Filipe Alves*, opinião | Diáriode Notícias
Na guerra naval, o conceito de fleet in being (que poderíamos traduzir para algo como “frota em presença”) corresponde a ter uma força que, mesmo sem deixar o respetivo porto, constitui uma ameaça que condiciona a estratégia e as ações do adversário, obrigando-o a destacar ativos que poderiam ser mais úteis noutros teatros de operações. A Alemanha e a Itália fizeram uso desta estratégia na II Guerra, bem como a Argentina durante o conflito das Falkland/Malvinas, dificultando a vida à Royal Navy. E embora o ataque japonês a Pearl Harbour e o afundamento do General Belgrano por um submarino britânico tenham demonstrado as fragilidades desta estratégia, o princípio permanece válido. Enquanto uma força tiver a opção de atacar ou não, a outra tem de ajustar a sua estratégia de forma a contemplar este risco.
Na política portuguesa, o mais significativo exemplo de uma força “em presença” chama-se Pedro Passos Coelho. O antigo primeiro-ministro, que continua a ser o líder natural da direita portuguesa, só precisa de estar vivo para condicionar a atual liderança do PSD. Um só homem assombra todo um aparelho partidário. Passos tem afirmado repetidamente que não tem interesse em intervir na vida política, mas o seu nome continua a ser falado nos bastidores como potencial sucessor de Montenegro na liderança, caso este perca as eleições antecipadas que terão lugar em maio, ou ainda que as vença e, mesmo assim, não consiga formar governo.
Ontem, a hipótese levantada por Pedro Duarte, de deixar para “quem estiver à frente do PSD” a decisão de tentar formar governo se a AD ficar em segundo lugar nas eleições, foi interpretada como um sinal de que haverá a possibilidade de uma aliança com o Chega, já com Passos na liderança, que permita à direita formar governo sem necessidade de nova votação. Porém, é pouco provável que Passos queira voltar ao poder sem ir a votos.
Independentemente da forma como possa ocorrer, este regresso tem sido falado tanto por apoiantes como por adversários. Os primeiros querem Passos e a união das direitas, com o Chega a acabar por ser mais ou menos diluído na AD; os segundos agitam o fantasma do Chega, que assusta muitos eleitores do centro e da direita moderada.
Podemos questionar-nos, porém, se com o eventual regresso de Passos - e havendo novas eleições - o Chega continuaria a ter votações nos dois dígitos, ou se perderia uma boa parte do seu eleitorado para o PSD, talvez mesmo ao ponto de este último poder governar com a IL. Note-se que, segundo o Observador, no Chega haverá quem queira formar governo com Passos em caso de derrota de Montenegro, mas sem novas eleições. Ou seja, por alguma razão, não quererão ir a votos se Passos estiver à frente do PSD.
No entanto, Montenegro ainda pode surpreender e ser reconduzido com legitimidade reforçada, tal como, de resto, a sondagem divulgada esta sexta-feira sugere. Nesse cenário, a manter-se o “não é não” ao Chega, o PSD continuará a assumir-se como o partido-charneira, ocupando o centro e tentando governar como se não existisse nada à sua direita. As próximas semanas serão decisivas.
* Diretor do Diário de Notícias
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