quinta-feira, 12 de fevereiro de 2015

OBAMA REARMA



Thierry Meyssan*

Enquanto a imprensa atlantista saúda a nova Doutrina U.S. de segurança nacional, como uma intenção de explorar primeiro os meios não-militares para resolver conflitos, Thierry Meyssan vê nela uma profissão de fé imperialista e uma declaração de guerra ao mundo inteiro. Os nossos leitores poderão reportar-se ao documento original, descarregável no fundo deste artigo, para verificar quem diz a verdade.

O presidente Obama acaba de tornar pública a sua Doutrina de segurança nacional (National Security Strategy), um documento que explicita as ambições do seu país e do qual se esperava há muito tempo a publicação oficial. Ao mesmo tempo que emprega um fraseado redundante, ele define a sua visão do imperialismo. Eis aqui a desencriptagem :

A— Os oito entraves à dominação imperial

O primeiro obstáculo é a redução dos gastos militares. «O uso da força não é a primeira escolha dos Estados Unidos, mas, por vezes, a sua escolha imperiosa», assim, deverão conservar a sua superioridade esmagadora na matéria[o seu orçamento militar supera o de todos os outros Estados do mundo combinados] e devem parar de fazer economias quanto a tal.

O segundo, é o perigo interno de revolta armada. Após os ataques do 11-de-Setembro, o medo do terrorismo permitiu desenvolver a vigilância sobre os cidadãos. Assim, o Patriot Acttem «protegido indivíduos vulneráveis às ideologias extremistas susceptíveis de os poder empurrar para ataques em solo norte-americano».

O terceiro, é o terrorismo transnacional que os Estados Unidos criaram e que devem manter sob contrôlo continuadamente. De modo a que a luta contra este obstáculo não seja desviada para acertar contas internas, ela será sempre conduzida em estrita conformidade com a lei dos EUA [não do Direito internacional já que a organização do terrorismo é um crime Internacional].

O quarto, é o aumento do poderio russo, e acessoriamente as provocações da República popular democrática da Coreia, designada sob o nome de Coreia do Norte, de maneira a lembrar-se que os Estados Unidos não a venceram ainda e que podem sempre retomar esta guerra.

O quinto, é o eventual acesso de novos Estados ao estatuto de potências nucleares, o que lhes permitiria resistir a Washington. A opinião pública internacional aqui pensa no Irão, mas, o presidente Obama pensa na realidade na Coreia do Norte. E pouco importa que ele não tenha jamais mantido as suas promessas de desnuclearização, nem que a Otan sirva para violar os compromissos assumidos com a assinatura do Tratado de não proliferação nuclear.

O sexto, é a evolução do clima que empurra as populações a migrar e ameaça, portanto, o status quo.

O sétimo, é a colocação em causa do contrôlo exclusivo dos Estados Unidos sobre os espaços comuns. Antes de mais, o ciberespaço: os Estados Unidos sendo, ao mesmo tempo, os donos da Internet e dispondo de um sistema gigantesco de escutas ilegais não esperavam que alguns usassem este meio de comunicação para fugir ao pagamento de royalties por patentes, direitos de autor e outros direitos de marcas que constituem, hoje em dia, uma fonte de rendimento, na ordem de primeira fonte de renda. Em seguida, o espaço: Os Estados Unidos apoiam o projecto europeu do Código de Conduta sobre as actividades espaciais, que é um modo de escapar ao projecto russo-chinês do Tratado de Proibição de colocação de armas no espaço. Finalmente, o ar e o mar. Depois da Carta do Atlântico, os Estados Unidos e o Reino Unido a si mesmos se proclamaram polícias do ar e dos mares. Assim, eles garantem a livre circulação de mercadorias e estendem a sua talassocracia.

O oitavo, é o risco de uma epidemia. Desde há um ano que os Estados Unidos acionaram junto com uma trintena de países, seus aliados, a Global Health Security Agenda, que visa detectar e conter as epidemias, bem como a responder ao bio- terrorismo.

