quarta-feira, 14 de dezembro de 2016

DÚVIDA NO CORAÇÃO DO IMPÉRIO




Trump nomeia um guerreiro ensandecido para chefe do Pentágono, mas sinaliza que prioridade é reconstruir internamente os EUA. Dissimulações ou esquizofrenia?

Pepe Escobar – Outras Palavras

O general James “Cachorro Louco” Mattis, escolhido pelo presidente eleito Donald Trump para ser o novo cabeça do Pentágono é funcionário modelo do Império do Caos. Seu bordão de trabalho é – e que outro poderia ser – “caos”. O Comando Operacional das Operações Especial dos Marines (Marsoc) até distribuiu imagem do “São Mattis de Quantico, Santo Padroeiro do Caos“. Na encarnação pop, o santo vem completamente equipado com granada e faca. “Cachorro Louco” pode, claro, ser visto pelo mundo real como, sim, um cachorro louco: estava na linha de frente do assalto ao Afeganistão em 2001; Comandou os marines no assalto a Bagdá durante a Operação Choque e Pavor em 2003. Foi o cérebro que concebeu a horrenda destruição de Fallujah no final de 2004. Amplamente elogiado como fino estrategista, aposentou-se como chefe do Comando Central dos Estados Unidos (Centcom) em 2013. O santo pode ser sido disseminador de caos por todo o “Oriente Médio Expandido” expressão cunhada no regime do ex-vice-presidente Dick Cheney – algo que veio com inevitável dano colateral: a mais apavorante iranofobia. Mas a razão chave de sua indicação é que lhe caberá reconstruir o setor militar dos EUA.

William Hartung, do Center for International Policy, observa, num artigo recente, que “O gasto do Pentágono é um dos piores meios possíveis para criar empregos. A maior parte do dinheiro vai para fornecedores de serviços, executivos da indústria de armas e consultores da Defesa (também chamados de ‘bandidos da Avenida Beltway’).” Além do mais “esse gasto é a definição de beco econômico sem saída. “Criticando a Trumpeconomia como “Reaganeconomia inchada de esteroides” – e aí se inclui o descomunal gasto militar – Hartung diz que, se Donald Trump quer realmente criar empregos, “deve obviamente pensar em investir na infraestrutura, não em pôr grandes quantidades de dinheiro em armas de que o país absolutamente não precisa, a preços que o país não pode pagar.”

Reconstruir a infraestrutura (hoje totalmente em ruínas) nos EUA é uma das principais promessas de campanha de Trump.

Que fazer?

Meu objetivo com a coluna “Lênin Chega à Casa Branca” foi lançar um debate sobre o papel possivelmente leninista do estrategista-chefe para a Casa Branca de Trump, Steve Bannon. Trump, como todos os presidentes dos EUA, obviamente não é leninista. Mas seu estrategista-chefe cultiva a noção leninista de uma vanguarda do proletariado; pode-se chamá-la de contingente dos Machos Brancos Não ‘jovens’ Trabalhadores Braçais Precários e Furiosos. Eles odeiam a identidade dita “liberal”, que elevou algumas minorias seletas ao status de vítimas sacrossantas. Podem chamá-los todos, em geral, de “os deploráveis”. Essa é a vanguarda do proletariado que Bannon busca cultivar, para que liderem/influenciem/modelem a política do futuro político programável para os EUA, vencendo eleição após eleição, sempre para os Republicanos. Devem imperativamente beneficiar-se da luta até a morte que Trump move contra o “livre” mercado neoliberal, embora não esteja claro como privilegiará o “internamento” [ing. “in-sourcing”] não o deslocalização [ing. outsourcing] dos empregos – sabendo que esta ainda é a política oficial do empresariado norte-americano. Com certeza, esses empregos não se beneficiarão de alguma reconstrução maciça do Pentágono.

O analista político Peter Spengler introduz mais uma cunha na engrenagem, ao anotar que Bannon, “como todos os analistas (e estudiosos) de Rússia e do bolchevismo, sempre ignoraram o que Kurt Riezler poderia (e gostaria) de lhes revelar no tempo em que viveu exilado em New York: experiência direta e conhecimento em primeira mão do “continuum da ‘diplomacia’ subterrânea e subversiva entre Alemanha e Rússia” nos preparativos para a Revolução de Outubro. Permanecem abertas as apostas sobre que diplomacia “subversiva” a era Trump implicará – além de um remix para o século 21 do momento “Nixon na China” orquestrado por Kissinger. Teria a forma de um momento “Trump na Rússia-China” – tipo Washington começando a normalizar o tratamento que dispensa àquelas nações que o Pentágono classifica como suas duas principais “ameaças existenciais”, incluídas a projeção global e as esferas de influência.

