quinta-feira, 7 de fevereiro de 2013

AS MULHERES QUENIANAS NA OFENSIVA





As próximas eleições quenianas podem ser verdadeiramente revolucionárias. Pela primeira vez foram introduzidos mandatos reservados exclusivamente às mulheres. Uma forma de encorajar a participação política feminina.

A nova Constituição, que entra em vigor com as eleições gerais de 4 de março, é ambiciosa, para um país no qual as mulheres, até agora, praticamente não tinham um papel na política. O que não significa que as perspetivas eleitorais da única mulher que se candidata à presidência sejam muito boas. Sondagens recentes indicam que nem sequer um por cento dos eleitores tenciona votar em Martha Karua. A grande cena política continua a ser um território exclusivamente masculino.

E o caminho para o Parlamento é longo e penoso. Rachel Yegon é candidata ao parlamento. A empresária de Kericho, no oeste do país, é financeiramente independente, o que a distingue da maioria das quenianas: “A falta de poder económico das mulheres é o maior problema”, diz Yegon: “Até para se tornarem ativas na política devem primeiro pedir a autorização dos homens. Depois têm que pedir por um carro, dinheiro, e muitas coisas mais. E pedir todos os dias. É claro que o homem se farta depressa e deixa de apoiar a mulher”.

A importância do dinheiro

Sem dinheiro não há como levar avante uma campanha eleitoral, que no Quênia é dispendiosa. Para além dos custos de transporte e dos cartazes, há que pagar uma taxa para nomeação, custear a publicidade nos meios de comunicação e dar prendas em dinheiro a potenciais eleitores.

Outro obstáculo para as mulheres é o facto de muitas vezes terem menos educação dos que os homens. Quanto mais importante é o cargo público, maiores são as exigências em termos de formação. Sobretudo nas partes mais remotas do país, mas também nas regiões costeiras e entre a etnia massai, no sul, não será, por isso, fácil, haverá poucas mulheres candidatas à assembleia nacional, receiam os observadores.

Condições especiais

Originalmente a Constituição de 2010 queria ir mais longe, estipulando que nem homens, nem mulheres, deveriam ocupar mais de dois terços dos cargos na administração pública, incluindo o Parlamento. Em dezembro de 2012, poucos meses antes do sufrágio, o Tribunal Supremo do Quénia decidiu que a regra só se aplicaria progressivamente após as eleições de março. Não obstante, o o número de deputadas vai aumentar. Nas próximas eleições haverá, 47 mandatos reservados às mulheres – um por círculos eleitoral -, a acrescentar aos 222 já existentes. Hassan Omar, candidato pelo cidade costeira de Mombasa, acha que esta não pode ser a solução: “Estou muito desiludido com o movimento feminista queniano. Agora temos mandatos especiais para as mulheres, e é só por estes que a maioria delas se interessa, Deixam de parte todas as outras possibilidades ao seu alcance”.

Joan Birika, colaboradora queniana da Fundação alemã Heinrich Böll, em Nairobi, contrapõe que uma vez no Parlamento, as mulheres podem influenciar muito a política: “Basta ver o que já conseguiram as sete ou nove por cento de deputadas atuais no Parlamento. Veja as muitas leis por elas propostas. São iniciativas úteis para as pessoas”. Birika dá como exemplo a política de consumo de álcool: “O álcool clandestino é a causa de um problema enorme de desemprego sobretudo entre os mais jovens. A nova lei é boa para os homens e as mulheres”.

A promoção da reconciliação

A politóloga espera que as mulheres ajudem a superar os conflitos étnicos do país. Ao contrário dos homens, as mulheres mudam de pertença étnica ao longo da sua vida através do casamento, explica Birika. Por isso estão bem colocadas para superar as barreiras étnicas e culturais e defender um verdadeiro programa político.
Autora: Maja Braun/António Rocha - Edição: Cristina Krippahl

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