B— Os objectivos económicos

Em primeiro lugar, trata-se de fazer trabalhar os Norte-americanos, não para que eles possam viver com um melhor nível de vida, mas para que assegurem o poderio económico do país.

Em segundo lugar, os Estados Unidos enfrentam um problema de segurança energético, não porque tenham problemas em aprovisionar-se —eles são actualmente excedentários graças ao petróleo mexicano sobre o qual, discretamente, meteram a mão — mas porque a Rússia pretende seguir o seu exemplo controlando o mercado mundial do gás.

Em terceiro lugar, a liderança dos EUA em matéria de ciência e tecnologia não deverá, mais, repousar sobre a imigração de cérebros, que tende a rarefazer-se, mas, sim, sobre o seu próprio sistema de ensino.

Em quarto lugar, a nova ordem económica deverá fazer dos Estados Unidos o principal destino de investimentos no mundo. Desde logo, todos os incentivos para desenvolver os investimentos aqui e ali são pura fachada.

Em quinto lugar, os Estados Unidos deverão utilizar a pobreza extrema no mundo para impor seus produtos.

C— A ideologia

Os Estados Unidos são inatacaveis em matéria de «Direitos do Homem». Esta expressão deve ser entendida no seu sentido anglo-saxão de protecção do indivíduo face à arbitrariedade dos Estados, mas não, particularmente, no sentido dos Revolucionários franceses, para quem o primeiro «Direito do homem e do cidadão» não é o de escolher os dirigentes entre as elites mas, sim, o de ser o seu próprio senhor.

A administração Obama pôs fim à prática da tortura, e garante os direitos dos seus prisioneiros. Pouco importando que os membros da CIA, tendo realizado experiências em prisioneiros, não sejam processados pelos seus crimes, nem que nenhuma investigação seja realizada sobre as 80. 000 pessoas que foram detidas, ilegalmente, em águas internacionais, em barcos de Marinha durante a era Bush. Ao mesmo tempo, pedem-nos que acreditemos que a NSA não colecta nenhuma informação com o fim de reprimir opiniões políticas, nem que ela transmite as suas informações ao Advocacy Center afim de favorecer as empresas dos E.U. aquando de concursos internacionais.

Os Estados Unidos defendem princípios universais: a liberdade de expressão [excepto para as televisões Sérvias, Iraquianas, Líbias e Sírias, que eles destruíram], a liberdade de culto [mas não a liberdade de consciência] e de reunião, a possibilidade de escolher os seus líderes democraticamente [excepto para os Sírios que elegeram Bachar el-Assad a 88%], bem como o direito a processo e julgamento justos [mas apenas no que diz respeito ao direito penal em casa alheia]. Eles defendem as comunidades mais vulneráveis, como as minorias étnicas e religiosas [mas nem os Yazidis, nem os católicos ou ortodoxos do Médio-Oriente], os deficientes, os LGBT [apenas porque não lhes custa nada], os deslocados [excepto mexicanos tentando atravessar a fronteira] e os trabalhadores migrantes.

Os Estados Unidos apoiam as democracias emergentes, particularmente após a Primavera Árabe. É por isso que eles apoiaram a al-Qaida na sua revolução contra a Jamahiriya árabe Líbia e a apoiam ainda contra a República Árabe da Síria. Eles lutam igualmente contra a corrupção, sabendo que não têm nada de que se censurar, porque os membros do Congresso não recebem dinheiro às escondidas, para alterar o seu voto, já que o declaram em registo.

Os Estados Unidos continuarão a subvencionar associações no estrangeiro, escolhendo para tal os seus interlocutores, de maneira a camuflar os seus golpes de Estado como «revoluções coloridas».

