domingo, 16 de fevereiro de 2014

Portugal: OS MECENAS DAS COMEMORAÇÕES DO 25 DE ABRIL SOMOS NÓS, OS CIDADÃOS

 

Daniel Oliveira – Expresso, opinião
 
O grande debate sobre os 40º aniversário do 25 de abril não é o estado da nossa democracia. Não são as extraordinárias conquistas deste país nas últimas quatro décadas. Não é a democratização do ensino, a redução brutal da mortalidade infantil, a melhoria de todos os indicadores de saúde e de qualidade de vida. O aumento generalizado do nível de vida dos portugueses. Os direitos laborais, a liberdade de associação, de organização, de expressão. Não é a liberdade de imprensa e o que fazemos com ela. Não é a democracia e as eleições livres. Não é a opção pela integração europeia e o encruzilhada em que nos encontramos. O debate não é sequer sobre as comemorações que precisamos à luz do momento político que vivemos. Não. O debate é sobre quanto vai custar comemorar quarenta anos de liberdade. E talvez este seja o retrato mais triste do estado de embrutecimento deste país.
 
Como se isto não bastasse, Assunção Esteves teve a ideia peregrina de propor que as comemorações oficiais, a cargo da Assembleia da República, tivessem mecenas. Seria demasiado óbvio explicar aqui que todos os países precisam de alguns rituais. E que esses rituais exigem uma solenidade e dignidade que cabe às instituições do Estado garantir. Mas é normal que o país onde o Partido Socialista propõe um tribunal VIP para investidores estrangeiros já tenha perdido a noção de que nem tudo no Estado pode ser esmagado pela lógica estritamente financeira e económica.
 
As comemorações oficiais do 25 de abril já têm mecenas. São os cidadãos. Eu, com os meus impostos, por exemplo. E a maioria dos portugueses, que se revê sem qualquer dúvida naquela data. E se até a comemoração da liberdade e da democracia é privatizada ou passa a depender de parecerias público-privado, dispenso que o Estado participe nelas. Que sejam feitas na rua, pelo povo. Esse, ao menos, não precisa de patrocínios.
 
Mas não sou ingénuo. A discussão em torno dos custos desta comemoração histórica está longe de ser ingénua. E não caiu do céu. Nada melhor do que o populismo mais rasteiro para quebrar o ânimo a quem queira comemorar uma revolução que, para além da liberdade e da democracia, trouxe consigo a ambição de acrescentar justiça social a um país que era vergonhosamente desigual. Uma ambição que é hoje retratada pelo poder como uma opção histórica irresponsável de quem quis viver acima das suas possibilidades. A melhor forma de moldar o presente é fazer esquecer o passado. E, neste caso, a melhor forma de fazer esquecer o passado é tornar a sua celebração num crime contra as finanças públicas.
 

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