quinta-feira, 2 de junho de 2011

MEANDROS DA COLÔNIA UNIVERSAL




JÚLIO SEVERO – DEBATES CULTURAIS
 
“El hombre inka, el indio del Tawantinsuyu no comió carne humana. Antes de la llegada de los españoles no practicó el homicidio, menos el asesinato, y mucho menos el genocidio y las masacres. Estas “maravillas” llegaron a América con los conquistadores.” Fausto Reinaga. La revolución india.
 
É preocupante a omissão e o silêncio do povo nesta Colônia Universal, o Brasil, cujo regime democrático deveria render-nos contas dos serviços públicos onde se anicham seus “representantes”, mas contraditoriamente nos sangra como um boi recém-abatido e direciona os recursos a grupos poderosos.
 
Diante de nosso descuido, visto que atuamos como meio-cidadãos, e da divisão do repasto entre as entidades que efetivamente dirigem o país pela pressão de suas influências e que comandam a títere Dilma Rousseff, alguns interlocutores supõem que o velho debate entre estatismo e mercado está superado e sugerem que se elaborem políticas corretivas da economia.
 
Os mesmos defensores do mercado livre e o neoliberalismo fazem-nos crer que a democracia avança e que devemos seguir o exemplo do Norte, dentre os quais os desesperados e impostores Estados Unidos, a falida e arrogante Espanha, e a Inglaterra de rainhas, príncipes e contos de fadas.
 
O referendo sobre desarmamento em outubro de 2005 convocou a população a aprovar ou não uma norma que, segundo os proponentes, reduziria a violência no Brasil através da proibição do comércio de armas de fogo e munição. Revigora-se a tentativa de mostrar que o governo faz alguma coisa como sugere a campanha nacional de desarmamento mediante a entrega voluntária destes objetos, ultimato do governo e da TV Globo para dar a impressão de que se trabalha para combater o uso indiscriminado de armamentos num país onde o problema não se resume dentro das fronteiras mal vigiadas.
 
A suposta aprovação desta lei teria sido frustrada para desarmar os criminosos, como os que explodiram caixas eletrônicos no estado de São Paulo no primeiro semestre de 2011. É consensual que a campanha desarmará aqueles que nada têm a ver com os dados da violência no Brasil, uma vez que os bandidos não cometeriam a estupidez de entregar suas armas à arruinada, corrupta e incapaz Polícia.
 
Para nomear outro dos meandros de nossa Colônia Universal, o falido sistema carcerário brasileiro ainda conta com iniciativas paliativas para recuperar os presos, como o Programa Começar de Novo do Conselho Nacional de Justiça (CNJ) e a oferta de cursos de capacitação profissional. Se apenas atribuíssem aos encarcerados tarefas laborais, como na lavoura e construção civil, quem sentiria atração pela “escola do crime” e os benefícios que até hoje se obtêm nos presídios?
 
A temporada na cadeia determinará um trabalho aos presos a fim de que restituam à sociedade o que lhe privaram. Seríamos beneficiados com alimentos mais baratos, as municipalidades reduziriam custos na construção de prédios públicos, e os que cumprem a pena recobrariam seu valor no regresso à sociedade. Aproveito para afirmar que sou contra a privatização do sistema carcerário, uma vez que a proposta transformaria em negócio o que deveria ser objeto de políticas públicas sociais.
 
Continuará, leitor, omisso e calado diante do que os grupos pujantes fazem do país sem o seu consentimento ou sua participação no diálogo? Não podemos aceitar mais a cultura dos “fiscais” e a “fiscalização” no Brasil, tão enganadora quanto a ficção dos filmes hollywoodianos.
 
Governos concedem serviços públicos à iniciativa privada, como em comunicação e transporte, e contratam escalas de burócratas para “fiscalizar” o bom funcionamento, o cumprimento da legislação e o atendimento dos clientes que antes se cogitavam cidadãos. A especialização chegou ao ponto de ter agentes que só fiscalizam se as indústrias possuem poços e se pagam o imposto devido por eles.
 
O império brasileiro destruiu o Paraguai emergente no século XIX porque este queria acesso ao mar, mas hoje é generoso com a aprovação do aumento do valor pago pelo excedente de energia paraguaia da usina hidrelétrica de Itaipu. A concessão brasileira coincide com a resposta que o Mercado Comum do Sul espera somente dos parlamentares do Paraguai para o ingresso definitivo de Venezuela ao bloco.
 
Vivemos imersos na economia de mercado em aliança com o paternalista Estado brasileiro, onde vale reconhecer que se exclui quem não tiver dinheiro ou não puder pagar novamente por aquilo que as políticas públicas têm o dever de fornecer segundo o nosso modelo tributário.
 
Funcionamos, deste modo, com dois modelos: um para os pobres e outro para os ricos. Os pobres dependem do Estado para tudo, enquanto os ricos acham que o Estado não deveria existir porque enxergam-no como um monstro anti-natural cobrador de impostos. Duas visões disparatadas.
 
Cada segmento tratará de convencer-nos, portanto, de que suas práticas são benéficas para a sociedade. Os canais hegemônicos de televisão querem a nossa adesão ao sistema digital, que deixará sem dúvida muitas emissoras de fora, no tempo em que as concessionárias de rodovias divulgam que o número de acidentes é bem menor em suas vias que quando o governo as administrava, apesar de nossos “representantes” não baixarem os impostos após esta desoneração de responsabilidades.
 
A Colônia Universal aceita quase tudo sem debate porque se acredita que os “representantes” do povo são seres divinos e lhe serão fieis independentemente do sistema eleitoral cruel e vicioso que vigora neste país e da crença de que alguém nos atenderá sem que movamos uma palha.
 
Anote: a participação ativa e debatedora da população é o pré-requisito que nos transformará em cidadãos por inteiro e reduzirá os conflitos desmesurados que percorrem a sociedade.
 
 
*Bruno Peron Loureiro é mestre em Estudos Latino-americanos pela FFyL/UNAM (Universidad Nacional Autónoma de México).

Sem comentários:

Mais lidas da semana