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segunda-feira, 27 de junho de 2016

TUDO COMEÇA POR UM NÃO



Nuno Ramos de Almeida* – jornal i, opinião

Estamos numa encruzilhada. O Brexit pode significar o regresso à soberania democrática de uma pessoa, um voto, ou a criação de Estados racistas

Duas histórias retiradas de uma mesma realidade complexa: num comboio no Reino Unido, uma mulher vestida com nicabe, um véu que cobre o rosto e apenas revela os olhos, canta uma canção de embalar para a sua criança numa língua aparentemente estranha. Um homem irrita-se e diz-lhe: “Você está no Reino Unido, devia ser obrigada a falar inglês.” Uma senhora de idade reage de pronto: “Estamos no País de Gales e ela está a cantar em galês.” No dia em que foi anunciado o Brexit, Bruxelas e Berlim comunicaram que ia haver uma reunião para a União Europeia meditar sobre o sucedido e convocaram todos os 27 países, deixando de fora o Reino Unido? Nada disso, marcaram uma reunião dos seis “fundadores”. Foi apenas por vergonha que foram buscar os fundadores da CEE quando, no fundo, achavam que isso se fazia somente com Berlim.

O racismo e a falta de democracia na União Europeia são duas faces da mesma moeda e alimentam-se mutuamente. Há muito que a União Europeia é profundamente racista em relação aos imigrantes e refugiados, como provam os acordos feitos com a Turquia e as combinações que fizeram com o governo de Cameron antes do referendo, para limitarem os direitos sociais do emigrantes no Reino Unido. Os governos da Europa legitimaram com a sua ação os argumentos racistas que pretendem ligar a crise à imigração e aos trabalhadores do Terceiro Mundo. Quando, no fundo, o que se verifica é que o processo de globalização económica que a UE persegue contribui em muito para a destruição progressiva do Estado social europeu e o esvaziamento total da democracia. A democracia que os governantes de Berlim e Bruxelas querem é um regime em que todos possamos falar, mas estejamos impedidos de decidir caminhos alternativos àquele que foi contratualizado com as grandes empresas.

Depois do processo de liberalização neoliberal iniciado nos anos 80 criou-se uma situação de agravamento exponencial das desigualdades económicas e de poder. A destruição do Estado social e a privatização galopante das suas funções, para entregar maiores fatias de rendimento a grandes grupos económicos e financeiros, criaram uma situação de precarização generalizada de camadas cada vez maiores das populações; a crise económica e financeira de 2008 apenas veio radicalizar ainda mais esse processo, obrigando os contribuintes a pagarem os custos da economia de casino. Temos uma espécie de socialismo para banqueiros: quando há lucros, os senhores recebem sozinhos os dividendos; quando há prejuízos, pagamos nós.

Apesar das repetições das crises, do agravamento dos problemas sociais, há um discurso dominante que nos garante que não há alternativa a esta realidade, como se essa realidade fosse uma espécie de real inultrapassável. Numa conhecida passagem, citada por Zizek, de Fredric Jameson afirma-se: “Ninguém mais considera seriamente as possíveis alternativas ao capitalismo enquanto a imaginação popular é assombrada pelas visões do futuro ‘colapso da natureza’, da eliminação de toda a vida sobre a Terra. Parece mais fácil imaginar o ‘fim do mundo’ que uma mudança muito mais modesta no modo de produção, como se o capitalismo liberal fosse o ‘real’ que de algum modo sobreviverá, mesmo na eventualidade de uma catástrofe ecológica global... Assim, pode afirmar-se categoricamente a existência da ideologia qual matriz geradora que regula a relação entre o visível e o invisível, o imaginável e o inimaginável, bem como as mudanças nessa relação.”

O que veio provar o Brexit é que esse discurso de um real eterno e inultrapassável está a rebentar. O cenário está a desfazer--se. Mas tal como no passado, isso não garante que surjam alternativas melhores; elas têm de ser produzidas e estão muito longe de o ser. Nos anos 30, o rescaldo da i Guerra Mundial e a grande crise de 1929 levaram ao crescimento de uma extrema--direita racista que dava voz a camadas da burguesia empobrecida que estavam atemorizadas pela crise e pelo crescimento do movimento operário e dos comunistas. A crise dos anos 30 e a falta de capacidade de gerar alternativas populares com capacidade de se oporem ao ascenso do fascismo levaram-nos diretamente à guerra e ao Holocausto.

Por todo o lado, a crise na Europa está a fazer subir partidos xenófobos. E eles têm de ser combatidos. Agora, qualquer combate não pode ser feito pela manutenção do estado atual, nem pela afirmação das políticas e instituições que nos trouxeram até aqui. A União Europeia tornou-se o espaço da imposição do neoliberalismo e do esvaziamento da democracia. Pregar a sua manutenção significa tentar tapar o sol com a peneira. Esta União Europeia não vai a nenhum lado mas, infelizmente, o caminho que pode sair daqui pode ser ainda pior se não for criada nenhuma alternativa verdadeiramente popular.

As alternativas políticas não estão talhadas na pedra, têm de ser construídas pelos homens e pelas mulheres. Uma mesma situação social pode ser parteira de uma melhor sociedade ou de uma muito pior. Há uma luta para criar sentido político de uma determinada situação. O maior erro da liderança de esquerda dos trabalhistas, protagonizada por Corbyn, foi ter deixado o espaço do combate ao neoliberalismo e da austeridade made in eixo de Berlim e Bruxelas aos racistas. A política tem horror ao vazio e estes aproveitaram a situação.

Três meses antes de ser eleito para a liderança dos trabalhistas, Jeremy Corbyn era clarinho como água: “Uma Europa usurária que transforma as pequenas nações em colónias escravizadas sob o fardo da dívida não tem nenhum futuro.” Esta posição de Corbyn era absolutamente coerente com o seu percurso político; em 1975, ele tinha defendido a saída da então CEE; em 1993 rejeitou o tratado de Maastricht, prevendo que a aprovação desse tratado e o rumo seguido pela integração europeia iriam levar a que fosse retirada aos parlamentos nacionais a capacidade de “definir as políticas económicas dos seus países em favor dos interesses de uma série de banqueiros não eleitos”.

No seu discurso de 14 de abril de 2016, Corbyn anuncia o seu apoio à permanência do Reino Unido na UE, inserindo-o na estratégia da “construção do socialismo”. Estranhamente, o mesmo voto é defendido por 80% dos membros das confederações patronais e pelos bancos JP Morgan Chase, Goldman Sachs e HSBC, embora estes afirmem que o voto no sim garante os interesses do grande capital financeiro. Como observa Hannah Sell, do Partido Socialista britânico, “se Corbyn chegar ao poder, o seu programa será ilegalizado por Bruxelas”. Preso por ter cão, preso por não ter. A primeira possibilidade de mudança passa pelo fim das imposições de Bruxelas, mas essa mudança só será progressista se houver alternativas deste teor a disputar o sentido e as narrativas desta rutura. 

*Jornalista

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