Finalmente, os Estados Unidos se dedicarão a prevenir massacres em massa [mas não a não os cometer, eles próprios, como os de 160 mil líbios, para cuja protecção eles tinham recebido um mandato e que eles bombardearam]. Para o realizar eles apoiarão o Tribunal Penal Internacional [à condição que o mesmo não acuse os seus agentes].

D— A Nova ordem regional

Extremo Oriente: Embora a China esteja em competição com os Estados Unidos, eles evitarão a confrontação e «procurarão desenvolver uma relação construtiva» com Pequim. 
No entanto, como nunca é por demais ser cuidadoso, eles continuarão o movimento de suas tropas para o Extremo Oriente e vão-se preparando, desde já, para a Guerra Mundial.
Europa: Os Estados Unidos continuarão a apoiar-se sobre a União Europeia, que eles impuseram aos Europeus, o seu principal cliente. Eles não deixarão de usar a U.E, seu «parceiro indispensável», contra a Rússia.

Médio Oriente: Os Estados Unidos garantirão a sobrevivência da colónia judaica da Palestina. Para o conseguir eles continuarão a dotá-la de um, muito, importante avanço tecnológico-militar. Acima de tudo, eles continuarão a construção de uma aliança militar entre Israel, a Jordânia e os Estados do Golfo, liderados pela Arábia Saudita, o que enterrará definitivamente o mito do conflito israelo-árabe.

África: Os Estados Unidos subvencionarão «Jovens Líderes» que ajudarão a ser democraticamente eleitos.

América Latina: Os Estados Unidos lutarão pela democracia na Venezuela e em Cuba, que persistem em resistir-lhes.

E— Conclusão

Concluindo a sua exposição, o presidente Obama sublinha que este programa não poderá ser conseguido senão restaurando, para isso, a cooperação entre Republicanos e Democratas, o que é uma forma de lembrar o seu projecto de aumento dos gastos militares.

Para ser compreendida, a nova Doutrina de segurança nacional deve ser colocada no seu contexto. Em 2010, o presidente Obama havia abandonado a teoria da «guerra preventiva», isto é, o direito do mais forte a matar quem lhe apetecesse. Desta vez, ele abandona o projeto de «remodelagem do Médio-Oriente Alargado». À luz dos princípios acima expostos, pode-se concluir que os Estados Unidos vão empurrar o Daesh (Exército Islâmico- ndT) para a Rússia, que, em última análise, não reconhecerão a independência do Curdistão iraquiano, e que eles confiarão a segurança de Israel à Jordânia e à Arábia Saudita, e não mais à Rússia como encarado em 2012. A Doutrina Obama permanecerá na história como a constatação de um fracasso e o anúncio de uma catástrofe: Washington abandona o seu projecto de reorganização militar e lança-se, de novo, no desenvolvimento dos seus exércitos. No decurso dos últimos 70 anos o orçamento militar do país foi sempre aumentando, salvo em 1991-1995 quando eles pensavam conquistar o mundo apenas pela via económica, e em 2013-14 quando eles tomaram consciência da sua desorganização.

Com efeito, desde há vários anos, quanto mais mais dinheiro eles metem em seus exércitos, menos estes funcionam. No entretanto ninguém conseguiu reformar o sistema, nem Donald Rumsfeld, nem Chuck Hagel. Por conseguinte, será sempre preciso alimentar mais o Moloch, ao mesmo tempo, quer do ponto de vista orçamental, quer proporcionar-lhe, assim, guerras para travar.

Thierry Meyssan – Voltaiere.net - Tradução Alva

*Intelectual francês, presidente-fundador da Rede Voltaire e da conferência Axis for Peace. As suas análises sobre política externa publicam-se na imprensa árabe, latino-americana e russa. Última obra em francês: L’Effroyable imposture: Tome 2, Manipulations et désinformations (ed. JP Bertrand, 2007). Última obra publicada em Castelhano (espanhol): La gran impostura II. Manipulación y desinformación en los medios de comunicación(Monte Ávila Editores, 2008).

Sem comentários:

Mais lidas da semana