domingo, 21 de agosto de 2016

A NOVA DOUTRINA ESTRATÉGICA TURCA



Thierry Meyssan*

Denunciando a interpretação do golpe de Estado militar na Turquia como uma manobra norte-americana contra Recep Tayyip Erdoğan, Thierry Meyssan propõe uma visão mais ampla integrando, ao mesmo tempo, a demissão prévia de Ahmet Davutoğlu e o restabelecimento das relações comerciais com Israel, o Irão e a Rússia. Desde já, ele antecipa o que deverá ser a nova estratégia turca.

Numerosos erros de interpretação foram cometidos quanto à evolução da Turquia no decurso dos três últimos meses, nomeadamente após a demissão do Primeiro-ministro Ahmet Davutoğlu (22 de Maio) e a tentativa de golpe de Estado militar (15 de Julho).

O falso golpe de Estado

Limpemos primeiro os absurdos a propósito do golpe de Estado. Todos os autores estão de acordo sobre dois pontos : 

- o golpe foi montado com os Estados Unidos a partir da base da Otan em Incirlik e apoiando-se, para isso, na Força Aérea, que é controlada pela multinacional Lockheed Martin, 

- ele estava desenhado para falhar, como o atesta a ausência de iniciativas contra todos os dirigentes do regime e do seu partido, tal como contra o Palácio presidencial, centro estratégico do poder. Por outro lado certos putschistas estavam combinados com o presidente Erdoğan, uma vez que dois aviões rebeldes escoltaram o Presidente no seu retorno a Istambul.

Por conseguinte, unicamente duas interpretações são possíveis : 

- Ou, os Estados Unidos enviaram um aviso ao Presidente Erdoğan para o tornar mais dócil. E, teriam então falhado ; 

- Ou, os Estados Unidos e o Presidente Erdoğan combinaram juntos o golpe de Estado de maneira a poder purgar o país de qualquer oposição.

Forçoso é constatar que, apesar das aparências e das declarações oficiais, esta purga vai de encontro aos interesses comuns dos Estados Unidos e do Presidente Erdoğan.

Com efeito, a Turquia é hoje o padrinho da Irmandade Muçulmana, no mundo, e do seu braço armado, ou seja do jiadismo internacional. Nesta posição, ela continua a puxar os cordelinhos dos «Rebeldes sírios», assim como do Daesh (E.I.), por conta de Washington. Infelizmente, esta posição é incompatível com a sua adesão à OTAN.

Num primeiro tempo, Washington pensou resolver o problema mudando o presidente Turco. A CIA apoiou, portanto, a transformação do HDP (partido das minorias, principalmente curda), mas este perdeu as eleições de Novembro de 2015, que o AKP grosseiramente falsificou [1]. Washington aceitou, então, a manutenção de Erdoğan, mas decidiu retirar a Turquia da OTAN.

A Aliança Atlântica havia sido criada no rescaldo da II Guerra Mundial a pedido das elites proprietárias da Europa Ocidental, as quais temiam ser varridas mais ou menos democraticamente pelos comunistas, como no modelo do «golpe de Praga». Transformou-se durante a Guerra Fria em máquina de guerra contra a União Soviética. Então ela tinha necessidade de exércitos muito grandes; razão pela qual fez a Turquia entrar em 1952. Isto revelou-se indispensável durante a guerra da Coreia, e depois aquando da crise dos mísseis (em Cuba- ndT). No entanto, após o desaparecimento da URSS a Aliança não foi dissolvida, antes, transformou-se, em 1999, em polícia do mundo unipolar (Novo conceito estratégico). A partir daí, todos os exércitos da OTAN foram adaptados qualitativamente a essa nova função: fim da conscrição e aquisição de equipamentos de alta tecnologia. Por conseguinte, a presença da Turquia na OTAN, que era necessária em 1952, é inútil hoje em dia.

Enquanto a Aliança realiza uma cimeira dos seus Chefes de Estado a cada dois anos, Washington convocou uma, em sessão extraordinária, para Julho de 2017 em Bruxelas. Aí, excluir-se-á então a Turquia de modo a que Washington possa negar toda a responsabilidade no terrorismo internacional.

