domingo, 10 de julho de 2011

Independência do Sudão do Sul traz esperanças de paz e gera dúvidas sobre futuro do país





Em 9 de julho de 2011 a cidade de Juba torna-se a mais jovem capital do mundo. A República do Sudão do Sul declara sua independência. Contudo pairam dúvidas se essa divisão trará a esperada paz à região.

O passo histórico deste 9 de julho divide em Norte e Sul aquele que até então era o maior país do continente africano. Permanecem indefinidas, no entanto, questões-chave, como a repartição das receitas do petróleo e das dívidas do Estado e, principalmente, a demarcação da fronteira. Também não se sabe ainda a quem caberá a disputada região fronteiriça de Abyei.

A indefinição levou a conflitos entre Norte e Sul, e o que muitos observadores temiam acabou acontecendo: pouco antes da independência do Sudão do Sul, tropas dos dois lados se enfrentaram em combates violentos, principalmente em regiões de fronteira como Abyei e Cordofan do Sul.

No final de maio de 2011, o governo do Norte ocupou a região de Abyei, rica em petróleo, reivindicada por ambos os lados. E embora as forças de segurança das Nações Unidas tenham decidido desmilitarizar as regiões, não se sabe ao certo se os capacetes azuis são capazes de manter o cessar-fogo.

Isto se deve ao fato de o problema serem apenas os governos de Norte e Sul, mas também os grupos étnicos Misseriya, do Norte, e Dinka-Ngok, do Sul, explica Faisal Mohamed Salih, especialista em Sudão. "Se os governos entrarem em acordo sem o consentimento dos grupos étnicos, o acordo não será implementado", adverte.

Esperança de viver em paz

A ocupação de Abyei levou milhares de habitantes da região a se refugiarem no Sul. Além disso, estima-se que, até o final do ano, mais de 100 mil migrarão para o novo país africano. Elas vão com grandes expectativas e a esperança de poderem viver em segurança.

No entanto, o Sudão do Sul ainda não tem muito a oferecer. A infraestrutura precisa ser construída, tudo tem que começar do zero. Depois de quase 50 anos de guerra civil contra o Norte, quase não há estradas, abastecimento de água, fornecimento de energia elétrica, e muito poucos serviços são oferecidos.

Ainda assim, há esperança sobre o futuro. "O governo vai trabalhar duro para atrair investimentos estrangeiros", opina a jornalista Josephine Achiro, de Juba, capital do Sudão do Sul. Ela conhece muito bem os problemas do país, e está convencida de que a população vai cultivar a terra fértil e que, com a ajuda dos ganhos com o petróleo, "está pronta para um novo começo".

Discriminação étnica

Na região fronteiriça do Cordofan do Sul, também foram registrados conflitos violentos entre as tropas do exército norte-sudanês e os soldados do Exército de Libertação do Sul (SPLA). Na área, que pertence ao norte, vivem os grupos étnicos Nuba e Dinka, assim como diferentes grupos de origem árabe.

Os Nuba e os Dinka lutaram durante anos ao lado das forças do sul. Portanto, a desconfiança de Cartum em relação a eles é grande. "As diferenças culturais são o centro do problema, e essa região permaneceu subdesenvolvida por muito tempo", diz Kahlid Abdu Dahab, do Parlamento Pan-Africano, organização ligada à União Africana.

A discriminação racial contra grupos étnicos de pele negra é tida como causa do conflito. A injustiça tem resultado num desenvolvimento profundamente desigual nas distintas partes do país. Para entender como as coisas chegaram a esse ponto, basta observar as diferenças entre Norte e Sul, diz Josephine Achiro. "Parece que ambos os lados sempre foram separados, mesmo antes da assinatura do acordo de paz."

Paz em troca da divisão

A futura divisão das receitas do petróleo ainda é controversa. Recentemente, o presidente norte-sudanês, Omar Al-Baschir, ameaçou fechar os oleodutos, caso o acordo de distribuição existente não seja mantido.

Este prevê uma divisão meio a meio: 50% das receitas do petróleo deve fluir para o Norte, pelo uso dos oleodutos. A disposição do Sul de entregar metade de suas receitas continua a ser uma questão crucial. A situação é difícil, pois o petróleo é a única fonte de riqueza do novo país.

Enquanto isso, Norte e Sul chegaram a um acordo, segundo o qual os soldados do SPLA no Cordofan do Sul serão integrados ao exército norte-sudanês e a outras forças de segurança. O SPLA também deve atuar legalmente como partido político. Permanece em aberto até que ponto o acordo pode trazer a paz.

Mesmo norte-sudaneses como Khalid Abdu Dahab mostram-se desiludidos, pois "a população acreditava que poderia trocar a divisão do Sudão pela paz". Para ele, a situação real é diferente: "Nós perdemos parte do Sudão e não conquistamos nenhuma paz. E isso é perigoso". Um retorno à guerra seria devastador para o Sudão, obrigando ainda mais pessoas a fugirem para os países vizinhos, como o Quênia e a Etiópia.

Autora: Lina Hoffmann (ff) - Revisão: Augusto Valente

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