terça-feira, 17 de abril de 2018

PESADAS PENAS NEOCOLONIAIS PARA ÁFRICA- II

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(ALERTA A TODOS OS PROGRESSISTAS DO MUNDO) - conclusão

“Não há independência verdadeira sem socialismo”, palavras do Presidente António Agostinho Neto, a 1 de Julho de 1979 – http://agostinhoneto.org/index.php?option=com_content&view=article&id=689:nao-ha-independencia-verdadeira-sem-socialismo&catid=48:discursos&Itemid=232

Martinho Júnior | Luanda 

4- O capitalismo neoliberal, cuja “escola” tomou o miolo do poder anglo-saxónico (Wallstreat e City) com o Republicano Ronald Reagan e a Conservadora Margareth Thatcher a partir da década de 80 do século XX, em 1990 e com o colapso socialista, viria a desencadear em África sucessivas ondas de choque, abrindo espaços aos interesses mais “activos” da panóplia de suas multinacionais ávidas de minerais e de petróleo.

Tudo isso tem sido contemporâneo duma nova Revolução Tecnológica e, aos materiais e minérios característicos da Revolução Industrial, o poder dominante fazia somar outros recomendados para alimentar as tecnologias aplicadas no espaço, nas comunicações, na electrónica…

Tudo se congregou para que os lucros da aristocracia financeira mundial passassem dum nível aritmético, para um nível geométrico e, por via dum petrodólar predador instalado em desequilíbrios que fomentam o saque, se abrissem as portas à especulação com o fim do padrão ouro na utilização da “moeda global”.

O “berço” do choque neoliberal em África ocorreu precisamente nessa altura nos Grandes Lagos (holocausto do Ruanda em 1994), no colapso de Mobutu no Congo (em 1997) e em Angola (transformações decorrentes dos acordos de Nova York, em 22 de Dezembro de 1988 e de Bicesse, em 31 de Maio de 1991).

Uma guerra em cadeia devastadora eclodiu dos Grandes Lagos ao Atlântico, estendendo-se depois à África Ocidental, sobretudo à Serra Leoa e à Libéria.

Do rescaldo do choque, no princípio do século XXI, sobraram países ainda mais desarticulados, vulneráveis e “em ponto-rebuçado”para uma globalização decorrente dum império hegemónico unipolar, cujos “mercados” propiciavam uma ressacada onda de terapias dispostas a engrossar os lucros da aristocracia financeira mundial e os dispositivos afins, ainda que surgissem “novos actores” como a China e “velhos actores” como a Rússia, quaisquer deles poderosos emergentes colaterais e em muitos sectores de concorrente actividade, “filtrados” pelo poder económico e financeiro dominante, bem como por seus mecanismos promotores de desequilíbrios e desigualdades…


5- Até 2010 ao choque sucedeu-se sob controlo do império da hegemonia unipolar uma terapia capitalista neoliberal, ofuscada pelos brilhos e luzes do “mercado” e pela panóplia de suas alienações e diversionismos, absorvidos em África por um largo espectro das elites do continente.

As doutrinas, filosofias e ideologias neoconservadoras, social-democratas e neoliberais próprias dos “mercados livres”, preencheram invariavelmente a superestrutura ideológica do poder dos estados africanos, pelo que as elites se afoitaram ao jogo, alinhando com a voracidade predadora, apossando-se sem ética, sem moral, sem mérito e sem escrúpulos das riquezas disponíveis no corpo africano, assim tornado ainda mais inerte.

Quando as cíclicas crises assolam as economias ultraperiféricas, mergulhadas na terapia neoliberal, por dentro das elites os clãs tornam-se entre si gladiadores à margem dos povos, perdidos nos equívocos e nos labirintos criados pela superestrutura do poder capitalista global do império da hegemonia unipolar e por si próprios, criando a ilusão de mudança… está a ser assim em Angola, pois mantém-se a mesma doutrina, a mesma filosofia e a mesma ideologia; mexem-se as águas à superfície, mas jamais nas profundas casualidades das marés e das correntes!

