segunda-feira, 19 de junho de 2017

REVOLUÇÃO MACRON SEM REPRESENTATIVIDADE | 58% DOS FRANCESES NÃO VOTARAM



Já nada é o que era. O poder a qualquer preço está em marcha. Em França o poder chama-se Macron, um “revolucionário” ao serviço da alta finança e dos mercados. As populações já andam a votar à toa, como sejam náufragos que de tão extenuados de nadar para parte incerta se agarram a qualquer tábua podre. E é isso mesmo que Macron representa, uma enorme tábua que os eleitores julgam de salvação (o mal menor) mas que é somente uma tábua podre. Mais à frente no tempo assim se verá. 

Sem pudor, o partido de Macron, “Em Marcha”, considera legitimamente que foi o mais votado e por isso vencedor, apesar de cerca de 60% dos eleitores franceses se terem abstido nas eleições de ontem, a chamada e definitiva segunda volta. Na primeira volta, realizada há semanas, também mais de 50% dos eleitores franceses se abstiveram. Tal significa que venceu a ausência de representatividade nestas últimas eleições em França. 

Com o rigor da verdade também sabemos que os atuais políticos, em França ou em outra qualquer parte do mundo neoliberal (não só) representa os interesses avessos à maioria dos eleitores, numa venda mais que evidente dos interesses pessoais de qualquer político e dos interesses da alta finança que eles representam. Já nada é o que era. Antes faziam-no mais ou menos à socapa, atualmente perderam a vergonha e transbordam à vista de corrupção e de mau caráter. Os políticos, esses pantomineiros cujo descrédito afasta os eleitores das urnas de voto e está a matar a democracia. A evidência até aos cegos, surdos e mudos se mostra. Serem detentores do poder sem representatividade, tal qual como numa ditadura. Já nada é o que era. Adeus democracia. Para bom entendedor assim é mostrado nas prosas do Público de ontem, se continuar a ler.

MM / PG

Macron consegue maioria absoluta nas legislativas em França

A República em Marcha e aliados do MoDem devem eleger 355 dos 577 deputados. Le Pen eleita deputada. Líder dos socialistas demitiu-se.

Emmanuel Macron, como se previa, vai governar a França com uma grande maioria de deputados no Parlamento de Paris. Segundo as projecções da IPSOS para o jornal Le Monde, o seu partido, A República em Marcha, e os aliados do MoDem elegeram 355 dos 577 deputados da Assembleia.

Seguem-se Os Republicanos, com 125 deputados, o Partido Socialista (49), a França Insubmissa (esquerda radical, de Jean-Luc Mélenchon) com 19 deputados e a Frente Nacional (FN) com oito.

A líder da extrema-direita, Marine Le Pen, foi eleita para o Parlamento de Paris. O seu companheiro, Louis Aliot, também foi eleito. Mas Le Pen perdeu um apoio de peso: Florian Philippot, considerado o ideólogo da FN, foi batido pelo candidato da República em Marcha.

A abstenção pode atingir 58%, um recorde em legislativas. Para o primeiro-ministro, a elevada taxa de abstenção é nefasta para a democracia. Édouard Philippe disse que é um motivo para o Governo Macron, com "humildade e determinação", trabalhar para que o seu programa tenha sucesso.

Após a divulgação destas projecções, surgiram as primeiras reacções. François Baroin, de Os Republicanos, posicionou o seu partido na oposição ao dizer que vai mostrar a diferença entre os conservadores e Macron, sobretudo em matéria de impostos.

Sustentando-se na abstenção, Le Pen disse que Macron conseguiu a maioria no Parlamento mas que as suas ideias estão "em minoria" no país.

Líder socialista demite-se

Eliminado na primeira volta, o secretário-geral do Partido Socialista demitiu-se perante a confirmação do mau resultado do partido no total das duas voltas.

"Tomo esta decisão sem amargura nem cólera, consciente do meu dever e do momento crucial que a esquerda atravessa", disse Jean-Christophe Cambadélis.

"A esquerda deve mudar, na forma e no conteúdo, as suas ideias e os seus organizadores, deve abrir um novo ciclo", afirmou, após serem divulgadas as primeiras projecções. Falou na sede do PS na rua Solférino, em Paris.

Os jornais franceses especulavam que o PS podia vender a sede, num dos bairros mais caros de Paris, para cobrir os gastos da campanha eleitoral. Os partidos recebem subsídios de acordo com o número de votos que recebem e os desaires eleitorais dos socialistas (presidenciais e legislativas) deixaram o partido com graves problemas financeiros.

