quarta-feira, 11 de julho de 2012

O BOSQUE EM FLOR



Rui Peralta

Em Abril deste ano a repressão abateu-se sobre os manifestantes tunisinos que reclamavam o direito ao trabalho e a liberdade de expressão, fazendo lembrar a toda a gente, menos ao governo, a repressão sobre as manifestações que fizeram cair o regime anterior. Mais recentemente as reuniões públicas da oposição tunisina, seja qual for o sector, são geralmente interrompidas e perturbadas por grupúsculos indignados de militantes islâmicos e a oposição acusa o governo de estar a conduzir o país para uma ditadura teocrática, um “Tunistäo”.

A oposição “modernista”, surgida da chamada Primavera Árabe na Tunísia, é formada pelo Partido Republicano, herdeiros do Partido Democrático Progressista e pela Via Social e Democrática, ambos reclamando a herança de Bourguiba. Constituem um sector do antigo regime que se adequou aos ares Primaveris. Claro que, naquele período negro do regime tunisino, em que as manifestações e os protestos eram duramente reprimidos e havia detenções arbitrárias, estes sectores ainda não tinham sido bafejados pelos ares Primaveris, nem sequer modernizados, limitando-se a uns sussurros e a um abanar de cabeça, mas nada de muito reprovador, ou pelo menos que fosse entendido como um sinal de apoio condicional para com as reivindicações populares.

Depois, quando viram que as coisas tinham mesmo de ser alteradas, começaram a reivindicar liberdade de opinião, liberdade religiosa e liberdade de empresa (?), esta ultima para as classes medias mais abastadas, que também elas não se identificavam com as reivindicações populares que exigiam o saneamento dos aparelhos da justiça e da segurança, a resolução do desemprego e melhores condições de vida. Claro que estas reivindicações ainda não encontram eco no programa “democrático e progressista” dos modernistas, que continuam a suportar a “injustiça” de que foram vitimas os mais ou menos ricos…a não poderem enriquecer mais! Essa é a plataforma dos modernistas e o que consideram ser o grande pecado do antigo regime. Não deixar os mais ou menos abastados serem ricos.

Caracterizada que está a oposição modernista, passemos á componente política do governo. Este é conduzido pelo Ennahda, coligado ao Congresso pela Republica e ao Foro Democrático pelo Trabalho e Liberdades. Em termos do modelo económico, não diferem em nada dos modernistas. Os clérigos e os seus aliados vagamente laicos são tão partidários do modelo económico neoliberal como a oposição modernista. Claro que é mais moralizador e menos aberto às “satanices do capitalismo”, mas, cumpridos que sejam os preceitos religiosos, nada melhor que o mercado e venha ele que até os clérigos precisam de dinheiro.

Para trás ficaram as reivindicações das camadas populares mais necessitadas. Para trás e esquecidas. Ou seja terminou a Primavera e o Verão nem se fez sentir. Está aí o Outono e preparem-se para um Inverno rigoroso. Ao povo tunisino querem deixar-lhe duas opções do pensamento único: entre a tradição islâmica, modernizada (amiga do livre mercado, abençoado pelos clérigos) e os modernistas laicos, (amigos do livre mercado, sob a bênção de um Bourguiba renovado). É este o Outono. O Inverno será um bocadito pior…para os trabalhadores, desempregados e todas as camadas mais necessitadas da população. Mas não se preocupem. O Inverno Tunisino será composto por uma trindade e até será mais amplo e contará com o apoio do antigo Agrupamento Constitucional Democrático (á boa maneira neocolonial). E sob o olhar amigo do Ocidente o mercado prosperará durante o Inverno Tunisino. De um lado do triângulo a liberdade de criar empresas, reivindicada pelos modernistas; do segundo lado do triângulo a palavra reconfortadora para os pobres, cuja alma será contemplada no paraíso, por exigência dos sectores políticos islâmicos; o terceiro lado do triângulo será a ordem, cuja manutenção ficará a cargo do RCD.

E todos serão felizes. O ocidente e a burguesia nacional tunisina. E se alguém quiser o regresso da Primavera, tem sempre o Tunistäo para o fazer voltar ao Inverno.

