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terça-feira, 4 de julho de 2017

A TERCEIRA VITÓRIA MILITAR DAS FORÇAS ARMADAS SÍRIAS | Martinho Júnior



Martinho Júnior | Luanda 

1- O final de Junho de 2017 trouxe a expressão da nova configuração geoestratégica na Síria, com as Forças Armadas da Síria a sair da guerra das cidades, para os espaços abertos e desérticos, a sul, leste e norte (até ao Eufrates), apostadas em chegar à fronteira e cobrir todo o espaço nacional.

De facto há como antecedentes dois momentos fundamentais que reverteram o esforço militar a favor do estado sírio:

- A implicação russa e iraniana, a partir de Setembro de 2015, que resultou no reforço, reformulação, reorganização e vocação geoestratégica das forças a favor do estado sírio;

- A vitória no leste de Alepo, em Dezembro de 2016, sobre as forças das coligações rebeldes, a forma de “esclarecer” os apoios ocidentais de que a guerra na Síria estava perdida para aqueles que apoiavam as tão fragmentadas forças rebeldes de oposição, (algumas delas autênticos artifícios dos vínculos externos que as criaram e incentivaram).

2- A partir de então, as Forças Armadas Sírias ganharam consistência nas linhas que foram criando, isolando bolsas de rebeldes e orientando seu esforço militar sobretudo contra o Estado Islâmico e os sucedâneos da Frente al Nushra (filiais da Al Qaeda).

As linhas das Forças Armadas Sírias foram-se consolidando de sul (Damasco) para norte (Alepo), começando por dominar as grandes cidades para depois poderem partir para a retoma do território esmagadoramente desértico, ou semidesértico, enquanto a fragmentada oposição armada perdia apoios no exterior, dissolvia-se nas suas múltiplas contradições internas, iam-se confinando em bolsas de difícil consistência e permitiam que fossem o Estado Islâmico e os agrupamentos sucedâneos da Al Nushra a assumirem os encargos reais da guerra frente ao estado sírio, até por que eram os únicos agrupamentos funcionais em termos de organização, em função de suas férreas ideologias, tal como dos meios que conseguiram grangear para fazer a guerra.

Em 2016 também se assistiu a outro volte face favorável ao estado sírio: a Turquia aproximou-se dramaticamente da Rússia, o que passou a ser determinante para o fim das linhas de logística que apoiavam o Estado Islâmico a norte, contribuindo para o seu progressivo isolamento e a possibilidade de ele ser irreversivelmente acossado no nordeste do Iraque (Mossul), como na Síria.

Nesse xadrez, a “coligação” entrou também em perda, pois a Turquia, membro da NATO, iniciou uma deriva que em muitos aspectos é já uma ruptura em relação àquela organização: enquanto os Estados Unidos apoiam os curdos de Rojava (ligados ao PKK que actua ilegalmente e com guerrilha dentro da Turquia), a Turquia combate os curdos e está convergente com a Rússia e o Irão como nunca antes esteve.

…A “coligação” sob liderança dos Estados Unidos na Síria, deixou de ter razão de existir!...

Em reforço dessa ruptura a frente aberta pela Arábia Saudita, por instigação dos Estados Unidos, em relação ao Qatar, fragmenta ainda mais os estados componentes da “coligação”, submersos num mar de múltiplas contradições e indecisões.

A evolução da situação reverte-os para uma defesa de interesses desconexa e desregrada, com perda de iniciativa geoestratégica.

3- Nos próximos meses vai-se assistir à retoma do território sírio até às fronteiras sul e leste pelas Forças Armadas Sírias e seus aiados no terreno (Hezbolah e iranianos), isolando paulatinamente os focos principais de resistência do Estado Islâmico e dos sucedâneos da Al Nushra, que verão diminuir suportes a partir do exterior, por colapso de suas fontes de financiamento.

Mesmo no sul isso já se está a verificar: Israel fez o que pôde a partir dos montes Golã e os Estados Unidos, a partir da Jordânia… ambos vão evitar uma escalada de confrontações com as Forças Árabes Sírias, que poderia levar a uma intervenção russa-iraniana-turca de consequências adversas.

Para cúmulo das perdas da “coligação”, de acordo com notícias divulgadas pela Debka Files (a conformar essas notícias), a Rússia decidiu abrir uma nova base aérea a sul de Damasco, emKhirbet Raes al-Waer, que transformará todo o panorama geoestratégico a sul e sudeste, a favor do estado sírio.

Perdida a Guerra, a oposição enfraquecida e fragmentada terá muitas dificuldades em se apresentar “moderada” (?) à mesa de conversações com credibilidade, legitimidade e força política, restando resolver a questão curda, com implicaçoes na fronteira comum sírio-turca e nas conjunturas internas de ambos os países.

Também aí a “coligaçao” terá muitas dificuldades em alimentar os seus interesses, até por que Rojava poderá ser a única expressão capaz de encontrar soluções a contento, face à Turquia, como face à Síria e, se não encontrar face à Turquia, ver-se-á a braços com dificuldades militares crescentes que a poderão levar a uma confrontação com fortes consequências para os curdos, dentro e fora da Turquia.


4- As soluções militares estão a esgotar-se, por parte da fragmentada oposição rebelde “moderada”e armada a partir do exterior; desse modo as soluções políticas que poderiam encontrar, são cada vez mais estreitas, no quadro do tabuleiro das negociações e os que são apenas artifícios, sem forças no terreno, desaparecerão também por aí, sem dignidade, nem ética, nem qualquer tipo de viável representatividade.

Os países da “coligação” tendem a abandonar esses “resíduos” duma “primavera árabe” que o não foi à sua sorte e procuram agora, mais que nunca, encontrar novas fórmulas para segurarem seus interesses.

A derrota é de tal ordem que a Rússia já reatou o projecto dos oleadutos e gasodutos “Turquish Stream”, um sinal favorável para as iniciativas “belt and road”, no quadro das novas rotas da seda.

Até ao final do corrente ano, as transformações geoestratégicas a favor do estado sirio vão-se evidenciar e depois tudo vai passar para o crivo sócio-politico duma vulnerabilizada democracia, de onde nunca deveria ter saído. 


Ilustrações: Mapa da situação a 30 de Junho de 2017; Mapa da situação em finais de 2015; Próxima base aérea russa em Kirbet Ras al-Wa’r (notícia do Debka Files, de Israel, a confirmar); Ofensiva da Força Árabe Síria e aliados (Hezbolah e iranianos), no sul do país (em curso).

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