 1,2 milhões de britânicos que escolheram a UE com o mesmo fim. Tendo em conta o assustador surto de racismo e xenofobia que resultou do processo, o futuro das minorias étnicas nacionais ou residentes no RU, europeias ou oriundas de países fora da UE, não parece no imediato risonho. Dúbias mensagens quanto ao seu novo estatuto não ajudam a esclarecer, pese embora os constantes apelos de políticos condenando a intolerância e urgindo por tolerância zero ao seu combate.

Em suma, com uma campanha suja em nome da soberania nacional, por um lado, e da integração europeia, por outro. O primeiro soube usar e capitalizar com sucesso a diabolização da UE, culpando-a por todos os problemas domésticos e apelando para os mais profundos, mas nem sempre melhores, sentimentos do nacionalismo, o que não deixa de ser preocupante. Não tanto pelo Brexit em si mas pelo modelo de sociedade assente em algumas ideias e valores nele defendidos, ressuscitadores comportamentos e fantasmas que se julgavam grandemente erradicados ou exorcizados. 

O segundo, com todo o aparato ao seu dispôr, foi incapaz de defender as múltiplas vantagens e benefícios da imigração para o país, as virtudes e a generosidade do projeto europeu, ao longo do tempo minado por narrativas de políticos e governos nacionais que nele viam o bode expiatório para suas falhas e para ganhos políticos internos. Não foi capaz de assumir a cota de responsabilidades por não ter provido para os inevitáveis impactos que o crescente fluxo migratório causariam no mercado laboral mas acima de tudo nas infraestruturas em áreas como saúde, habitação e educação. Distanciou-se das preocupações e aspirações de segmentos mais humildes da população que se sentiram abandonados e culpam os imigrantes por todos os seus males.

A UE pode não ser democraticamente perfeita, como não o são vários estados e organizações. O próprio RU com um chefe de estado não eleito, não é exemplo de democracia. Mas ela é, sem dúvida, o melhor projeto civilizacional edificado no pós-guerra. Isso é traduzido no que o bloco representa como projeto inspirador de integração política, econômica e social, de paz regional, eliminação de barreiras geográficas, livre circulação de pessoas, serviços e bens, fortes investimentos na educação e investigação cientifica e tecnológica, observação dos direitos humanos dentro e fora do bloco, defesa do meio ambiente, abertura e tolerância para com imigrantes e refugiados, entre muitos outros avanços para a humanidade.

O Brexit representa para uns a vitória da mentira sobre a verdade, da demagogia sobre a moderação, do populismo sobre o establishment político e da intolerância sobre a tolerância. Para outros ele representa a vitória da democracia, a abertura de uma nova janela de oportunidades do RU fora da UE, a prevalência do nacionalismo e da soberania do estado-nação sobre o globalismo assente no idealismo de um mundo sem fronteiras. Para a maioria, em ambos lados, o referendo representou a vergonha dos britânicos com a generalidade da sua classe.

Seja como for, falou a vontade popular. Mas a palavra final sobre esse controverso referendo, consultivo e não vinculativo, cabe aos representantes democraticamente eleitos por essa mesma vontade. Compete ao parlamento de Westminster decidir pela invocação, ou não, do artigo 50 do Tratado de Lisboa que prevê a possibilidade de qualquer Estado-membro sair de forma voluntária e unilateral da União. Até lá uma imensidão de águas turvas e turbulentas continuarão a agitar o Canal da Mancha.

*Alberto Castro é correspondente de Afropress em Londres e colabora em Página Global

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