A Tunísia da solidariedade

Umra Kilani Muqaddami, nasceu no ano de 1962 em Mdhila, na região mineira de Gafsa, uma região pobre do sudoeste de Tunes. Militante do Movimento de Patriotas Democratas - a Watad, uma organização da esquerda revolucionária tunisina, ainda hoje influente na União Geral dos trabalhadores Tunisinos (UGTT). Clandestina durante os regimes de Bourguiba e de Ben Ali, a Watad foi legalizada depois de Janeiro de 2011, sendo actualmente dirigida por Choukri Belaid e elegeu 2 deputados para a Assembleia Nacional Constituinte - Umra foi para a Síria em 1984, onde estudou psicologia durante dois anos, na faculdade de Psicologia da universidade de Damasco. Em 1986 adere á Frente Democrática para a Libertação da Palestina (FDLP) – organização surgida em 1969 em consequência de uma cisão na Frente Popular de Libertação da Palestina (FPLP) e que ainda hoje é uma das organizações mais importantes da esquerda palestiniana - seguindo para o Líbano, onde dirige em 26 de Abril de 1988 uma operação em Chebbaa, morrendo no confronto com o exército israelita. Tinha 26 anos. O seu cadáver ficou com o exército israelita, até que em 2004 o Hezbollah recuperou os seus restos, devido a um acordo de troca de prisioneiros e de restos mortais com o Estado de Israel, sob mediação alemã. O antigo presidente tunisino, Ben Ali, recusou realizar uma cerimónia de recepçäo do corpo, pelo que a família preferiu que os restos mortais de Umra permanecessem no Líbano.

Finalmente, em Abril de 2012 o cadáver é exumado no Líbano, no cemitério dos mártires, na zona sul de Beirute, onde teve lugar uma primeira cerimónia oficial, na presença de um seu irmão, de um representante da UGTT, de um representante da embaixada tunisina e de vários representantes de diversas organizações palestinianas e libanesas. O corpo chegou a Tunes a 8 de Abril onde teve lugar uma cerimónia oficial. Umra regressava ao país, 24 anos depois da sua morte em combate. A cerimónia contou com a presença de representantes do movimento sindical (UGTT), do Watad e do Partido dos Operários Comunistas Tunisinos.

Este não é uma caso isolado. Desde 2004 já são oito os cadáveres de tunisinos caídos em combate no Sul do Líbano ou no Norte do Israel, em operações contra o exército sionista. Nunca foram reconhecidos pelo Neo-Destour de Bourguiba, nem pelo RCD de Ben Ali, nem nunca andaram por essas áreas politicas. Militavam em organizações de esquerda revolucionária tunisina, passavam pelo movimento estudantil e sindical e ingressavam em organizações da esquerda palestiniana, onde desempenhavam altos cargos políticos e militares. Além de Umra, são eles: Miloud Ben Najah, morto a 11/11 /1987 numa operação armada; Faycal al-Hachichi, morto a 08/06 /1988; Khaled Ben Salah al-Jalasi, morto a 25/12/1988; Sami Ben Taher al-Hajj Ali, morto a 19/01/1995; Riad Ben al-Hachimi Ben Jama’a, morto a 19/01/1995; Kamel Badri, morto a 27/01/1996 e Baligh Ben Muhammad Anouar al-Lajmi, morto a 27/01/1996.

Esta sim. É a Tunísia da luta de classes, dos pobres, dos trabalhadores, da solidariedade internacionalista. Sempre em Primavera.

A Tunísia de Bourguiba

A posição do fundador do Neo-Destour e primeiro presidente da república tunisina, Habib Bourguiba, em relação á Palestina, foi caracterizada por uma miscelânea estratégica, muito característica do próprio e do seu percurso politico. Bourguiba não se revia na posição de Nasser e não acreditava na estabilidade de uma relação de força militar por parte dos Estados Árabes frente a Israel. Vamos recuar um pouco no tempo. Em Junho de 1955, Salah Ben Youssef, um dos fundadores do partido Neo-Destour, denuncia as convenções franco-tunisinas, onde previa-se que a França seria responsável pela segurança e defesa da Tunísia por um prazo de 10 anos. Ao contrário de Bourguiba, Youssef era influenciado pelas teses nacionalistas árabes, muito próximo ao presidente Bem Bella da Argélia e a Nasser do Egipto. Os chamados “youssefistas” foram ferozmente reprimidos e em Agosto de 1961 Salah Ben Youssef foi executado. Com ele morreram as teses pan-arabistas no movimento nacionalista tunisino.

Fiel á sua politica de independência por etapas (resultante da análise da relação de forças entre as autoridades francesas e o movimento nacional tunisino, durante os anos 40 do século passado. Para o Neo-Destour a independência teria de ser conquistada através de negociações, pois qualquer movimentação popular estaria condenada ao fracasso, devido á superioridade militar francesa) Bourguiba gosta de compromissos e em relação á Palestina, em 1965, durante uma visita á Cisjordânia, fez um apelo aos Palestinianos para que adoptassem uma posição aberta ao diálogo, buscassem uma solução negociada, baseada nas resoluções da ONU. Bourguiba considerava que a posição dos Estados Árabes era maximalista, mas o seu gosto pelo zigzag acabou por ser absorvido pela política externa tunisina. Assim, quando em 1987 Ben Ali lhe retira o poder, através de um golpe de estado, a posição da Tunísia em relação ao estado de Israel e á questão palestiniana mantem-se inalterável, preservando as contraditórias alianças geopolíticas. Portas abertas á OLP desde 1962, mas nunca portas fechadas para os israelitas.

