terça-feira, 10 de fevereiro de 2015

NOVO PM TIMORENSE. QUEM NÃO QUER SER LOBO NÃO LHE VESTE A PELE



Beatriz Gamboa, Díli

Xanana Gusmão levou quase um ano a dizer que se demitiria em 2014. Depois desistiu de o fazer porque se apercebeu que a justiça se preparava para “incomodar” membros do seu governo por crimes de corrupção, incluindo ele, primeiro-ministro. Já não se demitia tão depressa como o anunciado. A partir desse momento prevaleceu a emergência de planear e agilizar uma tática que impedisse a elaboração de processos judiciários e investigações incómodas e interrogatórios e mais que prováveis julgamentos. O plano resultou. Os executantes de tratar judicialmente dos processos em curso foram expulsos e os processos ficaram prontos para irem parar no lixo.

Finalmente, livre dos juízes que lhe preparavam a “cama”. Sentiu-se livre de se demitir… Não. Falta aqui, em tudo isto, nesta trama, qualquer coisa que nos está a escapar e que decerto mais tarde viremos a saber. Xanana Gusmão não é pessoa de se demitir. Aquela falsa modéstia de declarar que só tinha o 2º ciclo escolar e mais isto e aquilo foi para atirar areia para os nossos olhos.

Mari Alkatiri e outros confidentes de Xanana Gusmão saberão quase tudo deste nebuloso processo. Não foi por acaso que teve uma reação demasiado branda em relação à inconstitucional expulsão dos juízes. Nem foi por acaso que reiterou estar ao lado de Xanana nos ataques que lhe fizeram. Talvez um pouco antes tenha nascido o acordo entre ambos e também nesse tempo foi selecionado o futuro primeiro-ministro substituto de Xanana, Rui Araújo. Só agora, há poucos dias, publicamente anunciado. E o que sabia o presidente Taur Matan Ruak sobre toda esta panóplia de políticas de concordância que levaram Xanana Gusmão a abdicar do seu “reinado”? Muito provavelmente ainda não sabia de nada. E o que soube eram só rumores. Porque quando soube com toda a certeza a primeira convicção foi convocar eleições antecipadas.

Então, primeiro, eram as eleições antecipadas para a Assembleia Nacional, daí surtiria o partido ou partidos que formariam governo. Processo normal e democrático. Acontece que nem Xanana Gusmão, nem Mari Alkatiri e alguns dirigentes da Fretilin, partilhavam da opinião do Presidente da República, Taur Matan Ruak. Eleições antecipadas não foi o acordado anteriormente entre Alkatiri e Xanana. Perante a resistência dos dirigentes dos dois maiores partidos políticos, o presidente acabou por aceder às pretensões daqueles líderes e aceitar a queda do governo e sua substituição como se trate de uma reestruturação. Além do mais, para o presidente, o primeiro-ministro indicado agradou-lhe. Considera Taur Matan Ruak que Rui Araújo oferece garantias de desempenhar o cargo de PM com qualidade.

Em todo este processo existem algumas versões desta trama. A que se chamam rumores. E são. Imensos rumores até correspondem à realidade. Não são ficção. Sobre esta trama em que um governo cai, incluindo o PM, e um novo governo nomeado é chamado fruto de reestruturação me parece que a versão acima contida é o rumor mais certo e que mais se coaduna com a realidade. Sendo que a realidade é, também, que nenhum timorense eleitor foi consultado nem se pronunciou democraticamente – através do voto – para que o PR e os dirigentes partidários se sintam com legitimidade democrática para alegarem que este governo, com Rui Araújo, da Fretilin, no cargo de PM, é legítimo. Não é. Admira é que Rui Araújo tenha aceite desempenhar aquele cargo nas atuais circunstâncias, anómalas e antidemocráticas. Esta atitude pode ser para já a demonstração de uma má característica da personalidade do PM indigitado que está incumbido de assegurar a condução governativa do país até 2017.  Araújo começa com um mau prenúncio e até nem merecia que o sacrificassem assim. Diz o adágio que quem não quer ser lobo não lhe veste a pele. 

Infelizmente em Timor-Leste quase tudo é possível. O que existe de mau no mundo paira insistentemente sobre as nossas cabeças e nossas vidas. Antes foi o que foi e que na nossa história consta. Agora é só mais isto: absoluta ausência de democracia em todo este processo. E é certo que Xanana Gusmão e tantos outros continuarão por aí, impunes. Ao que se diz, governando e governando-se.

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