Observemos de passagem que o AKP acusa regularmente o exército, em geral, de colaborar com os Estados Unidos. Produziu, assim, um filme de ficção sobre a Gládio, o serviço secreto da CIA/OTAN, e condenou mais de 200 oficiais superiores por complô contra o Estado (Processo Ergenekon) [2]. Na realidade eles tinham tentado estabelecer relações com o Exército chinês, portanto afastar-se do Pentágono. Claro, hoje em dia são acusados à toa de ser putschistas.

A única objecção que se pode emitir quanto à interpretação de conivência Washington-Erdoğan é o futuro do Hizmet, o movimento de Fehtullah Gülen. Este é indispensável para a CIA em África, nos Balcãs e na Ásia Central, ora, actualmente ele perde o seu financiamento turco. Veremos nos próximos meses qual a alternativa que Washington previu.

Sublinhemos, de passagem, que Gülen não tem nenhuma relação com este golpe de Estado já que ele pertence a uma outra escola islamista, enquanto os putschistas são kemalistas.

A demissão do Primeiro-ministro

Vejamos agora a demissão do Primeiro-ministro Ahmet Davutoğlu, a qual precedeu, em dois meses, a tentativa de golpe de Estado.

Depois de ter ensinado ciência políticas na Malásia, ele publicou em 2001 a suaStratejik Derinlik: Türkiye’nin Uluslararası Konumu (Profundidade Estratégica). Apoiando-se nas teses de Dimitri Kitsikis, ele defende um neo-otomanismo que volte a tornar a Turquia numa potência regional. Segundo ele, a criação de um novo Império turco-mongol deve fazer-se em dois tempos. Primeiro, retomar as relações diplomáticas com seus vizinhos ( «zero problemas com os vizinhos»), depois apoiar o Islão nos vizinhos de maneira a unificá-los. Ele entrou para o gabinete do Primeiro-Ministro Erdoğan, em 2003, e tornou-se o seu conselheiro diplomático até 2009. Durante este período, implementa a primeira parte do seu programa e consegue efectivamente resolver todos os problemas de vizinhança herdados do período otomano (mas não a questão arménia datando dos Jovens Turcos, nem a questão cipriota herdada de Henry Kissinger). Nomeado Ministro dos Negócios Estrangeiros, em 2009, ele conclui esta primeira fase negociando o Mercado comum Síria-Turquia-Irão, depois passa à segunda fase do seu projecto. Após a disputa Erdoğan-Peres em Davos, (final de 2009), ele organiza a «Flotilha da Liberdade», para apoiar o Hamas, e entra em conflito directo com Israel que pirateia o Mavi Marmara, ostentando o pavilhão turco. Depois, apoia os Irmãos Muçulmanos na Líbia e participa no derrube da Jamahiriya Líbia (2011). Por fim, ele apoia ainda os Irmãos Muçulmanos na Síria, desta vez contra a República laica.

Forçoso é constatar que esta política falhou e conduziu a Turquia a um impasse. Aquando da segunda fase do projecto Davutoğlu, Ancara encontrou-se de novo em conflito com a totalidade dos seus vizinhos, salvo o Azerbaijão ( «zero problemas com os vizinhos»). Foi por isso que, em Maio passado, o Presidente Erdoğan decidiu mudar a estratégia e substituiu Davutoğlu por Binali Yıldırım. Trata-se sempre de fundar um novo Império turco-mongol, mas, desta vez, tentando unificar primeiro a Turquia, depois em estender o seu modelo sobre os seus vizinhos.

Yıldırım é um padrinho da máfia turca que assegurou o financiamento do AKP desde a sua criação. Ele estabeleceu relações de corrupção com a maior parte das grandes empresas turcas e purga hoje em dia as que lhe resistiram.

A nova doutrina estratégica Turca conduziu já Ancara a restaurar boas relações, pelo menos comerciais, com vários dos seus vizinhos.

No fim de Junho, a Turquia assinou um acordo, em Roma, com Israel restabelecendo as suas relações diplomáticas. Trocas a alto nível com Irão mantiveram intensos laços económicos apesar da guerra na Síria. Além disso, nos bastidores multiplicam-se as consultas sobre a questão curda. Finalmente, o Presidente Erdoğan apresentou desculpas ao seu homólogo russo a propósito do Sukhoi abatido e restabeleceu, na semana passada, os movimentos económicos.

