sexta-feira, 10 de maio de 2019

Portugal | O algoritmo de Costa


Miguel Guedes | Jornal de Notícias | opinião

Silêncio, luta e inveja. E sentido inverso. A crise de nervos que António Costa provocou na oposição à Direita foi o golpe de teatro mais cómico (não fosse trágico) desta legislatura. À memória, uma palavra batida: irrevogável. Só que, desta vez, a dois para dançar o tango. Poder-se-ia dizer que Costa deu baile. Não fosse tudo isto trágico, lá está.

Tragédia, desde logo, para a confiança que qualquer cidadão deve entregar à classe política. Numa altura em que falta apenas um par de semanas para as eleições europeias no contexto de uma Europa desagregada e com a pirâmide invertida, assolada por populismos e fascismos vários, esta chicana política à volta do tempo de serviço dos professores é combustível para os que pensam que não há melhor remédio do que um frasco de veneno. Construímos mais uma ponte para o irremediável, para a falta de crença nos formatos representativos de poder, para a destruição dos últimos alicerces da democracia e da política como ela deve ser entendida. A nobreza foi-se e restam, trôpegas, as danças recreativas de salão.

O algoritmo de António Costa está afinado. No momento em que precisava de afirmar a sua noção de estadista, não só o consegue aos olhos dos incautos, como desterra para o silêncio a primeira figura do Estado. O presidente da República silenciou-se e, também ele, aproveitou para reforçar pela diferença a sua pose de responsabilidade. A "win-win situation" para Costa e Marcelo, à boleia da incoerência desmemoriada de Rui Rio e Assunção Cristas, líderes dos partidos-professores de ruína nos tempos da troika da "PàF", agora inusitadamente de braço dado aos sindicatos que sempre desprezaram.



António Costa simulou a sério a crise que inventou, encostando PSD e CDS ao seu passado histórico e dando um "boost" à campanha europeia de um PS refém de um candidato frágil e de sondagens pouco animadoras, atirando números erráticos para a mesa com centenas de milhares de euros de falibilidade, agitando a bandeira de contas que nem seriam para esta legislatura e dependeriam sempre de negociação. E fê-lo com a certeza de, ainda assim, ser inteiramente compreendido. O algoritmo de Costa sabia bem que não jogava com a luta de classes mas com a inveja. Nenhuma classe profissional toleraria (como desde logo se viu pelas reivindicações de outros sectores da Administração Pública) que os professores começassem a ganhar uma luta que é de todos. Um país com dor de cotovelo também não.

Sabendo que nem BE nem PCP estão interessados em coligações negativas, António Costa sabia que ganhava pela cobiça e nervosismo dos outros. Era evidente que a oposição à Direita tentara dar um salto maior do que a perna, desprezando o algoritmo do primeiro-ministro. Composição e alquimia. As pessoas não são assim tão fascinadas pela pureza das contas públicas apesar de já terem sofrido que chegue à conta delas. O que não suportam mesmo é ver o vizinho a chegar primeiro à meta que é de todos.

* Músico e advogado

O autor escreve segundo a antiga ortografia

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