quinta-feira, 8 de março de 2018

ITÁLIA | Duro recado à “austeridade” europeia

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Vasta maioria dos eleitores preferiu candidatos críticos às políticas do bloco, nas eleições gerais de domingo. Mais um país-chave questiona projeto europeu, capturado pelos neoliberais

Stephanie Kirchgaessner | Outras Palavras | Tradução: Inês Castilho

Os resultados apresentados pelo Ministério do Interior, com a apuração praticamente encerrada, apontam para um Parlamento sem maioria absoluta. Parece agora superado o risco de a coalizão de direita e ultradireita, com aproximadamente 32% dos votos, conseguir a maioria parlamentar, quando as cadeiras forem distribuídas.
Qualquer resultado previsível representará agora um repúdio a Bruxelas por parte dos eleitores italianos, menos de dois anos depois de o Reino Unido optar, em plebiscito, por sair da União Europeia.

As eleições marcam também a ascensão política de dois partidos relativamente novos, até pouco tempo atrás considerados fora da primeira linha do poder. O Movimento 5 Estrelas (M5S), que se define como contrário à elite, obteve 32% dos votos; e o partido eurocético e contra a imigração Lega (a Liga) conseguiu 17,4%. um resultado muito superior ao esperado.

Ainda que durante a campanha o ex-primeiro ministro Silvio Berlusconi tenha liderado a coalizão de direita, os resultados mostram que, com 14%, foi superado por seu jovem rival, Matteo Salvini, da Liga, durante uma campanha em que Salvino deu ênfase ao apoio a políticas radicais contra imigrantes. Entre essas propostas inclui-se a deportação macica de imigrantes que residem na Itália sem documentos.

Salvini, conhecido por sua retórica exagerada e às vezes racista, disse segunda-feira que os eleitores concederam à direita a missão de liderar o país, e minimizou a ideia de que a coalizão necessita ainda de mais um sócio para alcançar a maioria. “Sou alguém que cumpre a palavra e nosso compromisso é com uma coalizão de centrodireita que pode e deve governar”, disse, em referência ao “acordo de cavalheiros” que firmou com Berlusconi de que o partido com mais votos na coalizão nomearia o próximo primeiro ministro. Disse também que não formará uma coalizão com o M5S e declarou que o euro é uma moeda condenada ao fracasso, embora tenha descartado um referendo sobre a permanência na eurozona.

A coalizão de centro esquerda liderada pelo ex-primeiro ministro Matteo Renzi saiu-se pior do que o esperado, ao obter somente 19% dos votos. Tudo isso fez com que seu próprio partido pedisse suarenúncia como líder do Partido Democrata. Ainda que sua colaboradora mais direta, Maria Elena Boschi, tenha ganho uma cadeira por Tirol do Sul, no norte da Itália, outras importantes figuras do partido, como o ministro de Interior Marco Minniti, e o da Cultura, Dario Granceschini, foram derrotados.

O fracasso fulgurante de Renzi

“Renzi foi aniquilado no que é, provavelmente, o ciclo de ascensão e queda mais curto da história da política italiana”, sustenta o analista Francesco Galietti, de Roma. “Os dados confirmam que o PD obteve menos que a metade do percentual que alcançou nas eleições europeias de 2014, e não passará muito tempo antes que as forças de esquerda contrárias a Renzi questionem duramente sua postura”.

Os resultados foram extraordinários, em parte porque refletem a rejeição a um governo que a maioria dos analistas definiu como competente sob a liderança do PD, que foi testemunha de uma importante melhora na economia e adotou política que limitou o número de imigrantes que chegam à Europa.

O minguado êxito do M5S nas prefeituras de Roma e Turim, por ele governadas desde as últimas eleições locais, não dissuadiu os eleitores, apesar da insistência do PD na mensagem de que o voto nesse partido traria o caos.

O partido populista, que até pouco tempo apoiava um referendo sobre o euro, suavizou sua retórica antieuropeia na reta final da campanha. Talvez isso tenha dado alguma segurança aos italianos que não apoiaram, majoritariamente, sair da zona do euro, ainda que sejam críticos de Bruxelas.

Na segunda-feira, os analistas ainda não tinham claro o que farão os partidos para obter maioria no caso de um parlamento sem maioria absoluta. O presidente da Itália, Sergio Mattarella, será o encarregado de dirigir as conversações.

Entre as possibilidades inclui-se um casamento de conveniência do M5S com o PD, ou do M5S com a Liga.

Os resultados também indicam que a Sicília, durante muito tempo bastião do Força Itália de Berlusconi, aderiu ao M5S. Entre os candidatos vencedores está Piera Aiello, que vive sob proteção policial por causa das ameaças da máfia e teve de cobrir o rosto durante a campanha eleitoral.
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