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terça-feira, 1 de agosto de 2017

Portugal | LIÇÕES DE UM “VERÃO QUENTE”



Jorge Seabra* | AbrilAbril | opinião

“É que estava a ver cada vez pior, os vermelhos mais desbotados, o rosa mais amarelo e o negro a avançar!…» – dizia-me há dias um velho amigo e grande cirurgião, falando da recuperação da visão após a catarata operada, com a sua ironia política e o eterno sorriso de menino maroto.

E talvez tenha sido este Verão de tragédias e as leituras que se procuram para férias que me levaram a comprar o belo e bem documentado livro Quando Portugal ardeu, do jornalista da Visão Miguel Carvalho, uma revisitação às memórias do «Verão Quente» de 1975 e à onda de crimes da rede bombista que atacou sindicatos e partidos de esquerda, alegando querer restaurar a democracia «ameaçada pelos comunistas».

Estão lá bem documentadas as cumplicidades de insuspeitos «democratas» com a CIA de Carlucci, (condecorado por Mário Soares) e as ligações com a direita salazarenta e revanchista, onde afloram conhecidos bombistas, como Ramiro Moreira (premiado com um emprego na Petrogal e amnistiado por Mário Soares), Manuel Marques da Costa, o «Águia», Teixeira Gomes e o Ângelo «de Trancoso», industriais nortenhos como Rui Castro Lopo, Abílio de Oliveira e Joaquim Ferreira Torres, este último, silenciado a tiro por cúmplices, numa emboscada.

Estavam também envolvidos altos comandos militares, como o comandante da Região Norte, Brigadeiro Pires Veloso, chefes da PSP (Major Mota Freitas) e da PJ (Inspector Júlio Regadas), e figuras gradas da Igreja, onde se destacam o arcebispo de Braga e o Cónego Melo, este último com direito a estátua na cidade, talvez por dizer «Deus abençoe as vossas mãos» aos bombistas do MDLP (Movimento Democrático de Libertação de Portugal, de extrema-direita).

Entre muitos outros, a rede incluía membros do Conselho da Revolução, como Sanches Osório e Canto e Castro, e da Junta de Salvação Nacional, como o general Galvão de Melo e o ex-presidente da República, general Spínola, que comandou, a partir de Espanha e da Suíça, o terrorismo bombista do MDLP, e que afirmou querer «eliminar fisicamente» os comunistas a Günter Wallraff, jornalista alemão que se fez passar por traficante de armas, sendo depois premiado pelo 25 de Novembro, que o elevou a Marechal.

Agentes estrangeiros, essenciais «à festa», também não faltaram.

Para além do chefe da orquestra, o embaixador dos USA, Frank Carlucci (mais tarde chefe máximo da CIA), de Guérin-Sérac, «Morgan» (ex-OAS e director da Aginter Press fascista) e Jay Salby, o «Castor», outro importante agente da CIA, até o ex-oficial nazi Otto Skorzeny, mítico «herói» da libertação de Mussolini, entrou no conluio vendendo armas à direita fascista do ELP (Exército de Libertação de Portugal).

A esta amálgama unida no «anticomunismo» (ou no «anti-PCP»), também se juntou a esquerda dita «radical», infiltrada, como o PRP/BR, onde militava Artur Albarran (mais tarde locutor da TV e sócio de Carlucci num negócio imobiliário), ou o MRPP, de Arnaldo Matos.

Este último, para além de «viver à larga» – «…são como um saco para onde o dinheiro é atirado, não se sabe por quem…», no dizer de Saldanha Sanches, então seu dirigente dissidente –, trabalhava contra «os revisas do PC», colaborando na preparação do golpe de 25 de Novembro, mantendo contactos «discretos» com Soares, Eanes e Sá Carneiro, que publicamente atacavam com a senha habitual.

Essa duplicidade e ajuda à contra-revolução, foram também alegremente confirmadas pelos seus militantes de então, Ana Gomes (agora PS) e Fernando Rosas (BE), em entrevista ao programa «Baseado numa história verídica» do canal Q, de 7 de Julho de 2017.

Nesta cena de enganos, com centenas de ataques a centros de trabalho e sedes de partidos da esquerda, com mortos em carros, casas mandadas pelos ares e bombas na embaixada de Cuba que causaram duas vítimas, todos – da CIA de Carlucci às «fundações» da social-democracia europeia, dos Espírito Santo, Mello e Champalimaud aos fascistas do ELP, do MDLP, da CODECO e da Aginter Press, dos mercenários da FLNA de Holden Roberto e Chipenda aos «moderados» do PS, PSD e CDS, incluindo os «revolucionários» do MRPP e do PRP/BR – apoiaram implícita ou explicitamente a onda de terror contra sindicatos e partidos de esquerda, tendo como alvo a CGTP, MDP, UDP e PCP.

Vale a pena rever os acontecimentos desse Verão de 75, agora com mais informação e com os olhos que o tempo nos dá, para percebermos que, quando pensamos saber tudo o que o diabo amassou, descobrimos que foi ainda pior, que a violência foi mais extensa e brutal, que a mentira foi mais descarada e perversa, que a «vaga de fundo do povo português» (como dirigentes do PPD, CDS e do PS lhe chamavam) foi mais encenada e planeada, misturando política e marginalidade, anticomunismo e puro roubo, fanatismo e trafico de divisas, tudo na maior impunidade, com homens de charuto em hotéis de luxo e jantares em tascas com «mulheres e vinho», a que nem sequer faltou a exploração dos operacionais que recebiam migalhas dos muitos milhões «doados» para a «libertação de Portugal».