Há sectores das elites angolanas asfixiadas mentalmente pelos “mercados” que a todo o transe procuram dominar as nascentes e os cursos dos rios, apropriando-se deles a fim de garantir emparceiramentos mercenários, antipatrióticos e contra os interesses mais legítimos de todo o povo angolano que deveria estar já mobilizado para levar a cabo com os olhos num futuro a muito longo prazo numa geoestratégia para um desenvolvimento sustentável no país e em África!

Por todo o lado essas elites afoitavam-se à privatização dos lucros, ao mesmo tempo que os frágeis estados socializam as perdas, ao ponto de serem obrigados a desvalorizar as moedas nacionais, agravando-se a crise com a queda dos preços do barril de petróleo como tem ocorrido na Nigéria ou em Angola.

No sector da saúde tanto pior: com uma saúde mercenária ao serviço do “mercado” a factura paga-se além do mais em perdas de vidas!

Em Angola, recorde-se, o poder do império da hegemonia unipolar conseguiu durante o choque manipular com a riqueza do país a ponto dos contentores no terreno se barricarem para fazer a guerra: um lado no sector petrolífero, o outro no sector dos diamantes, algo indispensável aos “lobbies” cruciais do poder nos Estados Unidos, pois se dum lado havia o sinal republicano (petróleo), no outro subsistia o sinal democrata (minerais) e ambos esperavam a sua hora de melhor aproveitar o bolo.

No Congo o processo histórico ainda foi mais drástico, tendo em conta o facto de ser um país central e decisivo em relação à equação água-espaço vital do continente e um dos mais ricos em coltan, um mineral indispensável nas aplicações de novas tecnologias!

Em todos os casos o poder dominante começou a jogar de outra forma nas suas abordagens em relação à existência ou não da água interior do continente, em função da dicotomia contraditória entre as enormes extensões de desertos quentes (Sahara e Sahel) e os espaços vitais equatoriais e tropicais, ricos em água interior (bacias do Congo, do Zambeze, do Níger e do Nilo, assim como os Grandes Lagos e o Lago Chade).

Para introduzir mais contradições manipuladas e manipuladoras, em 2011 sucedeu-se o ataque à Líbia, “pedra de toque” e“corolário” do choque neoliberal em África, com a intervenção directa do Comando África do Pentágono e de “solícitos” membros da NATO (na mesma composição do último ataque à Síria).

Com uma Líbia voltada para África, Kadafi projectava o impensável e o “imperdoável”: um dirham (moeda líbia de elevada cotação que desse modo iria fazer frente ao CFA do “pré-carré”) para o norte de África, um exército comum em África, um satélite comum de África…

A Grã-Bretanha alinhou conforme tem alinhado invariavelmente no âmbito estrito anglo-saxónico, eliminando qualquer veleidade de concorrência…

A França havia-se rendido ao “diktat” do império da hegemonia unipolar desde a derrota dos seus agentes no Ruanda, sepultando o gaulismo e abrindo o caminho a “presidenciáveis interlocutores” como Sarkozy, “rendidos às evidências”, pois de outro modo não lhes seria possível “defender seu pré-carré”, em especial na África do Oeste e no Sahel…

A Itália, antiga potência colonial da Líbia, submissa e voluntariosa, “cedeu” seu território “ao abrigo da NATO” para as acções“punitivas” de grande envergadura que fizeram soçobrar o obsoleto exército líbio…

A parada neocolonial atingindo todo o continente africano subiu ainda mais a fasquia do saque e a intensidade maquiavélica do seu perverso jogo ante a impotência africana!


6- Das cinzas da Líbia erigida a pulso por Kadafi, resta um corpo disforme, inerte, dilacerado e, “aproveitando o êxito”, os fundamentalistas islâmicos wahabitas, financiados por sectores importantes das monarquias arábicas sunitas influentes no petrodólar, aproveitaram para disseminar o caos, o terrorismo e a desagregação por todo o Sahel a norte do Equador: até à Nigéria, à República Centro Africana e à Somália.

A “nova” ameaça surgida de manipulação em manipulação em África, “justifica” as campanhas afins obrigando a unir sob jugo neocolonial as velhas potências coloniais, sobretudo a França ciosa de possessivo “pré-carré” rico em petróleo, urânio, produtos tropicais e moeda sob tutela (o Franco CFA, que Kadafi queria fazer desaparecer).

