sábado, 20 de julho de 2013

Portugal: PELA DIGNIDADE DE UM POVO




Carvalho da Silva – Jornal de Notícias, opinião

Esta semana, enquanto os partidos do "arco do poder" andaram com grande afã nas negociações com vista à obtenção de um "acordo de salvação nacional", sob a égide do presidente da República (PR), fomos confrontados com uma catadupa de informações que convergem no pior sentido: são desastrosos os resultados das políticas seguidas e perspetiva-se agravamento dos problemas económicos, sociais e políticos com que o país se depara.

O povo português não merece os vexames a que vem sendo sujeito em resultado das conceções retrógradas e reacionárias, da tacanhez, da incompetência, das práticas de traição política dos "estadistas" que nos governam.

O acordo que o PR sugeriu para ser construído debaixo da obrigação do cumprimento do memorando da troika até ao fim, a concluir-se, consubstanciar-se-ia num ato de humilhação, de submissão aos interesses dos credores e de quem se move por detrás deles, de entrega da soberania nacional, de retrocesso irreparável da sociedade portuguesa.

O memorando não é exequível! Aceitá-lo e submeter o povo português às consequências dessa aceitação significaria abrir caminho a novos resgates que se perspetivam, seja qual for o nome com que os designem. O "acordo" visava, no imediato, consumar, com a chancela do Partido Socialista (PS), formas de aplicar o roubo aos portugueses de mais de 4 mil milhões de euros, que os partidos do Governo sentem difícil imporem sozinhos, e, para o futuro, prosseguir e aprofundar políticas de austeridade.

Quem, conscientemente, propagandeia que este "acordo" visava evitar um segundo resgate sabe que está a mentir, pois a prossecução das políticas do memorando vão-nos tornando mais pobres e com menos capacidades para cumprir compromissos. Esta via apenas serve os objetivos dos credores e os interesses de alguns trutas nacionais, parasitários e instalados no centrão de poderes, que nem perante o rebentamento de bombas (elas podem rebentar no plano social e não só) se disponibilizam a partilhar riqueza e a ceder poder.

O Governo, os partidos que o sustentam e o PR atuam, há muito tempo, como grupo de submetidos. É muito importante que o PS não se associe a esse caminho desastroso. Que este ato signifique, no PS, mudança de rumo!

Passos Coelho diz que o "êxito prossegue", quando esta semana:

i) O Banco de Portugal alertou para os perigos de "declínio económico estrutural" e previu, para 2014, pior comportamento da economia do que já havia projetado;

ii) A OCDE confirmou que a quebra nos nossos salários é do mesmo nível dos gregos, e quase quatro vezes mais que a descida dos salários irlandeses, apesar de sermos dos que mais horas trabalhamos na Europa;

iii) Diversos estudos credíveis mostram-nos que os portugueses empobreceram aceleradamente e os pobres estão cada vez mais pobres; que houve forte quebra no consumo de bens de primeira necessidade; que o investimento, o privado incluído, caiu para níveis baixíssimos; que o emprego total desceu para o patamar de 1995; que o desemprego vai aumentar; que os buracos financeiros dos BPN se aprofundam.

Quando se fala na necessidade de compromissos é com razão que o povo reclama aos partidos e a outras instituições: entendam-se!

É preciso um entendimento, sim! Mas, um entendimento para afirmação da dignidade e do futuro.

Portugal precisa de um acordo feito por protagonistas sérios, por democratas, por forças progressistas, pela participação ativa dos partidos da esquerda. Um acordo para um programa de governação, que, nomeadamente, assuma a denúncia do memorando, dado várias das suas componentes não serem aplicáveis; que construa uma estratégia de renegociação da dívida com todos os credores, a ser feita por um governo que se apresente de cabeça erguida, apoiado pela mobilização dos portugueses, a exigir condições para que o país não consuma todos os seus recursos no pagamento de juros e na amortização da dívida e possa recuperar; que priorize a criação de emprego.

É hora de forçar este entendimento e os compromissos a ele inerentes. E é indispensável a convocação de eleições.

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