Ana Gomes Ferreira | Público

Maioria absoluta de Macron abre um novo ciclo político

A maioria presidencial será menos ampla do que previsto mas subverte o quadro partidário. A segunda volta foi marcada por uma abstenção recorde

Segundo as primeiras e provisórias projecções eleitorais, o movimento A República em Marcha (LRM), do Presidente Emmanuel Macron, e os seus aliados centristas do MoDem conquistaram hoje a maioria absoluta com 361 deputados entre os 577 na Assembleia Nacional francesa. Desse total, 319 pertencem ao LRM, que tem por si só maioria absoluta. Depois da vitória de Macron nas presidenciais, este resultado confirma uma mudança radical do tabuleiro partidário e assinala o fim de um ciclo político. Mas a jornada foi também marcada por uma abstenção recorde de 56,6%.

A direita foi quem melhor resistiu ao ciclone do "macronismo". Os Republicanos (LR, direita) e aliados obtêm 126 mandatos, enquanto o Partido Socialista e afins, maioritários na legislatura anterior, sofrem uma hecatombe: elegem um total de 46 deputados, dos quais apenas 32 do PS. A oposição de extrema-esquerda, a França Insubmissa, de Jean-Luc Mélenchon, com 16 eleitos, e o Partido Comunista, com 10, conseguem constituir um grupo parlamentar. Marine Le Pen entra pela primeira vez no parlamento. O seu partido, a Frente Nacional (FN), fez eleger oito deputados, o que é insuficiente para formar um grupo parlamentar mas marca uma data: a FN tinha apenas dois parlamentares. Se Le Pen e Mélenchon foram eleitos, a elite do "antigo" PS, a começar pelos ministros de François Hollande, sofreu uma razia. Entre as figuras novas na política, destaca-se o matemático Cédric Villani, candidato pelo LRM e que venceu folgadamente no seu círculo.

Estes dados são os fornecidos pela projecção IPSOS-Sopra Steria. Outras projecções apresentam dados ligeiramente diferentes, mas na mesma ordem de grandeza. Uma das novidades será a dimensão "normal" da vitória do LRM, ao qual as sondagens pré-eleitorais chegaram a atribuir a possibilidade de 450 lugares, o que deixaria escassa margem de manobra às oposições.

"O fim de uma época"

Logo a seguir ao anúncio dos resultados, Jean-Christophe Cambadélis apresentou a sua demissão de secretário nacional do PS. Reconheceu: "Esta noite, apesar de uma abstenção alarmante, o triunfo de Emmanuel Macron é incontestável; o PS sofre uma derrota sem apelo; a direita enfrenta um verdadeiro fracasso; enfim, os populistas de todas as bandas ficam contidos. (...) A esquerda deve mudar em tudo, no fundo como na forma, nas ideias como na organização, deve abrir um novo ciclo e repensar as origens do progressismo."

A mesma necessidade de mudança radical foi expressa na televisão por Valérie Pécresse, uma das líderes do LR: "É o fim de uma época. É absolutamente necessário lançar um movimento de recuperação, uma dinâmica colectiva, para que a direita e o centro se reconstruam do chão ao tecto. Penso que não se poderá construir o novo com o velho."

O principal efeito da vitória de Macron foi exactamente pôr em causa um sistema partidário exangue que perdeu a credibilidade, incapaz de promover reformas e acusado de favorecer a ascensão dos populismos de esquerda e de extrema-direita. Ou seja, trata-se de forçar uma recomposição geral do sistema partidário. Poderá vir a constituir uma viragem apenas comparável com a imposta em 1958 por De Gaulle. Com a diferença de que Macron não quer mudar o regime mas "reinventar" a V República.

Macron dispõe agora dos meios para governar. Seguem-se as reformas. Mélenchon subiu o tom da sua retórica e anunciou uma oposição frontal na rua, apelando à "resistência popular" e invocando a abstenção — "O nosso povo está numa forma de greve geral cívica" — para negar "a legitimidade de perpetrar o golpe de estado social preparado pelo governo".

O problema da abstenção não é linear. Servirá para atacar a representatividade do parlamento. Note-se que os franceses participaram nas presidenciais (quase 80%) mas menosprezaram as legislativas como se, uma vez eleito um Presidente, não valesse a pena votar. Este reflexo é sobretudo forte entre os jovens e nas classes populares, em que é maior a descrença no sistema político. Não há uma causa única mas uma pluralidade de factores.

Jorge Almeida Fernandes | Público | Foto: CHRISTOPHE ARCHAMBAULT/EPA

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