quinta-feira, 19 de abril de 2012

Guiné-Bissau: MILITARES MOSTRAM A CARTA SECRETA QUE PRECIPITOU O GOLPE



António Rodrigues – i online

Sem timbre nem carimbo, alegadamente assinada por Gomes Júnior, a missiva pede a Ban Ki-moon uma força de paz com amplos poderes

O Conselho de Segurança das Nações Unidas, onde Portugal tem assento como membro não permanente, vai discutir hoje, a partir das 15h (20h em Lisboa), o golpe militar na Guiné-Bissau. Em cima da mesa está o pedido da CPLP (Comunidade dos Países de Língua Portuguesa) para o envio de uma força de paz para aquele país africano, onde os militares deram um golpe no dia 12 e mantêm presos o presidente interino, Raimundo Pereira, e o primeiro-ministro e candidato mais votado na primeira volta das presidenciais, Carlos Gomes Júnior.

Ontem, o autodenominado Comando Militar divulgou uma carta alegadamente enviada por Gomes Júnior ao secretário-geral da ONU, Ban Ki-moon, a solicitar às Nações Unidas o envio de uma força de manutenção de paz com mandato amplo para a Guiné-Bissau. A missiva de três páginas está aparentemente assinada e rubricada pelo primeiro-ministro mas não tem nem timbre nem carimbo, o que faz duvidar muito da sua autenticidade num país onde não é a primeira vez que surgem cartas assinadas de altas individualidades como, a seu tempo, uma de António Indjai, actual chefe do Estado-Maior General das Forças Armadas e líder deste golpe, confessando estar por trás do tráfico de droga no país.

Mesmo sendo verdadeira, a missiva não é o “acordo secreto” entre os governos guineense e angolano para reforço da Missang (a força de paz que Angola mantém na Guiné-Bissau e que esteve no centro do mal-estar das forças armadas locais) – um acordo que teria precipitado o golpe militar. E o facto de estar datada de 9 de Abril, apenas três dias antes do desencadear dos acontecimentos, levanta três questões: A carta é verdadeira e os militares planearam um golpe em menos de três dias? A carta é verdadeira e os militares que já estavam a preparar um golpe aproveitaram-na como argumento? A carta é forjada e a sua data é de somenos importância?

O certo é que a decisão dos militares surge numa altura em que a pressão internacional sobe de tom e o espaço de manobra diminui. Até a China, cuja atitude em África tem permitido a alguns países ignorar pressões do Ocidente para acelerar as suas reformas democráticas, voltou a emitir um comunicado – o segundo no espaço de dois dias – a mostrar a sua oposição “à tomada do poder pela força na Guiné--Bissau” e a apoiar “os esforços da CPLP e da CEDEAO [Comunidade Económica dos Estados da África Ocidental] para mediar a questão”, disse um porta-voz do Ministério dos Negócios Estrangeiros, Liu Weimin – o que poderá ser um sinal de que Pequim não vetará a possibilidade do envio de uma força de interposição sob mandato da ONU para o país.

Acordo

Ontem, o “Fórum dos Partidos Políticos” da oposição guineense, que criticou a comunidade internacional por manterem dois pesos e duas medidas em relação à Guiné-Bissau, anunciou que chegou a acordo com o Comando Militar para dissolver o parlamento, criar um conselho de transição e marcar eleições num prazo de dois anos.

No entanto, o facto de a maioria dos partidos do “fórum” ser pouco representativa faz duvidar de que seja esta a solução a prevalecer. Não contar com a formação política maioritária no país, o PAIGC – de Gomes Júnior –, para uma resolução da crise parece pouco viável.

Numa conferência de imprensa antes do anúncio do acordo, Fernando Vaz, o porta-voz do grupo, acusou a comunidade internacional e Angola, “que não representa nenhum exemplo de democracia e do respeito pelas normas constitucionais”. Para Vaz, “durante a governação do ex- -primeiro-ministro Carlos Gomes Júnior, a Guiné-Bissau e o mundo foram testemunhas de uma série de assassinatos bárbaros” onde se incluem o presidente Nino Vieira, o CEMGFA Tagmé Na Waié e políticos como Hélder Proença e Baciro Dabó.

A União para a Mudança (UM), um dos partidos que preferiu afastar-se da reunião de representantes políticos da oposição com os militares, denunciou, num comunicado a que o i teve acesso, aquilo a que chama “o aproveitamento que certas forças políticas pretendem dar aos acontecimentos” através da “instauração de um alegado Conselho Nacional de Transição”. Diz a UM: “Em caso de ser essa a via prevalecente, não irá reconhecer nem o referido CNT nem os órgãos dele emanados.”

Desaparecidas

O medo de eventuais conflitos provocou ontem uma tragédia na zona de Caio, no Cacheu, a noroeste de Bissau, quando uma piroga com 22 pessoas que procurava chegar à ilha de Jeta naufragou. A maioria das pessoas, diz a Lusa, foi resgatada, mas cinco crianças, com idades entre os dois e os 13 anos, estão desaparecidas. A falta de gasóleo impediu a saída de barcos para as encontrar.

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