A esquerda revolucionária, a social-democracia e os islamitas

Para falarmos de esquerda tunisina temos de falar da central sindical a UGTT, criada oficialmente em 1946. Activa durante a luta de independência – um dos seus fundadores, Farhat Hached, assassinado em 1952 pelos franceses, foi uma das principais figuras do movimento nacionalista tunisino - activa, mas muitas vezes silenciada durante o regime de Bourguiba, marginalizada por Ben Ali, a UGTT desempenhou um papel fundamental durante a Primavera Tunisina, principalmente através de 4 das suas federações: Correios e Telecomunicações, Ensino Primário, Ensino Secundário e Saúde. Com meio milhão de associados a UGTT renovou a sua direcçäo no seu vigésimo segundo congresso, realizado em 2011. Dos 13 membros do novo comité executivo, 3 são do Partido dos Operários Comunistas Tunisinos e o novo secretário-geral, Houcine Abbassi é um ex-militante do Partido Comunista da Tunísia.

A esquerda revolucionária tunisina estrutura-se em 1963, em torno da revista Perspectivas, publicada pelo Grupo de Estudos e de Acçäo Socialista (GEAST). Já nos anos 70 o GEAST inicia uma publicação clandestina denominada O Trabalhador Tunisino. Daí surgem as duas principais organizações: o Watad – de que já falámos - e o Partido dos Operários Comunistas Tunisinos (POCT), dirigido desde a clandestinidade por Hamma Hammami. O POCT elegeu 3 deputados para a Assembleia Nacional Constituinte, em 2011.

Um outro sector histórico da esquerda tunisina histórica está hoje representado no Partido Republicano, uma fusão entre o Partido Democrático Progressista (PDP) com 7 partidos centristas, efectuada em Abril deste ano. O PDP surge em 1983 em substituição da velha União Socialista Progressista, demasiado ligada aos sectores bourguibistas. Partidários do reformismo, vagamente social-democratas e profundamente ligados ao Ocidente, apoiaram a Primavera depois de verificarem a sua inevitabilidade e surgem agora como a “voz modernizadora da mudança”. Estão longe disso, como sempre estiveram longe de tudo. Até de Bourguiba…mas sempre tão perto, rondando, negociando…Se os islamitas abrirem-lhes as portas eles entram e algum tempo depois já ninguém se recordará do discurso modernizador.

As tendências islâmicas começam a afirmar-se politicamente como força autónoma na Tunísia, nos anos 80. Em 1987 forma-se o Ennahda (Renascimento), força politica que lidera o actual governo.

No actual contexto existe uma cada vez maior polarização entre islamitas e a UGTT. Os islamitas temem a forte central sindical, que goza de grande apoio popular, principalmente nas regiões centrais. Temem-na ainda mais, agora, depois da nova direcçäo eleita em 2011, onde a esquerda revolucionária reforçou posições no movimento sindical, radicalizando o seu discurso contra o Ennahda, acusado de querer islamizar as instituições e de favorecer as elites económicas dominantes, entregando-se ao neoliberalismo.

Estamos perante uma fase de concentração de forças na guerra de classes. Os islamitas não irão, por enquanto, seguir uma via de islamização política da sociedade tunisina. Preferem realizar as reformas económicas necessárias ao incremento do seu projecto neoliberal e cativarem os sectores laicos da burguesia nacional e das classes médias, ao mesmo tempo que recebem os beneplácitos do Ocidente. Quanto á UGTT reforçar as suas alianças com o movimento estudantil, tentar ganhar os camponeses aos islamitas e manter os desempregados na linha da frente do combate, são as principais tarefas.

Esta é uma luta pelo futuro: Uma Tunísia democrática e solidária ou um hibrido Tunistäo islâmico e neoliberal.

Fontes
Samy Ghorbal; Orphelins de Bourguiba et héritiers du Prophète; Cérès éditions, 2012
Michaël Bechir Ayari; S’engager en régime autoritaire. Gauchistes et islamistes dans la Tunisie indépendante; Université Paul Cézanne/Aix-Marseille III, 2009
Jean-Paul Chagnollaud; Maghreb et Palestine; Sindbad, 1977
Choukri Hamed y Héla Yousfi; La revolution tunisienne nest pas acheve; http://blogs.mediapart.fr

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