O jogo geoestratégico dos Estados Unidos passou a fundamentar-se por via do Comando África do Pentágono (AFRICOM), aglutinando:

. As “justificadas” políticas prioritárias de segurança antiterrorista por todo o Sahel e Grandes Lagos, do Senegal à Somália, até aos Camarões, República Centro Africana e Uganda, assim como as medidas anti-pirataria no Golfo da Guiné e na Somália;

. As “justificadas” políticas de conexão dos “lobbies” do petróleo e minerais, procurando a todo o transe arregimentar os interesses e as opções das elites africanas afoitas aos “mercados” neoliberais;

. As “justificadas” medidas duma globalização de “mercados abertos” capazes de integrar sub-repticiamente os colaterais emergentes e concorrentes, uma vez que por todo o continente há carência de estruturas, infraestruturas e todo o tipo de vias de comunicação, com o agravamento de em muitos países se travar uma autêntica luta pela sobrevivência duma parte importante de suas populações e comunidades;

. As “justificadas” políticas explorando e reinterpretando a dicotomia contraditória com implicações antropológicas, entre os povos habitantes das enormes áreas desérticas trespassadas pelo “jihadismo” e os povos habitantes dos espaços vitais ricos em água interior.

Decorrente deste último jogo geoestratégico, migrações descontroladas de africanos lutando por sobrevivência expandem-se a norte pelo Mediterrâneo, para dentro da Europa e a sul por dentro do continente, em direcção à África Austral.

Com essa migração em busca de sobrevivência, germinam todo o tipo de tráficos…

Em conformidade isso obriga África a enfrentar um choque neoliberal em regime de “fogo lento” e para além dos limites de suas capacidades levadas á exaustão, para que a terapia neoliberal ao sabor dos interesses do império de hegemonia unipolar e do petrodólar se torne ainda mais pressionante, quer na Europa (com uma União Europeia “rompendo pelas costuras” a debater-se internamente com as múltiplas opções “à direita”, adoptadas em relação às migrações), quer em África.

Os “concorrentes” da emergência colateral de tendência multipolar em África, não possuem projectos geoestratégicos ao nível da transcontinental euro-asiática Rota da Seda, pelo que mobilizar os seus meios implica procurar construir estruturas, infraestruturas e vias de comunicação, que no essencial não afectam o domínio exercido sobre os insípidos “mercados de matérias-primas” e “mão-de-obra barata”, típicos da ultraperiférica economia africana, sem alternativas suficientes, que incluem as tradicionais vias típicas das economias de recolecção e de auto-subsistência, para contribuírem para fazer sair os países africanos da cauda dos Índices de Desenvolvimento Humano.

Mesmo o “pan-africanismo” ao abrigo da União Africana, está a ser projectado com os pés de barro dos “mercados” dependentes de índole neoliberal, proliferando cosméticas, alienações, manipulações e ilusões, na miragem dum desenvolvimento que tarda em ser sustentável e socialmente justo.

O renascimento humano é assim um mito, apesar de tão urgente que ele é e não será com indexações social-democratas, neoconservadoras ou neoliberais, que prevalecem na superestrutura ideológica do poder dos estados em África, que as imensas tarefas no âmbito da luta contra o subdesenvolvimento poderão prevalecer, num ambiente global conforme o que pende sobre as cabeças dos africanos, estando-se a perder o legado de luta de libertação e o sentido histórico do mesmo.

Em África, na ausência dum plano como a Rota da Seda e na ausência de resistências, a emergência multipolar reduz-se ao que o bastião da África Austral poderá criar de forma independente e soberana, pois o resto do continente está reduzido a frangalhos, a retalhos e a feudos “sob controlo”, ou “sob vigilância” do império da hegemonia unipolar.

A prova está que sendo um “colonizador-de-terceira” no Sahara, mesmo assim Marrocos voltou à União Africana…

Martinho Júnior - Luanda, 14 de Abril de 2018


Imagens:
A parelha que foi decisiva para a vitória do capitalismo neoliberal em benefício do império da hegemonia unipolar;
Refugiados do Ruanda migrando em assa para o Congo;
Náufragos africanos no Mediterrâneo;
O Boko Haram actuando à volta do Lago Chade;
O Rei de Marrocos, colonizador do Sahara, após 33 anos de ausência regressa á União Africana.
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