segunda-feira, 22 de julho de 2013

E O VENCEDOR É… PEDRO PASSOS COELHO



Eduardo Oliveira Silva – Jornal i, opinião

O primeiro-ministro tem condições internas para fazer praticamente tudo o que entender

A decisão que o Presidente da República comunicou a noite passada ao país não foi surpreendente.

Cavaco Silva rejeitou eleições antecipadas, segurou o governo e anunciou que este se vai relegitimar através de uma moção de confiança, o que lhe abre caminho até 2015.

Encerrou-se assim a crise aberta pela deserção de Vítor Gaspar, sem que o Presidente tenha conseguido um acordo de salvação nacional entre os partidos que assinaram o memorando com a troika, embora Cavaco Silva considere que podem estar lançadas sementes susceptíveis de dar frutos no futuro.

A decisão presidencial enquadra-se dentro da preocupação que o chefe de Estado sempre teve de dar de Portugal uma imagem de governabilidade ao exterior. A via eleitoral tinha sido de tal forma desvalorizada que era óbvio que Cavaco nunca a ela recorreria desde que recebesse, como sucedeu, uma garantia de estabilidade por parte da coligação. Assim sendo, não há que estranhar. Não foi preciso Cavaco fundamentar sequer a sua decisão naquela que se sabe ser a sua convicção de que a chamada às urnas não resolveria nada. Não caiu obviamente nessa esparrela, porque seria rejeitar a decisão do povo como valor supremo.

Apesar de ter estado na origem de todos os males que atiraram Portugal para uma situação ainda mais pantanosa do que a que recebeu (da política de espiral recessiva, às demissões de Vítor Gaspar e à [i]revogável saída de Portas), tem de se dizer que quem sai melhor destes 20 dias caóticos é, claramente, Passos Coelho.

Habituado como ninguém ao jogo político-partidário puro e duro, Passos mostrou sangue frio permanentemente. Confrontado com a demissão de Gaspar, nomeou Maria Luís Albuquerque sem ouvir ninguém. Atrasou o mais possível o momento de informar o Presidente da República da demissão de Portas que, aliás, recusou sem para tal ter poderes. Confrontou-o, a seguir e sem aviso prévio, com um acordo que transformava o líder centrista em vice- -primeiro-ministro. Aceitou o repto presidencial de negociar um acordo de salvação nacional que se sabia de antemão que não daria em rigorosamente nada e do qual o líder do PS saiu claramente fragilizado. Proclamou, na Assembleia, que mantinha a mexida no governo e, no conselho nacional do PSD, que eleições a um ano de distância eram desestabilizadoras. À passagem apagaram-se nomes de putativos ministros que o CDS queria impor à viva força.

Apesar da advertência de Cavaco Silva de que não abdica dos seus poderes, Passos Coelho tem condições políticas internas para fazer praticamente o que entender, desde que não volte a cometer erros crassos.

Já quanto às condições externas cabe-lhe por inteiro a responsabilidade de negociar melhores termos com a Troika, como o Presidente fez questão de enfatizar, pois doravante não é possível aceitar que o chefe do governo de Portugal entre mudo e saia calado das instâncias da União Europeia.

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