< Artur Queiroz*, Luanda >
Pensar e fazer política é uma actividade honrosa, respeitável e de grande valor social. Mas nem toda a gente olha a política por esse ponto de vista e há mesmo quem procure a todo o momento lançar sobre os políticos a lama da infâmia. A política é um serviço público imprescindível e insubstituível no regime democrático. Nada é mais importante do que resolver os problemas do povo através da acção política e da intervenção cívica. Até porque não vão longe os tempos em que os angolanos viram confiscada a liberdade e foram brutalmente afastados da cidadania.
Desde o Acordo de Bicesse, os angolanos apresentaram mais de 100 projectos de partidos políticos. A maior parte deles ficou pelo caminho, mas nunca se perde o mérito da intenção e a participação cívica.
Há uma característica própria de pensar a política angolana. Temos excelentes políticos que fazem a síntese entre o serviço público, a intervenção cívica e o amor pelo mundo das ideias. Lopo do Nascimento é um dos gigantes do panorama político angolano.
Há uns tempos estivemos à conversa. Recordámos o tempo em que fizemos um Boletim Cultural. É sempre bom ouvir um homem que pensa e produz ideologia. Naquele momento recordei-me que ele dedicou a sua juventude à luta anti-colonial, na clandestinidade. Desempenhou um papel extraordinário no período quente após o 25 de Abril de 1974, durante o qual explodiu o fervor revolucionário pela conquista da Independência Nacional. Deu um contributo ímpar na discussão que levou aos acordos de Alvor e ao Governo de Transição. Teve um papel fundamental após a morte do Presidente Neto. Esteve na Comissão Económica para África (ECA) da ONU, no Comércio Externo, nas conversações “non stop”, em Bicesse, com Jorge Valentim, outra figura incontornável da cena política angolana.
Lopo do Nascimento foi para o terreno e pôs toda a sua experiência e ciência política ao serviço da recuperação da província da Huíla, devastada pela guerra. No MPLA marcou toda uma geração de jovens militantes e deu um contributo inigualável à vitória estrondosa do seu partido nas primeiras eleições multipartidárias, em 1992.
Lopo do Nascimento é um pensador da política angolana. Recordo as suas intervenções muito ponderadas mas contundentes, que foi fazendo em momentos precisos da vida nacional.
Lopo do Nascimento é o político que ajudou a construir e a defender o Estado Angolano. É um Fundador da Nação Angolana. Um político preocupado com os caminhos da construção da Nação Angolana, edificação só sustentável com uma juventude formada e forças económicas nacionais poderosas, com engenho e arte suficientes para conciliar os aspectos identitários nacionais, com a emergente modernização mundial. Capazes de suplantar a concorrência externa, sem complexos nem caírem nos erros do passado.
Estes são, para Lopo do Nascimento, os grandes desafios do futuro. Infelizmente não é esse o entendimento no Palácio da Cidade Alta onde se perseguem empresárias e empresários. Ou se mantêm prisioneiros em cárcere privado.
Lopo do Nascimento sempre foi um homem de carácter e jamais virou a cara à luta. Essa foi a sua marca na intervenção política. Nem a tenebrosa máquina repressiva do colonialismo conseguiu afastá-lo da defesa dos seus princípios. Nunca dissimilou as suas ideias nem transigiu quando foi necessário defender a liberdade e a democracia. Quando entendeu que era preciso divergir, marcou o seu campo político e ideológico. Mas não entrou pelo caminho da dissidência, quando essa opção era fácil, granjeava aplausos e falsos apoiantes. A divergência alarga a dimensão da democracia. A dissidência nem sempre é um acto de coragem e quase sempre vive de braço dado com a deslealdade ou a traição.
O gigante da política escolheu servir o Povo Angolano quando ainda era jovem estudante. E assim se manteve até hoje, numa trajectória heroica e sem mácula. Lopo do Nascimento é daqueles que nunca mudou de campo nem de camisola.
Por isso, serve de exemplo para outros, alguns seus contemporâneos, que mudam ao sabor dos ventos, entram e saem, defendem hoje uma posição política e amanhã o seu contrário. Pensam pela cabeça das grandes centrais mundiais de intoxicação política, adoptam avidamente a moda ideológica do momento, julgam-se credores do Povo Angolano e não hesitam em apresentar-lhe facturas falsas, sem qualquer correspondência com serviços prestados, esforços desenvolvidos ou sacrifícios consentidos pelo engrandecimento da Pátria.
Lopo do Nascimento tem um longo percurso de serviço público e por isso merece o respeito e a gratidão dos seus concidadãos. Gostava que o seu exemplo fosse seguido por alguns políticos que vivem sentados à mesa do Orçamento Geral do Estado, desde que atingiram a vida adulta e ninguém conhece a obra que fizeram. Muito menos justificam com trabalho sério e árduo as benesses e mordomias que nunca se esquecem de exigir.
Mara Quiosa, vice-presidente do MPLA, homenageou Lopo do Nascimento. Lá no quintalão estiveram as amigas e os amigos de sempre, que pela lei da morte ainda não se libertaram desta vida descontente. E ao seu lado a Maria do Carmo. Ao lado de cada grande mulher há sempre um grande homem. Obrigado pela tua luta, pelo teu talento como empresária, pelo teu exemplo, Maria do Carmo! O Camarada Lopo merece-te.
* Jornalista
Sem comentários:
Enviar um comentário