Aquele muito discutido telefonema para Trump “iniciado” pela presidente de Taiwan Tsai Ing-wen com certeza não contribui para qualquer normalização. E ninguém deve esperar que simplesmente se dissolva no ar o primado global dos EUA especialmente sobre a Eurásia, como Brzezinski o conceptualizou – para “impedir que emergissem concorrentes”. William Engdahl, renascido do Pentágono argumenta que o Bravo Mundo Novo de Trump não passa de elaborada farsa. Que basta examinar a lista dos poucos sortudos escolhidos para o gabinete de plutocratas do presidente eleito para ver que não é exatamente a lista dos Melhores Anjos de Nossa Natureza [ing. Better Angels of our Nature]. Uma fonte no mundo do business em Nova York, intimamente conectada com os Masters of the Universe, que apoiou ativamente o programa de Trump e previu a vitória pelo menos duas semanas antes de acontecer, oferece avaliação curta e grossa:

“Donald é insider. A maioria dos conselheiros aos quais Engdahl refere-se são só decorativos. Há três coisas importantes a considerar. 1) A Suprema Corte terá juízes conservadores. 2) Haverá reaproximação com a Rússia. Pode não ser tão calorosa quanto com a China, mas trabalharemos nisso. 3) Nenhum dos Masters ligam para Lênin ou Thomas Cromwell, nem para ideologias. Essa gente só liga para poder e dinheiro.”

Sobre uma possível Casa Branca leninista,
"se se quiser citar Lênin, será que ‘verdade é qualquer coisa que faça avançar a luta de classes’. Verdade para os Masters of the Universe é ‘qualquer coisa que faça avançar a agenda deles’. Se querem que o Federal Reserve expanda o crédito, procuram um liberal se ele/ela funcionar; ou conservador, ou monetarista ou Keynesiano, o que for. Um deles apoiará a expansão do crédito e os que não apoiem serão postos de lado. Não dão nenhuma importância aos Milton Friedman, Keynes, Marx ou Lênin. O que conta, para eles, é o que funciona. Hillary não funcionou, e foi descartada. E Bannon fará o que o mandarem fazer, como todos os demais. E se começar a atrapalhar, será demitido."
Assim sendo, não importa o quanto a Califórnia esperneie e grite, a Trumpelândia será governada pelos Masters of the Universe, e será governada assim.

O que nos leva, mais uma vez, à reconstrução das forças militares dos EUA. Outra fonte, no business financeiro, que também apoiou ativamente o plano econômico de Trump durante a campanha, destaca que “o poder atual do complexo militar industrial russo é hoje maior que o dos EUA em vários sentidos. E todo ele está instalado na Rússia, enquanto a maior parte do complexo militar industrial dos EUA está instalada na Ásia.”

Assim sendo, “é excelente que Trump esteja na presidência, para pôr abaixo aquele hospício que eles chamam de Washington. Há um consenso acima do presidente, segundo o qual é absolutamente necessário, emergência total, reconstruir as forças militares dos EUA”. E essa é o principal item da pauta sobre a qual o general Cachorro Louco recebeu ordens de começar imediatamente a trabalhar.

A fonte acrescenta: “Um meio fácil de repatriar toda essa indústria de uma vez, rapidamente, é incluir em todos os contratos que a Defesa venha a assinar uma cláusula que determine que avião, míssil ou tanque terá de ser integralmente fabricado e montado nos EUA, o que exigirá rápida e maciça repatriação de empregos e fábricas. É a primeira ordem de trabalho e business que a Casa Branca de Trump distribuirá. E não exige tarifa nem depende de que alguém ponha fim à manipulação da moeda.”

Segure aí, Ialta, aqui vamos nós!

Enquanto isso, tem de haver alguma gestão cuidadosa do que a desatinada galáxia neocon/neoliberal chamou de “bromance” entre Trump e Putin.

Trump quase com certeza renormalizará a Rússia e trabalhará com Moscou para pôr fim à demência salafista jihadista na Síria; o problema é até que ponto Rússia e China conseguirão influenciar a Trumpelândia para que não converta o Irã em dano colateral gravíssimo. Rússia-China-Irã é a aliança chave investida na integração da Eurásia.

Zbig “Grande Tabuleiro de Xadrez” Brzezinski não consegue não exibir os absurdos narcisistas de sempre, como ao sugerir que EUA ajudem a Rússia numa “efetiva transição” para tornar-se “membro construtivo, significativo, da comunidade global” (muito mais provável é que Moscou tenha de fazer exatamente a mesma coisa, mas para ‘normalizar’ os EUA de Trump). Ao mesmo tempo, não surpreende que até o próprio Brzezinski ande agora discursando que “a América é indispensável para organizar qualquer coalizão maior, capaz de enfrentar os problemas globais. E nessa coalizão maior, América, China e a Rússia, se fizer a transição, podem ter lugar proeminente.”

Rússia “se fizer a transição” nesse caso é palavra código para “se a Rússia deixar-se seduzir, amestrar e convencer a afastar-se da China. O contexto chave: a parceria estratégica Rússia-China aponta essencialmente para a Eurásia como empório vasto, integrado – combinação de “Um Cinturão, Uma Estrada” da China, com a União Econômica Eurasiana (UEE), da Rússia.

Brzezinski, refletindo e/ou influenciando “valores” neoliberais neoconservadores, sempre estará reencenando um quadro de Dividir para Governar, tentando separar Rússia da China – ao mesmo tempo em que sugere que Trump não pode permitir que o descartem ação massiva (na Eurásia); que ele insista, porque algum tipo de acordo tem de haver.

Permaneçam sintonizados nesse canal, porque voltaremos com informes sobre os termos de um possível upgrade: de Ialta em 1945 para… algum Ialta remix em 2017?

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