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domingo, 8 de maio de 2016

Em Bolama, na Guiné-Bissau, médicos portugueses tentam mitigar problemas



Luís Fonseca, agência Lusa

Bolama, Guiné-Bissau, 08 mai (Lusa) -- Bolama é uma ilha da Guiné-Bissau, mas quase não há maneira de transferir um doente. Médicos voluntários portugueses perceberam isso quando transferiram Eurizanda, de 13 anos, que caiu de uma árvore enquanto brincava.

Quatro médicos do Centro Hospitalar do Porto estiveram dez dias na ilha para tentar resolver problemas pendentes de saúde local, como é o caso da menina, que sofreu ferimentos internos graves num rim e havia sido deixada, sem diagnóstico, numa cama do único hospital.

Só há um médico para 8000 habitantes e nem sequer é cirurgião. Mesmo que fosse, ali não há bloco operatório, nem meios de diagnóstico, nem análises.

A ilha foi capital da Guiné Portuguesa entre 1879 e 1941, depois de disputada com a coroa britânica. Hoje é um retrato de decadência, com edifícios históricos a cair aos bocados e um hospital sem condições para funcionar: não há eletricidade permanente, nem outros apoios e os enfermeiros, apesar de dedicados, não conseguem compensar as fragilidades.

A unidade de saúde já fechou há anos e o que agora se chama de hospital é o conjunto de pavilhões do antigo quartel português, do tempo colonial, onde quatro médicos do Centro Hospitalar do Porto passaram dez dias a dar oportunidades de sobrevivência a pessoas como Eurizanda João Adolfo.

Quando a equipa a descobriu numa enfermaria pediu transferência urgente para Bissau, para poder ser operada.

Eurizanda viajou na caixa aberta de uma "pick-up" para o cais, que se encheu de gente para assistir à transferência de um doente -- coisa rara, porque muitas vezes é mais fácil morrer que sobreviver nesta antiga capital.

Colocá-la dentro do barco foi uma aventura, porque no cais não há acesso para passageiros, é preciso saltar do pontão e tentar não cair ao mar. Por vezes, o caminho é saltar de umas canoas para outras.

Lá do alto, a rapariga foi levantada, esticada e dobrada de várias maneiras e chegou a Bissau uma hora depois, estendida no chão do barco, com um lençol apenas a protegê-la das ondas e com uma enfermeira idosa a segurar o soro.

Num outro canto do Hospital de Bolama, a pediatra Guilhermina Reis, 50 anos, olhava para as pernas de Salimo Salmané, de três anos: uma crosta cobria-as dos joelhos aos pés e crescia "há muito tempo", queixava-se o pai.

O espanto cresceu na sala, entre médicas e enfermeiras, quando disse que só agora se lembrou de levar o filho para observação e aumentou ainda mais quando Guilhermina se apercebeu que boa parte daquilo era sujidade acumulada que agravou uma infeção.

"Isto já é muita terra e pó. Era fácil de resolver com outras condições", desabafou, mas nada garante que, no contexto em que Salimo vive, haja água ou sequer consciência de que a limpeza deve ser diária.

Um cenário que leva o médico Carlos Vasconcelos, 64 anos, a concluir que aquilo que a equipa ali fez é importante, mas ao mesmo tempo "não é nada".

Geram-se sentimentos contraditórios. "Satisfação", mas também "raiva" porque é sabido "qual o caminho", que inclui formação e informação da população, só que falta esse objetivo ser abraçado "pelo poder".

"Quando estão mal, as pessoas não têm o hábito de ir a uma consulta. É preciso educar para criar essa rotina, porque há enfermeiros extraordinários aqui", acrescentam Sandra Xará, 43 anos, infeciologista, e Rute Alves, 29 anos, interna.

Em Bolama, nem sequer se fazem as análises ao sangue mais básicas que se realizam noutros pontos do país, o que prova o abandono da antiga capital.

Após dezenas de consultas, Sandra e Rute têm o diagnóstico feito: há graves problemas de hipertensão, que podem ser fatais, e muitas infeções sexualmente transmissíveis -- e faltam registos com o histórico de cada doente.

Natural da Guiné-Bissau, mas formado e residente em Portugal há vários anos, Ricardo Sanhá criou uma fundação com o seu nome através da qual, desde 2009, angaria fundos e financia viagens de médicos portugueses até ao país onde nasceu.

Com a missão que decorreu de 20 de abril a 06 de maio já lá vão onze e além da equipa deslocada até à ilha de Bolama, uma outra realizou 18 cesarianas no Hospital de Cumura, perto da capital, "que de outra forma se poderiam ter complicado".

LFO // PJA

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