Ler o livro Quando Portugal ardeu, que completa outras importantes obras sobre o tema, como O 25 de Novembro a Norte – O processo Revolucionário no ano de 75, de Jorge Sarabando Moreira, levanta também a ingénua pergunta se tudo não teria sido diferente caso os intervenientes dessa conspiração contra os avanços de Abril não tivessem então escondido e negado o que hoje é, pelos próprios, afirmado sem pruridos e até com orgulho, confirmando factos e cumplicidades que, na época, pareceriam inacreditáveis ou fruto de uma doentia teoria da conspiração.

E, no entanto, houve gente com coragem que investigou tudo, descobriu tudo, que desmascarou tudo, homens honestos, como a PJ de Álvaro Guimarães Dias, Matos Fernandes, Mouro Pinto, Vaz Tomé, Lopes Duarte, o coronel Ernesto Ramos e colaboradores da PJ militar, e da SDCI, a informação militar, do Capitão de Mar e Guerra Rodrigues Soares e camaradas, estes últimos presos logo a 26 de Novembro.

Gente impoluta que correu enormes riscos, enfrentando ameaças vindas de fora e das próprias instituições a que pertenciam, a que o País nunca agradeceu devidamente.

Apesar do significado intrinsecamente antidemocrático da onda terrorista, para alguns dos testemunhos do «centro» e da «esquerda moderada», tudo se passou como se essa conjura constituísse apenas uma fase sombria mas incontornável da nossa democracia e, por isso, ética e politicamente aceitável.

Nesta encenação, entra também o «cerco» ao 1.º Congresso do CDS no Porto, invocado símbolo da vocação ditatorial dos «comunas», acontecimento organizado e convocado por militantes de todas as origens (Juventude Socialista, LCI, LUAR, PRP-BR, OCMLP…), menos pelo PCP (!), que, em comunicados e nas palavras de Álvaro Cunhal, «não organizou, não participou e não apoiou as manifestações» contra o congresso do CDS.

Apesar disso, para os media nacionais e internacionais, o badalado «cerco» passou a ser a prova incontestável da falta de sentido democrático do PCP, (o Daily Telegraph dizia que «reflectia uma técnica comunista clássica»), assumindo ainda hoje, a direita, o papel de virginal vítima, enquanto, por trás do pano, organizava a onda de incêndios, atentados à bomba e fuga de capitais que preparou o 25 de Novembro.

Chegou-se até a querer «dividir» o país com uma zona «livre», a norte de Rio Maior, terra das célebres mocas (símbolo da sua «democracia»…), com o governo de Mário Soares a ameaçar «fugir» para o Porto, onde ficaria protegido «dos vermelhos» pelo ELP e pelo MDLP de Alpoim Galvão e Spínola, com a bênção do Cónego Melo.

António Taborda, prestigiado advogado e um dos defensores das vítimas da rede bombista, mais de 40 anos depois, ouvido por Miguel Carvalho, concluiu:

«Para mim, estava tudo harmonizado entre o embaixador norte-americano Frank Carlucci, o Mário Soares, o MDLP, o ELP e a arquidiocese de Braga».

Como dizia Ramiro Moreira, o bombista-mor: «Era tudo anticomunismo! Era uma festa!».

Talvez essa experiência nos permita perceber melhor como se organizam e desenvolvem «revoltas» como a da Praça Maidan, na Ucrânia, ou os boicotes e as violentas manifestações anti-governamentais na Venezuela.

Em Portugal, a «guetização» do PCP e da esquerda à esquerda do PS, mantida desde o 25 de Novembro de 75, só nas últimas eleições foi em parte quebrada com a inflexão do PS, forçado a abrir a negociação das condições mínimas para a viabilização parlamentar de um governo socialista, na sequência do repúdio eleitoral da política dos governos da troika.

O fim do sequestro da democracia pelo chamado «arco do poder» do PS, PSD e CDS representou, por isso, uma derrota maior dos que acobertam a defesa dos interesses do grande capital com a instrumentalização de mentiras e preconceitos anticomunistas.

A recente onda de histeria da direita (ver artigo de João Miguel Tavares «Somos todos demasiado tolerantes com o PC» – Público, 8/7/17) e a desesperada invenção do «diabo» que faltava, chegado numa manhã de fumo ou de nevoeiro com a exploração ad nauseam da tragédia de Pedrógão (cavalgando as dificuldades criadas pela sua própria política de privatização e desinvestimento nos serviços públicos), mostram, para além de enorme hipocrisia, quão sensível ela é à quebra das alianças do Verão Quente de 75, continuadas na comunicação social que persiste em falsear a realidade, apresentando como uma ameaça à democracia os que por ela mais lutam e lutaram, antes e depois do 25 de Abril, em Portugal, na Ucrânia, na Síria ou na Venezuela.

Também por isso, é difícil compreender os que, afirmando-se críticos da política agressiva e de pilhagem neocolonial da União Europeia e dos USA no Médio Oriente ou na América Latina, cedem à pressão da contra-informação da direita dando crédito à velha receita dos «Verões quentes» da CIA, pondo-se ao lado dos Spínolas e Cónegos Melo locais e das orquestradas campanhas contra governos eleitos que procuram defender as populações dos seus desígnios de rapina.

Na foto: Frank Carlucci, embaixador norte-americano em Portugal entre 1975 e 1978, «acompanhou de perto» o Verão Quente de 1975 Créditos/ noticiasmagazine.pt

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