A evolução futura

Restam em suspenso quatro questões :

- O apoio aos jiadistas na fronteira do Golã

Desde o fim de 2014, os capacetes azuis da Fnuod retiraram-se da No Man’s Land (terra de ninguém- ndT) instituída pela Resolução 338 (da ONU) e foram substituídos pela Al-Qaida, com o apoio do Tsahal (Forças de Defesa de Israel- ndT). Eu revelei a existência de um acordo entre Moscovo e Washington para obrigar Telavive a cessar de apoiar estes terroristas e a aceitar o regresso da ONU [3]. Poderia ser encarado que Ancara assumisse a substituição, mas na ausência de um corredor de comunicação da Turquia para o sul da Síria é impossível. Além disso, os Britânicos organizaram a mudança do nome da Al-Qaida na Síria («rebranding») provavelmente para tentar fazer durar esta situação.

- O apoio aos jiadistas no Leste de Alepo

A intervenção de Jeffrey Feltman para fazer passar os corredores humanitários para o contrôlo das Nações Unidas atesta que o cerco pelo Exército Árabe Sírio é eficaz. Ora, a propaganda ocidental pretende que o mesmo foi rompido. Após o fecho da via de comunicação desde a fronteira, a Turquia não poderá manter-se no Leste de Alepo senão com o apoio da população. Ela deverá, pois, desistir rapidamente.

- O apoio aos jiadistas em Rakka e Mossul

Apenas a população de Al-Anbar (Iraque) é exclusivamente sunita e favorável aos jiadistas. A Turquia deverá, portanto, lutar contra o Daesh(E.I.) em Rakka, mas continuar a apoiá-lo em Mossul. Em última análise, a manutenção de um Emirado Islâmico em Al-Anbar é a única maneira para Washington de cortar a «Rota da Seda», ao mesmo tempo afirmando apoiar a paz na Síria.

- A questão Curda

O projecto do AKP, apoiado por Paris e avalizado por Washington, é de criar um Estado curdo, fora da Turquia, e de para lá expulsar os curdos do PKK. No decurso dos últimos anos, foi combinado instalar este «Curdistão» no Norte da Síria, numa zona árabe-cristã, depois de a ter esvaziado dos seus habitantes históricos. Este projecto é apoiado por certos membros do PKK, os quais esperam ter um estado próprio, qualquer que seja o lugar, sem se preocuparem em se encontrarem numa situação tão ilegítima como a de Israel na Palestina, após a Nakba. Nos próximos meses, os Curdos deverão, portanto, clarificar a sua posição. Até ao momento eles foram os aliados de todos contra o Daesh (E.I.), o que lhes permitiu libertar a cidade árabe de Manbij e de a considerar como o embrião do seu novo Estado. Agora, eles deverão dividir-se entre pró-EU e pró-Russos. Será então possível avaliar a viabilidade de um «Curdistão» em terras não-Curdas.

Finalmente, assim que todas estas questões tenham sido resolvidas, e que a ditadura tenha sido instalada, a Turquia tentará, mais uma vez, estender o seu modelo aos vizinhos, provavelmente começando por aqueles que covardemente fecharam os olhos aos seus métodos.

Thierry Meyssan* - Voltaire.net - Tradução Alva

Foto: Durante o golpe de Estado, vários soldados foram decapitados pelos islamistas do AKP e as suas cabeças deitadas ao Bósforo. Aqui, um islamista espanca soldados que foram presos. O exército laico foi depurado, sem qualquer relação entre os soldados implicados na tentativa de putsch e aqueles que são castigados.

Notas
[1] « Trucage des élections législatives turques », Réseau Voltaire, 3 novembre 2015.
[2] “Turquia : O Golpe de Estado Judicial do AKP”, Thierry Meyssan, Tradução Alva, Diário Liberdade (Portugal) , Rede Voltaire, 19 de Agosto de 2013.
[3] « Le Conseil de sécurité s’apprête à enjoindre à Israël de rompre avec al-Qaïda », par Thierry Meyssan, Réseau Voltaire, 2 juillet 2016.

*Thierry Meyssan - Intelectual francês, presidente-fundador da Rede Voltaire e da conferência Axis for Peace. As suas análises sobre política externa publicam-se na imprensa árabe, latino-americana e russa. Última obra em francês: L’Effroyable imposture: Tome 2, Manipulations et désinformations (ed. JP Bertrand, 2007). Última obra publicada em Castelhano (espanhol): La gran impostura II. Manipulación y desinformación en los medios de comunicación(Monte Ávila Editores, 2008).

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